Deixem-nos sonhar

Gostava de ter falado com o Torres acerca da sua altura, 1,91 metros. Mesmo para as crescentes médias das gerações mais novas em Portugal, país de minorcas, continua a ser muito alto; para quem nasceu em 1938, é uma aberração. Como se reagia nos anos 50, 60 e 70 à sua altura? Que tipo de experiências tal diferença lhe proporcionou? O Torres nasceu em Torres Novas e era uma torre que nunca mais acabava. O destino foi brincalhão.

E gostava que no jogo com o Chipre se tivesse respeitado o minuto de silêncio. A moda das palmas para afastar a morte é uma dessas boas intenções que enchem o Céu de barulho. Impede-nos de sonhar.

13 thoughts on “Deixem-nos sonhar”

  1. pois é, esta moda das palmas irrita-me de sobremaneira. não passa de uma moda importada de espanha há meia dúzia de anos. da mesma forma podemos, nas feiras, apreciar as tapas (?) tradicionais de lamego em vez dos petiscos transmontanos. castelhanices…
    quanto ao torres, o que me fica são os cromos da primária com ele a pontificar como treinador-jogador no estoril-praia.

  2. Rogério, compreendo a alusão, comungo do sentimento respectivo, mas trata-se de uma situação essencialmente diferente. Numa dada cerimónia religiosa, missa ou funeral, há longos períodos de silêncio da assistência, os quais são inerentes à liturgia e seus protocolos. As palmas num funeral – tal como num casamento, prática igualmente recente – são aclamações emocionais bondosas adentro do simbolismo de todo o evento. Não é o caso na figura do “minuto de silêncio”, precisamente um pedido de contraste face ao que é o ambiente natural desses espaços de espectáculo.

    O silêncio num campo de futebol, se for intencional, é a maior das ovações.

  3. No dia 16 de Junho de 1999 publiquei no jornal «O MIRANTE« de Santarém uma entrevista com José Torres. Depois de referir as suas origens em Torres Novas, o seu trabalho na oficina da empresa «Claras», as suas vivencias no Benfica ao lado de Eusébio, Coluna, Simões, José Augusto (e etc) revelou-me um facto insólito: «para a Segurança Social eu não existo como jogador de futebol». Quer dizer: apenas os descontos como aprendiz de torneiro mecânico de 1956 tinham dado entrada na «Caixa»; tudo o resto (Benfica, Vitória, Boavista e EStrela da amadora) foi zero. A reforma dele era trinta contos na altura. Mostrou-me a colecção de camisolas do Pelé – tinha-as todas incluindo a do Cosmos. Grande Zé Torres! Que descanse em paz!

  4. A morte acontece a partir do primeiro momento em que começamos a viver. Caminhamos em direcção a ela. Nunca se afasta nem se vence. A morte ordena e todos marcham, ainda que, no caso de alguns, surpresos pela caça ou pela chamada.

  5. Uma gaiola. Uma gaiola, para o pássaro não fugir quando se pronunciar.

    Valupi, traz uma gaiola pá, há pecadores à solta.

  6. Cometi um lapso ao referir os clubes nos quais José Torres jogou e nos quais treinou. Correcto é assim: jogou Torres Novas, Benfica, Setubal, Estoril; treinou EStrela Amadora, Varzim, Boavista e selecção nacional portuguesa. No essencial está como eu referi: nenhum deles colocou as «massas» na SEgurança Social. Este o problema grave: descontavam e esqueciam-se de transferir.

  7. Ui, esqueciam-se? Se fosse agora, tinhamos um processozinho – crime, com pedido de indemnização enxertado.

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