Ah!

João Céu e Silva - Acha mesmo que venceu o debate sobre o marxismo e o fascismo?

José Rodrigues dos Santos - Ninguém conseguiu desmentir o que escrevi no livro e num texto de opinião que publiquei, em que mostrava que havia historiadores a dizerem a mesma coisa que eu. Até foi estranho que um historiador tivesse começado o seu artigo por desmentir afirmações que eu não tinha feito. É difícil desmentir que o fascismo tem origens no marxismo porque é verdade. Eu nunca pretendi que isto fosse um facto novo, aliás, em toda a minha obra não digo coisas novas para os especialistas.


Fonte

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Estamos em meados de Agosto, altura ideal para voltarmos a uma das polémicas mais originais dos últimos anos, aquela que levou um famigerado apresentador de televisão, na posse da verdade a respeito do fascismo e do marxismo, a ser confrontado nos jornais por um grupo muito reduzido de supostos especialistas em História, e merdas dessas, os quais apenas conseguiram exibir a sua ignorância. Verdade.

A verdade, como substantivo e adjectivo, é um termo que aparece 23 vezes na entrevista de JRS ao DN. A entrevista termina, aliás, com o entrevistado a perguntar ao entrevistador se quer a verdade. Não sabemos o que o entrevistador terá respondido, pelo que não sabemos se a verdade foi de facto revelada nessa resposta final. Pode ter acontecido que o entrevistador tenha assinalado com um assentimento da cabeça ou de olhos que, sim, queria a verdade. Mas igualmente é legítimo supor que o entrevistador tenha ficado lívido e imobilizado perante a iminência de se deparar com a verdade, rigidez corporal e facial essa que bastasse ao entrevistado como sinal para deixar a verdade vir à luz. Ou podemos imaginar que o entrevistador fosse vítima de um espasmo ocular involuntário que tenha sugerido ao entrevistado estar o interlocutor em condições de acolher a verdade. A falta de informação contextual na peça dá azo a estas fantasias. Finalmente, é ainda de supor que o entrevistado não tenha recebido as garantias necessárias por parte do entrevistador para que a opção de contar a verdade se concretizasse. Nesta última hipótese, a entrevista termina com uma mentira – o que é sempre chato, embora seja também interessante.

JRS partiu para esta polémica com um avanço que, soubemo-lo entretanto, era impossível de vencer. Como nos conta, “houve historiadores a dizerem a mesma coisa que eu“. Portanto, não estamos perante um caso em que JRS resolveu repetir uma cenas esquisitas assinadas por historiadores. É ao contrário. E isto, como se viu rapidamente, era algo que em Portugal todos menos ele ignoravam. Sintomaticamente, o último texto que publicou sobre a temática – “O fascismo tem mesmo origem no marxismo” – não teve resposta de ninguém. Todos refugiados em tábuas e com a viola metida no saco, para usar duas imagens que acabei de inventar. Nem sequer do valente do Araújo, a quem a lição é dedicada, veio um ditongo crítico. Talvez porque o texto termina com um viril grito, “Ah!“, e este Araújo se sinta mais confortável a bater em mulheres (é uma metáfora, António, calma).

Ora, estamos em meados de Agosto. E isto é verdade. Então, bute responder ao JRS recorrendo a uma outra verdade ausente desta polémica até à data. Cá vai ela: Differenz der demokritischen und epikureischen Naturphilosophie. Acertaste, trata-se da tese de doutoramento de Marx. Com 23 anos, Marx obtinha o seu título académico com uma profunda reflexão sobre as diferenças entre os atomismos de Demócrito e Epicuro. Diferenças fascinantes, onde os átomos de Epicuro são a modos que avariados da corneta, sofrendo de uma tara chamada clinamen, enquanto os atómos de Demócrito não passam de uns totós. Tudo o que veio a seguir na produção intelectual de Marx resulta deste tratado. Sim, voltaste a acertar: o fascismo vem do atomismo clássico grego – ou, para sermos mais exactos, o fascismo vem do marxismo e o marxismo vem do epicurismo. Porquê? Porque é verdade. Não dá para desmentir. De resto, há historiadores a dizerem o mesmo que eu. Olha aqui um de quem o JRS deve gostar bastante:

A capacidade das esquerdas mundiais para justificar em nome de uma utopia humanitária as piores atrocidades do regime comunista — e, exterminado o comunismo na URSS, para continuar a pregar com a maior inocência os ideais socialistas como se não houvesse nenhuma relação intrínseca entre eles e o que aconteceu no inferno soviético —, é uma herança mórbida que, através de Marx, veio do epicurismo.

[...]

Que Marx tivesse, pessoalmente, um tremendo senso do teatro, do fingimento, da prestidigitação, é coisa que os biógrafos já estabeleceram com certeza suficiente. Mas isto não bastaria para dar à sua filosofia tamanho poder de ludibriar as consciências. Quando, no entanto, notamos que o primeiro interesse acadêmico do jovem Marx foi devotado ao estudo do príncipe dos ilusionistas filosóficos, e em seguida constatamos ser idêntica, em Epicuro e nele, a mixórdia proposital e alucinógena da teoria na prática e da prática na teoria, então compreendemos a virulência inesgotável da herança epicurista, capaz de atravessar os milênios e ressurgir a cada novo empenho cíclico de instaurar em alguma parte do mundo o reinado da impostura.

Olavo de Carvalho – EPICURO E MARX

Perante estas verdades, perante o calibre dos historiadores que me repetem, toda a polémica avança na direcção de uma verdade maior ou melhor do que a tese inicial de JRS, talvez mesmo maior e melhor em simultaneidade e concomitância. Agora, sabemos muito mais do que sabíamos em Maio e Junho passados. Restará satisfazer a última curiosidade: e o epicurismo, vem donde? Hum?

Mas não se vê logo, caralho? Esta até quem fez a antiga 4ª classe sabe de cor. De Sócrates!

4 thoughts on “Ah!”

  1. ai que riso! está um texto digno de um Parteiro que, não me tirando, dá-me dor – dor de barriga de tanto rir. :-)

  2. Perder tempo com o jrs, é pior do que dar pérolas a porcos!
    O “escritor” a metro, confessou nessa entrevista que, não passa de
    um “transmissor” em modo acessível das grandes ideias de verda-
    deiros autores, quanto muito será um tradutor!
    Todo o resto não passa de uma combinação com o editor de mais
    ou menos página e, servir-se da visibilidade que a RTP ainda lhe dá!!!

  3. Quem edita um escrito mentiroso deste calibre contra a verdade dos factos sobejamente conhecidos será o responsável obreiro mas não será, certamente, o responsável maior o qual se esconde atrás destes tarefeiros pagos ao frete.
    O que tal editorial revela é que já há uma evidente sintonia em todos os meios de comunicação privados contra o actual governo. E isto não pode ser obra de tarefeiros mas sim de estratégias de “trabalho” mancomunadas pelos donos-detentores desses meios poderosos para destruir a imagem deste governo até ao seu derrube ou novas eleições. Perante a, cada vez mais provável, possibilidade do governo durar esta legislatura e até reforçar a maioria na próxima, os “merceeiros unidos”, sim merceeiros porque todos vendem produtos e não notícias, informação ou jornalismo, lançaram-se ao ataque para derrotar este governo sem olhar a meios nem verdades.
    Em desespero de causa face à perda de mordomias e negociatas à conta do erário público uns contratam e outros vão às fileiras próprias recrutar o piorio que há de mais baixo de fraqueza humana; os que vendem a consciência para mentir e enganar o outro voluntariamente.
    Eles, os merceeiros da informação, só ainda não se concertaram, parece, no cavalo certo em que querem apostar. Uns ainda apostam no cavalo velho que o povo já conhece e dificilmente embala, novamente, no conto do vigário e, por isso, outros querem eleger um cavalo novo que possam vender outra vez, revestido de novo conto do vigário modernaço, após bem fabricado e exposto iluminado nos seus balcões de luzes tira nódoas e lavar mais branco.

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