Conhecer o passado para compreender o presente

O pensamento de Machiavelli, como vemos, é o contrário daquilo que tem sido pejorativamente acusado de ser; e a exploração que tiranos e ditadores fizeram dele não passa de uma depravação criminosa da sua nobreza intrínseca, da sua coerência empírica, da sua dignidade fundamental. Sob este último aspecto, o prestígio e a admiração que entidades politicamente vis tributaram à obra do autor de Belfagor, não só assenta numa interpretação parcial de uma parte dessa obra, que é Il Principe, como manifesta que Machiavelli foi, não menos que outros pensadores e até que muitos santos, vítima da sua própria honestidade intelectual. É perigosíssimo, para a integridade de um pensamento, que este analise em voz alta aquilo que, em voz baixa e a ocultas, todos pressentem e praticam. Imediatamente, a ambivalência moral daqueles que nada pretendem revelar das suas maquinações, se apodera desse pensamento, depravando-lhe os aspectos sórdidos que, como a vida, todo o pensamento autêntico se não abstém de conter, e clamando contra eles, em nome de uma pureza e de uma limpidez de intenções, que não existem como tal, senão da esfera das mistificações ideológicas. Machiavelli, que desmascarara essas mistificações, reduzindo-as à escala humana a que pertencem, tornou-se, pois, a imagem de um maquiavelismo, condenado pelos que o praticam e praticado pelos que o condenam… Neste sentido, o maquiavelismo é mais velho do que Machiavelli; mas, no sentido que vimos defendendo, é muito mais moderno do que ele próprio, cidadão de uma Itália dilacerada e submetida, poderia ter sido. Nós hoje sabemos que a unidade das pátrias não é um fim em si mesmo. A Machiavelli, porém, ao autor do Príncipe como dos Discorsi, devemos a primeira consciência de que a única medida do homem político é o próprio homem, com a sua humanidade tão contraditória, para a realização da qual, a sua dignidade e a sua miséria, a sua nobreza e o seu aviltamento, a sua luz e a sua sombra, umas e outras entram ao mesmo título, com os mesmos direitos e os mesmos deveres. Como ninguém antes dele, Machiavelli foi o primeiro a declarar que o bem e o mal não têm sentido na vida sócio-política, se forem abstractamente dissociados; foi o primeiro a denunciar que a pureza de intenções é capaz de todos os crimes, exactamente como as intenções ínvias são capazes dos mais nobres actos; o primeiro, em suma, a apontar que são a reflexão e a experiência das acções humanas que possibilitam ultrapassar a antinomia entre o pensamento e a acção, sintetizando, na transformação da realidade política, a noção corajosa de que o mal é apenas o bem que não soube, ou não quis, cumprir as suas promessas.

Jorge de Sena, Maquiavel e Outros Estudos, pp. 47-48, 1974 [1958-1968]

4 thoughts on “Conhecer o passado para compreender o presente”

  1. deixa cá ver se acertei na notícia, às tantas pode ler-se como verdade, na ordem dos factos,

    viva os mosaicos!

    sou gamado em mosaicos de paisagem, aqui é paisagem política,

    quanto ao Maquiavel coitado, era uma espécie de embaixador itinerante da Senhoria, e lá, tal como cá, demoravam muito pagar, e ele até passou fome, mais do que uma vez. O que vale é que o Leonardo era um bom amigo e emprestava-lhe dinheiro nas horas difíceis. Mas O Principe é um monumento intelectual, e progressista na época, embora com efeitos perversos inevitáveis na crueza dos tempos,

    Viva o Da Vinci!

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