Cumpra-se a Lei

Rui Ramos, na Roda Livre, e o Pacheco, na Quadratura, subsumiram a posição dos que estão a explorar a corrupção que corre solta no seio da Justiça: uma vez que apareceram suspeitas, e não importando o modo como surgiram, o suspeito tem agora de se prejudicar – tem de abdicar da sua privacidade porque as suspeitas são do foro político. Havia um prazer mal contido no olhar do Ramos, e um prazer gelado na voz do Pacheco. É o prazer da vingança, a satisfação de imaginar que o inimigo está encurralado e que irá sucumbir. Esta atitude lembra a catástrofe da Ilha da Páscoa, onde os nativos, numa competitividade celerada e ignorante, destruíram os recursos naturais para além da possibilidade de recuperação. E lá chegou o dia em que tiveram de deixar as gigantes estátuas abandonadas à espera de turistas acidentais. Também em Portugal a decadência e estertor do cavaquismo levou à extinção dos mínimos de respeito por alguma ideia ou propósito de comunidade, tendo-se optado pelo vale tudo que se serve de agentes da Judiciária, juízes, magistrados, Presidência e comunicação social. A inventona é agora uma típica intentona.

Como já se escreveu, as autoridades ouviram diversos elementos do Partido Socialista e as escutas decorreram durante a preparação das três campanhas eleitorais que ocorreram neste ano. Morais Sarmento revela ser já um especialista em escutas a Sócrates, pressupondo um conhecimento directo e detalhado dos seus conteúdos. Esta capa do Sol poderá explicar donde vinha a certeza jubilosa com que a Manela garantia que Sócrates mentia quanto ao negócio da PT-TVI. E os ataques à suposta demora do Procurador-Geral em dar andamento às certidões extraídas em Julho permitem supor que este caso estava planeado para rebentar no Verão, só não tendo acontecido porque não puderam contar com os préstimos do Ministério Público. Terá sido a desastrada inventona de Belém um plano b posto que este estava a marinar?

Seja como for e venha o que vier, o caso Face Oculta aparenta ser uma muito bem sucedida operação política. Pouco importa se as escutas são nulas ou válidas, destruídas ou distribuídas nas escolas – elas cumpriram, na perfeição, a sua função dissoluta. A situação é a de julgamento populista, o Estado de direito foi dinamitado pelo segundo maior partido nacional. Se fizermos jurisprudência deste caso, todo e qualquer político fica a saber que pode estar a ser escutado pela Judiciária por tempo indeterminado, basta arranjar um pretexto paralelo – como Morais Sarmento teve o desplante de explicar. E mais: ficamos também a saber que Judiciária, tribunais e Ministério Público serão cúmplices da entrega dessa informação aos adversários e jornalistas. Talvez seja esse, e precisamente, o ponto desejado, aquele em que os anciãos se viram outra vez para Cavaco e lhe pedem um Governo de salvação nacional.

Quanto a Sócrates, dizer o que se disse quando voltou o Freeport: se há prova de ilícitos, cumpra-se a Lei. Se não há, e esta for mais uma armadilha, cumpra-se a Lei.

24 thoughts on “Cumpra-se a Lei”

  1. Ha dias,

    quando ouvia Sexa. falando,

    dizendo que nao falava,

    e respeitavel senhora deitando os bofos todos ca para fora em declaração politica no Parlamento

    em imagem ja antes vista revista com a tal de “asfixia democratica e escutas em belem”

    só me ocorriam as versões rascas, adulteradas, do grande “bonnie and clyde”

    Não há pachorra…

    independente de estar farto das travessuras dos “boys” e das cliques partidarias

    depois de 2 derroras consecutivas do dito, celebrado, cantado, par da politica portuguesa

    aquele sorriso presidencial, aquela destravessura da senhora

    constante ou não, de alguma certidão judicial

    repõem-me ao lado do essencial que esta direita revanchista quer a todo o custo questionar

    politica de terra queimada, do quanto pior, melhor…

    Excelente artigo Val…

    abraço

  2. Tudo uma cambada, esses Pachecos. Bons são estes:

    “Acto I. Estamos a 3 de Outubro de 2004 e José Sócrates é eleito líder do PS. A 9 de Outubro, Armando Vara regressa à direcção do partido pela mão de Sócrates. A 20 de Fevereiro de 2005, o PS vence as legislativas com maioria absoluta. A 2 de Agosto de 2005, há mudanças na Caixa Geral de Depósitos: Teixeira dos Santos afasta Vítor Martins e Vara integra o “novo” conselho de administração. A maioria dos membros desse conselho é afecta ao PS.Carlos Lopes

    Avancemos no tempo. Grande plano. No primeiro semestre de 2007, a Caixa financia accionistas hostis ao conselho de administração em funções no BCP.

    Cresce o peso do banco do Estado no maior banco privado português. Vara e Santos Ferreira são incluídos em lista concorrente nas eleições para o conselho executivo. O jornais falam no financiamento da Caixa ao empresário Manuel Fino que apoia Santos Ferreira:

    «A garantia desses financiamentos é feita em primeira linha com os títulos adquiridos com os fundos emprestados, sendo, nalguns casos, reforçada com outros activos de menor volatilidade.

    Estas operações foram aprovadas pelo Conselho Alargado de Crédito da Caixa formado por cinco administradores: Carlos Santos Ferreira, o então CEO, o seu vice, Maldonado Gonelha, Armando Vara, Celeste Cardona e Francisco Bandeira.

    […]

    “Este grupo de investidores tem vindo a reforçar a sua presença no BCP, o que lhes têm assegurado uma palavra a dizer no combate que se trava pelo controlo do poder no maior banco privado português. Actualmente, no quadro da assembleia geral de accionistas de 15 de Janeiro, todos eles subscreveram a lista que Santos Ferreira e Vara candidatam ao conselho de administração executivo (CAE). Admite-se ainda que Manuel Fino (que apoia Santos Ferreira) tenha igualmente financiamento da CGD.”

    A 15 de Janeiro de 2008, Armando Vara é eleito vice-presidente do BCP. Segundo documento divulgado pelo próprio banco ficam a seu cargo os pelouros executivos mais relevantes: (i) Rede Corporate; (ii) Rede Empresas; (iii) Factoring e Leasing; (iv) Marketing de Empresas; (v) Aprovisionamento, Património; (vi) Desinvestimento de Activos; (vii) Fundação BCP; (viii) Millennium Moçambique. Ou seja, Armando Vara coloca-se precisamente no coração dos movimentos de créditos, dívidas, compras e vendas de acções e activos. No centro do fluxo de todos os interesses e todas as influências.

    Chegados aqui, com os actores certos nos papéis certos nas duas maiores instituições de crédito nacionais (CGD e BCP), tudo se torna possível. O primeiro golpe foi concluído. Começou então o segundo.

    Acto 2. Com as possibilidades que o controlo do BCP oferece, o recém-chegado grupo Ongoing, que entretanto adquirira o Diário Económico e já tinha uma posição no Grupo Impresa (SIC, Expresso, etc), é financiado para novas acções.

    Com o grupo Ongoing: José Eduardo Moniz sai da TVI e controla-se a Media Capital, depois de uma tentativa de aquisição pela PT abortada pelo Presidente e pela oposição.

    Em Fevereiro de 2009 torna-se possível ajudar o empresário Manuel Fino a aliviar os problemas financeiros (em parte criados pelo reforço da posição no BCP) junto da CGD prestando uma dação em pagamento com acções suas valorizadas cerca de 25% acima do preço de cotação e com opção de recompra a seu favor.

    Torna-se também possível ajudar o «amigo Oliveira» a resolver os problemas financeiros do seu grupo de media (Diário de Notícias, TSF, Jornal de Notícias).

    Tudo factos do domínio público que muitos a seu tempo denunciaram. Sócrates respondia com a cassete familiar: “Quem tem procurado debilitar os órgãos de supervisão, lançando críticas à sua actuação no BCP, está a fazer ‘política baixa'”.

    Política baixa, diz ele. Estamos perto do fim desta operação bem montada. Sócrates ganhou de novo as eleições. Mas este encadeamento todo precisava de confirmação. Incrivelmente, nas escutas a Armando Vara no caso “Face Oculta” eis que surge a arma do “crime” libertando fumo: “O primeiro-ministro e o ‘vice’ do BCP falaram sobre as dívidas do empresário Joaquim Oliveira, da Global Notícias, bem como sobre a necessidade de encontrar uma solução para o ‘amigo Joaquim’. Uma das soluções abordadas foi a eventual entrada da Ongoing, do empresário Nuno Vasconcellos, no capital do grupo. Para as autoridades, estas conversas poderiam configurar o crime de tráfico de influências.”

    Escutas nulas, disse o Supremo. Os factos, meus amigos, é que não são.

    A 15 de Janeiro de 2008, Armando Vara é eleito vice-presidente do BCP.”

    (Para o caso de não saberes, pode ter escapado ai na agência, é o artigo de ontem do Pedro Lomba no Público. Bem sei que o Pedro Lomba é um reles escarro, digo já para te poupar a escrever mais vezes os insultos habituais a todos os que poem em causa quem te paga o ordenado, Valupi).

  3. aires, toma lá outro.
    __

    jdias, essa história do ordenado que me pagam interessa-me muito. Quanto é e onde é que posso ir buscar a massa?

  4. Carmen Maria
    Todos fazem prognósticos como Armando Vara foi parar à Caixa geral de Depósitos e ao BCP. Gostava de saber como Manuela Ferreira Leite entrou no Satander? Seria pelos seus lindos olhos ou a sua formosura? Acho que não. Mas por algo foi.

  5. Manuel Pacheco,

    Tenho muito respeito pelo seu comentário, até porque me parece oportuno na sequencia dos comentarios feitos pelo JDias. Agora o que me parece é que não é que não devo ser eu a responder, mas sim o Jdias.

  6. É a 2ª vez que envio este comentário.
    Sou de opinião que um ministro, ou qualquer quadro superior, quando cessa funções num governo qualquer, tem duas situações a seguir. A primeira é munir-se de uma boa quantia roubada, seja a quem for, para fazer face à sua vida futura, ou dar um tiro na cabeça porque não lhe resta vida para além da sua governação. Estamos num País em que tudo é desleal e duvidoso, só nós é que somos sérios, os nossos adversários são todos corruptos e oportunistas. Se fossemos todos honestos com as nossas obrigações éramos o povo mais feliz à face da terra.
    Temos que viver com aquilo que temos. Fico admirado por ainda haver alguém que se sujeita a ter que levar com certo tipo de comentários. Acho que temos mais olho que barriga. Há quem diga que somos um povo obeso. Nestes casos acho que não.

  7. Manuel,

    Quando diz que temos de viver com aquilo que temos, creio que que está a reduzir a condição humana a quase nada.

    Se está errado, temos de mudar aquilo que temos (e aqui o temos significa cada um e de acordo com a sua dimensão). O contrario é a paralesia.

  8. Carmen Maria
    Essa frase é Mário Soares, referida num assunto quase idêntico. Que solução para essas pessoas? O deserto, largados no alto mar, lavagem ao cérebro ou ao cuidado de Pacheco Pereira, para as educar?

  9. Manuel Pacheco,

    a d. manela foi para o santander, porque enquanto ministra das finanças no governo de durão barroso arranjou maneira de dar um benefício fiscal feito à medida, de cerca de um milhão de euros, ao Santander.
    Pouco mais de um ano depois, e antes de terem decorrido os três anos previstos pela lei, zarpa para o cargo de administradora não executiva do Santander, onde passa a ganhar cerca de 83.000 euros anualmente.

    Claro que neste caso ninguem escutou nada, ninguém falou de nada. O Público noticiou a coisa como se estivesse a noticiar o tempo…

  10. Claro Val, CUMPRA-SE A LEI! Acho que é isto que todos devemos gritar até ensurdecer os responsáveis por esta desavergonhada velhacaria de fuga do segredo de justiça! Sinceramente, considero que é tempo de a sociedade civil exigir que a “limpeza contra a corrupção” comece já pelo Ministério Público, pela Policia Judiciária e pela Magistratura Judicial! A continuar assim…pressinto maus tempos para a nossa democracia…!

  11. jdias, nãããã…. Isso não é fumo, são gases. Então o Moniz não só adorou a tramóia como a seguir aceita cargos de responsabilidade na Ongoing? Então o Faria de Oliveira, ministro de Cavaco Silva, como presidente da CGD pactua com a chicana toda e ainda permite empréstimos subversivos? Olhe, sabe o que lhe digo? Ou o Pedro Lomba é um tontinho, ou está na palhaçada. Podia-se ter lembrado de dizer, por exemplo, que no caminho da CGD para o BCP, o Vara deu um pulinho a Londres para obrigar o Brown a pressionar o Serious Fraud Office para encerrar e arquivar o caso Freeport. Assim, esse objectivo teria sido conseguido, mas com a contrapartida do governo português e toda a nossa estrutura diplomática enveredarem todos os esforços para mandar o Constâncio para o BCE com o fito de desvalorizar o euro face à libra. Está a ver os custos elevadíssimos para o país e para a União Europeia, não é? Muito mais se poderia dizer sobre um país varado pela paranóia transformada em actuação política e seria impensável que essa estratégia pudesse ter algo de positivo. Mas pemitir-nos dar umas boas gargalhadas não compensa todos os prejuízos que vai causando ao nível pessoal e das instituições.

  12. Ó meus amigossss, os outros serem desonestos ou ladrões torna-nos a nós honestos mesmo que mintamos com quantos dentes temos na boca e roubemos tudo o que podemos?

    Isso conforta-me imenso.

    Aliás fico para sempre neste blogue e nestas caixas de comentários.

  13. Sócrates continua a dizer que desconhecia negócio da TVI
    Publicado por JoaoMiranda em 13 Novembro, 2009

    Face Oculta: Sócrates mantém que desconhecia negócios da TVI e acusa “Sol” de o insultar

    José Sócrates reagiu a essa notícia com palavras duras: “Isso não passa de um insulto desse jornal, que não dá uma notícia, mas faz um insulto. Mantenho tudo o que disse no Parlamento e não tenho nada a acrescentar”, declarou o líder do executivo.

    Segundo Sócrates, nem ele, “nem o Governo, tinham qualquer conhecimento oficial, nem nenhuma informação prévia de nenhuma intenção empresarial da PT”.

    “Isso é completamente inverdadeiro. Não é verdade o que diz esse jornal e classifico isso apenas como um insulto”, insistiu.

    Note-se a escolha das palavras: “conhecimento oficial” em vez de simplesmente “conhecimento”, “inverdadeiro” em vez de “falso”, “não é verdade” em vez de “é mentira”.

  14. sou forçada a dar razão aqui ao jdias e outros que têm demosntrado o carácter maquiavélico (no mau sentido) de Sócrates. como alguém aqui disse, ele é o patrão da máfia! E já chegou a Inglaterra, obrigou a polícia a encerrar o caso freeport e tudo. Um escândalo!

  15. oh jdias, pá. terias subido um ppm na minha consideração se fizesses copy&paste do correio da manhã em vez do lomba e do miranda (será que esse gajo faz alguma coisa em biotecnologia?). puxa lá pela tua cabecinha já que eles o não fazem: com que então o grande satã do sócrates com o seu braço longo, conseguiu que a administração opus-dei do bcp fizesse aquela porcaria toda aquando a opa ao bpi, com a consequente zanga daquelas comadres, só para deitar a mão ao banco. não te passa pela cabeça que os accionistas (entre os quais me incluo) tivessem aproveitado o desmando completo em que o banco caiu, com o conselho geral em guerra aberta com o ceo (lembras-te, oh dias?) para finalmente darem um pontapé no cú áqueles tachistas (sabes que a actual aministração ganhas, toda ela!, menos que qualquer um dos administradores da opus dei). a tese do lomba foi a que consta do livro o filipe pinhal, um dos opus-dei (andam estes comentadores da treta, bem pagos (quem diria?), a tomarem por crónicas excertos de livros já publicados (com copyright)). vá, jdias, quando estiveres em contacto com esses novos valores da direita rasca, vê lá se te contam efectivamente os casos julgados em justiça, tipo o financiamente ilegal da somague ao ppd. foram só uns 400 mil (mas deu para a somague açambarcar grande parte das construções dos estádios do euro 2004 , tornar-se por isso a maior construtora nacional e logo em seguida ser vendida aos espanhóis da sacyr por bom preço, deixando a família vaz guedes coma a guita garantida para várias gerações).

    pois é, val, a filha-da-putice voltou outra vez em grande. os actores da justiça, com raras excepções, continuam a manobrar para despachar o sócrates. já temos o desplante de ver na sicn o josé luís arnault, essa eminência parda, a comentar assuntos em segredo de justiça, ele que foi o primeiro responsável pelo caso somague/ppd. a intentona palaciana está em marcha, como bem dizes. resta-nos lutar….

  16. Não, jdias. É a sua postura que lhe contamina a razão. Os responsáveis das instituições e das empresas deste país não são todos corruptos e não está em causa que toda a corrupção e compadrio devem ser combatidos.

    Os objectivos da tão pretensamente popular (até lhe chamam de Verdade!) política de permanente suspeição que é bandeira da oposição, à falta de ideias e da senilidade das que propõem para desenvolver o país, são, abreviando, dois: quem não estiver comigo é corrupto (incluindo a justiça) e à angelical oposição (toda) só resta recorrer a uma comunicação social justiceira (comunicação social e afins) e a uma luta política pessoalizada que utiliza o abastardamento de carácter de cada um.

    Só que nessas circunstâncias já não existe país e muito menos existe estado de direito e tudo isto não passaria dos restos de um navio à deriva onde só subsistem os ratos que se alimentam dos excrementos das larvas que lhe vão roendo o casco. E é ainda mais triste que os mentores de tão brilhante ideia ainda se querem fazer passar de benditas aves que sobrevoam os destroços como que a anunciar terra à vista.

    Pessoalmente, recuso-me a participar nesse filme e a escolher livremente ser doente paranóico e obcecado. Do mal, o menos, antes chamarem-me de carneiro. Pode ser que me calhe um pastor, um cão de guarda e quem sabe até um lobo de vez em quando para adicionar alguma adrenalina ao dia a dia.

  17. O Armando Vara há muito que devia ter ido à vida. Não se guarda em casa um bicho desses. Digo eu, sem provas, só pelo cheiro. Mas o meu nariz já pensava assim há muito, não é de agora.

  18. Realmente nada melhor para abrilhantar o debate do que um comentador de ceroulas e barrete, lanterna numa mão e caçadeira na outra.

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