Aquelas três frases

Inês de Medeiros estava numa reunião da câmara. Um vereador do BE estava nessa reunião. Esse vereador fez uma intervenção onde introduziu na conversa a temática da beleza paisagística dos projectos de habitação social. Inês de Medeiros responde-lhe fazendo uma brevíssima-e-espontânea-e-irrelevante-e-natural-e-saudável referência à beleza paisagística dos projectos de habitação social, temática que tinha sido introduzida na conversa pelo vereador do BE. Escândalo.

Um demagogo profissional não deixará de aproveitar a ocasião para sacar o seu e despachar mais umas centenas de caracteres em 30 minutos de teclado e/ou ir para a TV fustigar a criminosa. E assim foi. Tudo bem, vivem disso. Mas a estupidez da perseguição, a ganância de transformar o humano no acéfalo, deixa ver o processo de atrofio sistemático da cidadania a que a comunicação social se entrega compulsivamente.

Em 2012, Maria de Lurdes Rodrigues foi chamada à Comissão de Educação e Ciência no Parlamento. Um deputado do PSD fez uma intervenção. Nessa intervenção introduziu na conversa, de forma acintosa, a referência à gestão da Parque Escolar como tendo sido uma “festa” de desperdício de dinheiros públicos. Na resposta, para se defender da calúnia, Maria de Lurdes Rodrigues usou o termo “festa” para o corrigir com a sua versão: «A Parque Escolar foi uma festa para o País, para os alunos, a engenharia, a arquitectura, o emprego, a economia. Fizemos escolas robustas, aptas para o futuro. Conseguimos crédito com juros de menos de 3% a 30 anos. Deixámos uma dívida boa.» Ainda a comissão não tinha terminado e já os demagogos profissionais espalhavam urbi et orbi que para esta odiosa socrática a Parque Escolar foi uma festa, obliterando o contexto e pondo a lenha toda na diabolização do alvo. Oito anos depois, a expressão está cristalizada no arsenal da chicana.

Azeredo Lopes nunca disse «Não sei se alguém entrou em Tancos. No limite, pode não ter havido furto». O que ele disse foi “Não sei se alguém entrou em Tancos” num passo de uma entrevista para responder aos jornalistas. E também disse “No limite, pode não ter havido furto” num outro passo dessa entrevista, para responder aos mesmos jornalistas que o interrogavam sobre aspectos diferentes daqueles que geraram a primeira resposta. À volta dessas duas pequenas frases, deixou gravadas extensas explicações onde reconhecia a gravidade do caso, onde se comprometia em dar às autoridades todos os meios para a investigação da ocorrência e para reforçar a segurança das instalações militares, e onde reconhecia que naquela fase em que se estava não era possível ter qualquer certeza a respeito do que teria realmente acontecido, donde todos os cenários terem de ser admissíveis. Os jornalistas, com a aprovação ou inspiração do seu director, juntaram as tais duas frases pequeninas da sua predilecção e fizeram delas uma parangona gigante. Ou seja, criaram um acto de fala original e atribuíram-no ao entrevistado, sabendo que o iriam queimar. Só tenho pena que não tenham aproveitado a avaria para lançar um passatempo onde os leitores do DN eram convidados a enviar outros exercícios sensacionalistas seguindo o mesmo brilhante método da colagem de frases à Lagardère. Talvez acabássemos por descobrir que Azeredo Lopes igualmente terá revelado ao Anselmo Crespo e ao Paulo Tavares em que ilha açoriana o Elvis se encontra escondido.

7 thoughts on “Aquelas três frases”

  1. É simples os jornalistas e os entrevistados criam salganhadas e intrigas que divertem e alimentam as massas crentes e com desejos de coisas sublime e de preferência parvas para assim nos divertirmos todos um bocadinho, não é o novo moderno modo de informar, já que isto sempre existiu.
    A culpa morre sempre solteira, porque a verdade absoluta só os “poderosos” é que a sabem, o rebanho é alimentado artificialmente com porcarias noticiosas para estar muito (des(informado) das coisas que realmente interessam, manipulação+propaganda = povo “feliz” e agradado = governo ajustado. lol :P:D

  2. “Ainda a comissão não tinha terminado e já os demagogos profissionais espalhavam urbi et orbi que ”

    Diz-me, espelho meu, ainda sou a mulher mais bonita ?

    Boas

  3. Que a comunicação social se diz de “industria”, já sabemos ; logo ficamos também a saber porque é necessário “fabricar” notícias.
    Quanto à Inês das vistas do bairro amarelo, ( e também do Porto Brandão à la Beirute… e das idas para o emprego de cacilheiro – pouco Tejo , pouco Tejo e muita mágoa – ) , não sei se as notícias vão ou não no sentido que (ela) pretende ou não. Eu tenho a minha teoria….
    Quando das últimas autárquicas, havia 2 Camaras que o PS considerava que a probabilidade de eleger o seu candidato seria quase nula e enviou a Dr.ª Canavilhas para Cascais e a Inês Medeiros para Almada. A Dr.ª Canavilhas , como era esperado não foi eleita. Creio que para Almada foi um erro de calculo e a Inês e o PS não estavam preparados, e ,talvez, para a Inês, não fosse aquele o cargo que pretendia, daí a grande surpresa da noite.
    E agora até há a hipótese de ficar mais 4 anos em Almada, que é um concelho muito difícil, e sem maioria absoluta…. Será , que com declarações tremendistas que podem limitar novo sucesso, quer justificar alguma indisponibilidade para não se recandidatar ?
    Impensável?
    O PS sempre teve azar com os candidatos escolhidos para Almada – vários- .
    Já nada me espanta

  4. Que raio de País é este?
    Onde jornais com tiragens irrisórias, que poucos leitores têm, se arrogam lideres de opinião.
    Canais de TV que são um esgoto a céu aberto transmitem as mais ínsanes noticias e reportagens.
    Canais sociais onde se propalam os maiores disparates e mentiras que depois fazem o seu caminho minando a veracidade dos factos, confundindo os mais ingénuos e crentes.
    Para este País e para a saúde mental da sua população e uma vez que o Regulador da Comunicação Social não consegue pôr fim a estes desmandos, quase me apetece pedir o regresso do exame prévio. É óbvio que não o quero nem desejo. Mas que isto tem de ter uma solução para bem da democracia não tenho dúvidas.

  5. pegam em trivialidades e transformam -nas em escândalos , pegam em constipações e transformam em terríveis pragas ., enfim , na era do circo comandam os palhaços.

  6. O que faz falta é alguma cultura,alguma educação, algum civismo. Quando tal houver,oh meus amigos,poderemos rir muito mais à vontade desses paspalhões broncos e curtos de vists que sempre pensam que controlam o País! !! Lembrem-se do 25 de Abril e ds completa surpresa dos matarroanos controladores …

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