Catarina Martins já é primeira-ministra mas ainda não fomos avisados

«Finalmente, o melhor que pode acontecer ao Governo, numa situação difícil, é ser confrontado com uma pressão forte, seja da negociação sindical, seja da negociação governamental, para se poderem abrir novas portas. Se um governo minoritário não procurar acordos, por entender que tem um poder absoluto por atribuição cósmica, então será o pior risco para si próprio. Cinco anos depois, a habituação pode criar a ilusão de que a exibição do poder é o poder.»

Louçã, 2020

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«Rejeitar o PEC IV é o princípio da saída da crise.»

Louçã, 2011

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Louçã explicou que o BE esteve em negociações com o Governo como se também fosse Governo – Negociar como um sindicato ou como um governo? Num exercício displicente e desbocado, postula que agora – no meio de uma pandemia – é a melhor altura para fragilizar um Governo de esquerda, o qual vai mesmo tomar decisões que afectam a saúde e segurança de milhões de pessoas tenha o apoio parlamentar que tiver. Há que pôr um pauzinho na engrenagem em nome de um Governo fictício de uma outra esquerda que só existe na cobiça alucinada do Anacleto e restantes irresponsáveis do BE que optaram por saltar para fora do barco. Irresponsáveis porque mostraram que não se importam nada de acrescentar dificuldades às que já existem apenas para poderem exibir as imaculadas mãos sem mancha de pecado.

A forma como Louçã termina o texto, parágrafo citado acima, é um monumento à sua hipocrisia, ao seu cinismo e à sua megalomania. Repare-se:

– “o melhor que pode acontecer ao Governo, numa situação difícil, é ser confrontado com uma pressão forte” – Estamos no reino da abstracção, o Governo aparece como entidade solitária que esgota o seu sentido e consequências no confronto com outras forças políticas opositoras e rivais. A tese é a dos negociadores implacáveis, que fez a história do capitalismo: apertar mais com eles quando eles estiverem mais fracos.

– “para se poderem abrir novas portas” – Por que razão temos de abrir novas portas? Só por serem novas? E se as novas portas forem piores do que as portas já oleadas e moldadas pelo uso? Esta lógica de o novo ser melhor do que aquilo que seja corrente, sem se mostrar porquê ou se é viável, só satisfaz o proprietário ou vendedor das tais novas portas publicitadas.

– “Se um governo minoritário não procurar acordos, por entender que tem um poder absoluto por atribuição cósmica, então será o pior risco para si próprio.” – O Governo procurou o acordo com o BE até ao último minuto da última hora, fazendo sucessivas concessões. E o BE recusou porque se acha na posse de um poder absoluto por atribuição cósmica, o poder de se substituir ao Governo em nome dos cálculos eleitorais de curto prazo. A denúncia do “risco para si próprio” fica como projecção e auto-profecia.

– “Cinco anos depois, a habituação pode criar a ilusão de que a exibição do poder é o poder.” – Louçã aguentou cinco anos de convergência parlamentar da esquerda e declara estar enfastiado, precisa de uma mudança de cenário para se voltar a sentir animado, sonhador. Esses falsos socialistas que se deixem de peneiras e ilusões, o poder não é a sua exibição. O poder que é poder, explica este marechal às tropas na parada e à assistência, consiste antes nisto que o BE acaba de fazer: deixar um Governo minoritário ainda mais fragilizado, a sangrar, à beira de ser apanhado pelas feras. Para Louçã, é simples e luminoso: já Chega!

Isto de um partido com 19 deputados se conceber como um Governo, e assim legitimar o boicote ao interesse dos que alega representar, merece ficar inscrito na memória dos eleitores. E igualmente merece uma curta reflexão. De facto, inquestionavelmente, incontornavelmente, evidentemente, as democracias directas só são viáveis em sociedades que não excedam pouquíssimos milhares, ou se calhar só centenas, de indivíduos em condições de participar em assembleias deliberativas. A civilização resolveu esse problema adaptando o ideal original para modelos de representação da soberania popular cada vez mais complexos à medida que aumentava a complexidade demográfica, económica, tecnológica e cultural das sociedades onde o liberalismo político cresceu em formato constitucional. Contudo, opta-se pela democracia em vez de outros sistemas para que haja Governos livremente eleitos, não para que haja Governos livremente impedidos de governar sem outra alternativa no quadro parlamentar. O argumento do BE, que Louçã assume sem vergonha ou aparente consciência da sua gravidade, levaria à impossibilidade de qualquer Governo minoritário chegar alguma vez a acordo com qualquer força política. E, a ser assim, as tiranias passariam a ser opções políticas mais inteligentes por uma mera questão de sobrevivência colectiva.

O BE não pretende esperar por uma vitória nas eleições para formar Governo, até porque ela poderá chegar só depois da morte térmica do Universo, aproveita-se antes da oportunidade oferecida pela fraqueza do actual Executivo para o tentar. A intenção golpista tem aqui um nome: parasitismo.

8 thoughts on “Catarina Martins já é primeira-ministra mas ainda não fomos avisados”

  1. “É possível enganar poucas pessoas por muito tempo ou muitas pessoas por pouco tempo. Mas não muitas pessoas por muito tempo. “- Abraham Lincoln

  2. … entretanto na dita CS começa a desenhar-se uma “promoção ” com lavagem de imagem a Durão Barroso. Estejamos atentos!

  3. Orçamento 2021
    Pois fiquem sabendo que foi tudo combinado entre todos:
    1 – O PS quer ganhar votos à direita e diz a Catarina que por agora não necessita dos votos dela. Entretanto vai falando prá direita que a geringonça acabou, que podem confiar nele.
    2- Catarina compreende a posição do PS e desata aos berros para que todos vejam que a geringonça acabou. Dá-lhe jeito porque poderá refilar durante todo o ano contra o negócio do BES (não refilou quando o negócio foi feito), e poderá continuar com a agenda fraturante (por exemplo criminalização do piropo). São dois refilanços que talvez lhe tragam mais militantes e mais votos nas próximas legislativas e autárquicas. O grande desígnio do BE é crescer!
    3- O PCP, que está em queda livre em votos e militantes, agarra-se ao PS com unhas e dentes, e grita “A Direita não passará”. Isto é; mais vale um pássaro na mão do que dois a voar. Longe vão os tempos em que o principal inimigo do PCP era o PS… Os camaradas têm ainda muito presente o resultado do chumbo do PEC IV…
    4- Rui Rio não está nem aí para se candidatar a Primeiro Ministro. O PSD só tem vocação para governar em tempo de vacas gordas (não em tempos de pandemias). Só sabe governar como por exemplo no tempo de Cavaco, quando o país recebeu 1.000.000.000 $ POR DIA A FUNDO PERDIDO. Algum povo português ainda julga que é possível voltar a esses tempos áureos, mas com dinheiro emprestado… A propósito: o que aconteceu ao partido Aliança? não tem andado por aí!
    5- O Chega está a tentar capitalizar a falência de algumas alas do PSD e de quase todo CDS. Por isso só se reúne com gente fina em restaurantes caros. Não faz comichão ao PS.

    É assim. Está tudo combinado…

  4. Não li o texto todo do Rabaça porque já vem do tempo dos tostões que não gasto um cêntimo com jornais no seguimento de ter deixado, há décadas, de gastar um tostão com a “bola”.
    Mas no fragmento transcrito está impresso todo o ideal do jovem pensador revolucionário marxista-trotskista que ainda impôe ao BE sob textos floreados de jogos de palavras que não a si próprio cada vez mais irmão político do “eixo” dos dependentes opinadores “sic-expresso”.
    Este pároco de aldeia que se julga papa, tal como o PRP-BR da Isabel do Carmo, continua sonhando apanhar e coleccionar os PS como fazem os coleccionadores de borboletas e finalmente, senhor de grande exército, impôr ao país o seu modelo governamental de “pressão forte” que faça abrir as “portas novas” que morreram de velhas em 1989.
    Claro que a ser como determina o Rabaça “as tiranias passariam a ser opções políticas mais inteligentes por uma mera questão de sobrevivência colectiva.” Mas não passariam a ser mas sim a parecer que seriam; seriam uma aparência de realidade, uma ilusão imposta.
    Pois foi isso mesmo que foi doutrinado por blogues como “Ladrões de Bicicletas”, “Politeia” e outos lugares de forma menos evidente; o êxito, quase instantâneo, dos chineses no combate ao covirus serviu a muitos comentadores como exemplo da superioridade e eficácia do regime chinês sobre a Europa e a democracia; contudo, também, o boneco chefe do regime da Coreia do Noite já veio declarar a mesma superioridade e, neste caso superioridade absoluta, pois no seu país nem um caso de covid ainda foi declarado; acerca desta grandiosa superioridade norte-coreana sobre a democracia europeia ainda ninguém por cá se veio manifestar; por ser obsceno, penso?
    O sonho do “grande partido” para tomar o poder continua sendo o ideal dos ideólogos dos rapazes e raparigas lisboetas e, embalados no sonho pelos Rabaças e DOs de esferográfica em riste, fazem força para que o mal pior desbrave e faça caminho enquanto não Chega.

  5. A História nacional desde o 25º de Abril tem sido, sempre, uma Desorientação governativa, à pala de derivas, falta de visão, excesso de desonestidade, pouca inteligência, claro estadistas, zero, solução só à Esquerda. :P:D

  6. O BE por ser “negociador implacável” é um partido capitalista? Valupi desconhece o conceito de dialectica marxista!
    Todo o texto é uma exibição de viés da confirmação da crença na malignidade do Bloco e na ingenuidade (burrice?) dos que nele votam: o “BE boicota o interesse dos que alega representar” e o fantástico “o Governo procurou o acordo com o BE até ao último minuto da última hora, fazendo sucessivas concessões” são exemplares.
    O único pauzinho na engrenagem do raciocínio de Valupi é a abstenção do PCP (os outros (ir)responsáveis nos chumbos dos PEC, não foi?) e consequente aprovação do OE. Perceber as acções, coordenadas, de PCP e BE é impossível? Não, apenas inconveniente: fica mais difícil vitimizar o PS! Valupi é pseudónimo de Calimero?

  7. Acho montes de piada a estes patetinhas que alinham com a Direita na diabolização do BE apenas por ter chumbado um Orçamento do Estado que não é o seu e usando as normalíssimas prerrogativas da Democracia.
    A estratégia da Direita é tão clara quanto pérfida: o OE do PS agrada-lhe, estava mortinha por que ele fosse aprovado, mas a cereja no topo do bolo seria a bênção do BE, para “entalar” os bloquistas. Puro calculismo sacana, bem estribado no megafone da comunicação social maciça, mercantil e propagandística, que nem a voz sábia e corajosa do Presidente da República hesitou em desconsiderar e abafar: “por menos do que isto o PSD já viabilizou Orçamentos de um Governo PS minoritário”…
    Qual quê, o valente PSD (e o Cêdêéssezinho) podem chumbar o Orçamento, porque ISSO já não tem o perigo de provocar uma crise política (já são tão inóquos, coitaditos…), nem correm o risco de alguém lhes chamar IRRESPONSÁVEIS, “porque mostraram que não se importam nada de acrescentar dificuldades às que já existem apenas para poderem exibir as imaculadas mãos sem mancha de pecado”. Ná, isso aí é só para a mulher-a-dias da Catarina Martins e os seus débeis mentais, irremediavelmente desqualificados pela “gente séria”!
    Pois bem, chafurdem lá nessa retórica patética, ao lado da generalidade dos mérdia nacionais, que quem vota no Bloco não passa cartão nenhum a argumentos tão “inteligentes” intelectualmente tão “honestos”…

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