A solução para a crise do jornalismo é simples

É dar dinheiro a quem o faz – What else? No caso da imprensa escrita, face à actual oferta, jamais daria dinheiro à Cofina, à Impresa, à Sonae e quejandos, exemplos de pasquinagem que degradam e infectam o espaço público. Dou dinheiro pelo DN, sete euros e tal por mês, e assim continuarei a fazer enquanto o produto me continuar a respeitar como cidadão. É simples.

E fica quase de graça quando se contabiliza o tempo de utilização e, especialmente, a qualidade editorial numa paisagem mediática dominada por uma direita decadente, golpista, aviltante. No entanto, lastimo a demora em se entender (melhor, em compreender) que o conceito de “jornal” precisa de se renovar profundamente na correlação com os conceitos de “informação” e “inteligência”. Num ecossistema social com excesso de dados e informações confusas, indigestas, os futuros meios de comunicação social herdeiros dos jornais – leia-se, do primado da palavra escrita na construção de uma visão comunitária da realidade – deviam oferecer ao “utilizador” muito mais do que apenas ao “leitor”.

O utilizador de um meio de comunicação que lhe venda inteligência está bem menos interessado nos humores políticos e narcísicos do director e seus editoriais fogosos ou depressivos e sabe-se bem mais carente de instrumentos que organizem dados, informações e opiniões em agregados personalizáveis e criativos ao serviço da idiossincrasia de quem paga. Esta transição implicará, se for avante, alterar a formação académica e a práxis dos novos jornalistas e dos jornalistas que se façam novos. Aparecerão modelos de produção jornalística nascidos de equipas multi, inter e transdisciplinares. O ideal romântico do jornalista generalista, tarimbado nas redacções e sua etnografia, que descobre a “verdade” e que diz ao povo que o rei vai nu manter-se-á válido desde que o novo idealismo de uma imprensa pilar da democracia e da liberdade tenha a inteligência comunitária no seu horizonte – isto é: não chega “dar” notícias, importa “dar” cidadania, dar poder intelectivo ao cliente. E isso faz-se, só se faz, quando se estrutura a oferta do serviço no respeito absoluto pelo Estado de direito democrático e no sistemático respeito pelos critérios científicos de rigor metodológico e inferência.

A ser assim, ficaria ainda mais simples escolher a quem oferecer o dinheirinho que temos no bolso. A quem mente, difama, calunia, persegue, conspurca as instituições da República, comete crimes, promove o ódio tribal e atiça os piores instintos da populaça ao serviço de agendas políticas antidemocráticas ou sectárias – e que depende desse culto da estupidez de todos para manter o seu modelo de negócio e dar poder financeiro e político aos pulhas? Parece uma pergunta de resposta simples.

4 thoughts on “A solução para a crise do jornalismo é simples”

  1. O cabrão do primeiro governo que meter dinheiro nalgum destes pasquins, nunca mais terá o meu voto, por insignificante que seja!

  2. Durante mais de 30 anos e com menor poder de compra do que actualmente, cheguei a comprar 2 jornais diários, nalguns dias 3, e 2 semanários, às vezes 3 , embora este 3º (que era o Independente), nem todas as semanas o comprasse.
    Actualmente, não compro e não leio nenhum, e isso resulta tão só de não encontrar na imprensa escrita actual nenhum que me mereça o mínimo respeito.
    A hipótese de os meus impostos poderem vir a ser utilizados para financiar a manutenção da pasquisnagem existente merece-me a mais viva oposição e, decerto, virei a penalizar com o meu voto o partido que estando a governar o venha a fazer.

  3. A solução para o actual jornalismo será deixá-lo avançar no seu contínuo caminhar em estado de extinção irreversível até ao desaparecimento natural.
    Tal como os vendilhões do templo, os nossos jornalistas tornaram-se progressivamente vendilhões intelectuais nas entrelinhas e hoje em dia são vendilhões objectivos, directos, descarados persecutórios por motivos ideológicos.
    Muita gente dos que gostam de ler, e são esses que lêem jornais, vão deixando de gastar dinheiro com um produto que em vez de elucidar quer manipular.
    Deixar morrer uma imprensa infectada será um bem para a saúde mental dos portugueses.

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