#com-pressa

Usar as primeiras semanas de Agosto para mostrar ao eleitorado o que dá para fazer com um suporte de comunicação que no século XIX já era considerado antigo, eis o que a Iniciativa Liberal conseguiu produzir para animar os jornalistas que nos ajudam a entender o quotidiano enquanto os seus colegas estão a banhos e passeios. A acção deu direito a aparecer nos jornais e nas televisões embrulhada em elogios. Mais um grande triunfo para a IL.

É facto que, na campanha para as Europeias, este ousado partido fez cartazes giríssimos, a anos-luz da concorrência quanto à sua qualidade, quanto à sua pugnacidade, quanto à sua tão sua. Se as minhas palavras a respeito não forem credíveis, basta ler o que os autores apregoam:

Nas Eleições Europeias fizemos uma das campanhas mais inovadoras e elogiadas dos últimos anos. Nas próximas pode ser…

Publicado por Iniciativa Liberal em Sábado, 27 de julho de 2019

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Alcançou tanta criatividade, brilhantismo, estupenda genialidade 8×3 alguma conquista política? Sim, claro, raios parta a pergunta a cheirar a socialismo. Por exemplo, tiveram mais 1898 votos do que o PCTP/MRPP, assim afastando esse monstro vermelho dos centros de poder na Europa e garantindo novo ciclo de liberdade para o Ocidente. E ficaram a uns míseros 139 382 votos de ultrapassarem o PAN e meterem o Arroja em Bruxelas; registe-se e compare-se com o Movimento Alternativa Socialista que para tal (mas sem a parte do magnífico Arroja) precisaria de 161 861 votos… Inchem, porcos socialistas!

Na verdade, acreditando no que dizem em público, é possível que este inovador partido não queira eleger ninguém. Talvez tudo se resuma a “dar que falar”, como publicitam para uma audiência de mediático-dependentes. Nesta hipótese, “chegar mais longe” significa tão-somente “dar mais que falar”. O ser-se falado ficaria como critério único da realização política deste grupo de cidadãos que parecem estar a lixar-se para as eleições. Daí pedirem dinheiro ao bom povo amante de um cartaz de arrebimbomalho logo pela fresca a caminho do trabalho, não andam a pedir dinheiro ao outro povo aborrecido que prefere partidos com ideias, soluções e projectos que digam respeito às actividades legislativas e executivas. Com mais pilim a IL irá fazer “outdoors” ainda mais espectaculares, uma coisa nunca vista, hipnótica. Em vez de política e de futebol vamos todos ter de andar a falar das brincadeiras dos liberais à portuguesa, e será impossível acabar com o palratório dada a espectacularidade das peças erguidas aqui e ali. Venha o carcanhol, portanto e rápido, pois este é o partido que se especializou em cartazes à beira da estrada.

Desfrute-se deste atordoante exemplo:

À cabeça, um golpe sofisticadíssimo de psicologia invertida. É inevitável tropeçarmos nesta técnica no YouTube quando se procura por “puto não quer comer a sopa” mas desafio a malta a descobrir um vídeo desses com um fundo azul tão bonito como o deste cartaz. Ah, pois é, bebé… o marketing político desta gente está muito acima do que se fez por cá nos últimos 200 anos a mando dos socialistas. Num país sem socialistas, a IL poderia ter ficado apenas pelo cabeçalho, um homérico “NÃO VOTES INICIATIVA LIBERAL” a ocupar toda a mancha disponível. Quem não é socialista de imediato percebe o que lhe estão a pedir e desata a correr para uma assembleia de voto. Todavia, com os socialistas as coisas são mais complicadas, precisamente por causa do socialismo que lhes foi colocado nos cérebros com uma seringa espetada atrás da orelha. O socialismo injectado chega aos neurónios em poucos segundos e bloqueia as sinapses, tornando as vítimas incapazes de reagir perante um espampanante “não” na via pública tal como reagem as crianças não contaminadas pelo socialismo. Daí o “subheadline” explicativo, no caso uma premissa ligada aos gostos dos socialistas e suas doenças ideológicas. Este complemento é igualmente uma manobra de psicologia invertida, levando o incauto socialista que chegue ao fim da leitura a ficar apanhado num vórtex de radicais inversões. Será que gosta de esperar meses por consultas? Não, acaba por admitir em esforço. Devo, então, não votar na Iniciativa Liberal, como o cartaz indica, pergunta-se o infeliz do socialista com temor e tremor depois da confissão inicial. Súbito, a epifania cartazista. Não ao não por causa do outro não que é afinal um sim mas ao contrário do seu próprio contrário, eis o percurso lógico construído pelos engenheiros das campanhas da IL para libertar o socialista do socialismo. Uma complexidade argumentativa nunca antes vista em cartazes por esse mundo fora mas necessária para lidar com a ruindade dos socialistas em Portugal.

A minha vizinha do 4º andar fez notar que a mensagem da IL não se compromete com nada. Nem com a diminuição do tempo de espera das consultas, nem com a manutenção do calendário aludido, nem com o seu aumento. Nada prometendo, nada têm de explicar. O mecanismo de persuasão é estritamente subjectivo, uma questão de falta de gosto. Não gostas de não sei quê, então dá cá o voto e fica caladinho. Querendo impressionar a minha vizinha, saquei de uma análise que faria a delícia de um vero liberal. Mostrei-lhe que a IL estava a ser discriminatória para com aqueles que gostam de esperar meses por uma consulta e que, contra as expectativas do senso comum e em nome da liberdade, ainda assim gostariam de votar neste avançadíssimo partido. Eleitores que agora ficaram oprimidos por um cartaz que lhes proíbe tal gostinho. Uma (provável) minoria desprezada pelos (supostos) herdeiros da filosofia política cuja essência é precisamente a defesa absoluta das minorias e da individualidade contra todas as formas de discriminação, contra as tiranias. Passámos o resto da noite a calcular o número dos atingidos pelo ostracismo em cartaz, fazendo contas aos pressupostos não desvendados – onze meses de espera, dois, algo pelo meio?; haveria variação de gosto por especialidade da consulta?; e se a consulta fosse para cravar um atestado médico daqueles que permite ficar em casa a sacar do belo sem fazer nenhum, a utopia do socialista português, quantos é que esperariam meses, e até anos, no maior contentamento tendo em conta o prémio em causa? Quando a aurora de rosáceos dedos nos separou estávamos exaustos e felizes. Afinal, era mesmo como a IL tinha dito. Apetecia ficar a botar discurso sobre os seus cartazes durante toda a eternidade e mais um quarto de hora.

Mas já chega de falar desse cartaz da IL, falemos antes deste:

Aqui temos a IL a escrever novos capítulos na história da propaganda política, neste caso inventando o que ficará conhecido como a “campanha do emplastro”. É só vantagens: não é preciso pensar em mensagens originais, não é preciso criar uma linguagem visual própria e distintiva da concorrência, nem sequer é preciso fritar os miolos à procura da localização mais vantajosa para as peças de comunicação. Para quê o gasto, em tempo e recursos, se os malandros dos socialistas já trataram de tudo? Pelo que só resta imitá-los, concluíram os crânios da IL mais vocacionados para a economia de esforço. Porém, e apesar da diabólica tentação para colocar um cartaz exactamente igual cuja única diferença seria um autocolante da IL pespegado na parte de trás da estrutura, era preciso introduzir algumas diferenças sob pena de serem apanhados a trabalhar para a duplicação dos cartazes socialistas. Que poderia ser? Tinha de ser algo que desse para rir, quanto a isso não havia dúvidas. Foi assim que chegaram a uma lista hilária: fantasma do nepotismo, flagelo dos fogos, doentes falecidos, aumento da riqueza e defesa do Estado. Como resistir à gargalhada? Quem é que se aguenta sem se cuspir e rebolar no chão agarrado à barriga com a imagem dos socialistas a chamar os primos para incendiar florestas e impedir os bombeiros de actuar, com a imagem dos socialistas a marcarem doentes em listas de espera para impedir que sejam tratados, com a imagem dos bravos da IL a recusarem receber impostos que resultam de haver menos desemprego e mais actividade económica, com a imagem dos heróicos liberais da libérrima IL a pedirem mais e melhores serviços públicos? Estamos perante um exercício de humor que, finalmente, supera a mortal “The Funniest Joke in the World” dos Monty Python. Genocídio da honestidade intelectual e da decência.

Esta acção posiciona a IL como uma jota. A sua menoridade e irresponsabilidade não é apenas assumida, é celebrada pelos próprios. Na pressa de quererem parecer adultos, o que apenas almejam colocar no espaço público é uma compressa que de imediato se ensopa na sangria intelectual e moral em que se encontra a decadente direita portuguesa.

7 thoughts on “#com-pressa”

  1. nada que admire vindo do Santana, Pelos vistos há quem goste, só porque, imagine-se, melindrou os malandros dos socialistas…

    E o Leitão Yo???

  2. qual Leitão? não sei quem é.
    mas tenho novidades…
    o governo está a dar formação aos gnr em filosofia,matemática e português para substituírem os profs na próxima guerra, greve, gaita.
    o lidl, o aldi , o leclerc e o mercadona espanhóis avisaram que é num instante que abastecem nuestros hermanos portugueses esfaimados . já têm as carroças prontas.
    a Espanha manda dizer que é já aqui ao lado e tem montes de bombas de gasolina-

  3. Não vem a propósito, Valupi, mas poderá servir para moderar a ingenuidade de que deste provas quando nos ofertaste, há alguns dias, aquele videozinho bêbêcêtóide cretinóide sobre ‘teorias da conspiração’, tudo indica que encomendado por pessoal do tipo de ‘famiglia’ aqui referenciado.

    https://youtu.be/ZqfAmgAeMqM

    Tudo bons rapazes.

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