Acerca do voto útil

Se a escolha dos governantes fosse uma competição racional, aferindo as suas competências para garantir segurança e liberdade ao maior número de cidadãos, o PS recolheria 99% dos votos daqui a 48 horas. É o único partido, actualmente, que reúne o ideário e os recursos humanos para desempenhar com o máximo de eficiência e de eficácia possível uma actividade – o governo de um país pertencente à União Europeia na conjuntura internacional de 2022 e anos seguintes – onde a gestão da sempre crescente complexidade exige menos “verdade” e mais “prudência”, menos “sectarismo” e mais “miscigenação”, menos “revolução” e mais “evolução”.

Uma vitória do PS é preferível à vitória do PSD em qualquer cenário. Com maioria absoluta, a governação ganharia qualidade e rapidez (continuando a ser discutível o acerto das políticas, óbvia e inevitavelmente). Com BE e PCP a garantirem maioria parlamentar, a governação manteria o registo de centro-esquerda que nasceu em 2015. Com o PSD a viabilizar um Executivo socialista, a governação seria mais ao centro, não permitindo que o pior da direita tivesse consequências governativas. Se o PSD ganhar, qualquer cenário é prejudicial para o interesse nacional. Se governar com acordo do PS, ficaremos na mesma estrada mas passaremos de cavalo para burro. Se governar com CDS e IL, entraremos numa outra estrada que não se sabe onde vai dar, guiados por quem mostrou não ser confiável na sua palavra, nem nos seus princípios, nem na sua inteligência política. Se governar com CDS, IL e um qualquer tipo de acordo com o Chega, saltaremos para fora da estrada e poderemos dar por nós a cair num abismo onde tudo o que Ventura mostrou ser capaz de dizer e ameaçar fazer fica validado e destinado a crescer.

Dito isto, não irei votar PS. As razões são as mesmas que me levaram a não votar PS, para as legislativas, em 2019, 2015, 2009, 2005 e o mais que a memória alcance. Votei em 2011 para defesa da Assembleia da República e da democracia portuguesa, esse risco não se põe nestas eleições. Pura e simplesmente – dada a responsabilidade do PS no regime desde o 25 de Abril e a abundância de quadros e simpatizantes altamente qualificados em todas as áreas do saber – acho inamissível que este partido não resolva, ou sequer diga como se podem resolver, os problemas da Justiça. E se na dimensão da Justiça penal vivemos uma crise que factualmente está a pôr em causa o Estado de direito, no campo da Justiça administrativa vive-se um outro tipo de crise igualmente devastador para a economia, as finanças e a saúde mental dos portugueses. Constate-se o que foi acontecendo ao longo da campanha, onde suspeitas de gravíssima actividade criminosa de magistrados e seus colaboradores na indústria da calúnia foram expostas sem que sequer o tema da Justiça tenha entrado no debate dos candidatos à sua tutela. E conclua-se que essa anomia, se não for cobardia, irá continuar sem que o meu voto me tinja de cumplicidade.

Nenhum partido capta a minha adesão pois nenhum fez da defesa do Estado de direito democrático a sua bandeira, ou que fosse tão-só uma das suas bandeiras. Calhando aparecer esse partido à esquerda, centro ou direita (inclusive se fosse o PAN, o PPM ou o Partido Unido dos Reformados e Pensionistas) teria o meu voto. Neste deserto, opto por votar Livre, fazendo dessa opção um autêntico voto útil. Isto é, espero que Rui Tavares seja eleito, pelo menos ele, e que a sua presença no Parlamento seja útil – para que a racionalidade do bem comum tenha mais uma voz, e a irracionalidade do sectarismo e do ódio ganhe mais um implacável adversário.

15 thoughts on “Acerca do voto útil”

  1. “Com o PSD a viabilizar um Executivo socialista, a governação seria mais ao centro, não permitindo que o pior da direita tivesse consequências governativas.”
    1- Se o PSD quisesse viabilizar alguma coisa ao PS, tinha começado pelo orçamento e não estávamos nesta merda.
    2- A governação ao centro com o PSD é a maior tanga que já ouvi/li. A única ideia que tiro do “pugrama” do PSD é comum a todos os oportunistas e traidores que formam a direita portuguesa: PRIVATIZAR tudo.
    Por isso nem entendo o final da frase.
    3- Se o PS estava refém da restante esquerda, imaginem governar suportado pelo PSD. Estamos a falar entre adultos com seriedade ou andamos na palhaçada? Já bastam os mérdia e os seus comentadores, não?

    Eu não assisti a nenhum ziguezague do Costa, nem tive de conhecimento de nenhum dado novo, na campanha, que merecesse uma queda tão abrupta do PS e muito menos uma subida do PSD.
    Acho que o Costa até teve uma boa prestação, dado o ambiente tóxico que envolve TODA a Comunicação Social há anos. Os casos e casinhos, as fugas ao segredo de justiça (again), os bastonários afetos ao PSD a fazerem oposição e toda a restante merda que lançam para minar as cabeças dos idiotas…
    Foram os mérdia (de acordo com o discurso do Rio) que pretenderam estabelecer que o Costa queria a maioria absoluta.
    O PM só disse que não confiava nos parceiros que chumbaram o orçamento. O que me parece coerente e lógico. Mas nunca afirmou que não estava aberto ao diálogo.
    Claro que acabou por afirmar que gostaria de ter maioria absoluta. E daí? O Rio não disse o mesmo?
    Sempre disse que gostaria de ver políticas ainda mais à esquerda, mas não tenho dúvidas:
    Vou votar PS.

  2. Ó Val, o voto útil é no Livre? Aonde é que o Livre esteve nos últimos dois anos?
    Quer dizer, reconheces que o PS é fundamental ao país, mas vais votar noutro, boa. Pareces o Bloco que chumbou a merda do orçamento e agora quer reunir no dia 31.
    Ó Val, larga o tinto.

  3. Magnifico. O PS é fantástico mas o sr Valupi não vota PS. Qual o motivo para quem acha que o PS não é fantástico votar no PS?
    Um bom fds

    José Marques

  4. Valupi, quando li a primeira frase do 3º. parágrafo, foi como se eu desse um trambolhão. E pensei: tenho andado a seguir neste blogue um guião de Hitchcok. Sobre Rui Tavares penso isto: devia aderir ao PS. A área política dele é no PS. Como, aliás, a de muitos, muitos, muitos militantes do BE – e até do PCP. O que me intriga bastante em R.Tavares é precisamente isso: porque não aderiu ainda ao PS. Dá para desconfiar…

  5. só me ocorre dizer que esta linha de pensamento é uma maravilha e está tão bem justificada. e que o apelo ao voto útil só pode ser livre, claro, até calha bem. eu não digo em quem votarei porque interessa a ninguém, mas voto sempre em quem me inspira mais confiança, mais paixão pelo bem comum, mais segurança – e também em quem melhora as minhas condições de vida, que não se esquece de mim.

    (sim, eu como se fosse a personificação do que deve ser um cidadão, adoro pensar nisto a sorrir e a comparar, é assim uma espécie de exercício de escolha)

  6. não vou votar pcp, vou votar pev.
    mas pronto, vá, também não se esperava um apoio de ultima hora à renata cambra.
    fazes bem, valupi. não te esqueças é de fazer figas até sair o resultado, eu vou estar a fazer o mesmo.

  7. No Rui Tavares, meu?! No Livre, pá?! Mais valia votares aí em casa, numa folhinha de papel higiénico, e fazê-la cumprir o destino habitual de tais folhinhas. Sobre Rui Tavares, como diz o Fernando, se quer mesmo militar num partido, “devia aderir ao PS, a área política dele é no PS”. Ou no BE, onde aliás já esteve. O problema de Rui Tavares é que, aderindo ao PS ou regressando ao Bloco, ficaria limitado na manifestação pública da sua “individualidade”, leia-se protagonismo, ribalta. Tanto PS como BE têm já personagens suficientes com lugar cativo na ribalta e Rui Tavares não se contentaria com lugares secundários ou, pior ainda, em ser apenas mais um figurante. Aderindo ao PS ou readerindo ao Bloco, ficaria também limitado na sua capacidade de se demarcar pontualmente de eventuais políticas concretas de impopularidade manifesta. O Rui Tavares quer ser amado, ou, para ser mais rigoroso, não gosta de ser desamado. O Livre do Rui Tavares é um híbrido de PS e BE, ou melhor, um híbrido de PS mutilado e BE esterilizado, isto para não dizer castrado um e capado o outro. O Rui Tavares do Livre quer o melhor de dois mundos e para isso adoptou, sem qualquer hesitação moral, uma metodologia que foi buscar ao pior de vários mundos: a demagogia. Uma demagogiazita de sound bites modernaços, assim um bocado amaricada, mas demagogia quand même. Por exemplo, que porra é aquela de “fazer um pacto por uma maioria social, progressista e ecológica”? Eu respondo: oportunismo, surf de ondas pequenas, que no canhão da Nazaré não se mete qualquer um. Ao Rui Tavares não repugna ser muleta, desde que lhe chamem (e chame a si mesmo) varinha mágica.

  8. Que o Valupi não é de esquerda e sonha com uma direita não decadente (seja lá o que isso for) já eu sabia.
    O discurso parece basear-se numa crença mal fundamentada (penso eu de que…) em partidos que, não são nada.
    O PPM sem o Ribeiro Teles? Apoiar a ascensão ao poder do Duarte Pio? Ridículo.
    Partido dos reformados e pensionistas? Cheio de velhos salazarentos?
    O PAN com o André Silva ainda parecia sério e construtivo. Agora esta que deixa em aberto a possibilidade de apoiar a direita, baralha-me um pouco as ideias. PSD, CDS, ecologia e direitos dos animais? Parece um pouco rebuscado, se não estranho.
    Se é pela defesa do estado de direito contra as manobras da corrupta (tenho a certeza) máfia justiceira, bem que o Val pode esperar sentado porque ninguém se atreverá a enfrentá-los. Olhem o que está a acontecer ao Ivo Rosa que até pertence à classe.
    Na volta, o idiota do Rio é capaz de ser o único interessado em apertar com eles, vá-se lá saber porquê.
    Se calhar já o foderam e ele quer vingança, lóle!
    Quanto ao voto no Livre, nada contra. Sempre é melhor do que na direita, decadente ou não.

  9. Amigo Marca Duas, também se lhe pode chamar “fumar sem inalar”. Pois eu já fumei e inalei o pacote inteiro, no domingo passado, até à última baforada.
    Um abraço para ti também.

  10. O grande José, quando viu que o maluco de melena e bigodinho com o fetiche das fardas ia apertar as costelas à sua querida Rússia e ao seu povo, lá teve de assinar um tratado de não agressão e pontuais alianças com a besta ! E assim ganhou a guerra, enquanto os grandes democratas vieram apanhar Sol para o Mediterrâneo, na costa africana, durante três anos e meio…
    Pequena contrariedade esta, votar em quem pouco nos ligou. A alternativa é dantesca, lembremos o passado recente, o atual estado da Comunicação Social, um coro afinado, que só conhece uma música e uma única letra…
    Vade retro !!!
    ..

  11. bem , as pessoas que trabalhem para melhorar as suas condições de vida …são as próprias pessoas as responsáveis por melhorar as suas condições de vida , e , a não ser que calhe o euromilhões , isso consegue-se com trabalho , não é com governos. oispois , peçam é governos que se metam o mínimo na vossa vida.
    achar que se melhora de vida com votos é de malta que mamou demasiada propaganda , e da bera.

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