Antes, durante e depois da política

A prática política partidária, e refiro-me especialmente aos partidos com representação parlamentar, é feita de uma miríade de actividades que não são objecto de notícia, nem sequer nos eventuais órgãos de comunicação dos próprios partidos. Simetricamente, do constante caudal de notícias sobre a actividade partidária veiculadas na comunicação social profissional, a quase totalidade não causa qualquer tremor, quanto mais temor, na opinião pública e suas manifestações cívicas. Não que venha daí algum mal ou perda.

Por exemplo, PSD questiona “sádicos” do PS é um desses casos em que o único interesse da notícia é do foro etnográfico: registar para futura investigação de algum masoquista o modo típico do PSD fazer política, o qual não passa de chicana debochada. Eis Duarte Marques, um paradigmático rabbit laranja cujo maior sonho para a sociedade portuguesa é conseguir meter na choldra Sócrates e quem com ele assumiu responsabilidades governativas, a pegar numa entrevista do João Galamba dada num âmbito individual para largar umas bacoradas sobre o PS e os impostos. O seríssimo deputado do partido que cometeu a maior fraude eleitoralista de que há memória, de imediato seguida do maior aumento de impostos que foi feito em democracia, vem acusar o PS de ter uma agenda secreta para subir impostos futuramente. E isto apenas porque ouviu João Galamba, conhecido internacionalmente por ser um dos mais influentes conselheiros de Seguro, a opinar sobre a austeridade que tanto jeito deu à direita para o ataque ao Estado social. Não estamos perante um fulano cuja lata, ou falta de vergonha, expliquem o avacalhamento das suas declarações. Estamos perante um método, o método do vale tudo. Assim, três gatos pingados terem lido esta notícia saída há 6 dias e hoje ser eu o único mamífero que se lembrou que ela alguma vez existiu não pode ser considerado um problema a merecer atenção das autoridades (seculares ou religiosas).

Para vermos um exemplo similar no efeito público mas contrário na relevância, Santos Silva alerta para o risco de apenas 13% confiarem na AR toca em questões de óbvio interesse, e gravidade, para a nossa vida em comum. Não é por os considerandos não serem novos, nem exclusivos da realidade nacional, que a sua importância sai diminuída. Pelo contrário, estamos perante mais um aviso, sempre poucos, dirigido a todos os cidadãos que queiram viver em liberdade democrática e estejam dispostos a contribuir para a infinda construção e reconstrução da comunidade. Quais as consequências sociais e políticas desta notícia? Não faço ideia, mas a ter de apostar 10 euros era na casa “Nenhumas”. No entanto, Santos Silva é uma das mais notáveis figuras da elite política, tendo pleno acesso à comunicação social, a qual ocupa com destaque e frequência. É também um académico e um brilhante orador. Como explicar o marasmo?

Há coisas que não se explicam, ensinamento sem o qual não damos por concluída a adolescência. Não se explicam por falta de informação, tempo ou cabeça, embora possam ser explicáveis para quem dispuser da eternidade para se dedicar ao assunto. Tentar explicar a inércia, quiçá impotência, se não for freudiana conivência, com que os principais partidos tratam o afastamento dos cidadãos da prática politica institucional e espontânea poderá bem ser uma missão impossível. Mas não estamos reduzidos à passividade degradante, temos uma arma que é um caminho onde cabe quem vier pela sua própria inteligência, venha de onde venha e porque venha. Trata-se do chamado “pensamento crítico”, bicharoco com poucos habitats onde possa reproduzir-se neste triste rectângulo e adjacências, quase que reduzido a umas poucas saletas universitárias. Porém, contudo, todavia, é uma disciplina que está à disposição de qualquer um que saiba ler. E mais: promove um conjunto de competências donde nasceu a democracia e de que depende a liberdade.

No terreno do pensamento crítico a direita e a esquerda, o republicano e o monárquico, o crente e o ateu, as ovelhas e os leões podem conversar e comer à mesma mesa. Sempre com estima e proveito mútuo. Depois, levantam-se satisfeitos e vai cada um à sua vida. Com sorte, alguns vão a correr para o Parlamento.

11 thoughts on “Antes, durante e depois da política”

  1. Depois do pensamento crítico há posições de força que se impõem tomar por quem estiver de boa-fé e não seja mole do miolo! Por legítima defesa, por imposição de poda, por higiene, por profilaxia! Que haja sangue,ao menos uma vez,nesta sala! Como dizia o poeta.

  2. A situação muito bem descrita deve-se ao regime
    partidocrático instituído! Só poderá ser alterada
    com uma mudança, pelo menos, na Lei Eleitoral
    dando oportunidade aos eleitores escolherem
    directamente os deputados que entendam mel-
    lhor defender os seus interesses! Pela forma co-
    mo são designados e limitados pelos chefes não
    passam de meros paus mandados, convencidos
    de que a política é uma “chafurdice” como asso-
    biou o meneses baby num dia de inspiração!
    Quando assim for desaparecem os duartes, hugos,
    mereiles, montenegros etc., etc., que são o que são!!!

  3. o enapa não pensa faz papel.val desculpa a deriva. li ontem a entrevista de joão oliveira,lider parlamentar do pcp. ficamos a saber que quanto a adopção,respondeu desta forma:”não sou capaz de responder.aliás,prefiro não responder.tenho opinião sobre isso que enquadro nestas funçoes em que estou”.o conservadorismo e o jogar para o nicho de mercado é evidente nesta posiçao.quando lhe foi dito: isso tudo quer dizer que o pcp só será governo se for o mais votado nas legislativas.respondeu desta forma: “não vamos tão longe,mas uma das condiçoes necessarias para que haja uma alternativa politica verdadeira a este governo é uma alteraçao da correlaçao de forças entre o ps e o pcp.” conclusão: não querem nada com a sua esquerda como temos visto e se for para o governo tem que estar mais ou menos ao nivel eleitoral do ps.apetece-me dizer-lhe: oliveira, com o seu partido o país e os trabalhadores que tanto jura defender não pode contar,pois quanto a votos recordo recordo que o pcp já teve muitos mais votos do que aqueles que tem agora,há muitos anos! não é novidade mas estas declaraçoes confirmam por que motivo consideram o ps como seu inimigo principal.conclusaõ o pcp pode esperar sentado,pois não é nas nossas vidas nem no nosso pais que será poder neste quadro democratico.

  4. a mesa é um lugar mágico – e só quem já saiu da adolescência, mesmo na política, o entende. deve ser por isso que não faltam cérebros cobertos de acne.:-)

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