Ajoelha-te, Eusébio

Na final do Europeu, algures a meio da 1ª parte se não me falha a memória, a realização colocou no ar um grande plano de Figo a assistir ao jogo. Durou 3 a 4 segundos. E durante esses 4 a 3 segundos foi possível apanhar Figo a bocejar. Talvez tenha sido um bocejo isolado e enorme a coincidência, claro. O estatístico em nós, porém, adivinha que Figo bocejou à grande e à portuguesa durante a partida, ou parte dela, daí ter sido apanhado nessa singular ocasião. Falta de sono depois de uma homérica noitada parisiense? Aborrecimento por já estar farto de ver a Selecção a jogar finais seja do que for? Achava que a França era demasiado fraca e que a cabazada lusitana era certa contra uns coxos que nem luta davam? Ou seria porque, para quem gosta de futebol, o espectáculo estava a ser uma dolorosa chatice apesar do hino e da bandeira?

Todas as críticas à qualidade do futebol português neste torneio foram justificadas. Desde o subrendimento de Ronaldo, fosse pelo que fosse e que os golos marcados não escondem, à verdura de Renato Sanches, que o levava a não saber o que fazer com a bola depois de a ter levado do meio-campo para o ataque com rapidez e estilo, passando pelo 3º lugar num dos grupos mais fracos do Euro, algo que com as regras anteriores teria mandado a rapaziada de volta à Portela para a maior vaia da história do futebol e dos aeroportos aqui no rectângulo. Calhando termos perdido a final, também muito se teria falado do supino disparate de ter visto sair Ronaldo aos 25 minutos e Fernando Santos ter esperado quase até ao fim do jogo para meter Éder. Não que meter o Éder fosse por si só uma decisão brilhante, pois estamos a falar de um trapalhão, mas porque a alternativa de jogar com Nani na posição de Ronaldo era estupidamente estúpida. Para cúmulo, a entrada do Éder mostrou que ele era o homem certo no lugar incerto, actuando como um médio a ganhar faltas e libertando Nani para jogar na única posição onde pode ser útil, como extremo. Igualmente, a decisão de tirar o Renato, em caso de derrota, teria merecido mais uns pregos no caixão, ou na cruz, do Santos. O puto era o único a conseguir desequilibrar com as suas arrancadas a direito em direcção à grande área contrária, algo que se tornaria cada vez mais importante indo para prolongamento e antecipando-se um superior cansaço dos franceses. Mas deu-se um milagre, ou dois, né?

França fez a Portugal, durante 80 minutos, o que a Alemanha tinha feito à França durante 45. Jogaram melhor, jogaram mais, ganharam quase todas as bolas, correram como cavalos. Esmagaram. Depois da lesão do Ronaldo, a única esperança de Portugal era a lotaria das penalidades, e mesmo isso parecia altamente improvável. De tal forma que toda a nossa gente acharia cosmicamente justa a vitória da equipa da casa através do que ficaria como um belíssimo golo de Gignac aos 92 minutos. Este o primeiro milagre, com a bola a bater na metade interior do poste e depois a saltar para a frente de Griezmann que estava perante uma baliza escancarada. Não a apanhou por uma diferença de 1 metro face à curva que ela fez à sua frente. Nessa realidade alternativa, a Selecção derrotada teria à mesma uma recepção em festa quando aterrasse em Lisboa. Marcelo teria à mesma condecorações para distribuir pela rapaziada. O povo encheria à mesma as ruas, embora menos (menos povo e menos ruas). Fernando Santos seria à mesma levado num andor por ter profetizado que só voltaria a 11 de Julho. Um sentimento de serenidade generalizado e narcótico seria alimentado pela repetição de que sem Ronaldo seria impossível fazer melhor, que mesmo assim muito tinha sido feito pois apenas tínhamos levado um e já depois do tempo regulamentar. E as teorias da conspiração sobre o plano francês para dar cabo do nosso único trunfo explodiriam furiosas, com Payet a ser considerado persona non grata do Minho aos Algarves até que o Inferno gelasse.

O segundo milagre foi o golo do Éderzito António Macedo Lopes. Só existe um outro golo de Portugal na mesma categoria, e temos de recuar 31 anos para o encontrar:

A improbabilidade do que Éder gerou aos 109 minutos da jogatana lembra os programas televisivos relativos ao aparecimento dos humanos na Terra. Segundo os avisados cientistas, para onde quer que se olhe deparamos com factores que a terem sido um bocadinho-inho-zinho ao lado, qualquer um deles logo a partir do centésimo de quintilhonésimo do primeiro segundo do Grande Estouro e incluindo aquele calhauzão chutado muito fora de área e que aterrou na mona dos dinossauros há 65 milhões de anos, e nunca este sistema solar teria visto ou iria ver malta em calções atrás de uma bola. O mesmo, ou parecido, para o que se passou naquela jogada, a qual começa com a saída de Ronaldo. Com ele em campo, o ilustre filho da Guiné-Bissau sequer teria ido aquecer no traseiro de uma baliza. Eis então que o nosso fantástico goleador recebe a bola de Moutinho e nada mais pode fazer com ela do que correr para o lado, em direcção ao centro do campo. Nesse movimento quase que se baralha sozinho e perde o equilíbrio. Nem ao seu lado nem à sua frente havia qualquer português a quem dar a bola. A escolha mais lógica seria ter passado para alguém recuado, posto que estava no meio de 4 franceses e distante da baliza. Foi então, nesse instante de solipsismo e derrelicção perante o abandono dos companheiros, que resolveu chutar na direcção do guarda-redes adversário. Essa decisão não tem nada de especial por si mesma. É do conhecimento geral que nos jogos da bola há quem use e abuse desse movimento. O que tornou o remate do Éder em algo que suspendeu as leis da Natureza foi o facto de a bola lhe ter saído tão perfeita que a suavíssima curvatura do seu trajecto acabou por se transformar no singular factor que impediu Lloris de a desviar com a mão direita. Um pintelho de curvatura a mais e a bola batia no poste, um pintelho de curvatura a menos e era defendida. Nem que Éder fosse posto a repetir o remate em corrida do mesmo sítio um milhão de vezes voltaria a conseguir dar aquele efeito, com aquela direcção e com aquela velocidade. E foi isso que todos celebrámos em transe, esse testemunho de um acontecimento impossível a inscrever-se no quotidiano. Muito mais do que estar a ganhar à França e à beira da conquista do título de campeões europeus, a génese primeira da euforia radicava na consciência de que este Universo, definitivamente, não regula bem da bola.

GGGOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLOOOOO!!! Toda a gente que estava na zona dos suplentes de Portugal salta para dentro do campo louca, maluca e doida varrida. Toda? Não. O seleccionador nacional faz o trajecto inverso, abandonando a linha lateral onde passa a maior parte do tempo de jogo a despejar caralhadas contra os seus jogadores e indo passear junto das cadeiras agora vazias com a cabeça baixa e as mãos nos bolsos. Porquê? Porque não? Talvez seja esse o seu modo usual de reagir quando a sua equipa marca, talvez estivesse a orar agradecendo a excepcional intervenção divina. Mas esse movimento a contrario da explosão emocional acabou por ser a prova definitiva de que esta era, dos pés à cabeça, a Selecção do Ronaldo. Um Ronaldo que trouxe do balneário umas faixas à volta do joelho esquerdo que exibiam a sua real patente. O grego passava à sua natural condição de sargento, agora com um general ao seu lado a dar instruções para os guerreiros no campo de batalha. O mesmo general que numa batalha anterior deixou o País boquiaberto com uma histórica exibição de chefia. Aconteceu nas penalidades contra a Polónia com a frase “se perdermos, que se foda”; a qual c’est tout un programme, como dizem os ingleses (os cultos, adubados nos bons colégios). O decisivo na expressão não é o vernáculo, é a condição. O Cristiano levou o João a perder o medo, maior qualidade de liderança não pode haver, enquanto o Sr. Santos fazia e dizia ninguém sabe o quê. De repente, para muitos milhões de atrofiados, um ídolo reclamava o direito ao falhanço como expressão do próprio talento e da vontade de ganhar. Embora este raciocínio já tenha barbas brancas em muito livro de psicologia motivacional, culturalmente foi um choque libertador. Isto porque continuamos a viver numa comunidade que não enterrou o salazarismo, apenas o deslocou para debaixo do tapete. Continuamos medrosos por causa do medo de falhar. Castigamos quem erra em vez de aproveitar o erro como fulcral e inevitável meio de aprendizagem. Isto bebe-se logo no berço, herança de um catolicismo e de uma oligarquia decadentes. É também por isso que a nossa classe empresarial é tão fraca, tão nepotista e tão parola (ou é na sua maior parte, sei lá eu do que falo). A excepcionalidade simbólica de Ronaldo, feita de condições genéticas e ambientais que lhe permitiram atingir planos de superioridade atlética a uma escala mundial, nunca tinha sido tão manifesta como nesses segundos em que ele salvou Moutinho de ser um desertor e o levou, nas asas da sorte, para a glória.

"Em primeiro lugar e acima de tudo, quero agradecer a Deus Pai por este momento e tudo aquilo da minha vida. Deixar uma palavra especial ao presidente, dr. Fernando Gomes, pela confiança que sempre depositou em mim. Não esqueço que comecei com um castigo de oito jogos pendentes.
A toda a direção e a todos os que viveram comigo estes meses. Aos jogadores, dizer mais uma vez que tenho um enorme orgulho em ter sido o seu treinador. A estes e aqueles que aqui não puderam estar presentes. Também é deles esta vitória. O meu desejo pessoal é ir para casa. Poder dar um beijo do tamanho do mundo à minha mãe, à minha mulher, aos meus filhos, ao meu neto, ao meu genro e à minha nora e ao meu pai, que junto de Deus está certamente a celebrar.
A todos os amigos, muitos deles meus irmãos, um abraço muito apertado pelo apoio mas principalmente pela amizade. Por último, mas em primeiro, ir falar com o meu maior amigo e sua mãe. Dedicar-Lhe esta conquista e agradecer-Lhe por ter sido convocado e por me conceder o dom da sabedoria, perseverança e humildade para guiar esta equipa e Ele a ter iluminado e guiado. Espero e desejo que seja para glória do Seu nome."

Fernando Santos atribuiu a Deus, literalmente, o resultado do jogo entre a França e Portugal na final do Europeu de 2016. Quem escreve e se atreve a ler em público o que acima está citado concebe que Deus tomou a decisão de favorecer uma equipa prejudicando a outra, quiçá por ainda estar aborrecido com a Revolução Francesa e quejandos. E mais: que esse resultado pode ser venerado como uma epifania da transcendência em modo católico, apostólico e romano. Isto significa que para os curiosos a respeito das preferências de Deus em matéria de futebol, leigos ou teólogos, o currículo do “engenheiro do penta” é um texto sagrado. Aparentemente, Deus gosta mais do Porto do que do Benfica e do Sporting, deixo essa nota entre outras de igual quilate à espera de exegese. Obviamente, sendo os gostos e clubite do sobrenatural a sua explicação favorita para os acontecimentos que lhe pagam para condicionar, não há nada para aprender com este treinador fora do âmbito do catecismo. A Selecção do Santos não é de Portugal, é de um deus que ele lá conhece de outros campeonatos e a quem deve favores. A selecção do Ronaldo, essa sim, é de Portugal, porque se revelou ser de um português heróico. Um português que ensina a ser como ele, português e herói. Deus não faz falta nesta Selecção de Portugal porque nem Ele sabe o que vai acontecer nas grandes penalidades, inútil pedinchar ajudas manhosas. A Sua omnisciência tem de ficar a olhar e a roer as unhas como os outros na bancada. Qual verdadeiro iniciado na Ordem de Cristo, reencarnação da Ordem dos Templários, Cristiano Ronaldo cospe na cruz e diz a Deus “fode-te para aí nessa altura onde estás, vou tratar do assunto sozinho”. Sozinho e com o Moutinho, que bate bem.

Nesta entrevista – Simões: “Quem é líder não tem necessidade de fazer o que Ronaldo fez” – o magriço António Simões ataca Ronaldo. Não para defender Fernando Santos, aposto que nem nunca ouviu falar nele, mas para defender um bem infinitamente mais valioso, Eusébio. E faz ele muito bem, rangendo os dentes e ganindo desesperado ao ver a identidade a fugir-lhe debaixo das chuteiras, pois o dia chegou em que Eusébio deixou de ser a figura suprema lá onde o futebol é mitologia. Esse lugar passou a pertencer ao madeirense descoberto e formado no Sporting. Sintomaticamente, no fel que descarrega contra o novo rei, que talvez acabe por ser um imperador, faz questão de lembrar o episódio do lançamento do microfone da CMTV para um lago. O Simões sabe do que está a falar, pois esse acto, censurável sob vários critérios adentro de um Estado de direito e de uma deontologia da representação do Estado, fica igualmente como um gesto artístico que sublima a violência do agressor, a entidade Correio da Manhã, e a exorciza numa metáfora espontânea e dadaísta contra o poder dos canalhas. Eusébio e suas maravilhosas pernas jamais teriam força e pontaria para tanto.

17 thoughts on “Ajoelha-te, Eusébio”

  1. Foi Deus, Maria e José, todos os Santos, Anjos e Arcanjos, S. Judas Tadeu e Santa Rita de Cássia que ajudaram Valupi a escrever este texto tão brilhante.
    Bem hajam !

  2. Só mesmo um maluquinho para escrever um texto deste tamanho sobre futebol, e outros malucos para o lerem todo – e até elogiarem ( se bem que não se saiba se alguns dos comentadores são ou não o autor, sob outros pseudónimos ). E ainda por cima, informa-se mal .
    O treinador teve o cuidado de explicar que não pede a Deus para ganhar o jogo ( no sentido de um apelo à interferência divina de modo a influenciar, de modo tendencioso, não imparcial, o resultado, e isso porque, obviamente, os treinadores das outras equipas farão o mesmo, o que, a existir Deus, inviabiliza qualquer ajuda a uma das partes ) mas sim, que lhe conceda inspiração e sabedoria para conduzir a equipa ao triunfo . O que, convenhamos, são coisas diferentes .
    Claro que só li as declarações do treinador, o resto do texto, deixo para os fiéis devotos .

  3. o pimpampide anda aí de novo obcecado com identidades de comentadores e autores anónimos, pseudónimos e ex-homónimos. dass… lá para a pancada e mais para a teoria da inviabilização das ajudas divinas. se concede inspiração e sabedoria para ganhar, tem de ser para todos, caso contrário está a favorecer uma equipa.

  4. Se o Fernando “Opus” Santos fosse muçulmano, havia de ser o bom e o bonito.
    No mínimo era do DAESH!
    Em privado tem o direito de rezar e de se ciliciar à vontade.
    Publicamente, representando Portugal, devia ter outro recato.
    Os fundamentalistas são todos “muito” iguais.

  5. Mas quem é que tem a pachorra, a paciência, lerdice, vagar, etc… para ler esta treta toda ?
    Só pode estar enfermo… da tola.

  6. O boqueteiro pronunciou-se às 8,47, pesporreia sobre anónimos, e pides, e tal, e nem sequer tem o cuidado de modificar o estilo da prosápia . Já toda a gente identificou o ign-anormal-atz .
    O peido não te encheu a boca ?
    Toma lá mais um ?

  7. E fala no estado de direito estando em causa quando muito um simples e mero caso de dano de propriedade alheia ( caso do lançamento dum microfone ) olvidando natural e convenientemente o furto dos dois gravadores pelo então deputado-vedeta chuxa açoriano, insiste a despropósito na presunção de inocência , em geral ( ignorando mesmo a figura jurídica do flagrante delito ) e assim sendo a doentia mentalidade e filosofia valupiana, qualquer um que sustente que Hitler e Himmler foram genocidas e mandantes de crimes contra a Humanidade, não passa, segundo Valupi, dum caluniador, vistos que ambos não foram sequer formalmente acusados nem sequer presentes a um tribunal e portanto não foram condenados por uma sentença, transitada em julgado …

  8. :-) quem me dera que futebol fosse sempre assim cheiinho – bocejos, gritos, peidos, arrotos, massa crítica e muito, imenso, riso – de prosa poética. ficava fã. :-)

  9. O pimpampeidola merdoso tem é m u u i t a I N V E J A de não conseguir escrever assim!

    PUTA QUE TE PARIU, alforreca.

    Rasteja no esterco, verme moral. Podes ter a Catequese toda, cabrão, mas não passas de um monte de estrume aos olhos daquEle que finges adorar.

    Andarás por aqui até Ele querer, a fingir-te rei em terra de ceguetas, e acabarás desamparado nos fundilhos desse Inferno em que acreditas sem teres aprendido nada de nada.

    Sim, juiseco do caralho, não sabes nada, NEM VALES NADA e sabes bem que quem sabe, sabe isso muito bem.

    Se a merecesses, teria imensa PENA de ti, acredita. Assim, mereces apenas um imenso NOJO.

    A partir de agora, javardão, SEMPRE QUE AQUI VIERES PAVONEAR-TE, com esses comentários repetitivos e autistas para tu próprio leres, VAIS PASSAR A LEMBRAR-TE DESTAS VERDADES.

    Já não precisas de comprar o espelho que há mais de cinquenta anos te faz tanta falta. Pançudo de merda!

  10. Tirando as referências ao Eusébio e aos três maiores Clubes portugueses, perfeitamente dispensáveis, ESTÁ TUDO DITO, no essencial, sobre a figura que a Seleção portuguesa fez no Euro’2016.

    E fica também devidamente demonstrada, pelo contraste, a figura que todos os comentaristas desportivos portugueses fazem, sempre que falam da Seleção…

  11. “solipsismo e derrelicção”, porra pá, até tremo quando penso no dia em que terei de ler um livro teu, vai ser mais difícil do que conhecer todos os significados das palavras dos Lusíadas.
    Por outro lado não há volta a dar-lhe , escreves bem, muitíssimo bem, olha até vou usar a única palavra difícil que domino, foi agradabilíssimo.

  12. Vá, ponham os olhos na nossa Equipa olímpica de Futebol! Na maneira como passam, como correm, fintam e se desmarcam, na maneira decidida como chutam! Vale mais ver um só minuto de jogo desta belíssima EQUIPA, do que um jogo inteiro da seleção enfadonha e toda tolhidinha do enginheiro do penta…

    PARABÉNS, RAPAZIADA! E muitos Parabéns, Rui Jorge! Ver-vos jogar assim é um encanto.

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