Da elite e do escol

Nesta entrevista a Fernando Lemos, vemos um ser humano de 83 anos que não tem qualquer peso da senectude. Até a sua cabeleira se exibe como metáfora capital da hercúlea vitalidade. Extraordinário. Só tinha visto caso igual na pessoa do Agostinho da Silva – com quem teve percurso de vida paralelo e partilhado, naquilo que talvez não seja uma coincidência. E quanto ao que diz, e como o diz, estamos perante um sábio que transporta a memória viva de grande parte do século XX e de alguns dos melhores portugueses de sempre. Portugueses que amaram profundamente Portugal, pagando com o exílio a realização da sua liberdade indomável.

A entrevista é agridoce, porque a riqueza do que diz, seja pelo testemunho, reflexão ou ilustração, estava constantemente a ser limitada pela lógica de um questionário programado e serventuário do tempo disponível. Duração escandalosamente curta tantos os tesouros históricos, culturais e sapienciais que os 83 anos da sua existência admirável guardam lúcidos e generosos. Se nenhuma televisão portuguesa, a começar pela RTP, fizer programas com este homem, gravando umas boas dezenas de horas só com ele a falar, isso será um crime de lesa-Pátria.

O Estado Novo é um exemplo paradigmático da diferença entre a elite e o escol. Por causa de uma elite provinciana, inculta, mesquinha e tirânica, os melhores portugueses foram perseguidos, atacados, amordaçados, diminuídos. Uns ficaram, outros partiram, mas todos os que se cumpriram fazem parte do escol que nenhuma elite consegue dominar. Fernando Lemos é um elo da tradição viva da liberdade portuguesa. Um orgulho, uma inspiração.

23 thoughts on “Da elite e do escol”

  1. “Por causa de uma elite provinciana, inculta, mesquinha e tirânica, os melhores portugueses foram perseguidos, atacados, amordaçados, diminuídos.”

    Isto é falso. Os melhores portugueses foram educados, acarinhados. O meu pai, que nasceu numa parvónia na Bairrada, mas que era um rapaz inteligente e uma aluno com boas notas, teve a sua educação toda paga pelo Estado, incluindo ir viver para Aveiro, e mais tarde para o Porto, sempre longe da família, desde os dez anos de idade. Tomara o país tratar hoje os melhores portugueses com o mesmo desvelo com que o Estado Novo os tratou. Hoje em dia o país trata bem, essencialmente, os piores portugueses.

  2. Letra é um desenho mudo que começa numa ponta e acaba
    noutra, produzindo, sempre que caminha, um som diferente (Lemos: 1985 – grifo nosso)

    :-)

  3. Que vontade de voar que dá ouvir um Homem livre. Tão diferente dos intelectuais tecnocratas da liberdade que nos servem nos editoriais dos jornais e nas merdas dos debates com a palavra paga a peso de ouro e subserviência.

    E porque não termos a possibilidade de ouvir o F.Lemos pelo menos na RTPN ? É o people que não está preparado? Esta ideia que o povo não suporta ver Telejornais como o da 2 nem programas como o Câmara Clara e outros, visa perpetuar a mesma mediocridade que ele nos fala, nem carne nem peixe, não somos nada.Ninguem arrisca.
    A RTP1 é um enorme Talk Show, uma formula repetida até à exaustão, estupidificante, pontuada aqui e ali com um simulacro de entrevista/debate, que não nos revela nada que o jornal da manhã não tenha dito.
    Obrigado à Paula Moura Pinheiro e à sua equipa.

  4. Os melhores portugueses, sobretudo aqueles que, eles ou as famílias, não comungavam do inefável ” A bem da Nação”, eram relegados para o canto mais escuro do quarto já de si muito escuro. Nasci em Lisboa, aqui vi fome, dificuldades, caridadezinha. Cresci numa cidade onde se era obrigado a ter um casamento católico para habitar uma casa social. Grande parte da minha geração não sabia o que eram sapatos, sim falo de Lisboa, e ainda me lembro da ordem para comprar alparcatas quando da visita a Portugal de Sua Magestade a Rainha Isabel II. Fui um bom aluno, com fracas posses, e por isso relegado, ainda com idade de brincar, para o mercado de trabalho. Vi amigos meus agredidos, sofrerem pressões sem conta. Eu próprio ouvi bastas vezes o ignóbil “Sabe com quem está a falar?” . Tomara o país que nunca tivesse existido o Estado Novo. Hoje Portugal continua a tratar mal os portugueses, embora alguns, contra a vontade de muitos, se esforcem pelo contrário. As corporações e as metástases do dito ainda não foram extirpadas.É uma questão da longa duração.

  5. fantástico como a história se repete !!! não é que os oriundos das berças ( e não me refiro só a terra…) tomaram conta do país outra vez.

  6. Porra, Jafonso, ainda nao tinhas sapatos nos anos 50, nem daqueles que faziam bolhas nos calcanhares? Pobre menino! Quanto ao Estado Novo, estiveste perante uma continuacao da Republica por outros meios, mais disciplinados e organizados, mais fascistas, se quizeres. Simplesmente, Salazar veio por os colegas da Maconaria em ordem. Viste algum gajo saudosista dos bons tempos da republica pegar numa bomba ou pistola e fazer a Salazar o que se tinha feito ao D. Carlos? Explica-me esse milagre antes do almoco…..enquanto pensas que as metastases corporativas poderao significar que o Abril possa tambem ser uma continuacao do Estado Novo por outros meios, mais descarados, com debruns, folhos e penduricos.

  7. Não vou começar aqui uma peixeirada, que estou sem tempo, mas não acredito naquilo que acabei de ler do Luis Lavoura :

    “Hoje em dia o país trata bem, essencialmente, os piores portugueses”.

    Se calhar estou enganado, mas pelos comentarios pensava que o LL se prezava de ser um liberal esclarecido, que pensa pela propria cabeça e se abstém de cedências à demagogia de mais baixo nivel.

    Ou seja uma pessoa incapaz de escrever, mesmo ao descair-se no fim dum comentario, uma alarvidade pascovia e populista deste calibre (“salauds de pauvres !!!”).

    Foda-se !

    Bom, se calhar, era so a brincar…

  8. Comparar:
    Não gosto de comparar o incomparável. Vi e assisti a coisas que se fossem praticadas hoje não dava para acreditar. Cafés dos ricos e dos pobres. Se quisesse entrar nos dos ricos e não fosse engravatado era posto fora do café. Mais tarde e com um pouco de conhecimento é que vi que se calhar copiaram pelo que se fazia na África do Sul, com a separação de brancos e negros.
    Tenho dois netos que frequentam o ensino básico e é ver a diferença entre as condições de hoje e as do meu tempo. Havia as escolas masculinas e as femininas. Até aqui havia a separação. Actualmente quem tiver bom proveito pode pedir uma bolsa de estudo. No meu tempo não havia nada disso e se havia a maioria não tinha conhecimento.
    Íamos para escola, descalços, chovesse, fizesse sol ou caísse neve, quando chovia levávamos uns sacos de serapilheira pela cabeça, parecíamos uns pinguins, os guarda-chuvas era coisa rara, hoje oferecem-se como publicidade. Comparar hoje ao que se passava nesse tempo é como disse em cima, é comparar o que é incomparável.
    Dia 13 de Dezembro celebra-se na minha terra a feira-festa em honra de Santa Luzia, mais conhecida por feira dos capões. Nos fim da década de cinquenta e princípio da sessenta era ver os mais expeditos a carregar capões com a finalidade de receber uma gorjeta, gorjeta essa dada pelo comprador, pelo carregamento entre o local em que se vendiam os capões e o local em que os automóveis estavam estacionados. Às vezes andávamos quilómetros com um par de capões para receber dez tostões. Com o avolumar dos carregamentos ao fim do dia angariávamos uns bons escudos. Escudos esses que por vezes era para colmatar a economia familiar.
    São estes tempos que muita gente anseia. Gostaria que voltassem para os ver a carpir.

  9. Porra, o problema não era eu não ter, era olhar para os que a meu lado não os tinham.Quanto a milagres não os explico de barriga vazia. No entanto como passo pela igreja do Corpo Santo antes de ir almoçar, quem sabe…..

  10. Caro DIXIT, nasci em 1953 e a minha turma na primária, até à 4a classe era constituída por 35 alunos, dos quais só três usavam sapatos e quando acabamos a 4a classe esses mesmos três alunos foram estudar e TODOS os outros trabalhar a sério no campo e aos 14 anos eram homens feitos para todo o serviço e num caso, um era o único sustento duma família de oito pessoas. Estou a falar dos anos sessenta e não dos cinquenta…
    Não sei em que país viveste ou daquilo que te contaram, mas é preciso grande lata, muita ignorância ou mesmo má para se fazerem alguns comentários a desculparem tudo isto e pior ainda elogiar este estado de coisas.
    Eu fui um dos três que fui estudar, pois meu pai estava emigrado na altura e foi o preço que ele teve de pagar para conseguir dar um futuro melhor aos seus filhos. No entanto nunca deixei de ser solidário com todos os meus colegas e ainda hoje mantenho uma relação de muita proximidade com os que restam, dois morreram na guerra colonial,a maioria emigrados, pois era a única maneira de se libertarem com alguma dignidade do tal Estado Novo

  11. Não sei em que país viveste ou daquilo que te contaram, mas é preciso grande lata, muita ignorância ou mesmo má fé para se fazerem alguns comentários a desculparem tudo isto e pior ainda elogiar este estado de coisas.

    Peço desculpa, faltou a importante palavra, Fé

  12. “Os melhores portugueses foram acarinhados”. por favor, luís lavoura, que desonestidade. isso pressupõe que todos os que chegavam, vá lá, ao final da escola primária eram sacados pelo estado que os colocava a estudar no liceu, ou na técnica. ora nem o estado fazia isso nem sequer dava a muitos (quantos deles com potencial) condições para poderem terminar o ensino primário. o seu paizinho é a excepção e não a regra.

  13. Aparentemente, estamos todos a viver em países diferentes.As recordações pessoais que eu tenho (67 anos) são boas para mim, no sentido em que o meu pai tinha dinheiro e meios que nos permitiam viver bem e estudar e ter férias, e ir ao cinema e viajar, etc, etc,etc.Mas os meus colegas de escola(1ª do Largo do Leão) 90% andavam descalços, calções rotos, mal alimentados,não tinham meios de sobrevivencia suficientes e , mesmo os bons alunos tinham que ir trabalhar assim que terminavam a escola ou após o 2º ano do liceu para ajudar a sustentar a familia. Nas férias, na Beira Baixa, donde era a minha familia, os meus companheiros de brincadeira andavam desclços e rotitos, pois a roupa melhor era para alturas especiais.Muita roupa lá deixei para eles , e, muitas vezes vezes vinham comer a minha casa, para terem refeições decentes.Eu vi os dois aspectos da vida naquela altura, como vi mais tarde, quando comecei a acordar para as injustiças do regime vigente, a saber o que eram as lutas contra o regime, primeiro com os colegas mais despertados para o fascismo e depois com as lutas dos alunos das faculdades ,as campanhas academicas .Nessa altura teve em mim uma influencia grande o Dr.Jorge Sampaio, cuja carreira acompanhei desde a Academia. No Hot Club de Portugal aprendi que a música, particularmente o Jazz ,tambem é uma forma de resistencia; aí o saudoso Luis Villas Boas, teve uma grande influencia ,pois tambem ele, à sua maneira era um resistente .Temos de tentar relembrar aqueles que, cada um a seu modo, resistiram .

  14. Jafonso, a mim parece-me que choras mais hoje que nos tempos em que sofreste tantas dores. Nao me dizes nada de quando andavas no gamanco, reparo. Ciao.

  15. Luís Lavoura, o Fernando Lemos e outros como ele não faziam parte dos melhores portugueses, ou os pides que os perseguiam faziam-no para os educar e acarinhar?

  16. Senhor MANSO,

    Respeito-o porque ja e um anciaozito dos verdadeiros e porque me parece que nao apresenta nenhum dos sintomas duma doenca democratica incuravel, pela maneira saudavel com que recorda os putos remendados e descalcos. Ta bem tudo o que disse, mas deixe-me perguntar-lhe: quando voce andava la nessas andaricas da academia nunca lhe passou pela frente um cartaz a convida-lo a assistir a projeccao dos 400 cus ou os ladroes de bicicletas, ou era tudo so jazz estridente e resistente? O que e que voce pensa desses filmes quando compara as suas mensagens com as cenas que voce experimentou ao vivo no Largo do Leao? Nao se esqueca que nos anos 50 ainda havia muito europeu a viver em buracos e tocas e nenhum deles era portugues, e dez anos antes disso a maior parte dos europeus nem tinham uma retrete para cagarem, tinham que ir ao cagatorio no quintal e apanhavam um frio de rapar. Nisso ganhavamos: cagavamos na rua mas apanhavamos sol nas badanas, mesmo no Inverno. Nao sei se esta a ver a perspectiva.

  17. “Porto, 13 de Julho de 1958

    Carta de D. António Ferreira Gomes a Salazar

    …..Não poderei dizer quanto me aflige o já hoje exclusivo privilégio português do mendigo, do pé-descalço, do maltrapilho, do farrapo; nem sequer o nosso triste apanágio das mais altas médias de subalimentados, de crianças enxovalhadas e exangues e de rostos pálidos (da fome e do vício?).”…..

    Mas, enfim, também havia um Programa Erasmus para jovens inteligentes, de que se desconhece o paradeiro, por enquanto.
    Outra possibilidade ainda, ter a “sorte” do António Borralho, da Manhã Sumersa.

    Mas, certamente, deve ser mentira…..

  18. Caro Dixit
    Como já adivinhou, tambem eu vi os 400 coups, os Ladrões de Bicicletas, o À bout de soufle, e acompanhei quase todo o néo -realismo europeu que era cá autorizado nos cine-clubs, onde iamos assistir , quando a Pide não entrava por ali dentro e arrebanhava os suspeitos do costume para umas sessões de “conversa”.Tambem fui arrebanhado uma ou duas vezes e tambem fiquei fichado-ou -lixado ,como queiram.Mas isso é conversa para outra ocasião.À , é verdade, ansião é a tiazinha .Beijinhos e serpentinas

  19. Amigo Dixit, Senhor
    Desculpe, por só agora ter vindo a Pharmácia e reparado na sua simpática resposta. Podia-lhe contar muitas histórias de gamanço, antigas e actuais, todavia, impede-me a vergonha de o fazer.E sabe porquê amigo Dixit, Senhor? Porque morro de arrependimento de não ter roubado e destruído o tubo de ensaio que lhe esteve na origem. Teria sido um bem pá Homanidade e tinha evitado o Sol na badana quando lascavas, perdão, obrava.

  20. Ok Sr. Manso, voce nao e ansiao, ou anciao, ia aos cineclubes, foi apertado pela pidoria. Mas isso nao considero eu uma reaccao justa a proposta que lhe fiz de que a miseria e falta de meios nao era nesse tempo fenomeno de exclusiva invencao ou criacao salazarista. Nao se esqueca que o Portugal do Estado Novo era, se limamarmos umas arestas tecnicas, simultaneamente pais colonialista e pais colonizado. Nao vale a pena desenvolver, porque como voce sabe o Antonio era bom jogador de meio campo.

    Caro Jafonso,

    Instintivamente sabia que voce teria muitas historias de gamancos para me contar, como alias reconhece. Mas preferia, para enfeitar a tragicomedia de couro com choro, me confessasse que a sua adolescencia tristonha de alparcata e fome passou pela vergonhosa necessidade de vender paladares nos cacilheiros de Lisboa para, pois evidentemente, colmatar a economia familiar. Bom, a pastilha elastica seria ideal, mas quando nao ha, atamanca-se.

  21. NESTE MOMENTO NADA MAIS INTERESSA QUE NÃO SEJAM AS ESCUTAS .

    O XEQUE MATE A SOCRATES É OBVIO ..

    QUEREMOS AS ESCUTAS AGORA E QUEREMOS SOCRATES NA RUA ! AGORA !

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.