Alta depressão

No princípio do ano passado, finalmente alguém fez as contas à filiação partidária do comentariado em Portugal. O resultado não pode ter surpreendido vivalma, pois basta consumir a comunicação social nacional para ter empiricamente feito a mesma contagem há décadas. A existir motivo para reparo ele está na modéstia com que se objectiva a diferença entre direita e esquerda. A influência dos comentadores isolados é apenas uma parte, e menor, do sistema onde estes actuam; o qual condiciona editorialmente quase toda a informação que se produz profissionalmente – a escolha das notícias, o tratamento enviesado, o seu alinhamento e as figuras que as comentam, factores que a entrar na aludida contabilidade pintariam um quadro onde a direita tem sido esmagadoramente dominante no condicionamento da opinião pública desde que o Público deu início à perseguição a Sócrates e ao PS para se vingar da OPA falhada à PT. Até a informação da RTP tem estado na mão da direita, como os nomes de Judite Sousa, José Rodrigues dos Santos, Vítor Gonçalves e João Adelino Faria, entre outros, deixam patente. E precisamente por causa deste domínio ubíquo foi possível manter durante anos a campanha canalha da “asfixia democrática”, onde dezenas de órgãos e comentadores agitaram o fantasma de um demencial plano onde os socráticos iriam ter um grupo de comunicação social ao serviço do Diabo. Um grupo como a direita tem vários, nem mais nem menos, e com os quais actua com agenda política. O País vota à esquerda, e cada vez mais, mas a imprensa tem estado na sua enorme maioria a remar para a direita.

A introdução acima para chegarmos a um Expresso da Meia-Noite de Dezembro. O tema foi o “balanço do ano político”, um balanço dado todo na mesma direcção pois nos cinco intervenientes no programa era possível identificar cinco apoiantes do PSD e da direita em geral. Miguel Pinheiro e Vítor Matos são dois furiosos caçadores de socráticos, Graça Franco representa o braço político da Igreja Católica e Anselmo Crespo participou na campanha para a renovação do mandato de Joana Marques Vidal. A embrulhar esta fina flor do entulho sectário, o mano Costa e a sua inteligência sobre-humana ao serviço do militante Nº 1 do PSD. Quem ingerir a laranjada poderá ficar na posse de preciosas informações. Pois parece, garante o colégio de sábios ali reunido, que Rui Rio só se aguentou nas legislativas porque se agarrou a Tancos com o desespero dos afogados, e que Sócrates é o papão que impede o PS de ter maiorias. Donde, a receita parece simples: mesmo que a decadência intelectual e moral seja o que define a direita portuguesa após a traição e fuga de Barroso, ter jornais, rádios e televisões na mão permite salvar os dedos que vão ficando cada vez mais longe dos anéis.

Como ilustração deste estado de agonia em que os direitolas se encontram, o mesmo Vítor Matos assina dois prantos que merecem ser lidos por espíritos dados à curiosidade antropológica: Um partido bipolar. A vitória de um derrotado e a derrota da ausência + E se Marcelo não se recandidatasse?…. Tratando-se da Impresa, órgão oficial do Marcelismo e fiel soldado do combate contra a esquerda, podemos presumir que até em Belém se mergulhou na depressão.

4 thoughts on “Alta depressão”

  1. É pela razão exposta que, a maioria dos portugueses deixou de acreditar na tal
    comunicação social que se apresenta como sendo de excelência!
    Os portugueses estão fartos dos expressos da noite ou do dia, dos eixos do mal
    e, provavelmente, da tralha do governo sombra agora instalado na SIC!
    Depois, vem o Presidente Celinho pedir para que se ajude esta comunicação que,
    está sempre contra tudo o que, possa cheirar ao Trabalho ou seja, a esquerda, res-
    ta saber o que irá sobrar da TVI quando a Cofina começar a mandar !?!

  2. Mais um belíssimo texto! Pela asfixia democrática aqui exposta e pela falta de qualidade das tv’s portuguesas, deixei de ver os canais portugueses (excepção feita para alguns programas RTP2). Notícias, então, nem vê-las, quanto mais ouvi-las! É triste, porque é o nosso país. As Rtp’s são públicas, mas melhor que fossem privadas, porque já não fazem serviço público, estão ao serviço dos interesses da direita/privados. E nós a pagar este desvario…Que país absurdo…

  3. Caro j. Madeira, gostava de acreditar que a maior parte dos portugueses tem noção desta manipulação… Infelizmente, não me parece…

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