A farsa

A última resposta de Zeinal Bava a João Semedo, na sua terceira presença perante deputados para explicar a tentativa do negócio PT/Prisa, expôs irremediavelmente a farsa daquela comissão de inquérito. Semedo queria quadrilhice, que Bava falasse dos seus estados de alma em relação a Granadeiro e ao Governo, que largasse alguma ambiguidade capaz de alimentar o fogaréu das suspeições. Em vez disso, recebeu uma declaração indignada a respeito do profissionalismo da Comissão Executiva e restantes trabalhadores – não fazem política, fazem o melhor que podem pela empresa, só se preocupam com o proveito para a PT. O relator da culpa formada até ficou zonzo.

Esta comissão de inquérito é um microcosmo da política nacional. Temos de um lado o BE e o PCP que nada percebem do mundo empresarial, pelo que nem sequer entendem o que ouvem. As suas perguntas são confrangedoras, regularmente provocando risos mal contidos nos interrogados de tão básicas e distorcidas. Para Semedo e João Oliveira, é inconcebível associar gestores e respeito pela legalidade – eles jamais aceitarão que tal possa acontecer, venha a acontecer ou tenha acontecido. Depois temos o CDS, que é um partido parasitário do sistema, sobrevive à custa do que os outros fazem ou deixam por fazer. As intervenções da Cecília Meireles estão ao nível das que se ouvem numa reunião de condóminos, ela finge estar exaltada mas deixa claro que é tudo na brincadeira. Depois temos o Pacheco, que aproveita o tempo das perguntas para mostrar à plateia quanto odeia Sócrates e Rui Pedro Soares. Na audição a Polanco, o Pacheco quis saber se era verdade que um desqualificado como aquele podia chegar a Madrid e ter reuniões com o manda-chuva da Prisa. A maluquice do marmeleiro deixou o espanhol confuso. Começou por dizer que recebia muita gente, de seguida referiu que Rui Pedro Soares era um executivo importante da PT, finalmente recordou que já o conhecia de várias reuniões anteriores. Deve ter voltado a Espanha ainda a pensar na puta da pergunta.

Zeinal Bava não se tem limitado a assumir a paternidade do negócio e sua directa condução, também tem repetido que as suas regras não são as de Granadeiro, pelo que escusam de contar com ele para conspirações bufas. É dessa forma que é suposto funcionar um modelo onde há diferentes funções para diferentes responsáveis, um trata dos negócios e o outro das instituições. Para além de tudo isto, a procura de um plano do Governo para afastar fosse quem fosse através da PT tem sido por ele sistematicamente desmontada e reduzida a uma pulhice. Era impossível levar a cabo tal operação, tantos os passos a dar e a sua transparência, pelo que jamais seria tentada, mesmo que existisse alguém com essa intenção. E não havia na PT ninguém que o quisesse, pelo contrário, daí o convite a Moniz.

Mas há mais, e é irónico que tenha sido o PSD a provocar tal situação: o BE e o PCP estão a pôr em causa o direito da TVI, Media Capital ou Prisa procederem às alterações que desejaram nos meios de comunicação que possuem. Os argumentos dos comunas pressupõem que o casal Moniz tenha o direito de fazer seja o que for sem que administração e accionistas possam interferir. Este ataque aos privados ocorre perante o silêncio do PSD e CDS, dois partidos que nem sequer respeitam os fundamentos ideológicos próprios quando se trata de perseguir Sócrates.

A comissão decidiu aumentar o seu prazo limite, mas a disfuncionalidade do seu procedimento não se vai satisfazer só com um adiamento, pois vêm aí as respostas do engenheiro, os documentos do Taguspark e o ensopado de escutas à moda de Aveiro. Com um PSD nas mãos do Pacheco, um PCP obtuso, um CDS tonto e um BE fanático, talvez esta comissão nunca mais acabe. É que manda a lógica seguida até agora que se volte a ouvir toda a gente face às dúvidas que qualquer nova informação provoca, mesmo quando é evidente ou absurda. Ora, o caudal de novos dados será homérico, com cada frase roubada à privacidade de Vara e Penedos a permitir interrogatórios venenosos e humilhantes, cada resposta de Sócrates a ser pervertida e furiosamente contraditada e cada documento do Taguspark a suscitar acrescidos tópicos de inquirição, mesmo que já nada tenham a ver com o objecto da comissão.

Vamos ter este espectáculo durante o tempo que a oposição quiser. No final, dirão que prestaram um excelente serviço à República, pois se ficou a saber muita coisa. E também que sempre tiveram razão, como se poderá comprovar pelo relatório aprovado apesar dos votos contra do PS. Entretanto, terão levado o Parlamento para uma degradação política nunca antes vista.

19 thoughts on “A farsa”

  1. É manifesta a incomodidade de Mota Amaral nesta comissão. Qualquer pessoa minimamente séria se sentiria incómoda perante a falta de nível das perguntas de alguns deputados, numa comissão que, desde o início, não tem objecto (porque inciide sobre um negócio que, como muito bem sinalizou Bava, não passou de uma intenção). Aliás, a comissão “morreu” quando Sócrates anunciou que responderia por escrito, pois é por demais evidente que o único objectivo do PSD e do BE era “montar um circo” com a presença de Sócrates. Como saiu tudo gorado, os deputados da oposição andam “á roda” feitos tontos para ver se “arranjam” alguma frase, alguma palavra para poderem “preencher” o tal de relatório que o Semedo já tem pronto há muito tempo. E isto tudo com o nosso dinheiro, porque as comissões ficam caras em fotocópias, material informático, assessores, etc, etc. Um escândalo!

  2. O «modus operandi» desta CI é decalcado da “escola” dos nossos “investigadores de Aveiro”, supra-sumo da justiça desgraçada e sucedânea do justiça fascista. Não acompanhei a justiça da «outra senhora» mas no dizer de pessoas insuspeitas como o DR Mario Soares, os métodos desta filha daquela grande puta refinaram-se ao ponto de a ultrapassarem como trituradora dos direitos mais fundamentais do cidadão português. Noutros tempos só era incomodado quem se manifestava contra o regime. Esta puta refinada que temos incomoda todo e qualquer cidadão, por tudo e mais alguma coisa, desde que um magistrado se junte a um policia de investigação e os dois queiram fritar quem quer que seja, devassando, com o devido mandato judicial, a vida do cidadão e espetando com os resultados na puta da comunicação. Esta puta refinada já não serve um aparelho de estado, mas uma multidão indiferenciada, que vai do juiz, procurador e policia investigador até ao mais imbecil jornalista, lacaio de um qualquer empresario da «liberdade de expressão».
    Outros filhos daquela grande puta, que supostamente deveriam defender uma «Estado Direito», copiaram os métodos da puta da mãe e já não pensam noutra coisa que não seja, a troco de 3000 euros mensais, passear pelas comissões de inquérito e chamar à puta da casa que os pariu, continuamente, um ministro de cada vez, para saber se é verdade, como dizem os «empresários da liberdade de expressão», que anadam com “sêlo” nas cuecas.
    E no meio desta «tropa fandanga», esta sim, Sócrates e o seu governo, embora arrastados na lama dos «empresários da liberdade de expressão» vai fazendo pelo País o que nunca vira fazer e já desesperar de ver: pôr o Portugal a andar para a frente. Se não era este o «terceiro segredo de Fátima» não sei que outro possa ser.

  3. É tudo uma grande farsa.
    O que é melhor no pior, é ver que aqueles tipos estão todos descentrados do que é uma democracia, uma sociedade de mercado ou o suposto liberalismo de que enchem a boca.
    Pequeninos, torpes, mesquinhos, odientos e ignorantes.

  4. Não sei que mais palavras usar e que ainda não tenham sido escritas para qualificar aquela pouca vergonha que está a decorrer naquela casa que se diz ser da Democracia.Não sei.
    Apelo a algum resto de dignidade que ainda possa haver naqueles tontos que se prestam a um espectáculo tão reles e tão torpe.Apelo à denúncia por parte dos democratas que ,como eu,são do tempo em que a Pide fazia tudo isto às escondidas.

  5. “Aqueles que amam uma coisa distinta da verdade quereriam que isso que amam fosse a verdade. No entanto, como não querem enganar-se, mas ao mesmo tempo também não querem reconhecer que estão enganados, odeiam a verdade por causa daquilo que amam em vez da verdade.”
    (Santo Agostinho, Confissões, 10, 23)

  6. O José Nunes tem toda a razão. Apelar a todos os democratas que denunciem aquela forma burlesca de se “distrairem”. O Sr. Presidente da Assembleia da República, tem de pôr um travão àquilo. Se ele não o fizer alguém tem de propor um abaixo assinado para pedir que os gajos e gajas terminem a diversão.
    Ontem alguns ficaram muito chateados de terem de ir “trabalhar”, mas o facto é que foram lá gastar mais o nosso dinheiro para se “masturbarem” mais uma vez. Foi para isto que se fez o 25 de Abril? Mas que merda vem a ser esta. Então o “Conde de Marmeleira” não disse ainda hoje, que “depois de verificarem o que está nas escutas, têm de fazer o contraditório…”.É o que diz o Valupi. Nunca mais aquilo acaba e os gajos querem aparecer todos os dias na “ARtv”. Começo a ficar farto…

  7. O que dissesse seria repetição do que está no post do Valupi e nos comentários seguintes. Como acrescento vai a minha concordância: É de facto mais de mais o que se passa naquela Comissão de Merda!

  8. O Pacheco Pereira está em transe: há dias, ouviu-o a comparar esta comissão de inquérito a um policial de cordel, onde havia um morto e a arma do crime (juro que é verdade, foi na SIC Notícias). Observá-lo é um autêntico exercício de antropologia e não raras vezes me rio muito. O Pacheco transformou-se numa personagem felliniana.

  9. tudo continua naquela comissão como se o psd estivesse ainda no tempo da velha manela. tenho para mim que o passos coelho deu liberdade ao pacheco pereira para este fazer o que bem entendesse na comissão de inquérito para depois não ter que levar com a raiva do pacheco nas suas muitas intervenções mediáticas. (se passos impusesse ao pacheco o rápido cessar da dita comissão teríamos novamente o pacheco a virar o bico à seta laranja e a conspirar em cada intervenção, como no tempo do menezes). se isto for verdade então o passos é um gajo fraco.

  10. Hm… mas eu gosto de uma boa farsa e se meter doses de comédia abundantes ainda mais gosto. Agora o que não gosto nada (mesmo nada) é da atitude arrogante-abrutalhada do deputado do PCP que se dirige aos inquiridos em modos de inquisidor-mor de aldeola. Colheres de chá fazem tanta falta…

  11. Colheres de chá carregadas de açúcar, para ver se ganham energia para o que é verdadeiramente importante, em lugar de andarem nesta palhaçada.

    É uma perseguição pidesca, sem dúvida como alguém já disse neste post, mas desta feita descarada, que entra pela casa de toda a gente, o que lhe confere um certo grau de aceitação comparativamente com o formato anterior. E isto também é assustador. Com o tempo, as pessoas vão distanciando-se daquela que deve ser a realidade, crendo que o que está a acontecer está certo.

  12. Tenho seguido as inquirições que estão a decorrer na CPI, conforme posso mas, as mais importantes até as tenho gravado. Custa-me ver e ouvir pessoas a quem foi dado um estatuto para representar o povo não ser digno dessa representação. Não sei se está tudo trocado. Se quem devia de ali estar era o Zé da esquina – se calhar fazia melhor figura – e não esses troca-tintas que só sabem brotar lágrimas de crocodilo, quando se repara que o que eles desejam é “o quanto pior melhor”. É ver que tudo fizeram para que o negócio PT/TVI não tivesse sucesso e agora desejar felicidades para negócios futuros é de uma baixeza franciscana. Palavras de Agostinho Branquinho a quem intitularam de lágrimas de crocodilo.
    Nas suas reuniões deliberam uma coisa e depois na comissão quando os assuntos que põem aos seus convidados não saem como lhes convém querem inverter as regras das quais se prontificarem respeitar. Faz-me lembrar os treinadores de futebol derrotados a protestar com o árbitro da partida que o tempo do desconto foi pouco. Quando se encontram a ganhar que foi demasiado. Vá lá compreender tal gente.
    Ainda ontem quando Mota Amaral tirou a palavra a Pacheco Pereira – excesso de tempo – julgava que o mesmo ia começar a chorar. Está habituado a ter todo o tempo do mundo e aquilo não se deve fazer a tal ilustre personagem. A isto se chama acção directa.
    O que não me ri com os disparates que usou no ponto contraponto sobre Ricardo Rodrigues. Até foi buscar a guerra do Iraque para comparar com acção directa. Se calhar num frente-a-frente com Ricardo Rodrigues não usa essa frontalidade – acção directa. Coisas de cobardes. Quando se encontram sozinhos julgam-se os maiores da Marmeleira.
    Outro ilustre deputado do PSD, Miguel Frasquilho, que intitula Jorge Lacão de ministro da propaganda de Saddam Hussein e não olha para as suas acções “Frasquilho Deputado ou Frasquilho BES. Depois não aceitam que outros lhes digam na cara que não tem carácter. Força João Galamba, quem não quer lobo não lhe veste a pele.
    Continuando com a CPI – vem-me à memória a rádio-novela Simplesmente Maria – de certeza no tempo e na forma e tem-se de arranjar um final a condizer com os deputados. Nos do PSD sabemos o que desejam, é ganhar na secretaria o que não conseguiram em campo. Parece que se vão dar mal, até o próprio líder já lhes passou a certidão se óbito.
    Quanto ao CDS está lá o figurante que troçou de anomalias físicas de Sousa Franco e não tem espelho para se ver e o quanto se torna irrisório. Da sua colega não se sabe o que deseja. Umas vezes faz afirmações e outras só usa suposições.
    Chegamos aos que para mim são o número da bola. João Oliveira é daqueles que tudo faz para se sair bem, luta, contradiz, volta a replicar mas nada lhe sai bem. Não lhe atribuo o número da bola porque esse vai direitinho para João Semedo. Este usa todo o veneno para os convidados que não gosta. Quanto ódio e raiva. Não percebo como um médico se dá para deixar a medicina – arte nobre – e vai para deputado. Das duas, uma. Ou está reformado e arranjou mais um tacho ou como médico não tinha reputação. É ver o que se ganha na medicina e esta não está em crise. Sorte dos seus pacientes que o deixaram de aturar. Na maioria dos médicos que conheço reconheço neles um ar de bonacheirões, sempre solícitos para qualquer problema. Este coitado só sabe destilar o fel que angariou pelos hospitais. Vou ver o relatório que vai produzir mas, pelo que tem dito e dado a sua postura só vejo um vaticino: Sócrates culpado.

  13. Preocupem-se com negócios reais como o de Coimbra, do prédio que foi vendido duas vezes no mesmo dia…

  14. Esperava encontrar aqui alguns FACTOS que sustentassem as perguntas dirigidas ao Primeiro-Ministro e confirmassem as suspeitas, insinuações, previsões do horóscopo ou o que quer que fosse, e principalmente o motivo para que Manuela Ferreira Leite tenha chamado não só no parlamento, mas principalmente aí, MENTIROSO a José Sócrates. Não encontrei. Só me ocorre um nome para classificar este tipo de comportamento de MFL e seus seguidores. CALHORDAS.

  15. Manuel, para quem, como eu, não vê tv, és um relator precioso. Obrigado, sempre fico com uma idéia mais minuciosa da situação. Não há grande coisa a fazer creio, desde Roma, se não antes, que a política resvala sempre para esta dimensão de encenação, como se fizésse inevitavelmente parte, embora agora, com outros palcos e outro alcance. E, ao contrário do que se dizia, Roma pagava a traidores.

    Estou a relêr O Último Cabalista de Lisboa, excelente, lá vou eu,

  16. Face à situação “burlesco/pidesca” a que este grupo que se intitula comissão de inquérito chegou, venho só perguntar-lhe, Val, se não é possível avançar com uma acção popular na AR, com base num abaixo-assinado ou lá o que for para esta pouca-vergonha acabar? É que pelo andar da carruagem, a farsa não vai acabar, enquanto eles não conseguirem exasperar o pobre do presidente, Dr. Mota Amaral – que já ameaçou demitir-se – ele sai e o PSD escolhe o porco da porcalhota da marmeleira para o substituir…

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