Cineterapia

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The Sun Shines Bright_John Ford

É um filme que mereceu, à data em que escrevo, seis comentários no IMDB. Se cruzarmos esse epifenómeno com a informação de estarmos perante o filme preferido de John Ford, percebemos que uma parte fundamental da História do cinema repousa esquecida nesta hora e meia de pretos e brancos.

Tinha 120 filmes de idade. 59 anos de casmurrice e insolência. Tratava mal todo e qualquer que deixasse entrar na sua intimidade. E por isso cuidava deles. Orson Welles declarava-se discípulo. Truffaut e Godard ainda só rabiscavam em cadernos. Onde grafavam a palavra “auteur”. O mundo vivia a única década feliz do século XX. Hollywood preparava-se para fechar a fábrica de estrelas. E Ford fez um fracasso comercial que não tem ponta por onde se lhe pegue, por ser um todo indivisível. Estamos em 1953.

O que é uma pessoa? É aquele agregado molecular que sobrepõe a comunidade à lei, que escolhe o ideal em vez da comunidade, que elege o sentimento em prejuízo do ideal. É inevitavelmente um ser paradoxal, cadinho de contradições, aberração da lógica binária. Porque a vida não é lógica, nem sensata, nem piedosa. A vida é uma merda, e são as pessoas que a limpam.

Este filme ensina-nos a nunca confiar na palavra de um cão. Só por isso, estava justificada a invenção do cinema.

7 thoughts on “Cineterapia”

  1. Este confesso que nunca vi (como dizes, ele fez carradas de filmes). Mas alguns dos meus preferidos são dele. Inclusive o meu preferido, aquele filme que realmente nunca me canso de ver: The Quiet Man. Fora disso pelo-me pelo My Darling Clementine, The Man who shot Liberty Valance, How Green was my Valley e The Grapes of Wrath. Não é muito original, é certo, mas que se há-de fazer…

  2. Valupi,

    Excelente post, mesmo se só tivesses dito que “a vida é uma merda, e são as pessoas que a limpam”. Grande realizador, o que prova que gostar de rapazes e raparigas ao mesmo tempo não afecta muito os poderes de expressão dum artista. Não me lembro, mas é possivel que tenha visto o filme quando era catraio, provavelmente numa terça-feira à noite na cinemateca local, comendo as castanhas assadas da ordem.

  3. José Tim: pela parte que me toca, estou eternamente grato pelas tuas gentis palavras. Fiquei com vontade de te apertar as nádegas, enquanto mergulho a minha língua na tua boca imunda.

    (Faço minha a primeira frase da Bomba. Não vou descansar enquanto não vir esse filme, Valupi.)

  4. João Pedro, por pudor não o deixei à vista, mas uma parte do que escrevi é para ti. Aquela que escolheste.

    E calo. Voltarei aqui mais tarde.

  5. João André, também eu não me canso de rever The Quiet Man, talvez em segundo lugar na minha hierarquia fordiana. Maureen O’Hara nunca me pareceu tão bela como nesse filme. Ou a Irlanda.

    É tudo majestoso em Ford, paisagens e almas. Também revejo com frequência o “ciclo da cavalaria”. Idealismo a cavalo, encanta-me.

    Bomba, desconhecia esse gosto duplo. Donde te veio a informação? (just curious, not necessarily bi-curious)

    Luís Oliveira, obrigado, meu caro.

  6. Valupi,

    Dá um salto ao NNDB.com se quizeres confirmação com uma opinião autobiográfica da Maureen. Alem de que isso já tinha sido motivo numa conversa onde entrei tomando chá na cantina do Pinewwood Studios aqui há vários anos, onde tambem veio à baila o desmedido comprimento do aparelho respiratório do Liam Neeson, causador de muitos problemas às raparigas do department “wardrobe” quando necessitavam tirar medidas para as calças justas que o homem por vezes tinha de envergar. Fico a pensar se isso teria pesado muito na decisão do monte de mulheres famosas, incluindo a Streisand , a Brooke Shields e a miss Roberts, que romperem com ele. A dor nunca anda muito longe do amor.

    E como gostas muito do Homem Tranquilo, talvez te interesse saber que a Maureen partiu um dedo a dar uma bofetada no Marion, durante as filmagens. Pelo menos foi o que aqui há tempos li como curiosidade num jornal.

    Gosto dos teus posts cinéfilos. Mete mais. Mas não concordo com tudo. A Maureen estava muito mais bela no Sindbad, com o Fairbanks e o Quinn. Que sorvete gostoso.

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