A puta da verdade

Cavaco Silva é o tal cidadão que considera assunto de Estado a vida particular do cidadão Cavaco Silva tanto no presente como no passado em que o cidadão Cavaco Silva ainda não tinha poder para considerar assunto de Estado os negócios do cidadão Cavaco Silva. Vai daí, toma lá um Comunicado da Presidência da República como nunca se tinha visto.

Que pensam desta novidade institucional os ilustres apoiantes da candidatura do cidadão Cavaco Silva? Como não existe imprensa em Portugal, nunca o saberemos. Podemos é gastar uns minutos a pensar no que possa estar na origem do vanguardismo presidencial. Será este apenas o primeiro de uma série de comunicados autobiográficos? Os recursos e selo da República ainda virão a ser usados para o cidadão Cavaco Silva divulgar poemas da adolescência e um filme em Super-8 que fez na praia Dona Ana no Verão de 1982, por sinal muito giro e onde se vêem umas inglesas atrevidotas a rebolar à beira-mar como se tivessem acabado de deitar abaixo uma caixa de Mateus Rosé? Será apenas o resultado de uma interpretação mais imaginativa do conceito de soberania unipessoal? Ou, como dizem alguns veterinários experientes, este tipo de comunicados só é possível quando os loucos tomam conta do manicómio?

A chave, para mim, está na última frase do documento:

Com a serenidade que o fim do ruído da disputa eleitoral agora propicia, não pode o Presidente da República deixar de desmentir categoricamente as afirmações feitas, com propósitos que são para todos evidentes, e repor, em definitivo, a verdade factual perante os Portugueses.

Cá temos: serenidade para repor a verdade. É essa a superior missão do Presidente Cavaco Silva. E este paladino não se cansa de repetir que a verdade está a salvo de todas as baixezas e vilezas no website da Presidência da República. Logo, se as contas acerca da sua esquisita contabilidade patrimonial não estivessem lá, não seriam verdadeiras. Seriam apenas explicações iguais às dos outros que não conseguem colocar os seus textos no website da Presidência – o que faz deles os safados mentirosos que eles sabem que são.

Por agora, ainda estamos no domínio da fiscalidade do cidadão Cavaco Silva. Lá mais para 2012, ou 2013, poderemos aceder no website da Presidência da República a um conjunto bem mais alargado de verdades – desde a verdadeira explicação para o desaparecimento dos dinossauros, passando pela possibilidade de vida inteligente no planeta Terra até à exposição de toda a verdade acerca das verdadeiras relações entre a Heidi, o seu avô, o Pedro e uma cabra montanhesa de alcunha A Marota, entre muitas outras inacreditáveis verdades.

13 thoughts on “A puta da verdade”

  1. Um homem nunca mente a sí próprio. É de sua natureza não poder mentir a sí próprio, pois quando argumenta na mente em sua defesa o seu pensamento coincide com a sua verdade. Quando transmite o pensamento elaborado por sí como argumento de defesa sobre determinado assunto de que o acusam, o próprio só reconhece como verdade o seu pensamento. Logo o que o outro diz, face à impossibilidade dos pensamentos coincidirem, só pode ser considerado como mentira, ou: conversa de sombra como diria o Tí Carrusca da Palhagueira.
    No caso de uma persona fortemente auto-convencida imbuida de uma rasteira formação moral religiosa, o problema tende para o demencial. Uma tal persona tende a ver o diabo em quem o acuse da mínima imoralidade. Para tal persona é-lhe inconcebível que tenha praticado, alguma vez, uma imoralidade porque tal acto sente-o como um pecado e isso ele pensa que não pode praticar, e muito menos ter praticado.
    Muitos homens religiosos da Inquisição eram feitos dessa massa.

  2. Pelos vistos, se alguém chama nomes ao cavaco, este vai logo a correr chamar o Presidente da República.
    Não faz a coisa por menos.

  3. Mas ele há aqui, como não podia deixar de ser, uma Fonte, até pode ser a de Boliqueime, inspiradora.
    Já adivinharam?
    Fonte, água; água, mar; mar, marinheiro; marinheiro, que aqui não se faz a coisa por menos, Almirante!
    Cá está.
    Almirante, Pinheiro de Azevedo, Primeiro-Ministro, Manifestações e, vai daí…é só puxar pela memória: – O povo é sereno.
    Sereno, cá está, SERENIDADE!
    A musa, salvo seja e honrada seja a sua memória, inspiradora do Alferes miliciano Aníbal Silva só podia mesmo ser o falecido Almirante:-Não gosto que me sequestrem, prontos! Badamerda, já.
    Nos próximos Comunicados da Presidência da República, em que tenhamos o cidadão Silva por protagonista…teremos, asseguro-vos, muitas mais pérolas da antropologia, da cibernética, da mecánica quântica, da nanotecnologia e de todas as discilplinas atinentes aois tópicos “como fugir à sisa com a ajuda dos amigos” ou ainda “como enriquecer sem gastar o seu próprio dinheiro”!.

  4. eu vou mais pelo título: a puta da verdade, do que pelo destinatário. Coço-me todo com isto, macacos me mordam mas não faço idéia de quem é que no fim de tudo será credor. Devia-se fazer um reset.

    Beatriz de Luna, Gracia, Nasi, devias vir cá dar uma volta nisto, não faço idéia como Deus ou JHVH te inspirou e amparou, mas à escala resultou. E eras bonita, o que não é, de todo, de somenos.

  5. A puta da indiferença.
    Que o Aníbal tenha atitudes destas não estranho, estão de acordo com ele. O que me incomoda, muito, é o silêncio de (quase) todos nós. Como é que conseguimos ser cidadãos de um país que nos representa assim? Como é que, depois de tantas vergonhas, eu tenho vergonha de e por ele, não deixamos de comer e de dormir, não descemos avenidas, não ocupamos praças do município, não lhe gritamos a nossa indignação? Se a Selecção perde um jogo Portugal acorda deprimido porque sentimos o nosso orgulho beliscado mas viver, todos os dias, com quem nos menoriza assim parece que não nos causa mossa.
    É isso, só isso que me perturba, a puta da indiferença.

  6. quem me dera que já fosse 2012 para ler as novidades: descoberta de carne congelada de dinossauro nas cozinhas de fast food; afinal a sida nasceu no seio da heidi family. :-D

  7. o site do Presidente da República comporta-se como um buraco negro. No seu centro temos Cavaco Silva II, e todas as perguntas que se poderiam legitimamente fazer ao presidente de todos os portugueses são para aí direccionadas para desaparecerem para sempre. Apenas se sabe que existe devido à ténue radiação que, sob a forma de comunicados, este vai emanando.
    Durante a campanha presidencial deveria e poderia ter esclarecido este negócio sujo, não o fez, vem agora com esta caganita da verdade, só possível devido ao “fim do ruído da disputa eleitoral”. Para o “génio da banalidade” uma campanha eleitoral é apenas ruído, não percebe que o silêncio dele é muito mais ensurdecedor.

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