A sabedoria do marechal

Francisco Louçã deixou no Expresso o plano estratégico que o BE deve seguir na primeira metade da legislatura: Um pavio curto não alumia. O conselho (ordem?) é para usar pavios longos, contendo o impulso para dinamitar à pressa a relação com o PS e afastando a pulsão de atacar o PCP à bomba. Há tempo para tudo, como ensinam Louçã e o Eclesiastes, e este é o da espera. Esperar para ver e esperar na promessa de virem tempos melhores. Por exemplo, quando Centeno sair do palácio e o rei voltar a precisar dos camponeses e marinheiros da “esquerda grande” para cumprir a profecia, fazer nascer a abundância sem fim e a paz entre o leão e o cordeiro.

Trata-se, pragmaticamente, de um exercício pedagógico em que expõe as razões principais para escolher a via da passividade, condição de qualquer processo negocial. Negoceia-se para evitar o combate ou lhe pôr fim. Negoceia-se apenas quando se baixam as armas; com elas levantadas só há chantagem, emboscadas ou duelos. É assim, assim será até ao fim das eras. Em concomitância, trata-se de um atestado de vida do acordo entre as esquerdas parlamentares – novel de 4 anos e pouco no regime em vias de fazer 46. Louçã defende um futuro onde mais do mesmo, entalando os seus entre o PS e o PCP, será garantia de boas novidades. Para tal, há que ir desenvolvendo entre os bloquistas uma cultura estratégica da maturidade, feita de resistência e controlo emocional para que a luz da inteligência permita aos generais ver todo o campo da batalha e não só a zona da primeira escaramuça. Sábias e clássicas palavras.

Claro, podemos de imediato lembrar que quem assim fala ostenta no seu currículo exactamente o oposto gravado a ferro e fogo. Quando teve mais 100 mil votos do que o PCP, e esteve a 30 e tal mil de ultrapassar o CDS e ficar como a terceira força política no Parlamento, em 2009, Louçã apareceu em êxtase a garantir que os amanhãs que cantam já se ouviam ainda o Sol não tinha nascido. Era ele o vencedor da noite, o David que tinha acertado com os professores e seus familiares em cheio no monstro socialista, aquele que tinha tirado a primeira e única maioria ao PS e deixado Sócrates por terra a sangrar, sem se poder defender do próximo e fatal golpe. E assim foi, ninguém se deve esquecer. Menos de dois anos depois da alvorada que vinha mudar a esquerda portuguesa para sempre, lá vimos o grande Louçã a usar os votos de 2009 para ajudar Passos, Relvas, Portas e o FMI a receberem numa bandeja de prata um pobre e atarantado país. Cumpriu o seu sonho mais húmido, deu realmente cabo do PS. Quanto aos danos colaterais, nunca até hoje por eles se responsabilizou, nunca pediu desculpa pelo tamanho do pavio usado ao serviço da pior direita que conhecemos em democracia.

O exemplo de Louçã é optimista apesar da desgraça de que é cúmplice. Significa que podemos ter fundada esperança na aprendizagem dos cérebros humanos. E dá razão a Agostinho de Hipona, o qual considerava que o pecado original ou tinha sido o fruto da estupidez ou do orgulho. No fundo, uma concupiscência. Desvairos de uma juventude então com 54 aninhos.

6 thoughts on “A sabedoria do marechal”

  1. O “pregador evangélico” é um “marques mendes” do outro lado.
    Do outro lado? Será que o é?
    Interesses em comum, têm.

  2. O Louçã deu cabo do PS?
    Olhe que não. Quem deu cabo do PS (e já agora, do País) foi o Sócrates e alguns dos seus queridos. O Soares, na altura, já não tinha capacidade para perceber o que se estava a passar, além disso precisava de uns dinheiros para a Fundação. Alguns outros sacavam do pote à grande. Até que tudo o vento levou, perdão, rebentou.
    O B.E. tem que aguentar, que os tempos estão maus e o risco da irrelevância está aí.

  3. O grande líder sibilante sentiu-se humilhado quando José Sócrates, durante o
    debate na televisão, mostrou ter feito os TPC, ao confrontar Louçã com o pro-
    grama do BE que ele estava a “esquecer”! Claro, a partir daí começou a preparar
    a sua retirada e, pelo caminho por uma questão de coerência atirou o país para
    os braços da direita que, suspirava pelo FMI para “liquidar” as poucas jóias que
    nos restavam … foi um fartar vilanagem!
    Todavia, os portugueses deram-lhe uma boa resposta ao reduzir para metade o
    grupo parlamentar do BE pelos “bons” serviços prestados e falta de consistência
    das suas políticas que, pouco mais eram do que “surfar” sobre os casos do dia a dia!
    Os direitolas sempre procuraram ignorar a crise de 2008, que acabou nas dívidas
    soberanas com custos enormes para as economias mais débeis como a nossa que,
    apesar dos montes de dinheiro entrado no consulado do Cavaco nunca se fizeram
    as tais “reformas” de que, ainda hoje tanto se fala!!!

  4. Ninguém cala este sacristão mas onde ele não vai mais é à China de onde já foi corrido mesmo com a protecção do Banco Mundial. Os chineses nunca gostaram de marxistas-leninistas falsificados.

  5. Vai, Valupi! Quem se mete com o PS, leva! Este blog é muito variado. Ora fala sobre Sócrates, ora sobre o PS, ora sobre Sócrates, ora sobre o PS… E sempre numa perspectiva muito lúcida e desapaixonada.

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