Carlos Costa, o exemplo do mérito

A recondução de Carlos Costa como governador do Banco de Portugal é um justo prémio. E tem uma longa história. Começou a 27 de Setembro de 2009. Nessa data, os eleitores decidiram que o Parlamento não teria uma maioria de um só partido. O partido do Governo tentou formar uma coligação para o novo Executivo ou fazer um acordo parlamentar, mas ninguém na oposição aceitou o convite. Apesar disso, e sem ter feito qualquer pressão para se obter outro desfecho nem revelando qualquer incómodo com as consequências da situação, o Presidente da República deu posse a um novo Governo minoritário. Aqui, façamos uma pausa para imaginar as alternativas que tinha o PS nesse cenário. Caso se recusasse a governar em minoria, teria de ser marcado novo acto eleitoral. O tempo que tal levaria a preparar seria ocupado por um Governo sem qualquer legitimidade para governar para além das despesas correntes, e isto estando-se ainda a tentar sobreviver à maior crise económica global dos últimos 70 anos. A campanha seria feita sem a mínima certeza de se vir a obter uma maioria e a oposição repetiria a mesma cassete da eleição de Setembro, promoveria o mesmo sectarismo da recusa de estabilidade e agitaria a bandeira da irresponsabilidade contra aqueles que, tendo ganhado as eleições, se recusavam a respeitar o mandato popular por recusarem a democracia e só obedecerem à sua sede de um poder absoluto. Teria sido uma coisa linda de se ver, e tão mais linda quanto a Grécia estava mesmo aí a rebentar e o mundo a mudar.

A escolha de Carlos Costa veio em Abril de 2010, pela mão de um Governo socialista que já sobrevivia em modo PEC desde Março desse ano. Isto é, a Europa estava completamente à deriva, sem instrumentos formais nem vontade política para ajudar os países mais ameaçados pelo efeito dominó da crise grega. A Irlanda seria a próxima vítima, enquanto Portugal tinha uma claque interna que apostava todas as fichas no afundanço nacional. A lógica era simples: já que o Governo estava a ser cada vez mais pressionado pelos parceiros europeus para assumir medidas de austeridade, e posto que elas iam sendo realizadas, havia que dizer que esse caminho estava errado. Ao mesmo tempo, culpava-se o capitão do navio pela tempestade, martelando-se sem descanso na retórica da culpa. Figurões portugueses iam para o estrangeiro anunciar que o País não tinha condições para fugir ao resgate, dando o seu melhor para que os seus desejos se concretizassem. Cá dentro, qualquer dado que pudesse ser positivo para a imagem do Governo, nem que fosse dizer-se que Portugal tinha um clima temperado, era de imediato submergido pelo berreiro da legião do ódio que não suportava boas notícias.

É neste contexto que voltamos a ouvir falar de Carlos Costa. Porque este amigo lembrou-se de afirmar o seguinte:

Numa entrevista de sete páginas ao "Diário Económico", Carlos Costa confirmou: "Pode dizer-se que estamos em recessão económica. Espero manter a pressão sobre quem tem de decidir em matéria de finanças públicas."

O governador do Banco de Portugal pede "resultados claros de execução orçamental" para acalmar os mercados e aliviar os juros da dívida pública.

Fevereiro de 2011

Há nisto vários aspectos notáveis. Fevereiro de 2011 corresponde a um período crítico da execução do chamado PEC III, o tal que o PSD viabilizou adentro de uma palhaçada que até meteu fotografias tiradas com o telemóvel do Catroga. Estava em causa saber se os mercados mantinham o Governo ligado à máquina até haver sinais de recuperação, pelo que cada ida ao mercado era como a apresentação de uma moção de confiança. Assim, qualquer declaração de responsáveis públicos, para mais do Governador do Banco de Portugal, teria um grande impacto potencial na imprensa, no debate político e, inevitavelmente, na psicologia do mercado. Então, que terá levado Carlos Costa a mentir desta maneira tão contrária ao interesse nacional? É que é de uma mentira que estamos a falar, como de imediato Guilherme de Oliveira Martins veio explicar:

“Não se trata de uma questão de opinião, é uma questão técnica. Tecnicamente ainda não estamos em situação de recessão, mas o que gostaria de registar na opinião do senhor governador do Banco de Portugal é um aspecto positivo: dizer e acreditar que somos capazes de assumir as nossas responsabilidades e de sermos nós a resolver os problemas decorrentes da crise financeira e orçamental”, disse.

Fonte

Registe-se a letal ironia de Oliveira Martins, expondo a sonsa intenção boicotadora de Costa. Não estando Portugal em recessão, dizer que está só se pode explicar, a este nível de competência técnica e responsabilidade estatal, por uma agenda política onde essa mensagem apareça como um benefício. O benefício, ululantemente óbvio, não era o dos interesses portugueses, antes o dos interesses de alguns portugueses.

Que teria acontecido de especial, ou estaria para acontecer, de modo a justificar a espectacular manobra antipatriótica do Governador? Duas coisinhas: a reeleição de Cavaco, que definia o calendário para o derrube imediato de Sócrates, e a negociação que o Governo estava a fazer com a Europa para evitar o resgate, o famigerado PEC IV. Quem revisitar este período, vai encontrar uma intenção sistemática para assaltar o poder assim que Cavaco tivesse garantido a reeleição. Ter um Presidente da República chefe de facção era decisivo para o processo arriscadíssimo que se iria seguir assim que a direita conseguisse o apoio dos imbecis para abrirem juntos uma das mais graves crises políticas da democracia portuguesa.

Carlos Costa comportou-se com zelo e competência nessa estratégia, assim como nos episódios pícaros que se seguiram nos últimos 4 anos de catástrofe bancária. É um dos raros casos no universo laboral português onde o mérito está a ser exemplarmente reconhecido.

14 thoughts on “Carlos Costa, o exemplo do mérito”

  1. carlos costa é um homem sem vergonha. que se lixem as eleições dizia o bruxo de massamá. para confirmar a ideia cederam em toda a linha aos policias. boa vida tem esta gente no nosso pais,com a excepção de porto e lisboa. estes dois casos é que deviam ter um estatuto diferente.

  2. A confirmação deste “post” foi hoje feita pelo Pilatos
    de Belém, concordando com a nomeação e um desbar-
    gado elogio da competência do “caddie” de Deus Pi-
    nheiro e, nas horas vagas seu chefe de gabinete!
    Mais uma vez, se viu a incoerência do ainda presidente,
    declarando que os consensos de que fala, não se aplicam
    à nomeação de pessoas para os lugares importantes logo,
    basta ser da cor e fazer os fretes! Pior, reconheceu ter ha-
    vido uma críse nessa Europa que, muita experiência deu
    ao costa dos tacos de golf! Só falta aparecerem as arras-
    tadeiras do costume desmentir a realidade aqui retrata-
    da pelo Val !!!

  3. Estes homens deviam ser todos levados à barra do tribunal. Traíram as instituições em nome de interesses mesquinhos e, em consequência dos seus actos, centenas de milhares de portugueses foram gravemente atingidos nas suas vidas.

  4. Acho Carlos Costa o principal responsável pela extinção do maior grupo financeiro português e pela perda das poupanças de dezenas de milhares de contribuintes. Não satisfeito, anda a querer fazer o mesmo a outros. A mim, como a milhares de outros clientes, foi-me proposto comprar acções do BCP para melhorar as condições do empréstimo que necessitava, quando Carlos Costa exercia funções de responsabilidade nesse banco.

  5. Enquanto se reclama contra o desemprego dos mais novos é tremendamente esclarecedor ver o Costa, aos 64, ser reconduzido por mais cinco anos. Ver o Medina, com 84, A Ferreira Leite, com 74, e o Prof. Martelo, com 66, a debitarem bacoradas nas tv’s, pagos a peso de ouro. O Catroga, com 72, a mamar na teta da EDP, Luis Filipe Pereira, com 70, vai para o CES… Se isto não é brincar com as tropas, o que será?

  6. O PEC IV com sabor a Pinoquio é um afrodisíaco que deviam patentear (ainda cntribuiam para o aumento do emprego sustentável e reprodutivo) tal é a sua eficácia nos inúmeros casos de impotencia estrutural e funcional graves !

    Um efeito secundário para já evidente: VERBORREIA FÉTIDA INCONTINENTE!

  7. …tal é a sua eficácia nos inúmeros casos de impotencia estrutural e funcional graves, patente aqui no pardieiro de IGNONCIOS sem TUSA !

  8. “Acho Carlos Costa o principal responsável pela extinção do maior grupo financeiro português e pela perda das poupanças de dezenas de milhares de contribuintes.”

    o melhor argumento de telenovela jamais escrito, dinheiro a rodos em cenários de revista, ricos que brincam aos pobrezinhos, brigas entre dois primos que lutam pelo controlo banco de família, um primo broeiro com aspirações a dirigente do sporting que pede ajuda a um parolo de massamá, por acaso primeiro ministro na altura, que lhe manda o costa em auxílio. o resto seria revelado mais tarde pelo correio da manhã, na habitual forma de fuga ao segredo de justiça e divulgação das escutas havidas entre o zémaria e o passólas, caso a dupla calex & rotex* investigassem esta história. mas não vamos ter sorte alguma porque o costa fica para garantir que nada se saberá, limpar os vestígios e entregar aquela porra ao primo bronco, que aparecerá na administração do novo banco com uma pintelheira branca postiça.

    * versão moderna do patilhas & ventoínha, parodiantes de lisboa.

  9. “O PEC IV com sabor a Pinoquio é um afrodisíaco que deviam patentear…”

    foi patenteado pelo narcotóino costa no momento em pinóquio negou desconhecer o péque4 e começou a ser comercializado com a marca “é agora ou nunca” versão simplificada de “ou há já eleições para primeiro-ministro, ou, o mais provável, é termos eleições para a presidência do psd”. tem sido um sucesso de vendas nos últimos 4 anos, muito usado como afrodisíaco para levantar a moral em comícios e terem um pau para se agarrarem quando tropeçam na verdade.

  10. A nomeação de um governador para o Banco de Portugal não passa pela decisão de nenhuma entidade sediada no território nacional. Foi assim com o governador anterior, será assim com o próximo.

    Deixam-se de masturbações intelectuais!

  11. “A nomeação de um governador para o Banco de Portugal não passa pela decisão de nenhuma entidade sediada no território nacional. ”

    poizé, deve ser por isso que o pcp nunca elegeu um primeiro ministro.

  12. … masturbaçoes, vulgo píveas, sinónimo de punhetolas e esgalhadelas é o produto do árduo trabalho dos IGNONCIOS !

  13. Sao muito raros, mesmo muito raros na Xuxulandia, mas nem toda a gente no PS sofre desse nojento oportunismo populista e trauliteiro :

    O ex-ministro das Finanças de José Sócrates, Fernando Teixeira dos Santos, elogia a recondução de Carlos Costa no Banco de Portugal, contrariando aquela que é a posição dominante no PS.

    “Carlos Costa foi reconduzido. Ainda bem. Uma decisão justa. Usou até ao limite os seus poderes no caso do BES. A solução fácil seria usá-lo como bode expiatório das ilicitudes de outros”, escreveu este sábado numa coluna de opinião que assina no JN.

    Carlos Costa foi nomeado em 2010 pelo Governo de José Sócrates, justamente por Teixeira dos Santos que, na altura, elogiou assim a escolha: “É um prestigiado economista, com larga experiência no setor financeiro, bem como uma larga experiência internacional, não só pelas funções que actualmente exerce como vice-presidente do Banco Europeu de Investimento mas também nas funções desempenhadas em Bruxelas no âmbito da REPER e da Comissão Europeia”.

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