Impunidade sem fim

«A primeira coisa que eu constato é o seguinte (com alguma graça, mas acho que muito injusta). Quando foi a investigação, quando foi a acusação e quando foi o julgamento do processo Vistos Gold, grandes notícias, grandes parangonas, grandes reportagens televisivas. Estava em causa um ex-ministro, um ex-director de uma polícia, parangonas... Esta semana, com a absolvição confirmada pelo Tribunal da Relação de Lisboa, dei-me ao cuidado de ver, não houve uma notícia na primeira página dos grandes jornais nacionais. Quer dizer, houve depois em páginas interiores, mas em páginas principais nem pensar. [...] Só digo isto, porque é assim, acho que é uma certa desproporção de tratamento, acho que devia haver um pouco mais de equilíbrio.»

Marques Mendes, minuto 19.46

Contemplar Marques Mendes a falar da Justiça transporta-nos para uma réplica do que terá sido a experiência mosaica (a do Moisés, pá) ao receber os 10 Mandamentos: o respeito pelo que se está a escutar de Deus é tanto que até o espaço entre as letras é fonte de revelações. Assim com este consiglieri de Estado, um dos mais poderosos e activos passarões da oligarquia. Ouvi-lo, especialmente ouvir o que cala, é uma travessa cheia de aprendizagens sobre o que passa lá onde não entra o Soberano.

Nesta introdução à notícia da absolvição final de Miguel Macedo, acima citada, começa por surpreender o desplante de vê-lo a chamar a atenção para a manifestação fulgurante de um dos maiores problemas da comunidade – num certo sentido cívico, o principal problema: o facto de, desde 2008, a direita partidária e presidencial ter começado a usar a Justiça como arma política preferencial. Quem aliciou procuradores e juízes para serem carrascos e aliados na perseguição a adversários políticos não pode sequer comentar o fiasco do processo Vistos Gold pois tal implica ter de desmontar a ignóbil campanha à volta de Joana Marques Vidal. Uma campanha onde Passos Coelho, Cavaco Silva e Marques Mendes, para referir só os cabecilhas, acusaram Marcelo e Costa de estarem a correr com uma santa para meterem de novo uma raposa no galinheiro. No caso deste processo, ter-se chegado a um ministro do PSD foi agitado pelos propagandistas decadentes como a prova de ser a Senhora Vidal a nossa dama de ferro, a heroína que tinha instaurado o “fim da impunidade” para acabar de vez com a raça satânica dos socráticos e com mais um ou dois corruptos que sobrassem; um deles, portanto, o nosso simpático Miguel Macedo apanhado pelo fogo amigo. O enorme Marques Mendes, exsudando confiança e estrelato, não resistiu no último domingo a reclamar ser o único a destacar o assunto na berlinda e a referir o silenciamento que o editorialismo e o comentariado despejaram para cima do episódio, pelo que nem se preocupou com a possibilidade de alguém reparar nos espaços vazios da sua converseta.

«Agora vamos ao mais importante. O mais importante é assim: acho que este processo termina e é uma grande derrota para o Ministério Público, talvez das derrotas mais pesadas que o Ministério Público teve nos últimos anos. E eu acho que deviam de ser tiradas algumas ilações. Primeiro ilação. Convinha que o Ministério Público - que é muito competente nuns casos, mas muito pouco competente noutros - pensasse no seguinte: para se vencer em tribunal não chega ter uma boa narrativa, não chega ver essa narrativa depois nos jornais e convencer a partir daí a opinião pública, tem que haver provas, não chega ter opiniões. E quando não há provas, perde-se. E quando se perde, a credibilidade do Ministério Público fica obviamente afectada.»

Marques Mendes, minuto 20.27

Parece ser mentira mas tem de ser verdade, pois vem de um conselheiro de Estado escolhido pelo próprio Presidente para dele acolher o seu conselho acerca das mais ponderosas questões nacionais e internacionais. Marques Mendes disse mesmo na TV que lá no Ministério Público não sabem que é preciso ter provas caso a ideia seja chegar a tribunal. Portanto, fazendo fé nas suas palavras, no Ministério Público não se percebe patavina de Direito e da Constituição, estão convencidos que basta ter opiniões. E quem é que não tem uma opinião sempre pronta a dar sobre tudo e mais alguma coisa, né? Pois é, Zé.

Mas estará o nosso valente Mendes a falar de todos os processos? Claro que não. Como teve o cuidado de detalhar, o Ministério Público “é muito competente nuns casos, mas muito pouco competente noutros“. Infelizmente, não lhe ocorreu explicar em quais e porquê, certamente por falta de tempo. Isso deixa-nos completamente à nora, banzos, com as flutuações de competência no Ministério Público. Serão sazonais, estando ligadas à temperatura e aos pólenes? Será algo na água canalizada? Será por pirraça? Ou será da tipologia dos alvos, estando o impoluto advogado-conselheiro a circunscrever a avaliação aos processos que envolvam políticos acusados de corrupção? É que se sim, então, minha nossa senhora do Caravaggio, do que o bacano está a falar é da Operação Marquês, quem diria! E se é dessa fruta, obviamente que estamos então num desses casos onde o Ministério Público se mostrou “muito competente” – senão vejamos: tratou de arranjar uma narrativa espectacular que meteu no bolso de Sócrates entre 20 a 40 milhões de euros sem que alguma conta em seu nome com esse dinheiro tenha sido encontrada nem façam ideia de como identificar e concretizar quais são os actos de corrupção respectivos para lucro tão jeitoso, tratou de encher a indústria da calúnia com essa narrativa logo na noite em que o rei do crime foi detido assim obtendo um julgamento popular de imediato transitado em linchado, e convenceu os juízes que têm sido cúmplices de todos os abusos e ilegalidades nesse processo de que as “provas” serão suficientes para se repetir a receita com que se engavetou Armando Vara. No caso de não serem, no problemo: voltará o papão da Justiça na mão de Sócrates e do PS, nada importando que seja uma teoria da conspiração para imbecis e fanáticos pois o tribalismo e os impérios mediáticos da direita se encarregarão de atiçar a turbamulta obtendo novo triunfo do ódio político. A judicialização da política e a politização da Justiça favorecem sempre, sempre e sempre o infractor.

«Segundo. Convinha também o poder político, em vez de passar a vida, muitas vezes, a tentar encontrar soluções para ver se consegue controlar politicamente o Ministério Público, o que é um desastre, pensasse em exigir resultados e eficácia ao Ministério Público - resultados e eficácia, porque não é apenas acusações, é decisões. Ou seja, eu gostava de ver o Presidente da República, o primeiro-ministro, ou a ministra da Justiça não apenas a garantir a independência ao Ministério Público, muito bem, mas também a exigir eficácia e resultados, porque senão, é a credibilidade da Justiça que sai machucada.»

Marques Mendes, minuto 21.13

Dizendo de forma elegante, como disse Aristóteles, não devemos discutir com quem não respeita a lógica e não tem princípios; ou seja, não devemos perder tempo com aqueles que são intelectualmente desonestos. Dizendo o mesmo de forma mais prosaica, a essência do aldrabão é a de esse cabrão dizer tudo e o seu contrário. Como neste naco acima citado, onde o aldrabão começa por castigar supostas intervenções políticas no Ministério Público, não identificando de quem nem quando, para no mesmo fôlego castigar três representantes políticos ao mais alto nível por não intervirem politicamente no Ministério Público. É que só politicamente será possível condicionar em nome dos “resultados e eficácia” as “decisões” (??) dos procuradores e demais pessoal auxiliar, escusado será explicar. Faz isto algum sentido? Faz quando voltamos a correr para o regaço de Joana Marques Vidal. Segundo a lógica do estupendo e decentíssimo analista Marques Mendes, a santa Joana deveria ter sido reconduzida para mais 6 anos de serviços de limpeza da escumalha corrupta socialista porque ela estava a cumprir as ordens do poder político de então, daí ter tido um mandato exemplar de “resultados e eficácia”. Enquanto que com os socialistas, que só pensam em garantir a independência do Ministério Público, é a miséria que se vê no processo dos Visto Gold. Foi ele que o disse, e o homem sabe tanto.

Ironia das ironias, ou tragédia das tragédias, com Joana Marques Vidal tivemos Passos Coelho arquivado, Paulo Portas arquivado, Dias Loureiro arquivado, Miguel Macedo absolvido, todos os casos com material probatório que daria para cobrir o Pacífico com capas de jornais assim houvesse indústria da calúnia à esquerda. Com Pinto Monteiro, acabámos por ver Armando Vara preso sem provas e sem Estado de direito que o protegesse da vingança política. A intrujice do “fim da impunidade”, de que Marques Mendes é um dos mais poderosos publicistas, é realmente de uma impunidade sem fim.

6 thoughts on “Impunidade sem fim”

  1. Não são precisas explicações.: o Rei vai nu ! O “nem para porteiro” também vai nu ! A Joana Vidal também ia nua ! O Cavaco igualmente nu !
    Espectáculo. horrendo ! Cheiro nauseabundo!
    E a Justiça ? Coitadinha, amarela que mete dó. ..

  2. “O principal problema: o facto de, desde 2008, a direita partidária e presidencial ter começado a usar a Justiça como arma política preferencial.”

    Amigo Valupi, uma pikena correcção: a direita (em parte partidária, mas não só) apercebeu-se da enorme utilidade da justiça (caixa baixa, meu!) como arma política preferencial muito antes de 2008 e começou a utilizá-la, com enorme sucesso, logo em 2003, com a coisa da pia, que permitiu ao sipaio Durão Burroso asneirar sem oposição enquanto preparava as malas e afiava o corta-palha para manjedouras mais cosmopolitas, fugindo ao pontapé no cu que o eleitorado se preparava para lhe dar nas legislativas seguintes (as europeias haviam sido antevisão inequívoca desse prometido chuto na peida). Tens a cronologia afinada apenas quanto à direita presidencial.

    “Isso deixa-nos completamente à nora, banzos, com as flutuações de competência no Ministério Público. Serão sazonais, estando ligadas à temperatura e aos pólenes? Será algo na água canalizada? Será por pirraça?”

    Esqueçareste-te das ondas gravitacionais, do buraco do ozono, do aquecimento global, dos pêdos das bacas e das camadas de chatos frequentes quando se trata de putaria… perdão, trabalhadoras/es do sexo.

  3. É preciso lembrar que nesta específica defesa de MM deste específico caso que ele tem como um bom julgamento do tribunal e uma má acusação do MP, o dito comentador sempre de olhinhos vivos mas zarolho do lado conveniente, está proferindo opinião em causa própria.
    Aquando da prisão e acusação de Macedo e respectivos cúmplices associados o nome de MM foi muito falado como um laborioso colaborador na angariação de clientes de “vistos gold” a partir de um Grupo de advogados associados o qual incluía o MM.
    Aliás, com já havia aparecido no negócio dos resíduos florestais e equipamentos para produção de energia eléctrica e outros negócios promovidos pelos governos PSD.
    Era uma especialidade de MM aparecer como Mestre de qualquer Ordem angariadora de negócios com governos PSD através do tráfico de influências.
    O homem, galhardamente, veio falar do assunto para regozijar-se de ter sido, ele próprio, também absolvido; reabilitada a sua honorabilidade fez-se eco disso e pelo caminho acusa a Joana de falha grave e mais grave ainda quando noutros casos fora uma santa infalível contra os diabos.

  4. O MM (montículo de merda) tem uma “capacidade” muito especial para se esgueirar entre os pingos da chuva, e assim continuará a ser enquanto o poleiro comentadeiro lhe der indiscutível utilidade para a miríade de agendas, agendazinhas e agendazocas que vai servindo. Fosse ele primo do Sócrates e já tinha ido de cana há bués.

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