Como lidar com os talibãs do laranjal?

Carlos Abreu Amorim e Vieira da Silva estiveram juntos no Política Mesmo do passado dia 23. Um resumo possível, organizado pela TVI24, está aqui: “PS não aprendeu nada com as opções que nos levaram à bancarrota”. Nele vemos o Abreu a passar a cassete que começou a ser tocada diariamente em 2012, a qual só mudará quando mudar a liderança do PSD. Um pouco abaixo na página, podemos aceder à resposta do seu interlocutor. Infelizmente, o programa inteiro não se encontra disponível, apenas esse dois fragmentos em vídeo.

Um outro resumo possível é o que vou fazer recorrendo à memória. De um lado, temos um profissional da retórica em versão baixa política. Para cumprir o seu papel, apenas precisa de ser trapaceiro, condição em que a sua formação de jurista dá muito jeito. Do outro lado, temos um servidor do Estado e um crente no bem comum. Para cumprir o seu papel, não se pode guiar por sofismas porque está genuinamente interessado no progresso social, condição onde a sua formação de economista fornece a base e o horizonte da sua praxis.

Vamos recapitular, clarificar e enfatizar este primeiro ponto em análise: Carlos Abreu Amorim concebe a política como uma técnica sofística onde vale tudo para enganar o eleitor, e esta afirmação pode ser demonstrada sem esforço; José Vieira da Silva concebe a política como a arte da boa governação, onde há critérios de honestidade intelectual a guiarem a argumentação, e esta afirmação pode ser demonstrada sem esforço. Um serve-se da democracia para promover a sua carreira, o outro serve-se da sua carreira para promover a democracia. Quem tiver dúvidas, que ponha o dedo no ar.

Saltemos para uma parte do debate onde o Abreu justificou as mentiras de Passos na campanha eleitoral de 2011 dizendo que elas saíram daquela boca santa antes da assinatura do resgate. O Pedro terá sido apanhado de surpresa pelo que o Catroga disse ter sido um triunfo do PSD junto da Troika, e ainda com o que o próprio Pedro disse quando se vangloriou de não haver diferenças entre o Memorando e o programa do PSD. O facto de o ex-apoiante da Nova Democracia se sentir à-vontade para gozar com o público desta maneira, sem temer ouvir as sirenes da ambulância que o levaria numa camisa-de-forças para o hospício mais perto, é um retrato fiel do estado decadente da direita portuguesa. A isto respondeu Vieira da Silva recordando uma a uma quais tinham sido as metas estabelecidas por Vítor Gaspar no começo da legislatura – portanto, aparentemente, já na posse das informações constantes no Memorando – e de como todas tinham falhado. Todas. Retorquiu de imediato o Abreu apontando para as condições externas. A culpa era dos outros, da estranja. Ocasião para o socialista espetar o ferro: “Então, porque não reconhece também ao Governo anterior a existência de causas externas na origem dos problemas por que passou?…” O Abreu não estava para aí virado, só estava com ânimo para abandalhar o debate. E voltou a passar a cassete, agora num tom mais alto, indiferente a ter acabado de ser exposto como um tratante.

Como é que se lida com a desonestidade intelectual em ambiente de alta pressão como acontece nos debates políticos? A tendência natural, normal, e aquilo que nos cansamos de ver, é a reacção de tentar impedir que o adversário tenha a palavra ou consiga ser ouvido, acabando em algazarra. Infelizmente, esta é a mesmíssima táctica que usa quem faz da desonestidade intelectual o seu método. O resultado favorece o pulha pois impede o confronto de ideias. Assim aconteceu neste debate que analiso, apesar dos bons momentos de Vieira da Silva. Porém, teria sido muito melhor que o impulso emocional fosse dominado e se desse fio ao peixe. Ter deixado o Abreu explicar à sua maneira como é que o Governo de Passos falha tudo a que se propôs sem ter responsabilidade alguma e como é que Sócrates e os seus ministros foram responsáveis pela maior crise económica mundial dos últimos 70 anos, e ainda pela crise das dívidas soberanas na Europa, provocaria um momento de folclore político que, para além do seu valor lúdico, ficaria como uma preciosa lição de pedagogia cívica.

20 thoughts on “Como lidar com os talibãs do laranjal?”

  1. A direita em Portugal não existe. Há um bando de jotinhas de curso tirado em Lusíadas e Católicas, 3 ou 4 artistas de variedades que ganham a vida a entreter o povo com conversas ao serão, outros tantos maoistas arrependidos a penitenciar o seu passado escrevendo em jornais e os consultores comissionistas do desmantelamento da soberania económica e institucional. A sua única conviccção é dizer o que pensam que não os fará afastar do pote. Quem é verdadeiramente de direita, em Portugal, não tem em quem votar.

  2. Esse cara não tem nível. Para quê gastar cera com tão ruim defunto ?
    Recordo que, aquando de uma greve, em que um deputado do Bloco de Esquerda foi importunado pela polícia, ele e o líder parlamentar do CDS, PROTAGONIZARAM UM DOS MOMENTOS MAIS INSÓLITOS QUE JAMAIS PENSEI VIR A ASSISTIR. Comportaram-se como dois deputados da ANP, para quem não sabe, Acção Nacional Popular, a sucessora da UN de Salazar.

    E faz (em) porque o coiso parlamentar do CDS alinha pela mesma bitola, acusações aos outros, mesmo depois de Passos Coelho, ter afirmado no discurso de tomada de posse, que o que interessava era o futuro, e que, portanto, não fariam acusações em relação ao governo anterior.

  3. gosto de pensar, porque quero, que são uma minoria em extinção. vai daí deixá-los escavar até à cova com animosidade fazendo-nos, ao mesmo tempo, dar gargalhadas de espanto parece-me bem. :-)

  4. Creio que há ainda muita gente que ainda não aprendeu que a democracia não é debater com toda a gente. Que a TVI ache que o CAA é alguém que serve para um debate, está no seu direito. Que o Vieira da Silva o aceite, é uma infantilidade, pois a sua honestidade intelectual nunca lhe permitirá usar as mesmas armas, daí a forte possibilidade de o debate se poder transformar num espectáculo de circo, e toda a gente sabe como o Zé Pagode adora palhaços.

  5. “gosto de pensar, porque quero, que são uma minoria em extinção.”
    uih… uih… há bués, começaram a sair agora da clandestinidade e a dizer o que lhes vai na alma, mas ainda existe algum receio em afirmarem-se fascistas, daí venderem o peixe em nome da democracia, liberdade e caridade social.

    “vai daí deixá-los escavar até à cova com animosidade fazendo-nos, ao mesmo tempo, dar gargalhadas de espanto parece-me bem. :-)”
    há quem goste de dar gargalhadas quando está a ser enrabado.

  6. Se o 44 tivesse estudado na Católica ou na Lusíada, não tinha sido apanhado. O tipo preferiu a via do fax, esqueceu-se de mencionar que o fax era confidencial, e que era domingo, quando todos estão a coçar a preguiça mas sempre dispostos a ver o que os outros andam a fazer. IGNARALHOS, calem-se.

  7. Infelizmente, o PS parece ainda não ter percebido que não é possível lidar com esterco sem sujar as mãos. A Direita em Portugal é a mais cobarde e mesquinha das forças políticas. É a encarnação do pior que existe na sociedade portuguesa. Cobardes, porque se recusam sistematicamente a revelar as suas verdadeiras intenções e objectivos. Mesquinhos, porque distorcem sistematicamente o debate político com recurso a mentiras descaradas e argumentos simplistas e caricaturais servidos com grandes doses de cinismo. É necessária uma revolta contra estes aprendizes de salazar que querem trazer de volta a pobreza, a obscuridade e o servilismo.

  8. acabei de ler no i que o duarte marque tirou 19,5 num exame a português

    “Tive 19,5 no exame nacional de Português. Sempre fui um excelente aluno.”

    Este não escreveu uma crónica no expresso que depois teve que ser corrigida??

  9. Pois JPFerra, e uma chatice quando se descobre que os outros nao sao tao burros quanto se pensa. O que terias sido tu na vida tivesses conseguido terminar o ensino basico obrigatorio.

  10. …e outros escolheram engenharia de casebres no âmbito do casario da beira baixa, tendo, posteriormente, por mérito próprio e perseverança na comunicação telepática, conseguido levar Portugal à Venezuela.

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