Bacalhau com todos

O que aconteceu com a Parva que Sou não passa de outro episódio na longa novela de misérias da oposição portuguesa – esteja quem estiver no Governo. Começou com os revolucionários do cu-sentadismo sem paciência para esperarem pela dialéctica da luta de classes e a recorrerem às mais primárias técnicas de marketing na tentativa de criar um hit instantâneo, e terminou com o Zé Manel a profetizar a chegada de mais um hino anti-Engenheiro, depois de já ter produzido uma inventona sem eira nem beira como aquecimento para a Inventona de Belém. Pelo meio, aconteceu uma parolada extraordinária: a reacção do público foi apresentada como prova da superior relevância social da letra e do glorioso destino político da canção. Mas que reacção foi essa? Pessoas a aplaudir, ordeira e convencionalmente, os artistas do espectáculo musical a que foram assistir. Um fenómeno do Entroncamento que deixou o capitalismo apavorado.

Um dos programas que mais aprecio na TSF é A Playlist de… A edição com a Ana Bacalhau mostra-nos uma forte e encantadora personalidade, de uma frescura infantil, que se filia na tradição do lirismo português clássico. E é essa matriz que ajuda a explicar o seu aproveitamento provinciano e demagógico por todos, à esquerda e à direita.

35 thoughts on “Bacalhau com todos”

  1. Caro Valupi
    Leio assiduamente o seu blog e aprecio a maior parte das suas intervenções. Contudo deixe -me discordar com o que escreve acima. Não sei se houve ou não aproveitamento político da dita canção nem tão pouco sou apreciador do estilo musical e/ou estética mas acho que a letra e conteúdo da mesma é verdadeiramente representativo do que se passa com a maior parte dos jovens portugueses.
    Desde que iniciei a minha actividade profissional a “crise” foi sempre razão para não haver aumentos, atrasos nos salários, etc.
    Para mim bastou de crise e, com custos pessoais e familiares, vi-me obrigado a emigrar e procurar um pais onde a mesma crise não afectasse tanto os trabalhadores.
    Neste momento o nosso país está a ser esvaziado de valores e nós (vocês neste caso) estamos a financiar os quadros superiores de empresas estrangeiras que, claro, em nada vai contribuir para o melhoramento da situação financeira nacional.
    Quem é que é parvo?
    Cumps
    Manuel

  2. Caro Manuel,
    E teve de esperar pela cantiga dos Deolinda para emigrar?
    Pelo seu texto, parece-me que já está instalado e num país sem crise…talvez na China? no Brasil? quiçá no Chile?
    O quid da “perturbação” social, que a cantiga do Coliseu terá provocado em hostes da esquerda “volver” e da direita “parada”, foi o facto de alguns bestuntos e hilariantes cabeças admitirem que aquilo era uma espécie de hino anti-socrático.
    Como o Val disse, e muito bem, aquilo é uma cantiga alinhada no tal de lirismo clássico e muito nosso, que cavalgou uma conjuntura (eu, em 1967 tive de fugir da PIDE e fui-me pôr a resguardo em Paris…cá estão as conjunturas a mandar na gente e cantava as cantigas do ZEca, do Adriano Correia de Oliveira e, mesmo, as do Cilia…) e assim deveria ter sido entendido.
    A Ana Bacalhau, além do mais é uma senhora e peras. Passe pelo facebook dela e vai entender o que lhe quero dizer.
    O que escreveu, faz tempos, a historiadora Irene Pimentel, sobre este tópico, resume-se a isto: – Não se deixe instrumentalizar, Ana Bacalhau/Deolinda.
    As pessoas sóbrias e com ética,noutros tempos, diziamos o mesmo ao Zeca Afonso. Umas vezes ouvia, outras nem por isso.
    Cumprimentos e sucessos para si e familia, onde quer que esteja a viver e a trabalhar.
    JA

  3. Eu acho que é mais “aguas de bacalhau”.

    Ouvi os Deolinda, acho-lhes piada. Também vi a letra da cantiga. Não vale o entusiasmo, nem a indignação. Num pais normal, provocaria uma reflexão em torno do problema que levanta, que de facto não é o fim do mundo e que qualquer pessoa genuinamente de esquerda devia aceitar devolver à sua verdadeira proporção, mas que também não é zero.

    Em vez disso, armou-se um berbicacho e partimos para mais uma telenovela. Uns ja se vêem entrar em guerrilha na serra do Marão e prometem que a cantiga sera o seu hino. Outros bradam que isto é pura ingratidão e desconhecimento dos beneficios do progresso, e das revoluções industriais, liberais, vinte-cinco-abrilescas e outras que tais.

    Temos Maria da Fonte outra vez, apenas se deslocou o palco do Parque Mayer para a bloga.

    A direita, essa, continua descansada : a esquerda esta cada vez mais à nora, como deve ser, e a famigerada questão dos recibos verdes, que até existe e tudo, esta um pouco mais longe de ser reslovida. Que se lixe, desde que o meu filho possa entrar no ministério pelas virtudes mais do que confirmadas da cunha, esta tudo bem.

    Afinal, pensando melhor, sou contra o acordo ortografico. Com efeito, no dia em que o Português passar a ser lido noutros paises, desaparecerão de vez as ilusões que o sol e o mar ainda podem dar a isto….

  4. Eu percebo onde é que o Valupetas quer chegar com este post, e até, por uma vez, estou de «acordo» com ele… É que para se poder afirmar, com toda a certeza, que a letra desta música é um protesto contra a crise social e contra a precariedade laboral (para as quais o Pinto de Sousa contribuiu e continua a contribuir de forma empenhada) era preciso ter provas documentais ou testemunhos de um qualquer acordo entre a Ana Bacalhau e a oposição. Provas ou testemunhos semelhantes àqueles que dizem respeito ao pagamento de favores aos Figos e\ou à censura no DN de artigos sobre certos dados telefónicos apagados por razões «técnicas». Portanto, para os socretinos, como o Valupetas, os Deolinda não se devem deixar «instrumentalizar» por uma oposição «miserável» e «demagógica», e fariam talvez melhor em seguir o seu próprio exemplo, o do Figo, da Cancro ou o do FF (ou Faz Favores): tudo tipos desinteressados ou pouco manipuladores, como este post revela…

  5. A Ana Bacalhau canta uma realidade, não a inventa. Estamos, de facto, a atravessar uma época muito marcada pela inovação tecnológica que parece destruir mais empregos que aqueles que proporciona. Um artista bem sucedido, da bola ou da TV ou da música ganha um euromilhões como quem joga na raspadinha, assim, instantaneamente. Mas também os gestores de top e intermédios. Uma apresentadora bem sucedida da TV ganha 40 ou 50 mil euros a vender banha da cobra nas tardes e manhãs das televisões. E a «parva» de uma menina saída de uma universidade vai ganhar, no trabalho árduo, uma quinquagésima parte daquelas “artistas” do circo da TV.
    A própria Ana Bacalhau pode mandar às malvas tudo que aprendeu na escola porque em breve não precisará, nem de trabalhar, porque numa noite de concerto bem sucedido ganhará tanto como um professor durante um ano lectivo.
    A Ana Bacalhau canta a espuma das coisas e cavalga a onda do sucesso das vendedoras da banha da cobra. Mas vende um produto mais «refinado» para entreter as «parvas» e os «parvos». É o Quim Barreiros das meninas e meninos da cidade.
    Enquanto isso, os meus filhos e as minhas filhas, licenciados nas universidades públicas, foram à luta, uns cá dentro, outros lá fora.
    Não sei a que propósito vem o cotejo de Ana Bacalhau com Zeca Afonso. Nem pela arte nem pela ousadia.

  6. Acho que devo ser a única “parva” deste país que:
    1. Não conhece Deolinda;
    2. Nunca ouviu a dita cuja canção;
    3. Não está interessada em ouvir a dita cuja canção.

    (Viva o George Michael!)

  7. A verdade é que os socretinos herdaram os tiques todos do cavaquismo – e se calhar é por isso mesmo que cavaquistas e socretinos vivem uma espécie de relação amor-ódio: dizem que se detestam, mas no fundo precisam e gostam uns dos outros.
    Há 15 anos atrás andavam a protestar contra as propinas na faculdade, e hoje defendem «propinas» e taxas para tudo e mais alguma coisa. Há 15 anos andavam a buzinar contra as portagens na ponte 25 de Abril (onde se destacava um tipo chamado Vara), e hoje defendem portagens em todo o lado e o fim das scuts. Há 15 anos diziam que eram contra o espirito tecnocrático e hostil à cultura e à educação do cavaquismo, mas hoje elogiam a escola nova oportunistica, burocrática e virada para o negócio dos magalhães do Pinto de Sousa. Há 15 anos andavam a cantar uma música do Abrunhosa (o «talvez foder») e fizeram dela um hino contra o cavaquismo, mas agora andam todos fodidos e «indignados» porque a música dos Deolinda foi «instrumentalizada» pelos anti-socretinos. Há 15 anos o Pinto de Sousa era um tachista à espera de fazer carreira política; e hoje os socretinos querem seguir o exemplo do mestre…

  8. A letra da tal música dos Deolinda não vale um bacalhau. Aquilo são os versos de pé quebrado que até a minha avozinha teria vergonha de trazer a público. Nem nos tempos mais panfletários do pós-25 de Abril o Sérgio Godinho e malta amiga desceu tão baixo. Quanto à música e à interpretação, a avaliar pelo que vi no You Tube, só me fez recordar a Mafalda Veiga e os Pássaros do Sul tao bem retratados pelo Herman. Se aquela malta faz música assim, eu não acredito que o digam seja justo. Sou parcial. São uns betinhos pirosos e reaças. A deixa acerca do estudo para o tacho não é acaso, é-lhes estrutural. Como é que malta tão jovem com acesso a tanto mundo adopta uma estética tão retrógrada?

    A propósito do estudo e do emprego. Devia ser ao contrário: ainda bem que não nos empurram o tacho (e nos obrigam a dizer obrigado ainda por cima) pela garganta abaixo mal saímos da universidade!

  9. Esta era a minha pergunta há uns dias.

    Alguém caridoso me explica a cena da cantiga que “a fim da força” querem transformar em arma, mas que, vai-se a ver, nem uma fisga é nas mãos de uns poucos cuja criatividade não vai além da geração de factóides? [Claro que geração aqui não e uma categoria sociológica ou aparentada a isso, mas tão simplesmente um sinónimo de produção.]

    Tenho andado a recolher respostas. Thank you so much.

    :))))

  10. A letra e a música não valem um caracol. E depois aquela estética do pastel de bacalhau em cima da mesa. Sempre em cima da mesa, como o destino.

  11. joão viegas, qual é o problema real que a canção levanta (presumindo que, para ser assim salientado, não só o levanta efectivamente, como o faz de forma clara).

  12. Ola Susana,

    O problema, tanto quanto percebo, esta na generalização das praticas tipo “recibos verdes” (no sector publico) ou estagios não ou pouco remunerados (no privado) com que se deparam os jovens com qualificações, para terem acesso ao primeiro emprego. E’ possivel, provavel mesmo, que quando se olha para o mercado de trabalho no seu todo, os trabalhadores qualificados tenham em Portugal, em termos comparativos, uma situação melhor do que em outros paises (ja que são em menor numero em termos proporcionais), mas não vejo o que justifica estas praticas :

    – são socialmente injustas (fazem com que muitos jovens desistam de prosseguir a carreira para a qual se destinaram unicamente porque não têm meios)

    – constituem uma fraude e uma mentira do ponto de vista economico, deturpando o custo do trabalho (qualificado), ou pelo menos perpetuando a cultura da opacidade e do desenrascanço, como se isso levasse a lugar algum

    – do ponto de vista da gestão interna (publica ou privada) são uma verdadeira calamidade, encorajando a cultura do compadrio e da subserviência, em detrimento da transparência e da racionalidade economica (ou dos principios do serviço publico)

    Sem esquecer que constituem um exemplo emblematico da nossa propensão para considerarmos as regras como uma coisa feita essencialmente para inglês ver.

    O Medina Carreira pode ser irritante, mas diz uma coisa fundamental que merece ser sublinhada : o principio basico para uma economia funcionar é fazer com que os agentes, a começar pelo proprio Estado, cumpram ! O Salazar não apareceu principalmente porque as pessoas eram analfabetas na altura, apareceu porque o Estado não cumpria…

    Quem recorre sistematicamente a recibos verdes, ou a estagios gratuitos, esta a dar o sinal que a nossa economia funciona principalmente à base do incumprimento generalizado, que é como quem diz : aguenta-te à bronca uns anitos, sê paciente (se os teus pais puderem oferecer-te esse luxo) e daqui por uns anos has de ter também o teu quinhão nos resultados do saque.

    Eu percebo o que dizem os Deolinda e, embora considere disparatado embandeirar em arco como se se tratasse de um novo hino de revolta golbal (que ainda é a maneira mais eficaz de fazer com que a mensagem deixe de ser ouvida), acho tão ou mais ridiculo encolher os ombros e fazer como se o problema não existisse…

  13. joão, a temática dos recibos verdes foi central nas apropriações várias da letra, mas eu juro que não leio nada sobre recibos verdes em qualquer lugar do texto. a única coisa concreta em termos laborais é a referência aos estágios não remunerados.

  14. mas claro que a situação de utilização de estágios não-remunerados de forma sistemática para preencher vagas de verdadeiro emprego é inadmissível. compreende-se até certo ponto que, por exemplo, se tenha ocasionalmente um estagiário não-, ou mal, remunerado: o estágio pode ser ocasião de aprendizagem em que se considera que o estagiário é mais dispendioso do que produtivo (embora isso mesmo possa estar previsto no investimento em know-how da entidade patronal). deveria estar previsto na legislação a não consecutividade de estagiários numa mesma vaga, por exemplo. uma limitação anual por ratio de trabalhadores, ou whatever.

  15. OK, não decorei a letra. Mas quanto a mim a questão dos estagios não remunerados vai dar essencialmente ao mesmo. Em França, foi (em parte) graças à eficacia das acções em requalificação dos falsos estagios (perante os tribunais de trabalho) que se conseguiu alcançar, recentemente, a obrigação de remunerar minimamente os estagios (menos do que as situações de trabalho, desde que se trate de estagios no verdadeiro sentido da palavra, o que implica que não podem durar anos e que devem ter uma componente de formação importante, geralmente em relação com a frequência de um estabelecimento de ensino), e espera-se que dessa forma os abusos passem a ser em menor numero. O que é certo é que as entidades patronais não têm “espontaneamante” tendência para cumprir, mas antes para abusar. O exemplo português, em que os jovens qualificados são em principio em menor numero, mas onde a pratica dos estagios parece generalizada aponta para isso mesmo. Continuo a não ver porque é que dizer isso, ou canta-lo, é inconveniente…

    Não é so o Estado que tem que cumprir. Em termos de concorrência internacional, ha que acabar com a situação em que a primeira pergunta que se levanta para uma empresa que queira instalar-se em Portugal consiste em saber se consegue arranjar por la labregos (ainda que licenciados) prontos para todo o serviço.

    Ou não ?

  16. Manuel, não me fazes algum favor por me leres, ou leres este blogue, muito menos por concordares comigo seja no que for. O contrário é que faz sentido, eu a agradecer-te por discordares do que escrevi e, por via disso, eu ter aprendido contigo.

    Quanto ao que dizes, é indiscutível que a letra retrata algo que pode recolher largo acordo enquanto manifestação de circunstâncias sociais. Contudo, se analisarmos o texto no propósito de detectar nele uma construção intencional, ou casual, de um “hino de protesto para uma geração”, nada encontramos que o sustente – e até encontramos referências que facilmente se colam a quadros ideológicos ambíguos e contraditórios.

    Finalmente, é preciso ser jovem, no sentido de ser inexperiente e ter a memória curta, para ignorar o que tem sido a vida em Portugal para todas as gerações presentes e passadas.
    __

    orlopesdesa, mas onde foi que viste o ataque? Explica lá, porque tens o mérito de me deixar curioso.

  17. Val, obrigado pela resposta dedicada.
    Em breve e para não lhe tomar mais tempo:
    1. Não o leio por favor.
    2. Também sou fã da discordância e adepto dos resultados da mesma.
    3. Hinos para mim só os Nacionais. Gosto de quase todos…
    4. Quanto a protestos geracionais, já me iam custando uns dentes, lá está, por discordar dos mesmos…
    5. Sou (+/-) jovem e inexperiente mas tenho capacidade de reconhecer o (iminente) impacto e a diferença entre a imigração de hoje e a de outrora. Custa-me ver tantos bons profissionais saírem de Portugal para serem apenas alvo de elogios e de contentamento por parte de entidades empregadoras estrangeiras. Custa-me ver que a nossa teia empresarial não valorizar os mesmos profissionais deixando-os fugir e, assim, perdendo competitividade. Custa-me ver um país onde é legal trabalhar de borla…
    Isto não é problema de governo(s) mas sim, na minha modesta opinião, uma questão de âmbito social. Adoramos deitar o dinheiro à rua (tal como as gerações passadas).

  18. 1) O comentário do ds é uma carapuça que enfio à vontade. Envelheci (como o vinho ou o vinagre, não sei) e mudei quase radicalmente o meu posicionamento político. Quando olho para trás fico meio perplexo, é verdade, mas bola prá frente.

    2) primo e susana: onde é que A Hard Rain’s A-Gonna Fall de Bob Dylan fala textualmente da ameaça nuclear? Em lugar nenhum. Mas tal não impediu que o tema fosse usado como um hino pelo desarmamento nuclear.

  19. joão pedro, dois pontos:
    1. a canção de bob dylan fala de muita coisa, de beleza e destruição, de muitas pessoas, dos desiquilíbrios do mundo; tem muito por onde pegar. esta fala de um caso específico de aspirações goradas, é limitada no contexto. por outro lado tens a parte da riqueza da escrita que só por si costuma mobilizar o pessoal.
    2. eu não contesto que a canção em apreço se torne um hino (isso é um acontecido, aparentemente já se tornou, até já se tornou citação constante nos mais diversos contextos), apenas me parece que não ‘levanta’ nada que já tenha sido levantado com mais graça (ver os precários inflexíveis, por exemplo).

  20. O que me «custa» perceber é como é que as mudanças radicais nos posicionamentos políticos não se traduzem depois em mudanças radicais na definição desses mesmos posicionamentos. Isto é, como é que alguém que há 15 anos defendia a gratuitidade e universalidade de determinados serviços contra a implementação do princípio neoliberal do utilizador-pagador, e que agora defende precisamente o contrário, continua a definir-se como «socialista», de «esquerda» ou «social-democrata». Para além das carapuças, as máscaras também se usam à vontade?
    Se sim então só resta dar razão ao Vicente Jorge Silva quando afirmou estarmos mesmo perante uma «geração rasca»: porque se há 15 anos era rasca por mostrar os tomates, hoje continua a ser rasca mas por não ter tomates para assumir ideologicamente e de forma clara aquilo que defende. Enfim, é evidente que estamos perante aquilo que o Freud chamou de complexo de castração: ao exibicionismo do «poder» na juventude, segue-se agora (ao «envelhecer») o medo de perder esse mesmo «poder». E por isso é melhor mascará-lo. Como o Pinto de Sousa e o seu «camarada» de esquemas Vara «nos» ensinam…

  21. suponho que a desilusão foi grande ao constatarem que a formula , repetida e promovida com “paixão ” , de maior escolaridade igual a bons empregos ( empregos , note-se) igual a promoção social já se esgotou há uns largos anos ( só vale ainda para uns poucos , os muito bons ou os bem relacionados ) , com a globalização e îndependência e desenvolvimento autonomo dos escravos do Ocidente , e que lhes deviam ter ensinado antes que maior capacidade de trabalho + conhecimentos prácticos igual a maior diversificação de actividades e posições no mundo do trabalho ( quem sabe? patrão!) e maior probabilidade de uma vida digna e livre.

  22. Manuel, na tua resposta tens um elemento da problemática que merece a tua reflexão:

    “Custa-me ver tantos bons profissionais saírem de Portugal para serem apenas alvo de elogios e de contentamento por parte de entidades empregadoras estrangeiras.”

    Ora, não só hoje há uma nova mobilidade laboral, e com particular ênfase dentro do espaço europeu, também fruto da alteração de mentalidades e da facilidade nas viagens internacionais, como Portugal passou a formar uma força de trabalho cuja qualificação é altíssima por comparação com o que acontecia até aos anos 80 e 90 (ver números da escolaridade e da oferta de especializações). Se juntares a isso uma crise económica estrutural, a qual ficou agudizada pela crise bancária e do euro, qual é o espanto com a emigração? E qual é o mal, aliás? Cada uma está a tratar da sua vida, a encontrar um meio de se sustentar e realizar. Chama-se a isso liberdade.

    Entretanto, por cá, há um tecido empresarial para renovar e regenerar. Isso nunca se iria fazer sem tempo e sem prejuízos para alguns. Pura e simplesmente, tu não deixas de ter patrões broncos e mão-de-obra não especializada por obra e graça de um qualquer Governo – esse é um desafio de décadas, pois passa pela educação.
    __

    Primo, creio que ninguém domina a fórmula para criar hinos sociais ou políticos. Terá de existir uma adesão popular – sempre imprevisível – cuja raiz está no alcance simbólico do texto, servido por boa técnica poética. No caso do “Parva que sou”, estamos perante um texto unidimensional, denotativo, circunscrito a uma materialidade que até parece irónica de tão estéril. Os referentes da mensagem são uma síntese mal amanhada de clichés retirados de uma paragem de autocarro.

    Em suma, se não tivéssemos levado com a campanha publicitária do “hino de uma geração”, não perderíamos um minuto com a canção.

  23. Nova teoria «filosófica» da treta do Valupetas: aquilo que acontece por necessidade chama-se «liberdade». ehehehhehehhehe. Isto é (e pegando nas suas próprias palavras), emigra-se por necessidade, porque a crise económica assim o determina, e quem assim age é livre. Ser-se livre é, portanto, agir condicionado ou por necessidade.
    E depois, segundo a «cabecinha pensadora» do Valupetas, burros e imbecis são os tipos da «esquerda imbecil». Coisas do centrão esquizofrénico que, como o Valupetas acabou de demonstrar, só diz coisas sem sentido e absurdas…. eheheehhehehhe

  24. Caro ds, liberdade, não é de facto “agir condicionado ou por necessidade”, é antes pensar e agir autonomamente, sem esquecer que o mesmo se aplica aos Outros. O mesmo é dizer que, se defendemos a existência dela, não nos podemos depois queixar de pensamentos ou comportamentos desagradáveis só por não serem nossos, ou até o oposto do que defendemos. Isso é que nos deve fazer parar e pensar. Liberdade ou não? Se for só teoricamente, não o é de facto. Tenhamos coragem para o admitir e deixemo-nos de demagogias.

  25. o que é fantástico é ver como os empresários “broncos” do V persistem de pedra e cal ( e rezem para que não se extingam..) mesmo com a concorrência de milhares de gente buerere qualificada e especializada… pena que não sirvam de nada sem capataz. aquele que custuma usar chicote nos escravos. ficaram à nora. e a culpa é de quem?

  26. Os hinos não se decretam. O que fizeram a este “hino” foi torná-lo num hit sazonal (independentemente dos méritos ou deméritos artísticos). Penso eu de que…

    :)))

  27. Gostei do video da Susana (não conhecia).

    mdsol, concordo com o que v. quer dizer mas repare os hinos se definem mesmo pela caracteristica de serem decretados. Com ou sem a proposito, com ou sem legitimidade, etc., isso é outra questão. Mas que se decretam, la isso, parece-me inegavel…

  28. João Viegas:

    Um “hino” destes, ou pega por si, torna-se “hino” e não é preciso teorizar sobre o assunto, a ver se pega, ou não pega por si e a questão não se coloca. Se “pegar” então sim, depois teorizem à vontade. Não queiram é que “pegue” de empurrão. Continuo eu a pensar de que…

    :)))))

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