Cineterapia

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Her_Spike Jonze

Descoroçoante. Por exemplo. Ler figuras gradas da crítica cinéfila a colocarem no centro da análise a esta obra a temática da inteligência artificial e da tecnologia é descoroçoante. É não ter coração, pois.

Her. Um filme que gastou 23 milhões de dólares, ou 20 milhões de euros, ou 4 milhões de contos, ou não, para ajudar o espectador a perceber uma história. É a história da pessoa que escreve cartas em nome de outras pessoas. Isto é muito importante. Muito. Porque é assim que começa e acaba o filme. Numa carta de amor. Para ela.

Ela, quem?

Spike Jonze tinha razão. Era preciso ajudar o espectador. Na cena em que a Samantha se instala na vida do Theodore todo o cuidado foi posto na explicação de que se estava a olhar para uma brincadeira. Aquilo do computador e no computador não passava do artifício lúdico, obscenamente infantil, esforçadamente tosco, esperançosamente lateral, para se conseguir falar dela. Só que ela não é a Samantha, nem a Scarlett, e ainda menos a IA.

A meio do filme, Paul diz a Theodore: You are part man and part woman. Like there’s an inner part that’s woman. Muito o Spike ajudou o espectador. Tal como o Jonze, incansável. E a cena do piquenique, ui.

Theodore escreve cartas de amor por encomenda. Finge ser o outro. Finge conhecer o outro do outro. Finge tão completamente que chega a fingir ser outro amor o amor outro que deveras sente.

Ela?

Chaterine gostou dele até à loucura. Ele gostou dela feito louco. Foram felizes. Agora, logicamente, vão divorciar-se. Já só falta assinarem os papéis. Essa carta.

Porque o amor. Vê lá se percebes. O amor. Não pode ser isso de gostarmos de quem gosta de nós como nós gostaríamos que gostassem de nós. Isso pode ser a felicidade. Não pode é ser o amor. Vê lá se percebes. O amor.

Como o retrato retrata, foi pedido ao actor para fechar os olhos enquanto a câmara o transformava na personagem que rodopia em êxtase. Ele agarrado a ela. Aquela que só se vê se fecharmos os olhos. E ficarmos tontos. Tontos por darmos tanta volta sem sairmos do lugar.

Ela será ela?

Samantha foi-se embora. É uma pessoa. É uma inteligência natural. As pessoas vão-se embora. Com naturalidade. Samantha. Deixou uma carta inescritível. Nela está revelado o segredo do amor. Parece que o amor não cabe nos livros. Mas espera por nós no espaço entre as palavras. Eis uma informação especialmente útil para aqueles que escrevem cartas.

Catherine. Perdoa-me. Só agora te amo. Não queria que crescesses. Não queria crescer. Crescer é partir. É um abandono. E só acontece quando nos livramos daquela parte de nós que não passa de uma voz maquinante. Aquela parte que finge seres tu. Que te mascara. Minha personagem.

Ela.

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(sons entre as palavras)

2 thoughts on “Cineterapia”

  1. hei-de contrariar esse minimalismo até ao fim dos meus dias – essa coisa já histórica de amor ser incompatível com felicidade. hei-de conseguir escrever uma carta ou duas ou três todos os dias a quem eu a puder dar também com olhos e inteligência e molho de paixão. hei-de derrubar a literatura derrotista e o cinema ensaiado. hei-de. hei-de cumprir-me perante o incumprimento descansado do mundo. e há-de querer deitar-se comigo, esse amor diferente e desigual. o único.

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