Declaração de voto

Isabel Moreira declarou em Setembro o seu apoio a João Ferreira, explicitando que o fazia contra o populismo e em nome do Estado de direito. Desde essa data, por sua influência, que também tenho o meu voto decidido.

O PCP não é um paladino do Estado de direito, no sentido em que não se preocupa com as violações ao mesmo dado estar focado no marxismo-leninismo e desprezar os valores burgueses (leia-se, liberais). Porém, o PCP sempre quis reclamar a Constituição como monopólio ideológico, como prova da legitimidade do projecto comunista e dos especiais direitos daqueles que foram os mais perseguidos pela ditadura. Isso levou a uma anfibologia onde o termo “Constituição” passou a representar duas entidades bem diversas, consoante se estava dentro ou fora do universo semântico da Soeiro Pereira Gomes: para os comunistas, a “Constituição” é fundamentalmente o seu Preâmbulo mais uns artigos avulsos; para o resto da malta, a Constituição é o conjunto do texto fundamental para a República, o qual se renova como matriz da democracia a cada revisão, não passando o Preâmbulo de um elemento memorial, decorativo, folclórico. Os comunistas consideram todas as revisões constitucionais como machadadas do imperialismo capitalista nos amanhãs que cantam.

Nestas eleições presidenciais, as duas concepções – que conservam antagonismos radicais entre si – podem finalmente fundir-se num paradoxo útil para quem queira votar numa ideia de democracia que transcenda as divisões ideológicas. João Ferreira, sem medo de aborrecer e como comuna típico, pôs a tocar a cassete da “defesa da Constituição” e fez dessa bandeira o centro da sua estratégia de campanha. Dessa forma, e em simultâneo, pôde falar para a identidade do seu partido e para as preocupações e aspirações de largas fatias de eleitores que votam PS, mais uma mão cheia dos que vota BE – e quiçá também para algumas almas penadas do PSD, caso haja laranjas com alergia ao populismo de Marcelo e com genuína costela conservadora.

Nestes quase 47 anos de regime democrático, o PCP adaptou-se ao triunfo dos exploradores da classe operária, tal como manda fazer o materialismo histórico, e aceitou adiar a revolução por uns séculos. A direita, vendo que o tigre pós-Cunhal não tinha dentes, afeiçoou-se ao seu rugido e passou a contar com ele para manter o proletariado na ordem. Daí a preocupação, à mistura com nostalgia, perante o definhamento demográfico deste, afinal, tão simpático e castiço partido – à exacta imagem do patriarca Jerónimo, o qual espalha bondade e bonomia. Votar em João Ferreira, então, implica assumir uma ironia. A de precisarmos de um populista bom para combatermos os populistas maus. O PCP é um partido populista, nisso em que se arroga o delírio de pretender ser proprietário do “povo”, mas tem décadas de sã convivência com a liberdade dos outros. Mais: a liberdade de todos deve muito ao heroísmo de milhares de militantes e simpatizantes comunistas.

Nos militantes do PCP – representados no João Ferreira, o qual é um candidato “do partido” – há uma decência e um humanismo que são património comum da civilização. Partilhamos causas e valores que estão sob ameaça da vertigem e do caos do tempo. Se lhe juntarmos a jura da defesa da Constituição, é ouro sobre vermelho para decidir em quem votar nestas presidenciais das pandemias.

19 thoughts on “Declaração de voto”

  1. No meu blog, já também declarei que também eu votarei, se possível, em João Ferreira, pela postura, pelo que dele tenho ouvido e lido, e pelo PCP que considero ser indispensável à vida política portuguesa, não como partido de governo , mas como partido opositor, sério, forte, influente, a qualquer governo do país, seja ele qual for.

  2. penso votar ferreira porque recuso votar em candidatos de direita ou ao serviço dela, mesmos motivos que levaram o cunhal a votar no soares em 1982.

    “… mas como partido opositor, sério, forte, influente, a qualquer governo do país, seja ele qual for.”
    isto deve ser anedota e o “qualquer governo do país” só se forem socialistas, foi o que se viu de alianças com o psd, em autárquicas e legislativas, de 1975 até hoje, excepção para a geringonça com um pé dentro e outro fora para alimentar a máquina a 2 carrinhos.

  3. Declaração de veto

    Uma campanha dominada pelo populismo e desinformação, onde o papel do PR foi desvirtuado, exacerbado e espectacularizado pelos media à míngua de ratings com debates inócuos, caricaturais, sem qualquer oposição por parte dos candidatos. O vazio.
    Cada vez mais federalista, excluo perfis anti-europeus , protecionistas e de duvidosa relação com os direitos humanos. Cada vez mais federalista, penso que o PR não tem a médio prazo qualquer papel político a desempenhar, é um ponto mais de desequilíbrio do que de equilíbrio do sistema político. Cada vez mais federalista penso que Úrsula von der Leyen está a fazer um excelente trabalho, e que o Costa actual presidente do conselho europeu em exercício poderá fazer mais pelo país e pela Europa em seis meses do que o PR em dez anos de impotentes discursos, conspirações e obrigatório alimento para o medíocre debate político-mediatico. Contudo e apesar do dry January não posso deixar de afirmar a minha portucalidade, assim, se não votar no Tin(t)o, voto no branco. Cheio se possível.

  4. Também eu votarei no João Ferreira e, pela 1ª vez, o meu voto vai para um candidato da área comunista. O motivo é importante; é preciso reforçar a área da esquerda, agora que grandes perigos vêm da direita extrema e, este candidato, não obstante continuar a debitar os cânones da cassete, parece ter uma mente mais aberta e, principalmente, é uma garantia de combatente por ideais de esquerda mais consequente do que outras opções.

  5. Onde está a anedota: PCP, não como partido do governo, mas como partido da oposição, forte, sério e influente, a qualquer governo do país, seja ele qual for? Explique lá, comentador das 12,46 h, antes de engolir o sapinho.

  6. a anedota está aqui: “forte, sério e influente, a qualquer governo do país”

    1 – fortaleza 8 % com tendência a evaporar.
    2 – seriedade remunerada, foram os inventores do dízimo para a causa e da difamação política antes da direita lhes apanhar o jeito.
    3 – influente aonde? só se for no sindicalismo no sector público com manifs às sextas e naquelas concertações sociais onde nunca estão de acordo com nada mas apanham as migalhas todas.

    podiam ter evoluído, mas agora é tarde, os espaços estão todos ocupados. só se for numa campanha revivalista para nostálgicos e apreciadores de cenas vintage, mas isso não resolve.

    gostei do tom inquisitório “antes de engolir o sapinho”, se calhar é necessária autorização do comité central para votar no ferreira. se não aceitam a realidade problema vosso.

  7. Ainda te furam os pneus se…
    não vais votar com os teus amigos no Venturinha querido, o anti-cigano de eleição !
    Acorda,que,por fora, já estás um homem …

  8. “… não vais votar com os teus amigos no Venturinha querido…”

    não, fachos nem vê-los. os amigos do ventrolhas são os teus ex-camaradas que trocaram de partido. sintomáticas estas alucinações comunas de transpor para os outros as suas fragilidades.

  9. Graçolas, raivinhas, mas seriedade no entendimento pouca ou nenhuma, mesmo com os pneus em
    em bom estado. E por aqui me fico, assunto arrumado.

  10. Caguei no PCP do passado. Vai, fatalmente, sofrer mudanças, embora a “cassete” encaixe perfeitamente no mundo capitalista em que vivemos, com desigualdade galopante e democracia de faz de conta. Quem diria?
    Além disso, a China só é comunista nas cabecinhas formatadas dos ocidentais e a URSS já acabou .
    Posto isto, vou votar, pela primeira vez, num candidato do PCP. João Ferreira , de todos, foi o que conseguiu ser mais sincero, assertivo e civilizado. Acho, sinceramente, que tem cultura e perfil para ser Presidente da República.

  11. Quanto à defesa da Constituição pelo PCP podemos ficar descansados:
    https://expresso.pt/politica/2020-05-02-Caso-Casanova.-Tribunal-lembra-PCP-que-esta-sujeito-a-lei.-Comunistas-acham-intoleravel

    https://www.publico.pt/2007/11/28/politica/noticia/luisa-mesquita-passou-a-vereadora-independente-na-camara-de-santarem-1312143

    http://pravdailheu.blogspot.com/2018/01/caso-da-ex-deputada-do-pcp-luisa.html?m=1

    A deputada coitada até foi perseguida e ostracizada pelo marido. Crime: ousou pensar diferente.

    A candidatura do João Ferreira tem piada, tornou-se um Sex simbol do eleitorado feminino e o novo soviet chic de um certo turismo ideológico. Um comunista como produto de consumo eheheh excelente ironia!

  12. Pouco me interessa o PCP, mas os exemplos que deste, ó Strummer… Bem podes limpar as mãos à parede.
    Um gajo que ficou fodido porque a mulher se abarbatou à casa que compraram em conjunto. E outro que, a acreditar no argumentário, está a minar a imagem de uma organização enquanto funcionário desta…
    Não me parecem os mais elucidativos (não gosto muito de emoticons mas, enfim)😁
    E quanto ao Johnny Ferreira, só tem que dar (literalmente) o corpinho ao manifesto para ganhar votos. Mai’nada.

  13. Ah, é verdade:
    O Tino, finalmente, revelou que é um burgesso ignorante e oportunista. Um genuíno chico esperto.
    Ou seja, um português de gema, lóle!
    É o representante por excelência dos tugas. Votemos nele.

  14. Vieira, não é o que tu pensas ou o teu – pobre -entendimento dos casos, é a Constituição e o facto do Ferreirinha conviver com esta cultura partidária contrária à mesma desde piquinino.

    Exacto, o Tino é como tu, ainda não tinhas percebido a ironia?

  15. É isso Joe. Tu nem és nada pretencioso e deves ser estráungeiro.
    Se a soberba tivesse odor, eras um cagalhão cheio de moscas.

  16. Sorry lá pela expressão, mas o que percebi é que querias ofender, por isso, entrei na brincadeira.
    Além do mais, burgesso, na escala estatutária tuga, é um designação abrangente. Cabem nela engenheiros, juízes, presidentes da república (olha o Cavacoiso, por ex.)e, a ver pelas tuas investidas, também te vou encontrar na molhada.

  17. Caríssimos!
    Deixem-se de merdas de discussões sem “tino” e bora lá votar no Ferreira.
    Eu vou!

    Primeiros porque não voto na Marisa, por causa da chefe dela, aquela cinco reis de gente que, na linha do patriarca Louceiro, preocupa-se mais em atacar o PS, puta de mania do pessoal daquele partido, do que combater a direita.
    (A propósito, nem se tem ouvido falar dela. Estará “covida” ou anda de fininho a ver se o pessoal se esquece da merda que tem feito nos últimos tempos?)

    Segundos porque não voto na madame santa protetora do hacker chantagista do cabelinho ouriçado. Para quem apregoa aos quatro ventos que é a Joana d’Arc do combate à corrupção, estamos conversados. Cacareja muito, mas ovos nem vê-los.

    Terceiros porque não voto no santinho das selfies. Não gosto de “judas”, aprecio pouco
    espetáculos circenses e para entertainers prefiro o Bruno Nogueira.

    Quartos porque não voto no estilhaço de Trump. Nunca votei em fascistas nem em nenhuma porcaria de direita e não é agora que vou começar a votar nessas merdas.

    E, finalmente, quintos porque nos outros candidatos, os fracos, também não voto, porque lá diz o ditado, dos fracos não reza a história.

    E prontes! Voto no João Ferreira, que é um gajo simpático, educado e, às vezes, até nem parece ser do Partido.
    E malta, pelo amor da santa, seja qual for o “produto” que escolham, votem na esquerda, porra!!!

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