A Short History of Progress

O pequeno-grande livro de Ronald Wright, lançado no resto do mundo em 2004 – e por cá em 2006, com o título Breve História do Progresso, Dom Quixote – merece voltar à ribalta por duas oportunas razões: a origem da crise económica internacional e a recente confirmação de que o Homo sapiens transporta genes do Homo neanderthalensis, 2% deles. Quanto à primeira, há um capítulo inteirinho chamado Esquemas em pirâmide, o qual explica a queda de Roma, no século IV d.C., e do império Maia Clássico, no século IX, pela mesma lógica que levou ao desvario bancário no mercado imobiliário norte-americano e similares bolhas acrescidas dos produtos tóxicos: escassez dos recursos na base da pirâmide, seja a ecológica ou a financeira. Quanto à segunda, o autor manda-se de cabeça, literalmente, na defesa humanista do Neandertal, chegando a referir o esqueleto de criança descoberto em Portugal no Lapedo, o qual sugere miscigenação entre as duas espécies, e acabando a falar numa prateleira óssea da sua nuca que é idêntica à que se encontra no Neandertal. Na altura em que escreveu, a questão era tudo menos evidente e pacífica, pelo que a sua intuição e raciocínio estão de parabéns.

Wright é um catastrofista que apetece ler, o que faz dele uma raridade. A sua tese é humilde e fértil: somos húmus. Isto é, somos a Terra e não mais do que ela, pelo menos até a conseguirmos replicar no espaço ou encontrarmos outro planeta para habitar (o que não deverá acontecer nos próximos meses). Se a danificamos ou destruímos, cometemos suicídio. Esta ideia talvez não venha a ganhar um Nobel, mas o que um arqueólogo-escritor tem para nos mostrar é um padrão catastrófico indesmentível: os humanos, por onde passam, destroem os ecossistemas, causando extinções e desertificação. Não, não se está a falar de cidades e fábricas, alcatrão e cimento, mas do simples acto de comer. A procura de alimento, já na Idade da Pedra, mas em especial nos últimos 10.000 anos, tem causado devastações ecológicas sucessivas e crescentes. O sucesso da civilização parece ter apenas um desfecho: o seu inevitável colapso.

Este livro é uma iniciação rápida a grandes questões da Antropologia, História e Filosofia – portanto, a grandes questões políticas. Só para ficar a conhecer a demência que reduziu Rapa Nui, a Ilha da Páscoa, a um parque absurdo de gigantes de pedra, vale a pena comprar o livro na primeira ocasião. O que aconteceu naquela ilha tem acontecido noutros lugares e noutros tempos. Ali, o progresso foi total.

22 thoughts on “A Short History of Progress”

  1. Valupi, que contente que fico que dês atenção a estes temas. Entre nós também temos o Vasco Magalhães-Vilhena, ‘Progresso: história breve de uma idéia’ cuja primeira edição foi em 1939, republicado em 1979 pela Caminho.

    Rapa Nui é o paradigma, recordando que o termo significa exemplo padronizado.

    Hoje as palavras chave que se usam é resiliencia e panarquia.

  2. A melhor descrição que já vi do processo, foi no Matrix (2?).

    Se bem me recordo, a humanidade era descrita como um vírus, que se propaga e destroi tudo á sua passagem.

    miguel

  3. Já li, reli e continuo a sentir que há aqui qualquer coisa que não encaixa.
    Aceito o possível e previsível colapso da civilização como consequência do progresso, o homem tem capacidade para destruir o que ele próprio criou mas não percebo o drama da devastação ecológica, da desertificação, da extinção. Os humanos por onde passam destroem ecossistemas? Mas os humanos só passam por aqui, pela terra, a mesma terra de que os humanos fazem parte não sendo nada mais do que ela. Somos húmus, não é?
    Ecossistemas, desertificação, extinção, são conceitos do homem, fazem parte de nós, não da terra. São, provavelmente, essenciais à manutenção da vida mas da vida como nós a conhecemos mas se passamos a ser a bitola deixamos de ser terra, nada mais que terra, e passamos a ser a razão da terra. Teria sido então por nós que numa madrugada distante o carbono, o azoto, o oxigénio e o hidrogénio bailaram numa estranha dança e formaram as primeiras moléculas orgânicas e depois num golpe de sorte quase improvável se multiplicaram, se juntaram e formaram os aminoácidos. Mas nós só viemos na enxurrada. Há 10 000 que destruímos? Não, há 10 000 que vivemos com a vida que a terra nos deu, porque nós não nos inventámos, não nos criámos, não somos estranhos à terra, fazemos parte dela, e no dia que essa vida desaparecer a terra por cá continuará.
    Ou não, mas essa outra história está contada num outro livro. Parece que se chama Genesis.

  4. sim, isto visto de cima, esquecendo o sofrimento humano, são apenas metamorfoses de Gaia. Cá para mim ela quer é um(a) namorad@, anda com saudades de levar com um cometa ou lá que é, foi só com a tensão da Guerra Fria que sucedeu aos milhões de mortos da Segunda Guerra Mundial que se arranjou potencial para chegar à Lua, mas depois não tem lá nada,

    vestidinha de azul e branco, hum!

  5. ⅀, a crítica ao progresso é a crítica à modernidade e faz parte integrante do cardápio do pós-modernismo e da reflexão pós-industrial.

    Quanto à panarquia, investigas nessa área?

    Nunca li esse livro do Magalhães-Vilhena, fica registado para ir à procura.
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    Ana Paula Fitas, obrigado nós pela tua simpatia.
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    Miguel, sim, é uma metáfora corrente e poderosa: a Humanidade como a doença da Terra.
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    tereza, mas umas coisas não impedem as outras. Sermos o resultado da evolução não legitima qualquer disparate que façamos. A verdade é a de que 90%, ou mais, de toda a vida que já existiu neste planeta está extinta. Os seres humanos poderão juntar-se à lista, é a questão. E o nosso poder de devastação não tem comparação com o das outras espécies animais, as quais estão limitadas pelos ecossistemas respectivos. Nós invadimos todos os ecossistemas, directa e indirectamente, levando a alterações catastróficas cuja escala vai aumentando com o crescente poderia humano, tanto em tecnologias como em habitantes e suas necessidades alimentares. Em especial, o autor foca-se na importância das florestas, estabelecendo uma correlação entre o seu desaparecimento e o inevitável desaparecimento dos povos que as destruíram ao longo do tempo. As florestas são destruídas para explorar o gado e a agricultura, porém, são as florestas que conservam a água e a vida selvagem. Ao desaparecerem, os terrenos entram em processo de desertificação.

    Por outro lado, e como também refere o Ronald, a civilização tem crescido imparável. Se calhar, poderá vencer todos os desafios. É a beleza do mistério.

  6. também vou arranjar este Wright que não conhecia. Sim, investigo nisso e escrevo sobre isso desde o início dos anos noventa, e introduzi o tema da ética na questão, e matemática, incluindo desenvolvimentos originais. Fui considerado um diletante esotérico, a negação do cientista sério, que havia que queimar. Claro que havia um probleminha substancial: as minhas idéias contrariavam a ganância do máximo lucro no mínimo prazo. Conclusão: sou um smiling pink proscrito, et on y va

  7. dantes estava sózinho. Agora já há, dei-me conta disso há pouco ao conhecer a tese de doutoramento feita por uma ex-aluna minha, que delícia, e fiquei a saber que há outros. Claro que a tese dela ainda foi defendida na Holanda em 2009 e não cá, mas ainda assim agora isso vai estar na moda, moda explosiva mesmo, e eu passo à eversão de esferas não tarda (já tenho ali a teoria e esboços de parametrizações), com umas restaurações de habitat atlântico pelo meio,

  8. (Z, tenta na bertrand. Na fnac não encontrei…)

    Z, volto a bater na mesma tecla. Se queres falar em “apenas metamorfoses de Gaia”, e é por aí que gosto de olhar não deves falar em “visto de cima” ou “azul e branco” porque isso é continuar a usar o homem como referência. Nesse caso o wright não poderia dizer que somos só terra e nada mais que terra.

    Valupi, argumentas bem mas não me convences porque dificilmente conseguimos ficar com o bolo na mão e comê-lo. Se reduzirmos o homem ao húmus, a separação natural/artificial não faz qualquer sentido. A destruição das florestas torna-se tão natural como a destruição do nosso fígado por células cancerígenas.
    É certo que nós humanos, como todos (arrisco o todos apesar de poder ser excessivo) os organismos vivos, temos um apurado instinto de sobrevivência mas esse tal progresso levou-nos a tratar do imediato relegando o futuro. Estamos tão convencidos das nossas capacidades que acreditamos na nossa inteligência para resolver amanhã os problemas criados hoje. A desertificação, a extinção das espécies, as alterações nos mares, nos continentes, até na própria atmosfera, são fenómenos naturais, existem, acontecem, desde que a terra, ou Gaia, existe. Provocados por nós ou pelo choque de um cometa penso que é pouco importante para o Universo em geral. Se essas alterações podem implicar o desaparecimento do homem isso é outra questão. Nós, homens dotados de inteligência e com memória histórica, sabemos que podem. Mas esse é um problema dos homens não é um problema da terra.

  9. Tereza, mas não consigo abstrair tanto que consiga falar da Terra fora dos meus sentidos, Gaia como superorganismo é a excursão do Lovelock já lá vão uns bons anos mas já reparaste no nome dele? Hoje sou eu que tenho bisitas carago, tenho de arrumar isto,

    agora ando a engatar o Espírito Santo, primeiro já sei que é dragão mas talvez dê para voar juntos aos beijocas depois…

  10. Claro que não consegues e esse é o meu fascínio – a impossibilidade de podemos ser observadores isentos de nós próprios e do que nos rodeia.

    (andas a engatar o Espírito Santo? E a Peixa sabe? Ela já está danada com o Valupi por causa de uma história que metia Deus portanto, se eu fosse a ti, deixava o Espírito Santo em paz…)

    (reparei agora que tu também não tratas e senhor deste tasco por Val…)

  11. (Estás feita com o inimigo, é o que é. Muita faltinha faz o Torquemada. Tu vais ser a responsável pela queda da civilização ocidental, espero que tenhas consciência disso. Deus já foi para o galheiro, Espírito Santo dedicou-se às vuvuzelas e Cristo, se não lhe acudir eu, morrerá não numa cruz mas sentado num banquinho à espera do correio)

  12. bem, já lavei a loiça da Santíssima Trindade é o que é, mas foi bom…

    não te preocupes que o Espírito Santo tem costas largas como um infinito Peixa, imagino que dá para todos, ainda assim não sei os critérios éticos do pombo,

  13. A loiça? Toda?????
    Eu estou aqui a tirar o chapéu, a fazer a vénia de admiração e, mais importante ainda, a roer-me de inveja!

    :p

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