Daniel Oliveira e a normalização do crime

A grande ironia do Perguntar Não Ofende é a descoroçoante constatação de que o Daniel Oliveira tem medo de perguntar por ter pavor de ofender. Estarei fatalmente a ser injusto porque não ouvi todas as conversas, longe disso; sendo evidente o interesse de cada uma para diversos públicos tal como decorreram, fica o agradecimento. E estou fatalmente a ser cristalino no retrato de um formato onde o autor conseguiu pôr a elite política à sua disposição em paleios, à volta de uma hora, que se parecem esgotar num convencionalismo chocho e falho de acutilância. Exercício: que ficámos a saber dos seus convidados, ou de algum assunto, que não soubéssemos já antes da exposição no seu espaço mediático? Esta pergunta não anula a vantagem em se ter aumentado a quantidade da informação corrente, posto que há sempre potenciais ganhos qualitativos na repetição das ideias e da interpretação ou descrição dos factos, apenas tenta desvelar a sua relevância. Logo a partir da escolha de António Costa para inaugurar o projecto que ficou patente o critério que se iria repetir: falar com os mesmos sobre o mesmo da mesma forma. Única diferença: o Daniel desfrutava da oportunidade de juntar as suas opiniões às das personalidades presentes a pretexto de fazer uma “entrevista”. Alerta egocêntrico.

A conversa com Ricardo Costa, porque prometia uma discussão sobre a transmissão das imagens dos interrogatórios de Sócrates e outros, mostrou os limites da sua crítica. Perante uma criminosa violação de obrigações e direitos vários cometida pela SIC, a qual foi justificada pelo mano Costa recorrendo ao argumento da alegada “excepção” (leia-se: a suspensão do Estado de direito para destruir moralmente Sócrates antes de qualquer eventual condenação), o Daniel tratou o assunto num plano superficial e simplisticamente teorizante. Ainda pior, não estava preparado para desmontar ética e juridicamente a falácia que lhe deram a engolir nem mostrou ser capaz de representar a cidade na defesa de quem tinha sido abusado por dois poderes despóticos em conluio, Ministério Público da santa Joana e comunicação social da direita. Não o posso provar mas, com 200% de probabilidade, infiro que o Daniel autocensurou as perguntas que se impunham, implacáveis, para não ofender o patrão.

A conversa com o João Miguel Tavares é da mesma cepa vexante, e ainda mais grave na cumplicidade com um notável agente iliberal e mercenário. Do princípio ao fim, reina uma atitude congratulatória num registo de comadres. O caluniador profissional apareceu a transbordar serenidade e empáfia, o que se compreende sem a menor dificuldade. É para o Daniel que ficamos a olhar em pasmo perante a sua capitulação intelectual, cívica e política ao ouvir o seguinte:

«Eu tenho um discurso muito duro contra a corrupção. Porque acho que vivemos num país onde isso é um problema grave. Aquilo que eu acho é que vivemos num sistema jurídico que é arquitectado para tornar essa prova efectivamente difícil. Porque os políticos nunca foram espectaculares a legislar em causa própria. Isto não é sequer uma opinião, é olhar e ver quantas pessoas estão condenadas, ok? A questão do segredo de justiça em Portugal ser tratado a pontapé e andar pelas ruas da amargura é uma consequência da dificuldade em provar a corrupção. O Ministério Público diz "Eu não vou arranjar maneira de meter este gajo atrás das grades, aqui vai disto. Publiquem agora nos jornais."» <- A partir do minuto 50

Podemos esquecer que o Tavares não apresenta nada de nada de nadinha de nada que seja mensurado ou mensurável, qualificado ou qualificável, a respeito da corrupção em Portugal quando tecla ou abre a boca a respeito, fugindo de dialogar com quem o faz: Corrupção, quando os números não dizem o que queremos ouvir. Podemos esquecer que o Tavares é ofuscantemente inepto para debater o tema da corrupção do ponto de vista jurisprudencial, limitando-se a papaguear a cartilha populista que apanha de ouvido na indústria da calúnia e na direita decadente. Podemos até esquecer a assumida e publicitada perseguição a Sócrates e terceiros a quem fareje uma qualquer relação, um comportamento onde a mais pura ganância oportunista se mistura com uma crescente patologia obsessiva. Basta que encontremos uma resposta para o que o seu discurso espalha denotativamente no espaço público. Discurso onde se pintam todos os parlamentares, Presidentes da República e juízes nesta Terceira República como bandidos que montaram e aplicam uma arquitectura legislativa ao serviço de práticas criminosas que geram enriquecimento pessoal dos “políticos”. Discurso onde se defende e aplaude a prática de crimes num Ministério Público instituído como substituto dos tribunais e poder supremo de um Estado que se quer policial e acima da Lei.

O que o Tavares esteve a promover, em cima de um palco e na cara do Daniel Oliveira, é a visão de uma sociedade onde os fins justificam os meios, primeiro, e onde quem decide quais são esses fins opressivos são aqueles que podem violar a privacidade e prender os restantes, consumação totalitária. Precisamente aquilo contra o qual, ao longo de séculos, da Filosofia Grega ao Iluminismo, passando pelo Direito Romano e pelo Renascimento, concretizando-se política e socialmente na Revolução Americana e na Revolução Francesa, alimentou o combate do liberalismo contra a violência dos monarcas e nobres, papas e bispos, tiranos e tiranetes. É preciso desprezar os direitos individuais, a essência mesma do liberalismo filosófico e político, para pedir condenações e encarceramentos por atacado. Afastar essa parte inútil inventada pelos malditos políticos, em que os suspeitos têm direito à sua defesa e onde se é inocente até prova em contrário num processo justo, e deixar o Ministério Público acusar, julgar e conduzir uns fulanos “corruptos” a Évora em 48 horas ou menos, eis o sonho húmido do caluniador profissional. Querem acabar com a violação do segredo de justiça? Cá está a solução final do Tavares, dar aos procuradores poder absoluto para caçarem quem eles quiserem, como quiserem, quando quiserem.

Face a esta apologia dos reais, caudalosos, sistémicos crimes cometidos por agentes da Justiça e por operacionais na comunicação social, o nosso estimado Daniel nem pestanejou. Estava tranquilo, agradado, a converseta permitia-lhe dizer coisas da sua lavra para a plateia. Aquela não lhe parecia uma ocasião para estar a disparar perguntas incómodas ao seu convidado que tinha tido a especial simpatia de aceitar o convite. Rapidamente estava a explicar que a sintonia entre os dois era ainda mais funda, é que ele também já sabe que Sócrates é corrupto sem ter de esperar pelo desfecho do processo judicial. Ora, isso confirma a vantagem em deixar nas mãos do Ministério Público e dos seus cúmplices mediáticos e partidários a instauração de um novo regime, uma subterrânea Quarta República sob o comando da Joana Marques Vidal, do Carlos Alexandre, do Eduardo Dâmaso e do Octávio Ribeiro.

É escusado procurar por reacções no espaço público a este episódio produzido e difundido pelo impoluto, e propalado representante de um “campo social”, Daniel Oliveira. Ninguém estremece, ninguém se importa. Ver evangelistas dos crimes na Justiça e dos linchamentos a serem legitimados por vedetas da esquerda que se concebe vanguardista faz agora parte do nosso quotidiano, está de acordo com a nossa natureza, é o que pede o nosso bom povo. É normal.

13 thoughts on “Daniel Oliveira e a normalização do crime”

  1. Eu como não perco tempo com anormais ,não vi .não ouvi,para bem da minha sanidade mental ,estas aberrações deveriam ser presas como José Sócrates para darem valor ao estado de direito e a liberdade.

  2. bem, como é que uma pessoa encantadoramente amoral ( como foi explicado num post do aspirina há uns tempos, à cause da casota na ericeira) pode ser destruída moralmente é que gostava de saber. omg, mais uma vez não bate a bota com a perdigota -:)

  3. Vedetas ds Esquerda???
    De qual Esquerda???
    Qual vedeta ???
    Alguém tem dúvidas sobre os atributos dos espécimes? ??
    Dormir na forma, está bem,mas ainda não está tudo doido!
    Grandes pulhas!

  4. Os ‘engraçadistas’ profissionais sem pinga de graça que pululam nas tv e teatros de standups, esses, não mudam pois parece ser de sua natureza, como no lacrau, nascerem já uns direitolas disfarçados de justiceiros gozadores brincalhões ultra populistas com os políticos e tudo que caia em desgraça junto do pagode.
    Ou será porque o pagode levado pelos media pensa direitolas e estes pobres engraçadistas, por carreirismo calculista, correm atrás do dito pagode pelas audiências que dão a jorna que dá o pão de cada dia: um humorista tentaria educar o pagode desmontando o habitual sentido reaccionário da anedota estúpida encenada, mas isso seria um bom humorista e nunca um engraçadista a martelo.
    Mas, os contratados para mesas redondas ou quadradas que tratam da política quotidiana estilo eixo-do-mal e governos sombra são, de certo modo, igualmente obrigados a parodiar os assuntos tornando-os tão do tipo engraçadista como os profissionais e, sobretudo, tão reaccionários como os que o são de nascimento.
    E, a estes, junta-se outra reaccionarice nascida do seu auto-convencimento de que são portadores de um elevado gabarito político-intelectual mas que aos olhos dos partidos não passam de donos de alguma engenhoca intelectual que usam para assentar rabos nas tvs onde se insinuam ser mestres- escola sabe tudo, prever tudo e resolver tudo (claro tudo depois dos acontecimentos) e que sonham ser chefes por direito próprio de sábios nas matérias.
    Quando os partidos e seus chefes que fizeram a tarimba toda nos trabalhos partidários os rejeitam para trabalhar com eles no governo, nos gabinetes, como deputados ou simples conselheitos, este tipo de gente que de início são algo bajuladores com o decorrer do tempo e com algum pretexto à mão, desatem às catalinárias morais e de carácter contra os políticos ou político que, segundo o seu sentimento ressentido, desprezou o seu mui auto-estimado talento.
    O DO é um caso paradigmático e a clarinha já o foi antes e é ainda também.
    Na sua última catalinária no Expresso evoca mesmo o seu desapontamento por ter acreditado em Costa há quatro e agora, segundo as suas contínuas catalinárias, o ter traído no caso dos profs.
    E neste pressuposto feito pretexto para desabafar a raiva de preterido o Costa é quase o novo Diabo enviado pelo Diabo velho.
    Tenhamos paciência pois o livro da História fez-se calhamaço à custa de gente assim.

  5. Então, pázinho?

    s de ter sido aprovado.

    17:27

    17 de Maio de 2019 às 14:15: aproveita para dares mais um sopro de vida ao Aspirina B, pá!, não sejas tanso.

    Nota. Assumiste que andas a toque de caixa, Valulupi? Não do José “dark side” Sócrates, desta vez, mas do tipo d’Ouriq que te mandou tomar calmantes?

    #homensemancipados, ó pá?

    09Mai19
    Daniel Oliveira e João Miguel Tavares

    Na verdade, a conversa foi morna, embora o Valupi talvez precise de calmantes para a escutar.

    https://ouriquense.blogs.sapo.pt/daniel-oliveira-e-joao-miguel-tavares-811195

    Tens cagufa do baile-mandado, vertigens ou sofres de algo assim?

  6. No Expresso da Meia Noite de ontem, Daniel Oliveira defendeu, com uma superficialidade normal nos ignorantes atrevidos, mas que na verdade não esperava nele, a “catástrofe” de pertencermos ao euro, etc e tal e também da justa luta dos extremos na Europa contra a perda de soberania das nações subjugadas aos “burocratas não-eleitos” de Bruxelas. Não se distinguia de Jaime Nogueira Pinto, este até mais prudente. Mudei da canal e , azar, fui logo apanhar com a galhofa de Ricardo Araújo Pereira sobre a prestação de Pedro Marques na campanha, troçando da sua figura física. E a assistência deu uma risada alarve. Socorro! Esta gente está a criar um ambiente televisivo irrespirável.

  7. ?

    Nota, 4U. LOLOL, epá não vi mas se era o Pedro Marques a dançar com as matrafonas em cima do tractor no carnaval de Torres Vedras, a gritar desvairadamente Costa, Avança, Com Toda A Confiança (?!) ou a comer bolachas de chocolate há dias teve piada… de certeza!

    #carregaRAP
    #carregaBenfica

  8. O Daniel oliveira tem dias em que está perto do ponto e, outros em que se afasta
    uns largos Kms … como é óbvio não se trata de deficiente pontaria será antes, um
    certo ressabiamento, como sofre o guru que, foi o grande lider Louçã, ambos se
    converteram em “ajudantes” da direita caduca criada no salazarismo e nas sacris-
    tias de certas igrejas!
    Quanto aos homuristas que vendem opiniões, há muito que os deixei de ver ou
    mesmo ouvir pois, não passam de invertebrados a ganhar o sustento para os filhos!
    O que não falta por aí é gente séria e respeitadora dos direitos dos seus concidadãos,
    como o Xavier do quadrado, Pluma do eixo do mal, até o coiso Nunes consegue ser
    mais assertivo nas suas tiradas … o que eles sofrem para ganhar aqueles tostões!!!

  9. Errata,
    No comentário acima onde se lê “catalinária” deve-se ler ‘catilinária’ tal como foram catalogados os 4 discursos acusatórios de Cícero sobre Lúcio Sérgio Catilina.
    Ver “Cícero, as Catilinárias, Edições 70.

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