Apatia, uma vocação secular nesta terra

A apatia que tem surpreendido comentadores e políticos, ao arrepio das constantes ameaças e profecias catastrofistas que inundaram o espaço público de 2008 a 5 Junho 2011, é a prova suprema de que os ajustamentos impostos pela Alemanha poderiam estar agora a ser feitos sem troika e com inteligência social e económica. Presidente da República e PSD, se não se regessem por uma estrita lógica de conquista do poder pelo poder, teriam aceitado proteger Portugal e os portugueses numa altura de crise histórica para a Europa em vez de aproveitarem as circunstâncias internacionais para lançarem a política de terra queimada que nos trouxe exactamente a esta situação estupidamente desgraçada: aumento descontrolado do desemprego e falhanço orçamental depois do esbulho colossal sobre a classe média e os pobres.

A apatia é tão mais desconcertante quanto ela ocorre apesar do logro – nunca antes visto – que foram as campanhas eleitorais do PSD e CDS. Nada de nada do que inscreveram nos seus programas eleitorais e caudalosas promessas está a ser feito, precisamente ao contrário: levaram a carga fiscal para além do imaginável, apregoam o empobrecimento, convidam os nativos a saírem do País, não fizeram qualquer reforma, vendem as jóias do Estado ao desbarato e falharam a execução orçamental para 2012.Vítor Gaspar, cuja imagem de marca era a de uma pretensa superioridade técnica apolítica, está rapidamente a aproximar-se do prestígio intelectual do Álvaro.

Qual a explicação para este baixar de braços e de cabeças? Uma delas continua a estar na comunicação social, que não faz campanhas de assassinato de carácter contra os actuais governantes nem alimenta agora uma legião de comentadores cuja única função era manter altas as labaredas do protesto, do pessimismo e do medo. A outra está na cegueira do PCP e do BE, invariavelmente ocupados só com os seus rebanhos, o que implica manterem o tiro ao PS como actividade quotidiana. E a última está na estratégia, ou falta dela, de Seguro, alguém que veio para a liderança do PS sem que se saiba para quê. Tal enigma causa profunda desorientação a militantes e simpatizantes, e causa profundo asco ao cidadão apaixonado pela cidade.

19 thoughts on “Apatia, uma vocação secular nesta terra”

  1. Mansamente, o manso povo, manifesta-se nas vaias ao presidente da república Cavaco, como nunca antes se vira na democracia. Cada passeata presidencial vaiada há-de transformar num esgar, o riso pateta de Cavaco. A lembrar, cada vez mais, o sorrido das vacas açoreanas e a volúpia das vacas continentais na ordenha.

  2. O Gaspar espalhou-se ao comprido e desiludiu os crentes, que já viam nele a reencarnação do génio das finanças que ainda hoje recordam. Ainda bem. Não fossem os dramas, por exemplo na saúde, que estas politicas originaram e também eu estaria contente pelo falhanço… O que sinto é fúria por tamanha irresponsabilidade incompetente.

  3. É TÃO VERDADE O QUE DIZ, Val! Estamos realmente no fundo!
    Mas com a comunicação social que temos “o satuo quo” vai arrastar-se até explodir a bomba – a que, aliás, a Penélope se refere no texto anterior ao seu…
    A apatia da massa anónima da população parece-me semelhante à de um soterrado debaixo dos escombros de um terramoto. É que o medo de ficar ainda pior paralisa a reacção…!

    Os “fogachos” do PCP e do BE é só para “animar a malta” deles (!), pois continuam a atirar as culpas para o PS, no cúmulo da má fé que sempre tiveram para com este partido.

    E a “amorfia” contínua de José Seguro (eu ainda não percebi o que é que ele quer!) é o último – e mais importante – factor desta actual realidade catastrófica!

    Acho que desta vez, será mesmo a Europa que nos pode salvar pelo efeito indirecto da alteração das condições de resgate à Grécia, à Espanha e à Itália.

  4. …Qual a explicação para este baixar de braços e de cabeças?…

    É caso para dizer que de braços noa ar só se fôr um assalto.

  5. Estávamos à beira do abismo gritavam eles, agora já estamos em queda vertiginosa
    para o fundo do dito e, os comentadeiros, os avençados dos merceeiros dedicam-se
    ao tricot e ao europeu de futebol!
    Não há remissão para a pertidocracia instalada, em todos os princípios estão no fundo
    da mala, é o vale tudo para atingirem os seus objectivos, os portugueses eo País são
    meros instrumentos de que se servem para o efeito!
    A comissão liquidatária instalada enche a boca com as reformas que dizem fazer mas,
    ao negarem o cumprimento dos programas eleitorais perdem a legitimidade democrá-
    tica colocando-se fora do regime democrático!
    O Pilatos de Belém está mais virado para a jardinagem, nem da realidade se apercebe,
    não são só os comunistas que lhe fazem esperas, como alguns dos avençados da co-
    municação social pretendem fazer crer…em Outubro será feito o verdadeiro balanço
    da incompetência do grupo por ele empossado como governo, bem podem ir pondo
    umas velinhas e rezar umas orações para que a Europa nos salve!!!

  6. A direita, até estaria disposta a oferecer uma casa a cada portugues,só para ganhar as eleiçoes.O tom dramatico introduzido no debate (aquela que hoje insultamos, queria um Pec e não resgate) foi para mobilizar as hostes e os bancos, para o tiro ao Socrates.O resgate é a oportunidade de ouro, para porem a classe trabalhadora nos niveis perto de 1974.Não adianta, dizer-lhes que este caminho não serve,pois é precisamente por este caminho que a direita começou a salivar logo no dia 26 de Abril.

  7. até tu meu caro, estás tão previsível que dá dó.

    os teus amigos dos jornais estão a dar corda a dois grupelhos ditos de esquerda só para que se não diga que não há imprensa livre.

    O medo blá blá… o que todos querem é que o vizinho pague a conta.

    o tó zé está bem para o sistema…

    vamos ao vinho quando?

  8. Acabei , há pouco, de ouvir o discurso de Pedro Silva Pereira no debate que decorre no Parlamento a propósito da moção (idiota)de censura apresentada pelo PCP. Foi um discurso brilhante ao qual um deputado do PSD(Adão e Silva???) respondeu de forma vil, abaixo de cão. Depois querem que os respeitemos! Sócrates , de facto, continua a fazer-lhes sombra e, apesar dela, continua a queimar-lhes os miolos. São uns desmiolados.

  9. Quem nunca se soube afirmar pelas suas convicções e acções usa a muleta Socrates para poder responder num debate na AR. Foi o caso do imbecil Adão Silva e é o caso de toda a bancada PSD e CDS. Uma lástima …

  10. Ó Maria Rita, mas que síntese magistral:

    “Não adianta, dizer-lhes que este caminho não serve,pois é precisamente por este caminho que a direita começou a salivar logo no dia 26 de Abril”

    Não era possível dizer mais em apenas duas linhas que definem todo um programa da miserável “direita” que nos calhou em sorte! Parabéns!

  11. Ouvi isto a um rico empresario hoje: Senhores a crise rematou. Ja chegamos o caos, e dende o caos tudo o que se faga vai ser criação e crecimento.
    O argumento vale se de verdade estarmos no caos, ou ainda há mais caos lá no fundo. Porque Grecia tambem está no KAOS.
    Eis a questão.

  12. reis, não vás nessa conversa; nós chegámos primeiro e depois do caos, o que exites é mais caos…até ao suicídio final. Mas em Espanha é diferente, reconheço.

  13. Edie, porque não pensar, ou enganar-nos que ja estamos no caos final, assim melhor. Estás errada com que Espanha é diferente, a coisa anda bem igual com desgraça. Achas que pode ser diferente com um paro nos jovens do 60 por cento. Digam o que digam as cifras macroeconómicas.
    As diferenças devem ser bem pequenas, até no futebol.
    Mas não se trata de olhar quem está pior senão como juntos podemos melhorar.
    Sonhos de esperança, para amanhã de manhã pela rompida do dia escomenzarmos com uma nova ilusão.
    Somos filhos dos días, como dí Eduardo Galeano. Os días são os que nos deixam viver, e os que nos dão a vida e a esperança . Nascemos de novo quando eles nascer. Algum dises días traera um novo benestar. Quanto ò desejo.

  14. reis,
    Espanha não é diferente na desgraça que lhe impuseram os interesses do costume. Mas vejo os espanhois viverem os dias do caos de forma diferente de nós. Vocês têm uma greve de mineiros do Norte que vai para semanas mobilizou solidariedade por aí abaixo. Vocês não se calam. Nós somos os bons alunos da troika, e até nos gabamos de ultrapassar as exigências da dita,não te esqueças, nós somos os que vamos à frente no exemplo de como afundar rapidamente um país pelos seus próprios “governantes”.
    Basta ver reportagens de rua, o cidadão espanhol chama os bois pelos nomes, nós achamos que somos os bois, mas que isso é normal, porque sempre foi assim, e só queremos mesmo é ganhar à Espanha no Euro para adiar a depressão calada, mansinha. Há uma diferença cultural profunda, amigo.

    (enfim, esperemos que um destes dias, ao aumentarem os preços dos bilhetes do futebol, se dê a revolução)

  15. Edie, eu sou galego. Eu sei do que falas. Emtre Portugal e Galiza há mais do que um ar cultural, bem mais. Estou convencido.

  16. Reis,não sou galega,mas identifico-me com aquele povo.eles retribuem a nossa amizade.Até nesta vertente da galiza e norte de portugal, a presidencia de Rui Rio foi um desastre, por falta de estatuto politico, para encetar um trabalho conjunto a bem das duas regiões, com tantos pontos de identidade.Fernando Gomes, era o homem certo para dar continuidade a um trabalho, que teve o seu inicio com o anterior alcaide de vigo.

  17. O Val tem vindo há um tempo a esta parte a falar do novelo embaraçado em que se tornou a nossa política de há um ano a esta parte: um presidente “inspirado”, uma direita oportunista e uma esquerda cegueta (de todo) levaram-nos a este estado, argumentando ter sido o centro-esquerda a causa de todos os males, e eles umas virgens puras (pois).
    Ora a origem de tudo isto está em 2010 e não em 2011. No inicio desse ano ganhámos um PR que na geopolítica se designaria por “perturbador continental” – à semelhança aliás de todos os seus antecessores quando se viram na posição de puder influenciar a governação – ou seja, numa situação de equilibrio instável surge um “iluminado” que pensa puder aproveitar o impasse em seu favor. Nessa altura, alguém deveria ter alertado para a necessidade de conter a personagem ou então as coisas podiam correr mal. Ainda para mais quando já se anunciavam os sinais de borrasca.
    O clamor de clarificação de 2011 (da direita e da esquerda) deveria ter sido uma exigência do governo em 2010, quando ainda dispunha de liberdade de ação para o fazer. Era arriscado? Talvez em demasia. Mas julgo que seria a única esperança de salvação para este país, que tanto dela precisa.
    Quanto ao presente momento do centro-esquerda? A solução dificilmente estará na atual chefia, apesar de lhe reconhecer a prudência dos justos. Nem está no edil olipossense. A meu ver a solução está no futuro. Quando os “quartiers” começarem a enfadar e as balzaquianas a perder o charme inicial.
    E os pastéis de belém, apesar de turísticos, voltarem a saber bem melhor que os croissants.
    Cumprimentos.

  18. Jorge, até há quem diga que a origem de todos os males está em 2009, altura em que Sócrates aceitou governar em minoria quando tal estaria condenado ao maior fracasso. É sempre estimulante fazer exercícios especulativos em relação ao passado, mas tendemos também sempre a esquecer que esse passado era um presente de futuro aberto. O que me parece óbvio é a completa impossibilidade para ter existido uma alternativa, pois tanto a direita como a extrema-esquerda jamais aceitariam uma coligação com o PS. Assim, tudo decorreu de acordo com o fatal destino.

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