Chamem a polícia

Acontece com as crises de regime, porque são espectáculos globais em directo, o mesmo que acontece com a utilização dos computadores: de cada vez que ficam mais rápidos, reduz-se a nossa tolerância à demora com que obedecem aos comandos. Acabamos por sentir a mesma impaciência, ou até uma maior do que a anterior, pois estamos convencidos de que é desta que vamos ter direito à instantaneidade.

O fluxo da atenção concentrado nas imagens e estímulos afectivos que consumimos acriticamente, cuja lógica mediática é a manutenção da ansiedade ou a glorificação do putativo vencedor, distorce os factos: não os que observamos no ecrã, mas aqueles que nos rodeiam. Os mortos e feridos do nosso quotidiano, na violência doméstica ou na estrada, não nos incomodam, muito menos nos comprometemos com alguma tentativa de solução, prevenção ou consolo. Já a exibição televisiva ou relatada da força contra os justos, ou aqueles que escolhemos como vítimas, convoca a nossa indignação e alarme. Queremos ser parte desse espectáculo na exacta medida em que tal participação for impossível. É um género, gostamos do que nos faz sentir a nosso respeito.

Na Líbia não há praças rituais nem romarias. Segundo a crescente sintonia dos testemunhos, há guerra civil. É provável que não seja a última que o Mundo vai produzir, mas esta em poucos dias já gerou um consenso que até Khadafi aceitaria se conseguisse acalmar: têm de ser os Estados Unidos a resolver o assunto – e milhares de milhões preparam-se para aplaudir a execução do bandido, morto em legítima defesa pelas forças da ordem.

9 thoughts on “Chamem a polícia”

  1. isso da participação impossível não dá comigo: ainda ontem dei todo o dinheiro que tinha na carteira (não era muito mas o suficiente para uma refeição quentinha) e um abraço e dois beijinhos a uma velhinha que estava sentada ao pé de uma árvore a pedir. (e não sei se ela é bandida mas gosto de combater nas guerras civis) :-)

  2. Rebusquei em todos os bolsos mas não consegui encontrar esse consenso que anda por aí parido de que terão de ser os teus amiguinhos vespucianos a resolver os problemas, ó Valupi. Mas não perdi tudo no esforço da pesquisa pelas vielas e esconderijos do meu Armani porque encontrei uma beata e estou neste momento, muito feliz, a fumá-la. E tens razão, o homem é um bandido e feio que nem um bode. Mas, conselho: não confundas esta revolta com as revoluções do costume.

    Sinhã,

    Eu sempre pensei que fosses uma Dolores Ibarruri de convento, mas nunca to disse porque sou um homem muito envergonhado. De qualquer modo, comoveste-me. Bem hajas, Passionária du trottoir.

  3. É natural este apelo aos americanos. Por enquanto, ainda são os únicos que metem algum respeito. Por outro lado, bem sabemos que os americanos são especialistas em equilibrar o trapézio: de um lado da balança temos o petróleo, do outro temos as liberdades, democracia, estado de direiro, etc. etc. E convenhamos que um tal imbróglio não é fácil de gerir. Bem sabemos que os americanos são sábios e experimentados nestas coisas de corda bamba – veja-se o que se passa com a gestão do conflito israleo-palestiniano, por exemplo. Mas há uma coisa incontornável: o Kadafi, rei de bandidos, autor directo e indirecto de vários atentados na Europa, foi perdoado, desculpado, tolerado e condescendido pelos americanos, no seu afã de apaziguar pecados e ofensas por si cometidos no mundo árabe e muçulmano. Agora que o aturem…

  4. o que é isso de Dolores Ibarriri de convento, e porquê, kalimatanos?? e também não percebo porque te comoveste – sentiste-te, de alguma forma, espada civil? :-)

  5. Não quiz dizer nada de mal, Sinhã, apenas que és uma revolucionária de bom coração e que cometes as tuas louváveis acções enquanto passeias. Mellhor que isto só a medalha que te daria de boa vontade se fosse Presidente. Quel dommage!

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