A liberdade não nasceu da cobardia

Ter acompanhado o processo de destituição de Trump, terminado neste sábado, foi uma das grandes experiências da minha aprendizagem política. Embora o resultado de absolvição fosse garantido desde o início, o inaudito e monstruoso ataque ao Capitólio, somado à impossibilidade de refutar as provas que viessem a ser apresentadas da evidente culpabilidade de Trump, levava ainda a manter uma vela acesa na esperança do milagre.

Não houve milagre. Não houve salvação dos Republicanos. E, do ponto de vista da decência, da segurança e do mero senso comum, fica como uma das datas mais tristes para a história dos EUA. Contudo, foi verdadeiramente inspirador – e em vários momentos comovente – ter assistido à apresentação da acusação pelos Democratas, cujos nomes vou deixar gravados no HTML como homenagem, começando pelo seu primeiro responsável: Jamie Raskin, Diana DeGette, Eric Swalwell, David Cicilline, Madeleine Dean, Joaquin Castro, Ted Lieu, Stacey Plaskett e Joe Neguse. Do lado da defesa, apareceram duas nódoas que encheram o Senado de mentiras, chungaria e absoluta incapacidade de mostrar um único aspecto favorável a Trump.

O acto mais importante de todo o processo, já contando com a histórica votação bipartidária que ainda conseguiu surpreender ao conquistar 7 senadores Republicanos, ocorreu depois dos votos contados e teve Mitch McConnell, líder dos Republicanos no Senado, como protagonista. No seu discurso final, conseguiu o feito de condenar Trump e condenar-se a si próprio. É este o destino da direita decadente, não há outro: a pulhastra tragédia dos cobardes.

15 thoughts on “A liberdade não nasceu da cobardia”

  1. O resultado revela a tendência para a queda acelerada em plano inclinado do modelo imperial tipo USA para a derrocada; elegeram o primeiro presidente louco e não estão livres de o eleger novamente ou outro de igual loucura ou, tal como aconteceu no império romano após os dois primeiros imperadores, sucederem-se por eleição ou por invasão do Capitólio ou qualquer golpe não democrático uma série de dementes loucos que arrastem o país a correr para a ruína sem retrocesso.
    O actual acto que revela a incapacidade de fazer valer e imporem-se livremente os valores democráticos contra os actos anti-democráticos tresloucados de um tarado irracional mesmo e apesar de tudo o que esse louco praticou quase diariamente diante dos olhos dos americanos, então é porque estão mesmo reunidas as condições subjectivas e objectivas para trilhar o caminho irreversível da decadência.
    A democracia americana foi bem defendida pela lei deixada pelos pais fundadores mas quando começa a sofrer rombos de comandantes doidos, labregos e incultos que tomam os seus valores irracionais como modelo de governação e não distinguem o bem do mal, nem lei, nem justiça, nem as desgraças que provocam no mundo, tudo de mau pode acontecer ao povo que se deixa arrastar por tais chefes, palavras e comportamentos ilógicos e irracionais.
    Perante mais este acto demonstrativo de que a sede de poder e riqueza está acima dos valores democráticos é difícil acreditar que a democracia sobreviva ainda muitos anos.
    Para mal do mundo.

  2. Este processo mostra que, ao contrário do que professa a mitologia, os famigerados checks and balances não funcionam. Aliás os EU difícilmente podem ser considerados uma democracia, são uma República, muito imperfeita e cheia de tabus ( a cena dos founding fathers é de uma manipulação ideológica atroz), o reino por excelência do homo economicus.

  3. Valupi! Meu! Não viste o mesmo filme que eu! Dos actores que nomeaste, o que vi foi um dos elencos mais miseráveis de canastrões alguma vez reunidos num ecrã, todos eles merecedores de um Razzie. Quanto ao filme em si, sai Razzies para ele também, em várias modalidades: Pior Filme, Pior Realização, Pior Produção, Pior Montagem, Pior Encenação, Pior Argumento Original, Piores Efeitos Especiais, etc. O que vi foi canastrão atrás de canastrona teatralizando uma indignação plastificada em que nem os próprios acreditavam, omitindo ou manipulando factos, aldrabando sem vergonha.

    Eu sei que o idiota, se tivesse dois dedos de testa, podia, ou devia, ter posto a hipótese de as suas palavras contribuírem para o que aconteceu. Mas ser burro não é crime e é óbvio que, do que ele disse antes da invasão do Capitólio, apenas um Rosário Teixeira ou um Carlos Alexandre poderão inferir incentivo, apelo à insurreição, conhecimento antecipado e deliberado do que se seguiu, em resumo: dolo. As “provas” apresentadas pelos canastrões que promoves a heróis manipulam vergonhosamente o que o homem disse, truncando-lhe o discurso. “We will walk down to the Capitol”, diz ele, e os canastrões cortam-lhe o discurso aqui (ver a partir do minuto 4:20 do vídeo que se segue, corte do discurso aos 4:30). Mas o tipo também diz, a seguir (ver minutos 5:05 a 5:18): “I know that everyone here will soon be marching over to the Capitol building, to peacefully and patriotically make your voices heard.” Apelo à insurreição, phoda-se?!

    https://youtu.be/zfJaxhA4sP8

    Andaram aquelas benditas almas 4-ANOS-4, desde 2016, a berrar contra um resultado eleitoral que classificaram como ilegítimo e fraudulento, por via de um alegado e nunca provado conluio entre o cavalão desbocado e a demoníaca Moscóvia, que teria privado a psicopata Killary Klingon do trono que lhe cabia por direito divino, e agora queriam impichar o homem por dizer durante dois meses exactamente o que eles berraram durante quatro anos (aliás continuam a berrar): que o resultado das eleições de 2016 foi ilegítimo e fraudulento!

    https://youtu.be/OjnX4IUt_eo (e o Biden, aqui, como podes ver, até se portou como um homenzinho)

    O golfista chanfrado diz “we must fight” e isso é um apelo à insurreição? Toda a gente o diz, phoda-se again!

    https://youtu.be/aj1Rwlztapg

    O tempo das repúblicas das bananas na América Latina já lá vai, pelo que, à falta de matéria-prima colonial, deu-lhes para transformar o seu próprio país em bananal. América quase desaparecida, Amérdica sobrepondo-se a tudo e todos, USA reciclados em UBR (United Banana Republics)! Uma banana republic on steroids, armada até aos dentes, extremamente perigosa e imprevisível, viciada até ao tutano em bombardeamentos democráticos e humanitários, mas uma banana republic ainda assim. Assustador!

    O que vi naquele festival de incompetência teatral, e todos sabemos que disso se trata, foi a tentativa desesperada de impedir que o homem regresse daqui a quatro anos. Não me interpretes mal, também eu não quero o cavalão de regresso à Sala Oral da Casa Preta, porque o homem é um perigo. Mas é objectivo a atingir por meios legítimos e/ou naturais e não com aldrabices que desqualificam ainda mais os desqualificados que promoves a heróis. Uma hipótese desejável, legítima, legal e natural era dar-lhe uma sulipanta que o incapacitasse e o impedisse de se recandidatar em 2024, por exemplo. Mas isso requer intervenção divina e, descrente irreciclável que sou, é domínio em que não tenho qualquer influência. A não ser que me converta (temporariamente) nos próximos tempos. Rezava de segunda a sábado para que lhe caísse uma parede em cima, ou que Nossa Senhora dos Covides não o safasse de nova e fulminante reinfecção, ou que um esquilo dos seus inúmeros campos de golfe lhe desse um dentada no cu e o infectasse com raiva, eu sei lá, the sky is the limit. Pecava horrivelmente seis dias por semana e, chegado a domingo, confessava os pecados ao padre, era absolvido, cumpria uma penitência de 50 Avé Marias e 200 Padre Nossos, na segunda-feira recomeçava a pecaminosa tarefa, no domingo seguinte confessava-me de novo e assim “sucessivelmente”. O ké kachas?

    Por isso, Valupi, quando escreves:

    “o inaudito e monstruoso ataque ao Capitólio, somado à impossibilidade de refutar as provas que viessem a ser apresentadas da evidente culpabilidade de Trump.”

    e

    “Do lado da defesa, apareceram duas nódoas que encheram o Senado de mentiras, chungaria e absoluta incapacidade de mostrar um único aspecto favorável a Trump.”

    só posso inferior que saíste para mijar várias vezes durante o filme (prostate oblige?) ou que fizeste uma directa na véspera e dormiste a maior parte do tempo.

  4. A Liberdade não existe. É apenas uma ideia.
    A Liberdade serve para justificar tanto o Bem como o Mal; a bondade e a maldade.
    A Liberdade não presta.
    A Liberdade é uma ideia fascista imposta pelos mais fortes aos mais fracos, para perpetuarem o seu poder.
    A Liberdade é uma ideia anti-democrática.

  5. Sun Tzu não é dessa opinião.
    Para ele (passo a citar): “A ordem e a desordem dependem da organização; a coragem e a covardia, das circunstâncias; a força e a fraqueza, das disposições”.

  6. RTP-1, entrevista de Fátima Campos Ferreira a José Roquette, a decorrer agorinha mesmo, ligo o som de vez em quando, aguento meio minuto e corto de novo o som, absolutamente esmagador o perigo de morrer a rir. Ligo de novo, desligo mais uma vez, não aguento, já me dói a barriga, caraças! O Ricardo Salgado é um demónio, o Roquette um óptimo rapaz, Fátima Campos Ferreira lava mais branco, olarilolé!

  7. Grande Camacho! Salvas o interesse desta casa nas horas difíceis. Acho que descreves o filme com correcção. Fora do âmbito Marquês o Valupi não acerta uma.

  8. até há quem faça perguntas, troque o nome para responder e elogiar-se a si próprio e tu aparas-lhe o jogo, portantes nada de espantes com inconsistências frizantes.

  9. Claro, Júlio. A ninguém passaria pela cabeça existir mais do que uma pessoa, em Portugal, a ver num impeachment de um Presidente que já não é Presidente um teatro de entretenimento conspirativo. Claro que é muito mais razoável atribuir perturbação de resultados eleitorais a meia dúzia de páginas online não hostis ao regime russo, entre dezenas de milhões que o tratam como a Besta pintada, do que ao legítimo esclarecimento judicial da contagem de boletim de votos numa apuração de margem apertada.

  10. Júlio! Meu! Atão eu sou o Galuxo e o Galuxo sou eu! Ganda Sherló Komes, és o maior, o príncipe do mastoideu! Quanto a moi, estou desgraçado, desmascarado! Em americano erudito: desgraçarated, desmascarated! Vou meter-me praí num buraco e tapar-me com um arbusto. Ah, pera aí! Não sobra arbusto pra ninguém, o pide porcalhatz açambarcou-os todos. Um arbusto, por favor! Um arbusto, por misericórdia! O meu reino por um arbusto, porra, caraças, phoda-se! Nada, ninguém me ajuda! É o fim! Adeus, mundo cruel!

  11. Amigo Lucas, caríssimo heterónimo, um grande abraço para ti. Ou… para mim, a fazer fé no Sherló Komes. Komes o quê? O Júlio, of course. Elementar, meu caro Watson, ou Lucas, ou moi! Sai uma tripla para a mesa do canto.

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