Adolfo Mesquita Nunes é estúpido?

Neste universo e universos vizinhos, entrados em 2020, só há duas consciências que se lembrem do que Adolfo Mesquita Nunes disse na TSF no dia 19 de Dezembro do ano passado – e que deixou como título Teríamos passado pela troika se o PS acreditasse mesmo nas contas certas? – o autor e eu.

O argumento displicentemente apresentado começa por um número de revista, isso de vermos um fulano que integrou o tal Governo que teve de fazer 8 Orçamentos rectificativos em 4 anos a acusar quem nunca recorreu a tal avaria de fabricar números intencionalmente falsos. O primeiro parágrafo é de gargalhada, pois, mas quando chegamos ao fim do segundo já temos a dúvida instalada: o tipo está na reinação ou é estúpido?

Segue-se uma juliana de clichés, distorções e banalidades até aterrarmos na cassete de que ter “contas públicas saudáveis” significa ter o Estado a dar lucro ou a não ter dívida, a tal falácia para borrego mastigar onde se equipara a economia doméstica e empresarial com a economia de um Estado. Mesquita Nunes diz que os socialistas são do piorio porque andaram para aí a defender que “as pessoas não são números”; o que, descreveu a 600 km/h, tem como grande chatice causar défices e estes corresponderem a um efectivo empenho social. A sua pressa em saltar por cima dos factos e da lógica justificava-se por uma homérica questão que nos queria deixar antes de irmos às azevias e ao bacalhau, na ponderação da qual o articulista gastou certamente alguns minutos ou segundos (é uma hipótese, embora admita que não tenha chegado a 1 segundo):

«Mais vale tarde do que nunca, mas justifica-se perguntar: o que teria sido Portugal se os socialistas se tivessem empenhado nesse princípio, o que teria sido a economia portuguesa, o que teria sido a mobilidade social, o que teriam sido as oportunidades dos portugueses, se os socialistas, que nos governaram na maioria dos anos das últimas duas décadas, tivessem adotado esse princípio?»

O princípio defendido na ocasião, recorde-se, é o de ter excedentes orçamentais a cada ano. É exactamente isto que o senhor Nunes está a acusar o PS de não ter atingido nas décadas anteriores. Algo que ele seria incapaz de explicar como teria sido possível, ou com que consequências. Algo não só absurdo no campo do exercício governativo como irracional dadas as circunstâncias históricas, e seus contextos económicos e sociais, de Portugal. Coisa, enfim, sumamente demagógica. Ou absolutamente estúpida.

Adolfo Mesquita Nunes vem de manifestar admirável coragem política ao ter assumido a sua homossexualidade, algo muito mais difícil de fazer à direita do que à esquerda, e especialmente delicado no CDS. Anos antes, tinha deixado uma exuberante prova de força política ao ter defendido publicamente a despenalização do aborto e ao ter votado a favor do casamento entre pessoas do mesmo género. À volta desta postura genuinamente liberal, surge mediaticamente com uma pose civilizada e com laivos sofisticados na disputa verbal, acumulando a passagem pelo Governo de Passos Coelho onde deixou imagem de competência. Tendo em conta os seus 42 anos, é automaticamente uma das mais fortes esperanças para o renovo e crescimento do CDS – isto é, parece uma pessoa decente e inteligente, o suficiente para operar uma revolução cultural no que tem sido aquele partido após Adriano Moreira, Freitas do Amaral, Narana Coissoró e Lucas Pires. Então, raios, como é que se permite discursar como um imbecil? Será porque é só para imbecis que comunica, achando não ter alternativa embora não acredite no que diz? Ou será que as aparências iludem e estamos mesmo perante um estúpido?

A resposta é dado no próprio texto, assim:

«Não basta vir fazer de responsável, dizendo com candura e lógica aquilo que, durante anos, o PS abjurou. É preciso não esquecer que o país se viu resgatado depois de um défice superior a 10%, sem dinheiro para pagar salários nem pensões, condenando o país a um duríssimo ajustamento.

O que o país sofreu durante o período de ajustamento teria sido muito diferente, ou nem sequer teria existido, se o PS levasse a sério o que agora quer tornar seu património: as contas saudáveis. Estaríamos hoje muito melhor. Não estamos, porque o PS descobriu tarde que era positivo ter contas saudáveis.»

É mentira que em Abril de 2011 o Estado português não tivesse dinheiro para pagar salários e pensões. Este Adolfo sabe disso há quase 9 anos. É desonesto isolar Portugal da conjuntura mundial e europeia em 2011 para culpar um Governo (qualquer que ele fosse) por uma medida de emergência. É pulhice falar do resgate sem falar do chumbo do plano que o teria evitado, plano que tinha o apoio da Europa e para a aprovação do qual Merkel e Durão Barroso (!!) fizeram infrutífera pressão. É triste, é indecente, é cobarde acusar o PS pela entrada da Troika e pelas opções que o Governo PSD/CDS de que fez parte escolheu fazer livremente – e a coberto da invasão estrangeira – por subserviência internacional, fanatismo ideológico, revanchismo partidário e gula individual.

Compreende-se, e o regime finge que não vê, como a colossal violência das decisões de Passos e Portas nos idos de Março de 2011 condiciona para todo o sempre o destino dos políticos que herdam esse legado sem que tenham o carisma de denunciá-lo. Adolfo Mesquita Nunes pareceria estúpido se o fizesse, se tivesse o bem comum como valor axial, pois de imediato seria linchado pela turbamulta do ódio tribal e político. O preço a pagar, até magnanimidade e bravura em contrário, é o de ficar como mais um estúpido na funesta história da direita decadente.

3 thoughts on “Adolfo Mesquita Nunes é estúpido?”

  1. Estou a gostar de ver o “juiz” Carlos Alexandre manobrar para expôr o Primeiro Ministro no Processo Tancos. Pode ser que seja desta que António Costa compreenda a cobardia que representou o “à justiça o que é da justiça, à política o que é da política” com que entregou Jose Sócrates às feras. Não lhes tapou a fome. Já se lhes vê a boca aberta para a ele cravar os dentes também. A história não pára.

  2. O diferente Mesquita Nunes limita-se a fazer o que, a maior parte dos encostados
    ao Pote têm feito reescrever a história a seu favor, atirando as culpas para os socia-
    listas pois, ao votar contra o PEC IV entregaram o país nas mãos do FMI tão apre-
    ciado pelo Passoilo e, pelo irrevogável Portas que encheu a boca com a perda da
    soberania por não ter competência para enfrentar a TINA!!!

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