Cavaco, Passos e Portas = Cocó, Ranheta e Facada

Até 5 de Junho de 2011, Passos, Portas e Cavaco repetiram que a crise portuguesa se devia à natureza maligna de um homem e à corrupção endémica de um partido. No Mundo existiam apenas abalozinhos, na Europa apenas castigos justíssimos para quem andou a gastar à tripa-forra. Afastar esse homem, derrotar esse partido, eis quanto bastaria para devolver Portugal aos bons costumes, de caminho salvando a economia e espalhando a prosperidade. Bloquistas e comunistas alinharam com entusiasmo neste plano, perfilhando o diagnóstico da situação.

Isto é muita gente junta, né? Muita gente que sabia estar a mentir alarvemente e que mentiu sem o mínimo peso na consciência, pois para eles a política consiste tão-somente no vale tudo para chegar ao poder. A parte em que a esquerda pura e verdadeira se alia conscientemente à pior direita que já apareceu em Portugal após o 25 de Abril ficará para teses de mestrado em sociologia e veterinária, pois não merece que se perca mais tempo com tão alucinados imbecis. Mais frutuosa é a reflexão acerca daqueles eleitores da direita e do centro, tantos, que sabiam estar a enganar ou a serem enganados, que viam a capacidade de Sócrates e do PS para defenderem o País em várias frentes, que constatavam a miséria moral e intelectual dos dirigentes do PSD e do CDS, que entendiam ser o contexto internacional a causa das recentes dificuldades e que, mesmo assim, foram cúmplices do derrube de Portugal. Tantos desses tantos estão hoje muito pior do que há dois anos – as suas famílias, amigos e colegas igualmente atingidos – e assistem mudos à devastação espalhada pelos traidores que levaram ao colo.

Cavaco, Portas e Passos são coerentes. Em Março de 2011, afrontaram Merkel, Durão e BCE porque para eles estava na hora da golpada final. O preço que os portugueses iam pagar pela sua oligárquica ambição era apenas um dano colateral; e daqueles lá muito ao fundo, atingindo uns milhões de tipos que eles não conhecem nem querem conhecer. Tudo o resto seria ganho, especialmente a parte em que viriam uns senhores estrangeiros meter medo aos indígenas. Agora, em Julho de 2013, coerentes é o que são. Voltam a pôr a Europa em estado de sítio, causam prejuízos colossais nas finanças e na economia e preparam-se para deixar o País em ruínas. O exemplo da fuga de Gaspar, num acto que define a essência mesma da falta de patriotismo e que rivaliza com a vilania de Barroso, é um monumento à decadência da direita portuguesa.

Infelizmente, tragicamente, o regime democrático depende do PS e só do PS. É pouco, é curto, mas sempre é melhor do que o nada suicida que o cerca e persegue.

13 thoughts on “Cavaco, Passos e Portas = Cocó, Ranheta e Facada”

  1. Reconhecendo que este PS de Seguro não é o mesmo PS de Sócrates, reconhecendo que este PS de Seguro escolheu um líder sem chama e sem ideias, pergunto-lhe, Val:
    Eleições antecipadas? Seguro primeiro-ministro? O actual PS é a luz ao fundo do túnel?

  2. “Eleições antecipadas?” quanto mais depressa, melhor.

    “Seguro primeiro-ministro?” enquanto houver cavaco & troika, tanto faz, será sempre terceiro ou quarto

    “O actual PS é a luz ao fundo do túnel?” é preferível a anedota do cintilante dias a escavar na horizontal que o poços coelho na vertical

  3. Pessoalmente também tenho muitas duvidas sobre eleições antecipadas, com o Tó Zé no PS. É mais do mesmo – certo, pior que agora não será , mas…. -.
    Creio haver outras soluções. Tenho , também , muitas dúvidas que o senhor Silva as queira patrocinar. Aliás, acredito mesmo que uma das hipóteses que o senhor Silva coloca é manobrar para mostrar que a situação está “estabilizada” e alegando um qualquer problema de saúde, se demita….Seria substituído pela Presidenta da AR até às eleições para PR e o governo ficaria com rédea solta….e tudo bateria certo…. Creio ser um cenário a seguir. É que, depois de ver no Coliseu, um porco a andar de bicicleta, já nada me admira. Só cá por coisas…

  4. Tss, tss, tss,

    “Infelizmente, tragicamente, o regime democrático depende exclusivamente do PS”.

    Não é do PS, o que é impreciso e vago, mas de Dom José Sebastiocrates. Sejamos rigorosos.

    E não é apenas “o regime democratico”, é o mundo inteiro, que digo, o Universo, tudo o que participa do Ser Resplandescente que nasce eternamente, afastando as trevas.

    Numa altura de crise como esta, não podemos ser tibios.

    Boas

  5. aquilo que mais impressiona é a assimetria entre os foguetes que se deitaram em março de 2011, quando os juros da dívida foram por aí acima após a crise política desencadeada com o chumbo do pec4, e a angústia e o medo quando ontem, com a presente crise política, os juros da dívida foram também por aí acima. reacções tão díspares, tão opostas para a mesma coisa: o vislumbre do resgate financeiro. isto vê-se muito bem no jornal de negócios mas também na troupe comentadeira da televisão. val, com a tua pena bem esgalhada, podias escrever algo sobre isto.

  6. Começo a pensar que isto foi tudo “encenado” pelos 3 “estarolas” – Passos, Cavaco e Portas… para que o 2º resgate venha “sem ondas”…. assim o novo resgate não é culpa da péssima e criminosa governação mas sim das “crises internas” na coligação….estão a entender? Agora ficam todos “amigos” outra vez, e o “colateral” será o 2º resgate….

  7. “O [nosso] regime democrático depende exclusivamente do PS” – eis um tipo de exagero manifestamente exagerado.

    O nosso regime democrático depende fundamentalmente dos valores políticos do PS e de todas as pessoas que os partilham, mas não exclusivamente, muito menos principalmente, do aparelho do PS e da sua atual liderança, eis o que seria quanto a mim uma síntese justa, equilibrada e frutífera.

    Cuidado com as imitações…

  8. O regime democrático depender do PS não diz respeito à actual ou passadas lideranças, remete é para os valores que constituem o partido e que se expressam pelas decisões de todos os militantes e simpatizantes.

  9. Ok. Então digamos que o essencial do regime democrático depende do PS, sim, mas temos que incluír no campo da Democracia muitos outros vultos de todos os Partidos, de lés-a-lés do espectro ideológico, desde Adriano Moreira a Garcia Pereira (só para mencionar pesos-pesados).

    Sem este devido reconhecimento, a Democracia não se expande, nem frutifica, antes afunila-se e estiola.

  10. Concordo consigo Val. Tenho no entanto serias duvidas quanto ao PS de Seguro.
    È um PS que não conheço, parece nascido de geração espontanea, sem passado, sem presente e que futuro??? A alma, o entusiasmo, as ideias, os valores, a luta… estão onde??
    Mas concordo consigo.

  11. O Casimiro, obviamente, o campo da democracia engloba e compreende inúmeras personalidades, das mais distintas e até contrastantes ideologias e mundovisões. Mas o contexto da minha alusão ao PS é o sistema partidário. Aí, os restantes partidos têm revelado a sua irresponsabilidade para com os fundamentos do regime democrático: a justiça e a decência.
    __

    Maria, o PS de Seguro continua a ser o PS. É um partido cheio de talentos para a governação. E Seguro é apenas um indivíduo, o qual, mais tarde ou mais cedo, irá desaparecer de cena.

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