Cavalos cansados

O inacreditável engano de Marcelo, ao atribuir ao Governo PS a decisão de cortar metade do subsídio de Natal em 2011, é espectacular por se tratar de assunto tão recente e tão glosado. Foi Sócrates quem avisou que uma vitória do PSD nas legislativas levaria a saques desse calibre, foi Passos quem jurou que tal alerta não passava de um disparate, foi o Governo PSD quem invocou um colossal buraco nas contas que nunca ninguém chegou a perceber para o justificar, foi Gaspar quem reconheceu que o corte foi uma tonteira face à obtenção de receitas com a transferência do fundo de pensões da banca em 2011, foi qualquer um que o quisesse ver que viu a dimensão das mentiras da campanha eleitoral do PSD e a incompetência do Executivo numa altura especialmente crítica para o País.

Para agravar, e mesmo alarmar, o discurso de Marcelo não foi de improviso. Ele preparou com alguma antecedência a sua rábula, fosse apenas na hora anterior a ter entrado no estúdio ou ao longo da semana. Foi assim que chegou ao sound bite da “fórmula Sócrates” que lhe serviu para um exercício de pura desonestidade intelectual. Temos de agradecer à Judite e ao seu entorpecimento cognitivo ou deontológico não o ter interrompido mais cedo pois assim pudemos ser testemunhas de uma involuntária experiência laboratorial: Marcelo expôs o modus faciendi que rege as suas intervenções públicas, neste caso antecipando que Passos vai mesmo escolher o corte de um subsídio em 2013 que atingirá todos por igual e começando já a espalhar que o culpado é Sócrates, o qual pelo seu delirado precedente validado pelo Tribunal Constitucional obrigaria o pobre Passos a abdicar de alternativas muito mais justas e menos penosas.

Marcelo não estava a mentir quanto aos factos, atente-se; estava genuinamente convencido da história que contava e onde pela enésima vez gozava com o pagode, por isso ficou completamente perdido quando a Judite lhe sugeriu que ele podia estar a sonhar acordado. A sua expressão facial foi tão patética que desperta a comiseração. Eis alguém a precisar de ajuda. Talvez essa seja a explicação para o completo apagamento do sucedido na imprensa, a qual enigmaticamente não relata o episódio. Mas Marcelo não teve na sua paixão socrática o único momento de fragilidade intelectual. Também ao referir-se a Louçã como futuro candidato presidencial foi crua a manipulação: para Marcelo, ter Louçã numa corrida presidencial é óptimo pois fragmenta a esquerda e favorece o candidato da direita – quiçá, o próprio. Ora, ninguém dá um chavo para a presença do Anacleto numa corrida presidencial, onde estaria condenado a uma derrota humilhante para a sua megalomania. Já a ida para o Parlamento Europeu é o que parece beneficiar o BE em todas as frentes, com o bónus de permitir a Louçã afastar-se o suficiente para dizer que não estorva a nova liderança, e, ao mesmo tempo, ter espaço de manobra para intervir na política nacional sempre que lhe apeteça, coisa de que ele precisa para conviver em paz com os seus cada vez mais notórios traços paranóicos.

Em suma, estamos a assistir em directo à decadência de figuras que têm condicionado o espaço público e o regime ao longo de décadas. Elas agarram-se firmemente aos privilégios adquiridos e não querem abandonar o poder nem sequer quando o mero bom senso a tal aconselharia na forma de uma evidência. A continuada presença de Marcelo como artista de vaudeville político pode dizer muito a seu respeito, sejam as capacidades enquanto comunicador ou analista, mas diz muito mais de nós. Comemos o que nos põem na mesa e aplaudimos famintos ou apáticos a chegada da sopa dos cavalos cansados.

8 thoughts on “Cavalos cansados”

  1. Foram muito minutos, demasiados minutos até surgir a correcção à mentira mas a mentira, inteira e balofa, já estava no ar… E há maloios que acreditam.

  2. O que nos engana, parece seduzir-nos.
    Platão in República.

    Não é evidente quando o vigarista vai a nossa casa impingir um qualquer “conto do vigário”, que é com palavras melosas-artificiais e modos mui educados, estudados e ensaiados, estilo altos funcionários jurídico-advogados que nos tentam vender o seu “produto”?

    Pois é o que faz o Marcelo e também usando a repetição do “slogan” para que o pagode leitor do cm fixe e vá depois atirar à cara de outros mais uma pulhice socrática. repare-se que no minuto que apresenta a “formula Sócrates” nomeia o nome de Sócrates 8 vezes 8, quando estava em causa a explicação de como pc deveria cortar para colmatar a decisão do TC.
    Tudo bem visto, o assunto fora e estava previsto para tirar um efeito de “ofuscação” ao tirar da cartola “a formula Sócrates”e, com tal passo de magia, ao mesmo tempo que imputava ao outro a maldade do invento, tudo era fácil ao papagaio papaguear sobre a formula passos, afinal uma continuação do que fora já feito e, ainda por cima uma fórmula mais benigna segundo o papagaio marcelo.
    Este espécime é o exemplo acabado de lacrau a quem é impossível fugir à sua natureza.

  3. Como todas as fraudes e charlatões desta vida, Marcelo abusou da manipulação e mentira descaradas, de tal forma que construiu para si mesmo uma realidade paralela, para a qual prontamente se mudou de malas e bagagens.
    Ele está bem por lá. Por mim pode continuar por lá. Bonito vai ser quando perceber que está sozinho a falar para as paredes.

  4. Será um trabalho interessante: comparar as manchetes de segunda-feira, nos últimos anos, retiradas da lição dominical do Prof. Marcelo, com o silêncio envergonhado na semana em que registou um dos seus mais eloquentes momentos televisivos.

  5. Tá tralharouco, sim. Trapaceiro, trapalheiro e trapalhouco. Efeito da senilidade e também da (des)memória selectiva, que passa destas rasteiras aos fala-baratos manipuladores.

    Mas ele revela-se sobretudo, como sempre, desonesto.

    Marcelo diz que dá a mão à palmatória, mas não dá.

    Tenta vários truques desesperados para disfarçar a cavalada e torcer o pescoço à verdade. Sim, não foi o governo de Sócrates o autor do corte no subsídio, mas o PS apoiou-o. Isto é, o PS não apoiou, mas foi “complacente”. Quer dizer, não apoiou, mas podia ter apoiado. “Se não foste tu foi o teu pai”, dizia o lobo da fábula ao carneiro.

    A medida que, sendo da autoria de Sócrates, era auma herança negativa deixada ao governo do Coelho, tornou-se, sendo da autoria do Coelho, numa medida que “não era má”. E não era má, principalmente, porque não era de Sócrates. “Nem era de Sócrates, nem era má”. Andou muito perto de culpar Sócrates por não ter tomado essa medida de salvação nacional. O erro não foi de Marcelo, mas sim de Sócrates, por omissão de lesa-pátria.

    Quando finalmente reconhece o equívoco, remexe os papéis que tem à sua frente na mesa, como a tentar alijar responsabilidades na papelada ou em quem a preparou.

    Patético. Sinistro. Meteria dó se não metesse nojo.

  6. Concordo com a generalidade do seu post excepto quando escreve “…que lhe serviu para um exercício de pura desonestidade intelectual.”

    Na minha opinião é “pura desonestidade”. Só.

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