Carantonha à mostra

A quem é que aproveita a captura da Justiça pelo poder político? Os factos são esplendorosamente evidentes: à oposição, mas especialmente ao PSD. E, como biopsia, lembremos Lopes da Mota. Os procuradores do Freeport, apoiados pelo Sindicato do Ministério Público, invocaram conversas para denunciar uma tentativa de pressão. Com essa acção afastaram Lopes da Mota do convívio normal com os colegas, passando este a arrastar uma pesada suspeita que poderá até não desaparecer mesmo que saia inocente do processo disciplinar. Igualmente contribuíram para a campanha negra com um caso que foi explorado debochadamente até às eleições Legislativas. Mas o que importa nesta altura realçar é a tipologia da suposta anomalia: conversas informais entre magistrados. Que pode haver de mais imune à irregularidade? Só se fosse possível conceber que um magistrado não é o primeiro a respeitar a Lei, e tal não podemos conceber. Acresce que um magistrado dispõe não só do estatuto como dos recursos para ser um cidadão blindado na defesa do Estado de direito. É exactamente para essa alta missão que o Estado o remunera e cobre de poderes. A putativa pressão de Lopes da Mota, assim, foi equivalente à que as ondas sonoras exercem sobre o tímpano. Ora, pressões que se prezam não perdem tempo a bater punhetas a grilos.


Temos estado a olhar para o lado errado, as fugas de informação judicial para a imprensa, quando o que mais importa está na recepção dos segredos de Justiça pelos partidos. Porque é óbvio: se eles chegam a jornalistas, em maior quantidade e detalhe chegarão a dirigentes partidários ou responsáveis presidenciais. Essa possibilidade explicaria o modo afrontoso e pé-de-chinelo com que o PSD passou a tratar Sócrates desde que a Manela assumiu a liderança do partido, bem patente na radicalização estratégica e na linguagem não verbal que transmitia um desprezo que agora podemos supor nascido de um voyeurismo. De facto, se passamos a ter acesso a conversas privadas de um adversário político, a perversão hipertrofia o antagonismo, causando um crescendo de desrespeito e uma anulação dos limites éticos. Para além disso, escutar o adversário pode também ser ocasião de conhecer a sua opinião íntima a nosso respeito, dita com informal espontaneidade e gasto de vernáculo, o que ferirá fatalmente o ego do espião. Terá sido este o caldo donde saiu a repentina e alarmante intervenção de Cavaco no caso PT-TVI? Terá uma qualquer conversa privada de Sócrates com Vara viajado da Judiciária de Aveiro para o PSD e daí para Belém a tempo de uma pressão à maneira?

Na sua intervenção no Parlamento, Ferreira Leite não podia ter sido mais transparente:

As dúvidas políticas não se resolvem destruindo provas.

Esta afirmação é extraordinária, a vários níveis. Começa por legitimar a decadência do sistema, a qual gerou um clima de suspeição selectiva com fugas ao segredo de Justiça ou ambiguidades nas declarações dos agentes judiciais. Depois explora a lógica da infâmia, transferindo para o acusado a obrigação de fazer prova de inocência. Continua afirmando que as gravações são provas, o que implica um conhecimento factual e jurídico do seu conteúdo. Por fim, admite que a Justiça, no seu nível de maior responsabilização, e comprometendo dois braços institucionais, poderia destruir provas para defender politicamente Sócrates. É inútil procurar: nunca nenhum político na história da Assembleia da República tinha ido tão longe na ofensa ao Estado de direito.

De acordo com as últimas previsões da NASA, Sócrates não estará no Governo daqui por 100 anos, talvez nem mesmo daqui a 20. Mas uma coisinha é certa, olá – se deixarmos Portugal entregue aos que o querem derrubar com insídias e calúnias, nos próximos 20 anos qualquer macaco nos poderá fazer o mesmo. Então, o que se está a passar diz respeito a cada um, pois nada somos sem uma Justiça que respeitemos e se faça respeitar. O combate é caso a caso, suspeita a suspeita. Eles não vão desistir, e contam com o apoio declarado ou tácito do BE e PCP, os quais também tudo farão para mandar o Engenheiro até à Sibéria. Pois tanto pior.

Já agora, se Sócrates é esse Átila da política nacional, se a sua vida é um hino a Satã, por certo a maioria absoluta no Parlamento não terá dificuldade alguma em conseguir provar uma só das acusações com que enche a boca. Uma qualquer. Se o fizerem, será impecável, ficamos agradecidos. Mas se o não fizerem, continuarão com a carantonha à mostra.

10 thoughts on “Carantonha à mostra”

  1. Parece-me ser obvio que o PSD tem acesso às escutas e sabe das investigações.Não é por acaso que a senhora se quis aguentar mais um pouco à frente do Partido. Se virmos algumas declarações feitas quer por Cavaco quer pelo PSD quer mesmo por uma certa imprensa nota-se isso à légua, basta inverter um pouco o script e a linha temporal , partir do fim para o principio. O caso das escutas do Cavaco foi um erro freudiano. Para mim este caso pode simplesmente ter nascido para escutar o 1º Ministro sabendo que bastava por sua vez escutar o Vara, depois apanhar alguem que tivesse um comportamento suficientemente culpado com ligações ao Vara e fazê-lo do dia para a noite o vilão sobre o qual cairiam os holofotes dos estupidos media.

    Depois a que se deve a demora no envio do que o PGR precisa para decidir? Tanto tempo?
    E não acontece nada a quem tão mediocremente gere este processo? E porque é que não disseram que o 1º Ministro estava a ser escutado e só a posteriori o vêm declarar? Para terem elementos que possam exercer pressão politica e chantagem?

    Se algum dia a verdade vier a ser contada ouvir-se-à uma historia muito diferente nos cafés e nos autocarros.

    Outra coisa é o comportamento do PS. Chega uma altura em que os eleitores querem saber porque razão as ultimas direcções são decapitadas com casos provenientes do meio judicial e o porquê do dos socialistas não contribuirem para esclarecer a situação, aceitando uma quase cumplicidade com a situação sem terem a minima reacção visivel para alem da coreografia das indignações mediaticas. E o argumento da ética republicana não serve, porque no meu entender, essa ética remete-nos precisamente para uma atitude de combate à subversão democratica.
    Não aprecio muito Louçâ mas achei que a atitude de “denuncia” do Lima no caso das escutas foi um exemplo claro da atitude correcta.
    Considero-me de esquerda não contem mais com o meu voto para cozinhados desses.Tirem os aventais meus senhores.

  2. Não fiquei surpreendido com os acontecimentos de ontem na AR, sabia de antemão que se ia dar um terramoto em Lisboa, desconhecia o local. Não foi preciso esperar muito, com o avanço das tecnologias informáticas somos possuidores no mais curto espaço de tempo de toda a informação. Não quer dizer que seja a mais verdadeira. A informação era de que foi um bruxo que previu tal desgraça. Acabei por verificar que afinal era uma bruxa e que o local foi a Assembleia da República.

  3. Para a verdadeira mulher
    Desde que me conheço sempre tive um carinho especial pela mulher. Derivado a vários factores, o primeiro por ter sido posto no mundo por duas mulheres: a parteira e quem me gerou. Com esta já estava familiarizado, os pontapés na barriga, os enjoos que lhe provocava, os momentos de prazer sexuais que lhe tirava, um sem número de coisas. Por isso ainda hoje tenho esse carinho pela mulher, ao longo da minha vida quer particular ou profissional lidei com bastantes. Na profissional sei que era a rejeição da sociedade, carentes de tudo, de instrução primária; familiar; conjugal; filial; social; e algumas até com desprezo por si próprias. Com tudo isto eram fiéis às regras impostas, não esperava delas outra coisa, apesar dessas faltas, tinham carácter, o que me leva a ter a certeza que este dom não se conseguem nas escolas privadas, nos liceus ou nas universidades, mas que nascem com as pessoas e na escola da vida.
    Quando vejo “senhoras” com comportamentos como Manuela Ferreira Leite, noto essa falta de carácter, de respeito pelo próximo, pelas regras democráticas e querer transformar a Assembleia da República num mercado de peixe. Com isto mais me lembro da minha mãe – já falecida – antes prefiro a sua ignorância do que toda a inteligência dessa “senhora”. Sei que está a prazo e é por isso que tudo faz para que na Assembleia da República não fique pedra sobre pedra, não tem a percepção que isto se transporta para o seu partido. Quer ela lá saber. Quem nasce fascista, fascista vai morrer. Não há volta a dar.

  4. Exactamente Manuel Pacheco. Quem nasce fascista, morrerá fascista. A vileza do comportamento de MFL revela, demonstra bem o que aquele partido sempre foi (pelo menos desde que tenho consciência politica). São um bando de gente que ocupou cargos politicos para proveito proprio, fazendo de todos os portugueses servos.

  5. Edie

    Mas eles estão todos a cair. Não é só ela.

    Apenas espero que o PS não venha a integrar uma parte significativa da escória do PSD.

  6. Até podemos ir mais longe e perceber que quem está a ir pelo cano é mesmo a classe política, já que com o poder económico a corromper por um lado e o poder judicial a corromper pelo outro, corremos o risco de ver uma verdadeira suspensão da democracia. Aliás, o que choca nestes estado de coisas, é que ela já começou.

  7. Brilhante poste!
    Gostava de acrescentar que o acto falhado freudiano começa no nome dado a esta “operação”: Face Oculta !
    Dá para pensar nos meandros desses cérebros que antecipam claramente os problemas ao ver alguém ao telefone…
    É que não pode ser por acaso que se escolha um tal nome para começar uma investigação.
    O nome dado é já em si uma conspiração.
    MFerrer

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