A Operação Marquês vista pelo senso comum de uma pessoa da rua

Algures em 2013 ou na primeira metade de 2014, algures na Procuradoria-Geral da República, Joana Marques Vidal reuniu com Rosário Teixeira. Estava na hora de tomar uma decisão inaudita na história da Justiça em Portugal: iam prender um ex-primeiro-ministro? Sabiam que dependia deles. Sabiam que o único juíz então em funções no Tribunal Central de Investigação Criminal alinharia com toda e qualquer pretensão do Ministério Público. Sabiam que o regime estava na mão de um poder político que não só aprovaria como desejava apaixonadamente a prisão do seu inimigo nº 1. Sabiam que dispunham de órgãos de comunicação social, de jornalistas directores e editores, de comentadores influentes, de uma turbamulta a salivar por linchamentos e autos-de-fé, com um inesgotável arsenal de violência assassina pronto a ser esvaziado em cima do alvo. Pelo que ali, naquela sala, a sós, se iria decidir parte fundamental do futuro do País.

De um lado tinham um conjunto de indícios suficiente para avançarem com a constituição de arguidos, do outro tinham o factual desconhecimento sobre a existência de ilegalidades com relevância suficiente para o impacto político e social que seria inevitável ao se tornar pública a investigação. Essa dupla faceta, a qual no campo judicial não só aconselharia como obrigaria a especiais cautelas, permitia fazer uma total gestão política do processo. Quando e como avançar, se avançar fosse a decisão, dependia unicamente das duas pessoas ali reunidas face a face no mais secreto segredo de Justiça. Podiam continuar a recolher informações até chegarem à eventual primeira prova de corrupção ou desistirem caso não a encontrassem depois de vasculharem o suficiente? Podiam. Podiam chamar Sócrates a prestar declarações deixando-o sair com a leveza de um termo de identidade e residência, quiçá a proibição de contactar fulano e beltrano, e o peso esmagador de se anunciar estar a ser formalmente investigado por crimes gravíssimos? Podiam. Podiam deter um Sócrates a aterrar na Portela e fazer desse acontecimento um espectáculo mediático como não há equivalente na memória viva mas depois não pedirem a sua prisão preventiva por evidente falta de matéria probatória? Não podiam.

A decisão que a santa Joana e o implacável Rosário tomaram implicou seguir uma lógica unicamente política. Sócrates iria ser preso, era agora ou nunca, mas no tempo certo para o que à agenda da direita interessava. Preso como castigo da oligarquia, como prémio supremo a ser oferecido numa bandeja pela procuradora-geral da República ao poder que a nomeou para isso mesmo: perseguir inimigos políticos. E preso também para ser investigado, embora acabasse por ser indiferente se a corrupção viria ou não a ser provada. Alguma coisa se iria encontrar, muita “sujidade” privada prontinha a despachar para o sensacionalismo e para a indústria da calúnia. Uma indústria que seria de uma importância estratégica para condicionar todo o aparelho judicial que viesse a intervir nas diferentes fases processuais e miríade de casos conexos, tanto os levantados pela acusação como pela defesa. A verdadeira condenação de Sócrates começava antes do começo, quando se usou a Operação Marquês, então ainda oculta, para tentar influenciar as eleições no PS entre um Seguro alinhado com a direita e um Costa que se queria pintar como socrático. E continuava todos os dias, todas as horas, em que um inocente até prova em contrário passava a ser tratado como criminoso pelas autoridades, pelo sistema partidário e pela sociedade – sem ninguém se preocupar, antes festejando selvaticamente, com a provada impossibilidade, após 53 mil páginas e 13,5 milhões de ficheiros informáticos a fundamentarem a acusação, de se provar tão-só um singelo crime de corrupção para a amostra que tivesse sido cometido pelo cidadão José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa.

As declarações de Rosário Teixeira, no debate instrutório do processo Operação Marquês, ficam como a síntese das sínteses do que esteve na origem deste colossal exercício de violência política:

«"Como se aceita que um ex primeiro-ministro receba empréstimos de alguém que é administrador de uma empresa que trabalha e tem negócios para o Estado", questionou ainda o procurador.

Para o magistrado do MP, o que se viu ao longo deste processo "foram várias situações que merecem reparo para o senso comum das pessoas da rua" questionando: "como pode ser compreendido que haja um acionista e uma empresa que pague ao administrador da própria sociedade por fora".

Segundo Rosário Teixeira, "há explicações que justificam que se leve a julgamento os arguidos sob pena de haver uma rutura dos cidadãos na justiça".»
Fonte

O embrulho é estritamente moral, dirige-se a luz para o que é legalmente irrelevante. A caixa embrulhada é feita de cartão populista, apelando ao “senso comum das pessoas da rua” para que elas legitimem uma acusação de sarjeta. E o conteúdo é cristalinamente o julgamento político de ex-governantes e de um partido político e suas políticas, da sua competência. A Operação Marquês concretizou com o recurso a dezenas ou centenas de agentes da Justiça essa lenga-lenga odiosa e odienta da criminalização dos socialistas; repetida desde 2007 pelos dirigentes políticos do PSD e CDS, a que se juntou rancoroso e golpista Cavaco Silva a partir de 2008. Daí se ter montado numa sala confortável da Procuradoria-Geral da República, algures em 2013 ou 2014, um megaprocesso onde se enfiou Salgado e Vara de forma a não deixar qualquer pedregulho da calçada com dúvidas sobre o que está politicamente em causa. O impante e ostensivo momento de glória da direita decadente na era democrática, a suprema manifestação da sua força nesta exibição em parada, acorrentado e chicoteado, do chefe bárbaro que só venceram à traição. Provas de crime? A vingança sabe melhor sem elas.

12 thoughts on “A Operação Marquês vista pelo senso comum de uma pessoa da rua”

  1. «há explicações que justificam que se leve a julgamento os arguidos sob pena de haver uma rutura dos cidadãos na justiça”.»

    Esta é, também, a justificação dos “bem” pensantes que alinharam em questões morais como “pôs-se a jeito” como se deu nos patéticos opinadores do eixo-do-mal e, especialmente, o Daniel Oliveira que num dos seus artigos de opinião defendeu precisamente a tese do Rosário e para pior, mais ou menos assim; face a uma revolta popular qualquer eminente na altura (polícias, gasolineiros?) proclamou que “pior só o facto de Sócrates não der julgado e condenado”.
    Como “bem pensantes” de palavreado público mas que para além dessa aparência tratam da sua boa vidinha com e para os patrões como assalariados dedicados.
    Para não fiteiros ingénuos que alinharam na fábula montada pelo Rosário, Teixeira&Vidal as acima três afirmações do Rosário são notória e formidavelmente nada de nada como prova de acusação e, ao contrário, denotam total e abertamente que o homem depois de uma década a vascular a vida e os percursos de todos os familiares e amigos de Sócrates e a escrevinhar toneladas de papel para inscrever neles algo que valesse perante as leis e a justiça não conseguiu mais que balbuciar umas “situações que merecem reparo” ou “como se aceita” ou ” sob pena de haver uma rutura dos cidadãos na justiça”.
    Mas isto é o quê? É, tão só, a explicação manhosa do facto de, premeditadamente, ter sido criado uma operação mastodontica de elocubrações fantasiosa lançadas na praça pública ao pagode para, precisamente, criar o efeito psicológico de que agora usa como patético argumento motivo de que tudo deve ir para julgamento e, claro, depois tudo deve ser exemplarmente punido.
    E a piada está em que os factos actuais de corrupção descobertos no Tribunal da Relação como antes a ligação entre Alexandre e Orlando Teixeira em nada parecem incomodar o Rosário como caso de “rutura dos cidadãos na justiça”.
    Afinal tudo indica, portanto, que o grande incómodo é a pessoa Sócrates PM, o primeiro a denunciar a elite aristocrática poderosa e intocável que nem no PREC nem hoje alguém ousa melindrar.

  2. o senso comum das pessoas de rua diz que se houvesse fumo sem fogo e cabritos por geração espontânea , o Partido Socialista em peso teria saído em defesa do seu ex primeiro ministro e não o teria sacudido do capote com uma habilidade e peras.

  3. o jubilado hélder roque é a última “rutura dos cidadãos na justiça”. podemos ficar descansados que o ministério público ainda não foi infectado. ainda vão a tempo de ver no pugrama da felgueirinhas.

  4. O que o bom Povo vai dizendo é simplesmente; – devem ir todos presos, a começar
    nos juizes, procuradores, muitos políticos, não esquecer os comentadeiros, etc. etc.!
    Verdade seja, dita quem esteve à altura dos justiceiros foi Mário Soares que, não per-
    doou a afronta feita a um ex P. Ministro do PS, por criaturas invejosas que se alimen-
    tam do mal dizer e, juizes que assinam de cruz por razões que a razão bem conhece!
    A montanha acabou por parir uma ratazana! Tudo o resto foi o “julgamento” feito
    nos pasquins, a ex PGR tem um irmão que está na mesma área de actividade que,
    acumula com a queda para o romance de ficção sim, o tal que descobriu o atentado
    contra o Estado de Direito combinado entre Sócrates e o Vara isto na “face oculta”
    cujo, julgamento mesmo sem provas, deu em pesadas condenações aprovadas pela
    Relação tudo para servir de exemplo! Todavia o critério não foi o mesmo para punir
    o benfeitor do super juiz o tal procurador que, ao que parece ainda não foi expulso
    da casa e continua a ser pago pelos contribuintes!?!
    Contrariamente, ao que António Costa tanto apregoa, hoje mesmo no “sexta às 9”
    o Juiz desembargador Eurico Reis disse que, a reposição da Justiça no bom caminho
    é tarefa da Assembleia da República! Logo, os políticos não podem continuar a meter
    a cabeça na areia … senão, vem o pica miolos e podem magoar-se!!!

  5. Off-topicando em ré menor (ou lá maior, tanto faz): há coisas que deviam chocar a nossa ocidental sensibilidade democrática, se quiséssemos manter alguma superioridade moral, coerência e vergonha na cara, e os métodos indisfarçavelmente antidemocráticos como as autoridades chinesas estão a tentar limitar, com aparente sucesso, a liberdade de movimentos do covid-19 e o seu direito migratório é absolutamente revoltante e inadmissível. Bem-vindo sejas, amigo corona, temos toneladas de abraços e beijinhos para te acolher, quilómetros e quilolitros de amor e carinho para te receber! Viva a liberdade, abaixo a repressão kamunista! Oh yeah! Oremos!

  6. In-topicando:

    Segundo Rosário Teixeira, “há explicações que justificam que se leve a julgamento os arguidos sob pena de haver uma rutura dos cidadãos na justiça”.»

    Mensagem subliminar: “Tendo-se tornado impossível disfarçar o cheiro da inqualificável cagada que temos passado os últimos anos a montar, é absolutamente imprescindível e patriótico que o juiz de instrução faça vista grossa às toneladas de merda que nessa incansável demanda produzimos e varra tudo para debaixo do tapete, para que os cidadãos pagantes não vejam como, às nossas mãos, está cada vez mais torto o Estado de Direito que julgam financiar e não sonhem, sequer, em fiscalizar melhor o modo como o dinheiro dos seus impostos é (in)utilizado, redistribuindo tarefas e, consequentemente, atribuindo-nos como ferramentas de trabalho um balde e uma esfregona, instrumentos mais adequados às nossas reais capacidades.”

  7. nem mais como diz o ultimo comentário é uma cagáda tão grande que já se viu que depois de tudo moído não deita sumo nenhum ,e envergonhados terão de indemnizar o José Sócrates ,demissão já dos incompetentes e um 25 de ABRIL NA JUSTIÇA que varra aquele lixo para o caixote, conforme se tem visto muito poucas pessoas são competentes e com sentido de justiça para exercerem aqueles cargos tão importantes para a comunidade.

  8. Foi durante a prisão de Sócrates que me apercebi da merda que ia no tribunal da Relação de Lisboa, de modo que o que esta operação Lex agora destapou nada me surpreendeu.
    Eu assisti ao espetáculo dos recursos de Sócrates e ás espetaculares respostas aos mesmos dadas pelos juizes escolhidos pelo juiz presidente Vaz das Neves (perdão, sorteados pelo computador) e que falavam de “cabras e de cabritos” e de outras coisas mais.
    Lembro-me de no meio desses recursos aparecer uma notícia que falava de escutas na posse do MP feitas a Vaz das Neves e que o ligavam ao processo dos Vistos Gold (isso mesmo !!!) e lembro-me de ter pensado que ele era criatura para estar sob chantagem do MP e do juiz de instrução (sim, isso mesmo !!).
    E depois lembro-me do dito juiz de instrução ter sido apanhado a mentir na SIC, a dizer que não tinha amigos que lhe emprestassem dinheiro, e logo mais num outro processo (cujo nome já não retenho, eles são tantos, acho que era operação Fizz …) ficamos a saber que afinal tinha aceitado um empréstimo de 10 000 aérios do procurador Orlando Figueira (suspeito de ter sido corrompido pelo Vice_presidente de Angola e cujo preço no mercado, assumido elo próprio, era 750 000 aérios !!!); mais foi encontrado um exemplar do CV do filho do juiz no escritório do tal procurador e o saloio de Mação confirmou que a intenção teria sido o amigo arranjar um emprego na Sonagol para o seu filho (ohhhhhh sim !!).
    Assim de repente … gostava de saber em que é que tudo isto está parado …
    E também gostava de saber se a Maria José Morgado tem alguma amizade especial pelo Rosarinho e pelo Calex ou se com esses vai tudo raso como no tribunal da Relação, e ainda se o tamanho da vassoura e o respectivo cabo ainda estão em bom estado, o suficiente para continuar a varrer … porque se assim for talvez seja o caso de ir comprar um saco de pipocas.
    Já na altura lembro-me de ter escrito aqui neste humilde tasco que Sócrates havia de os arrastar a todos para dentro do caldeirão ! e dito e feito !

  9. Jasmin: 《Lembro-me de no meio desses recursos aparecer uma notícia que falava de escutas na posse do MP feitas a Vaz das Neves e que o ligavam ao processo dos Vistos Gold (isso mesmo !!!) e lembro-me de ter pensado que ele era criatura para estar sob chantagem do MP e do juiz de instrução (sim, isso mesmo !!).》

    Lembro-me exactamente do mesmo e de o mesmo ter exactamente pensado. E o mesmo mesmíssimo para o “empréstimo” de dez mil euritos do procurador corrupto ao supercoiso, que o dito coiso super lhe “devolveu” a correr quando soube que a pouco super coisa tinha sido destapada e ia ser inquirido sobre ela, como aliás foi, com o “sucesso” esperado da inevitável aceitação da tese do “empréstimo” pela boa gente que o inquiriu.

    E mais m’alembro de uma procuradora, incansável caçadora de corruptos e ainda mais incansável bitaiteira televisiva, ter há uma carrada de anos sido acusada de gamar umas porqueiras num supermercado, tudo de boca aberta, ninguém esperaria tal coisa da impoluta madama, e de boca muito mais aberta ter eu ficado por a coisa ter suavemente caído no esquecimento, e de, depois um sabático período de abstinência televisiva, a bitaiteira procuradeira aos ecrãs ter heroicamente regressado com reforçada fúria justiceira.

    Lembro-me disso tudo, mas vai-se a ver tudo sonhei!

  10. O que diz não é novidade para mim sempre vi que esse caso era político e as provas que falavam não tinham pés nem cabeça pareciam conversas de gente acéfala, tudo o que aconteceu depois é igual a nada só treta, dizem que o processo tem não sei quantas folhas mas o que lá está escrito como o povo diz é só palha, ou seja:” muita parra pouca uva”.

  11. Prender um cidadão que veui de Paris de aviao para Lisboa, com o argumento de perigo de fuga, É DO MAIS HILARIANTE QUE HÁ. nem o Moro do Brasil, um vigarista usaria tal argumento. o resto são balelas pois a ver bem quem deveria ser constituída arguida seria a mãe de SOCRATES. Porque razão o não foi? mistérios insondáveis do incompetente ROSÁRIO Teixeira e do seu comparsa ALEXANDRE . a Final QUANTO TERÁ CUSTADO A MANSÃO EM MAÇÃO, Com as obras a serem para pagar todos os meses pagas pelo dinheiro de corrupção do Orlando Figueira e outros que não conheço. Declarou aos jornais que tem montes de prestações.
    Os seus rendimentos são. o ordenado de juiz de instrução mais uns biscates aos sábados, ordenado de mulher empregada nas finanças, a reforma da sogra, uma rendas de casas da sogra.Não chaga nem para comer. AQUI HÁ GATO ALUGUEM O SUBSIDIA, toca a pesquisar e ainda por cima é loco por carros de marca.

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