8 thoughts on “Coisas que podem ser explicadas”

  1. Valupi: é urgente ler em “A Regra do Jogo”-de hoje dia 16-“Chicana não é falta de bom senso e Sócrates não é Kerensky” -A actual situação politico-partidária está ali escarrapachada com todas as letras e a cereja (vermelhinha) a enfeitar o bolo. É, de facto ,das melhores análizes dos últimos tempos.Desculpa ter vindo por aqui, mas foi o que se arranjou.

  2. Conheço o Sal

    Conheço o sal da tua pele seca
    depois que o estio se volveu inverno
    da carne repousando em suor nocturno.

    Conheço o sal do leite que bebemos
    quando das bocas se estreitavam lábios
    e o coração no sexo palpitava.

    Conheço o sal dos teus cabelos negros
    ou louros ou cinzentos que se enrolam
    neste dormir de brilhos azulados.

    Conheço o sal que resta em minha mãos
    como nas praias o perfume fica
    quando a maré desceu e se retrai.

    Conheço o sal da tua boca, o sal
    da tua língua, o sal de teus mamilos,
    e o da cintura se encurvando de ancas.

    A todo o sal conheço que é só teu,
    ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
    um cristalino pó de amantes enlaçados.

    Beijo

    Um beijo em lábios é que se demora
    e tremem no abrir-se a dentes línguas
    tão penetrantes quanto línguas podem.
    Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
    para de encher-se ao que se mova nela.
    É dentes se apertando delicados.
    É língua que na boca se agitando
    irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
    e sobretudo o que se oculta em sombras
    e nos recantos em cabelos vive.
    É beijo tudo o que de lábios seja
    quanto de lábios se deseja.

    O corpo não espera. Não. Por nós
    ou pelo amor. Este pousar de mãos,
    tão reticente e que interroga a sós
    a tépida secura acetinada,
    a que palpita por adivinhada
    em solitários movimentos vãos;
    este pousar em que não estamos nós,
    mas uma sêde, uma memória, tudo
    o que sabemos de tocar desnudo
    o corpo que não espera; este pousar
    que não conhece, nada vê, nem nada
    ousa temer no seu temor agudo…

    Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
    quando um de nós ou quando o amor chegou.

    Jorge de Sena

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