“Contra a corrupção, a desgraça da Nação” – Edição Sonae

O Público é uma caixa de Petri onde se pode estudar com detalhe o desenvolvimento bacteriológico do populismo jornaleiro, todo ele de ideologia direitola por razões conjunturais e contextuais: o eleitorado prefere o PS, a actual direita é alérgica às ideias e tem nojo dos ideais, e o histórico bloqueio de décadas à esquerda desapareceu em 2015. Em consequência, o extenso domínio mediático da direita é usado de forma orgânica e inorgânica em rebaldaria, numa cacofonia de manada onde o tema da “corrupção” permite a políticos impotentes, jornalistas ressabiados e comentadores rancorosos estarem permanentemente a atiçar o pânico moral onde diabolizam e criminalizam os adversários. A direita portuguesa mais vocal e influente está hoje reduzida à concepção da política como guerra civil em que os inimigos têm de ser destruídos e o solo que pisaram salgado.

O populismo jornaleiro é básico e para básicos. Usa as técnicas ancestrais da calúnia, já denunciadas na terra que inventou a democracia séculos antes de uma virgem dar à luz num palheiro, e aplica-lhes os instrumentos sensacionalistas contemporâneos à disposição. O resultado é uma narrativa literalmente estupidificante para uma audiência que mistura fanáticos e broncos carentes de demagogia que lhes dê um sentimento de presença e pertença. Passar o dia a teclar em caixas de comentários ou redes sociais permite essa participação numa socialização estimulante porque imediata, simples e fácil no modo como se insultam uns aos outros sem perigo nem consequências. Não há nada de errado com a dinâmica, o único problema reside nos conteúdos à volta dos quais gravitam e vegetam. No caso do Público, um jornal que se considera a si próprio como sendo “de referência” e no qual escrevem alguns dos nossos melhores (or so they say) nas diferentes áreas respectivas, o que se serve nas suas páginas é degradante, vexante, para a salubridade política e cívica da comunidade.

Exemplos:

«A ideia de que o Governo mexe na Justiça sempre que a Justiça o incomoda está instalada e abala inexoravelmente a garantia de que o equilíbrio de poderes é uma pedra angular do regime. Pode não ser verdade, mas numa sociedade aberta não se pode correr o risco de deixar que as percepções contaminem a confiança dos cidadãos. É o que está a acontecer. Hoje, como noutros momentos, a ameaça de Jorge Coelho volta a fazer sentido: quem se meter com o PS leva.»

Quem se meter com o PS leva?

Na promessa institucional, estamos a ler um editorial de um jornal preocupado em informar – e formar – os seus leitores no trato dos principais assuntos que interessam à sociedade, tendo para tal a preocupação deontológica de ser educativo, equilibrado e elevado. Na prática, quem o lê papa um panfleto sectário que pretende atiçar a irracionalidade populista recorrendo à chicana. O editorialista lava as mãos como Pilatos, não faz ideia se é verdadeira a acusação de ser António Costa e Francisca Van Dunem os cabecilhas de uma organização dedicada à alta e colossal corrupção, mas, muito pelo sim e quase nada pelo não, na dúvida que tanto jeito lhe dá soltar, toca de alimentar essa percepção em nome, minha nossa senhora do Caravaggio, de ser uma percepção que ele contribui para fazer crescer e reproduzir-se com o poder do meio de comunicação onde lhe pagam para isso mesmo. Toda uma ecologia da calúnia com a chancela de Manuel Carvalho, portanto.

«Mas se de António Costa podemos esperar cada vez menos, a pergunta que se impõe é: onde está Marcelo? O que anda ele a fazer? Que utilidade dá à sua popularidade estratosférica? O Presidente da República foi cúmplice no afastamento de Joana Marques Vidal, foi cúmplice na nomeação de Mário Centeno para o Banco de Portugal e volta a ser cúmplice no pontapé nos fundilhos do presidente do Tribunal de Contas. [...} O contínuo apodrecimento do regime democrático português é um trabalho que está a ser feito a quatro mãos.»

O regime está podre — e Marcelo é cúmplice

Joana Marques Vidal não deixou de ser procuradora-geral da República em 2018 por se respeitar o mesmo critério de mandato único aplicado a Pinto Monteiro e Souto Moura após os 16 infelizes anos de Cunha Rodrigues. Não, nada disso. Como Cavaco Silva e Passos Coelho declararam na ocasião, substituir a procuradora-geral que estes dois magníficos estadistas tinham escolhido, e que tão bons e extasiantes frutos lhes tinha dado, só podia ser explicável através de uma intenção criminosa por parte de Costa e Marcelo. Isto foi assim mesmo afirmado às claras por um ex-Presidente da República e por um ex-primeiro-ministro a respeito de um primeiro-ministro e de um Presidente da República, sem escândalo algum. Como se fosse normal, aceitável, inevitável ver mergulhar na mais sórdida e escabrosa calúnia o topo da hierarquia do Estado pela intervenção pública do ex-topo da hierarquia do Estado. Ora, não custa a adivinhar para que lado da polémica tende o imaculado coração do João Miguel. E, nessa lógica, não surpreende vê-lo em 2020 a repetir o que o seu ídolo e o seu chefe histórico disseram e mandaram dizer. O que espanta, ou então não, é ter apanhado a partir de Janeiro de 2019, ainda o cadáver da santa Joana não tinha arrefecido, o mesmo João Miguel rutilante de vaidade – e mérito – por ter sido escolhido por um corrupto do calibre do Marcelo para ser o representante oficial do regime podre no feriado que supinamente o celebra num festival de podridão. É que custa um bocado a acreditar que o soberbo jornalista de Portalegre tivesse tido uma branca quando recebeu o telefonema do Marcelo, a qual só lhe teria passado quando acabou de vender os livrinhos com aquele discurso que levantou e regenerou a Nação. Enfim, que sabemos nós dos insondáveis labirintos e esconsas moradas da alma humana? Seja como for, temos de nos render e concordar: poucas vezes o regime pareceu tão podre como no dia 10 de Junho de 2019.

«Todos sabemos que, com a chegada dos milhares de milhões de euros que vão ser despejados, no nosso país, pela União Europeia, a corrupção vai crescer. Toda a gente sabe - pelo menos, agora - que a corrupção, no nosso país, não poupa nenhum sector de actividade ou profissão. É um problema cultural com séculos de existência e que tem sido tratado sempre com excessiva parcimónia pelo poder político.»

Um problema nacional com séculos de existência

O Chico Mota é um advogado famoso e de famosos, um craque do Direito e um paladino da luta contra a corrupção que dá gosto ver. Tendo uma coluna de opinião para encher semanalmente, seria de esperar que ao longo dos longos anos de teclagem já tivesse servido aos leitores uma mão cheia de dados objectivos sobre a realidade da corrupção em Portugal. Alguma matéria de facto que lhe sustentasse a cruzada para além do que vai buscar à indústria da calúnia. Acontece o contrário, como se pode voltar a constatar neste artigo. O título é de uma ambição homérica, a tese de que a corrupção é um problema português cuja causalidade radica talvez na qualidade da água ou na criação da pêra-rocha (o autor nada desvenda a esse respeito, nem sequer revela em que século começámos a ser corruptos, embora desconfie que terá sido logo com Minuros, Audas e Ditalco, aqueles bacanos que traíram Viriato). Os números que foi buscar dizem respeito à elevadíssima percepção de existir corrupção que os portugueses expressam em inquéritos, os tais portugueses que são bombardeados há anos pelo sensacionalismo e as campanhas negras cuja cassete é a da ubiquidade da corrupção, por um lado, e ainda os números das sanções por crimes de corrupção, pelo outro. Como estes últimos parecem ao aquilino Chico Mota muito baixos na comparação com os números da percepção, percepção essa que ele e o seu jornal vão engordando com afinco diário, a sua solução mágica consiste em mandar o Estado de direito para o galheiro e passar a admitir a delação premiada. Já pensaram nas montanhas de cabeçalhos, parangonas e artigos encharcados em fervor anticorrupção que a chibaria não iria gerar abraçada aos justiceiros? Pois é, o Chico Mota é um granda craque, ainda chega a ministro do Passos quando este gigante regressar à Pátria para nos salvar dos corruptos.

«É evidentemente errado - e pior do que errado, perigoso - o discurso que alega que a corrupção é endémica e generalizada. Mas é também errada - e perigosa - a desvalorização da preocupação coletiva com a transparência, a responsabilização e a prestação de contas por parte dos políticos, e a integridade dos sistemas de fiscalização e controle.»

O podre está regime

Estive quase a tornar-me fã do Rui Tavares. Aconteceu ao acreditar que o homem estava realmente a denunciar como perigosos o Manuel Carvalho, o João Miguel Tavares e o Francisco Teixeira da Mota, ali de peito cheio no meio da arena do jornal. Afinal, não passou de um sonho lindo pois na frase seguinte aparece a falsa equivalência do “ambos os lados”, a qual tem sido usada amiúde por branqueadores de actos de violência racista, nazi e nacionalista. Pelos vistos, este historiador conhece alguém que desvaloriza não sei quê e não sei que mais. Para grande pena nossa, não escreve os seus nomes, pois teria graça conhecer quem são esses taralhoucos. Ficamos só com a certeza de ser pessoal muito útil para despachar uma falácia ao gosto dos colegas de redacção mais dados ao melindre, director do jornal que lhe paga à cabeça desse grupo. Talvez um dia o Rui venha a conhecer alguém que valorize a “preocupação colectiva com a transparência, a responsabilização e a prestação de contas por parte dos políticos, e a integridade dos sistemas de fiscalização e controle” e, em simultâneo, que esse alguém, singular ou colectivo, seja absolutamente intolerante com aqueles que violam o Estado de direito democrático e fazem da pulhice a sua única estratégia política e ainda um modelo de negócio. Talvez. Afinal, estas aves raras andam por aí, embora compreenda que sejam muito mais difíceis de avistar nas instalações do Público.

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Conclusão: no pasquim da Sonae, uma frase dita de improviso, saída da cabeça excitada do patusco Jorge Coelho no meio de um comício no Algarve, em 2001, serve ao director para insinuar de boca cheia, em editorial, ser o PS um partido cuja vocação principal é a corrupção. Que falta é que nos faz este tipo de imprensa? Em que tipo de país estes gajos imaginam estar para esperarem fazer dinheiro com o que não passa de jornalismo de, e para, decadentes?

6 thoughts on ““Contra a corrupção, a desgraça da Nação” – Edição Sonae”

  1. Aqui há uns anos, numa panca doce, deu-me para passar noites a fio de gravador em punho, encostado a paredes, esquinas e árvores, registando para memória futura cantorias infindáveis de melros que encantavam as ruas perto de mim. Sarah McCoy foi melro que nessas andanças nunca topei, mas o encantamento, recente, é o mesmo. O maravilhamento idem. Aqui fica, para desenjoar de filhos da puta e recuperar alguma fé na espécie humana:

    https://youtu.be/8bmWg_ZkO1o

    https://youtu.be/Uavys_AN9K8

  2. Nem de propósito, Sarah McCoy tem uma peça apenas instrumental, composta e tocada por ela ao piano, sobre a morte de um melro. Consigo ver o bichinho a agarrar-se à vida e depois a cambalear e exalar o último suspiro.

    https://youtu.be/LLuS7Q7orHw

  3. Oh Camacho !
    Queres alguma gravação de melros de bico amarelo ? Aviso já: são insuportáveis, principalmente as de um melro pequenino,de óculos. ..

  4. Chevy, a que melro te referes? Será ao meia-dose conhecido na tasca do Balsemão por “Minion que Conta” ou coisa parecida, que costuma piar aos sábados ou domingos? Se é esse, sugiro-te um curso acelerado de Ornitologia, pois aquilo não é melro. Trata-se de um híbrido de gralha e periquito com o sonho impossível de, quando for grande, se transformar em águia. Para isso falta-lhe, porém, envergadura de asa, já que ele voar até voa, mas, tal como o crocodilo do KGB, voa baixinho. Se alguma metamorfose ornitológica algum dia sofrer será, quando muito, para microabutre.

  5. Contra a corrupção.
    A desgraça da nação é uma aplicação.
    Mas também pactua.
    Com o uso de máscara na rua.
    E se formos a ver bem.
    A culpa está em São Bento e também está em Belém.

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