Alguém escolheu, com gosto, a política da terra queimada

"Tendo identificado erradamente o cerne do problema com que a crise a confrontou, a forma como a zona euro com ela tem lidado revelou-se profundamente errada, porque se concentrou sobretudo nos sintomas mais visíveis ou nas ramificações do problema, descurando a sua raiz."


Vítor Bento

É difícil escolher uma passagem do artigo Eurocrise: uma outra perspectiva para destacar tantas as afirmações extraordinárias, e mesmo incríveis, por virem de quem vêm. Vítor Bento fez parte do coro de notáveis que imolou na praça pública os esforços do Governo anterior para que Portugal escapasse com os menores danos possíveis às crises internacionais de 2008 e, em especial, 2010. Esta figura foi cúmplice do aproveitamento da gravíssima crise financeira, económica e social pelo casal Passos&Relvas; os quais não tinham outro projecto que não fosse o de enganar o eleitorado para se lambuzarem no pote (pote: empregos no Estado para o aparelho partidário, financiamento para o partido, participação do baronato e eminências pardas do laranjal em negócios colossais com a desculpa do Memorando, enriquecimento do currículo profissional, fruição revanchista do poder). Também com origem no logro eleitoralista, a uma escala sem precedentes na democracia nacional, está o discurso da punição moral imediatamente adoptado após a tomada de posse do actual Governo. É uma estratégia típica dos meios da violência doméstica, onde o agressor culpa a vítima pela agressão cometida. E ai da vítima se ousasse vir com queixumes, pois as pieguices seriam devidamente chicoteadas a partir do palco com direito a cobertura televisiva e sugestões enfadadas para se abandonar o País. Uma malabarice de soberba hipocrisia, um regabofe do ódio aos concidadãos que viviam acima das suas possibilidades e não queriam trabalhar.

Acontece que houve quem dissesse no auge da tormenta o mesmo que agora Bento escreve na ressaca da devastação. Esses foram tratados como dementes e corruptos. E também houve quem dissesse, sem terem sido escutados, que a melhor estratégia para a oposição era apostar tudo na responsabilização da coligação negativa pelo trágico afundamento de Portugal – provocado apenas pela gula de poder com o apoio decisivo dos sectários da esquerda pura e verdadeira. Dois fanatismos de mãos dadas que continuam, 4, 5 e 7 anos depois, iguais a si próprios.

Desde o nascimento da democracia que as maiores ameaças à sua qualidade vêm dos caluniadores e dos fanáticos. Também por isso, esta assunção de Vítor Bento fica como um exemplo do triunfo da inteligência sobre a coerção tribal.

7 thoughts on “Alguém escolheu, com gosto, a política da terra queimada”

  1. Gente como este senhor não tem vergonha na cara. Não se importa de dizer e fazer uma coisa hoje e amanhã o seu contrário; não porque reconheceu o erro e aprendeu, mas porque age ao ritmo das conveniências e interesses pessoais ou de grupo.

  2. tenho ideia que o bento é uma máquina de engonhar com desculpas e filosofias do caralho, quando tocar a decidir, esconde-se casa de banho e só sair quando já foram todos embora. deve ter sido por isso que correram com ele do novo banco, mas esqueceram-se de informar quanto deu de prejuízo por falta de decisões enquanto lá esteve. as próximas declarações são com a fralda de fora e sem gravata.

  3. O bento, ex-economista-filósofo que, perante o facto de ser corrido sem préstimo depois de fazer os fretes todos, se dá agora de ares de vingança contra quem andou até há dias a defender a mais desavergonhada e brutal austeridade sobre pobres e remediados a troco de bem estar próprio , revela-se plenamente não só como um ignóbil desonesto intelectual mas sobretudo como um trafulha-economista-mercenário.
    Quem se segue em igual exercício; o amigo cavaco?

  4. está uma excelente análise e pouco importa de quem vem. se calhar este é como o outro e aprendeu com o que o tempo mostrou – ora também há aqui sensatez e inteligência.:-)

  5. o bento é mais um ressabiado a tentar vingar-se de ter sido vítima de estratégias cruzadas e vinganças entre os gangs bolicoise e massamá. caberá na cabeça de alguém o governo recusar uma ajuda de 2,5 mil milhões ao bes, para de seguida enfiar lá 5 mil milhões, criar pânico na banca e nos clientes, criar um imbróglio jurídico sem precedentes e mais uma incerteza para alimentar especuladores? desta vez o cavacoise foi bem indrominado pelo pelo palhaço das farófias, foi entalado e ficou a ver a banda passar de combóio com o ricciardi em máquinista.

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