Atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher

Podemos perder votos, mas não vendemos ilusões. E é esta cultura que queremos levar para o novo Governo de Portugal. Uma nova cultura do exercício do poder, um princípio que já aplicamos hoje na oposição: o de não prometer nada na oposição que não tenhamos a certeza que não possamos vir a fazer quando formos Governo. Honrar as promessas feitas é o melhor contributo que temos a dar para aumentar a confiança dos portugueses no sistema político. […] Só através do bom exemplo – e como está carenciada a vida pública portuguesa de bons exemplos por parte dos governantes e dos políticos… – nós podemos aspirar a merecer a confiança dos portugueses.

Seguro, discurso de encerramento do XIX Congresso Socialista, minuto 35

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O actual secretário-geral do Partido Socialista não poupa na farronca: anuncia-se como o “bom exemplo” para o conjunto dos governantes e políticos portugueses. Antes dele, a miséria moral. Com ele, a salvação messiânica. Uma consulta rápida à memória confirma que esta auto-confiança e apreço por si próprio constitui o núcleo principal da sua visão para a sociedade. Na prática, o que Seguro pretende é viver rodeado de indivíduos que lhe confirmem através de movimentos basculantes da cabeça e palmadinhas nas costas que sim, que é ele e só ele quem dá os bons exemplos.

Há dois anos, no XVIII Congresso, Seguro prometeu obrigar os membros do secretariado nacional do PS, assim como todos os candidatos socialistas às futuras eleições autárquicas, europeias e legislativas, a assinarem um código de ética. Nunca mais se ouviu falar desse documento, daí não se saber o que poderia conter, mas à partida seria um manual para que qualquer dirigente, candidato e militante pudesse dar bons exemplos sem ter de estar sempre a perguntar ao Seguro como se faz. O desaparecimento de tão valioso código está envolto em denso enigma. A menos que se trate já, afinal, de um daqueles exemplos bons com que Seguro vai trazer para a sua base de apoio as multidões desiludidas com a política. De facto, o problema de termos muita gente a dar bons exemplos é o de isso gerar uma indiferença generalizada. O povo deixaria de valorizar o esforço, acabando por se afastar. “Não”, pensou Seguro, “que se lixe a imposição de um compromisso de honra à rapaziada – tenho de ser eu a mostrar o caminho, a conduzir as massas, a suportar sozinho o homérico peso da exemplaridade”.

No fundo, tudo se resume ao princípio proclamado com pompa:

não prometer nada na oposição que não tenhamos a certeza que não possamos vir a fazer quando formos Governo

Sejamos elevados o suficiente para esquecer que esta fórmula com três negativas quer dizer, se o plano ainda for o de respeitar a lógica, que estará em causa prometer na oposição apenas aquilo sobre o qual exista a certeza que não vai ser feito, e fiquemo-nos com o que, aparentemente, Seguro queria transmitir. Trata-se, segundo afiança, de “uma nova cultura do exercício do poder“, pelo que dá ideia de ser uma cena bué importante. Pelo menos, ficamos logo a saber que os anteriores secretários-gerais do PS não a perfilharam, caso contrário ela não seria nova, a estrear. Quem antecedeu Seguro na liderança do partido, garante Seguro ao partido que lidera pelo exemplo, andou a vender ilusões para não perder votos. Onde, quando e de quem é que ouvimos cassete igual?…

Há algo, ou há muito, de estouvado em conceber a governação como uma prova de apego a promessas eleitorais só pelo facto de terem sido apresentadas. Isso parece colidir com o princípio de realidade, e levado às suas consequências máximas acabava com a própria necessidade de um Governo. Contudo, Seguro não se atrapalha com estes aspectos mais aborrecidos da questão, e cá estaremos para ler o seu programa eleitoral a essa luz ofuscante. Lembremos, só para terminar o devaneio, a nobre inspiração que está na origem de tão ambicioso projecto de regeneração da política portuguesa:

A presidente do PSD criticou este domingo as novas promessas de apoio social anunciadas por José Sócrates, considerando que o secretário-geral do PS devia ter «vergonha» das promessas que fez e não cumpriu nos mais de quatro anos de Governo.

«Pois não só não tem vergonha como ainda por cima agora anuncia outras tantas promessas para depois não cumprir caso ganhe as eleições», afirmou Manuela Ferreira Leite, citada pela agência Lusa, que falava no decorrer na Festa de Verão do PSD de Vila Real.

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«Não prometo nada que não tenciono fazer e digo apenas aquilo que considero possível fazer e que está de acordo com as prioridades que o País enfrenta (…) eu como potencial responsável por um governo não devo, não quero nem faço promessas que não tenciono cumprir por não ter essa possibilidade», afirmou Manuela Ferreira Leite

22 thoughts on “Atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher”

  1. Julgo que nem José Sócrates apoiaria a oportunidade deste artigo. O discurso de Seguro contém ideias e propostas mais importantes e significativas do que as apontadas, que merecem ser analisadas e discutidas seriamente. Há que reconhecer que foi um discurso para além das expectativas. O secretário geral do PS tem que merecer,pelo menos, o benefício da dúvida. Ou o PS consegue ou então…

  2. Esta declaração sobre as promessas, como se costuma dizer, vale o que valerá.

    Já a decalaração quanto “aos sacrifícios que não deixou de prometer aos portugueses” é outra conversa, e da maior relevância: até porque não explicou que sacrifícios são esses.

    Se também Seguro cá está para desdenhar ganhar mais uns votos e quer uma maioria absoluta, que mudança é essa que se quer prometer?

  3. fodace este texto é um desbaste no Seguro que vai lá vai… pior que isto só o desbaste que o espantalho de Belém levou ontem à noite.
    Sócrates não malha no Seguro porque é um senhor, caso contrário deixava-o knock-out em 5 minutos. Seria como bater num cadáver.

  4. Só vos digo: depois deste discurso Seguro, estamos f…Promete continuar os sacrificios. E não promete… mais nada. A nossa sorte é que o homem nunca lá vai chegar. A PM. Este governo está de pedra e cal: marques mendes diz, cavaco garante, portas aguenta gostosamente (farta-se de passear) e, sobretudo, o povo não quer Seguro, não acredita em eleições e, por isso, vai esperar pelo calendário. Até lá, pode ser que a Europa mude. E o PS vai-se e com ele o que resta do Estado Social. A não ser que a Europa mude.

  5. com este oportuno artigo, o ps só tem que fazer uma coisa: mudar de militantes!para mudar de lider,ninguem se chegou à frente,como tal não adianta “bater no ceguinho”,mas nas propostas que ele vai apresentando.os congressos são o que são, e agora são piores! por falta de debatecom o novo modelo de diretas.

  6. Tó-Zé Seguro é a versão “rosa-guterres” do políticozinho gelatinoso. Uma espécie de Passos Coelho mais “amigo do Povo” e mais “sensível”. Aparentemente, pelo menos.

    Uma espécie de González sem salero, Blair sem músculo, ou Sampaio sem “pedigree”.

    Tal como eles, não vai servir para nada, nem fazer nada, nem mudar nada!

    É apenas mais uma dose reforçada de “banho-maria” para o PS e para o Centro-esquerda nacional.

    Até que, um dia destes, o Povo desperte e a Política faça a História voltar a avançar.

  7. blondewithaphd,é verdade, os discursos normalmente cheiram a falso.mas noutros congressos ainda são piores, por cheirarem a mofo!

  8. Por mim estou com o livro de João Ferreira do Amaral, «Porque Devemos Sair do Euro», cujas virtudes de esclarecimento não posso deixar de acentuar. A participação de Portugal no euro vai nua. Mas como esse esclarecimento transcende a maioria intoxicada pela comunicação social, não estou a ver como iremos sair disto.

  9. Manuela Ferreira insiste em atirar para as “mentiras” de Sócrates. É a tática conhecida uma mentira repetida até à exaustão torna-se numa verdade. Vale a pena ver aqui http://youtu.be/eflh1wO3sGI por anda o MAGALHÃES do Sócrates que a tantas calúnias deu lugar e, já agora, ouvir também o discuro desassombrado daquela pequenita. A direita comporta-se sempre da mesma maneira e é tanto mais ressabiada quanto maior for a envergadura do opositor.

  10. Como já aqui foi salientado, a pólvora já foi descoberta há mais de 2000 anos!
    O Tózé Seguro continua a não fazer juz ao seu apelido, nas suas intervenções há
    sempre uma dose elevada de narcisismo para além de uma pose de sorriso de plás-
    tico que não ajuda a criar empatia e, mostrar o carisma para quem se propõe res-
    gatar um País da situação desgraçada em que os direitólas o colocaram!
    Isto não vai lá com chávenas de chá … ou jogos florais!!!

  11. Manojas, não tenho essa pena. Porque tu começas por invocar Sócrates, como se a sua eventual opinião tivesse alguma importância para a expressão da minha. Isso coloca-nos, a mim e a ti, em mundos radicalmente diferentes.

  12. nhec, o zorrinho vs arnaut levou na cabeça por mais que uma vez com a treta de que o país está como está por exclusiva responsabilidade do governo anterior e respondeu com um sorriso amarelo e com um “não gostaria de falar do passado”. Claro que não, palhaço, nesse passado não eras ninguém, eras uma sombra do tozé que roía as canelas do sócrates e depois fugia. Por causa destes merdas, se houvesse eleições amanhã, não poderia votar PS.Neste PS? Não consigo. E se calhar não vou mesmo poder votar. Por muito que Sócrates defenda o PS aos domingos à noite. Isso só abona a favor dele.

  13. O canalha e porco do Arnaut não tem outra conversa, todo e qualquer debate em que entre esta personagem descamba na ” herança de Socrates”… porra, mas não há ninguém que lhe diga na cara que o disco já está rachado e que está na hora de inventar uma desculpa mais actualizada? E credivel, já agora, se a inteligencia lhe chegar ( o que dúvido, mas enfim…)?

  14. gato,

    está tudo muito certo quanto ao Arnaut, mas o que dá vómito é o líder parlamentar do PS a dar-lhe razão. É nojento demais.

  15. Val, eu respeito todas as opiniões, mesmo não estando de acordo com elas, daqueles por quem tenho consideração, mesmo que, eventualmente, se encontrem em mundos radicalmente diferentes. É só.

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