A cabeça de Vara

Ofereço 10 euros a quem me indicar um (1) nome de jornalista, comentador ou político, mesmo de vulgar cidadão sem marca pública, que tenha aparecido num órgão de comunicação (qualquer, de qualquer tipo) a defender Vara, a concordar com ele no seu protesto contra uma condenação sem provas, ou simplesmente a mostrar-se um bocadinho incomodado com o que lhe fizeram no processo judicial que culminou numa sentença transitada em julgado que o obriga a passar cinco anos preso. Esse silêncio corresponde ao castigo que a sociedade e o regime já lhe tinham imposto há anos, tendo sido insultado, difamado, ofendido e caluniado sem descanso nos espaços de opinião mais importantes da ecologia mediática nacional ao longo de uma década ou mais. Como explicar essa fúria castigadora, essa energia inesgotável que atingiu o paroxismo da violência assassina nestes dias de celebração da sua desgraça, da sua captura e morte simbólica na forma de uma privação radical da sua liberdade e eterna mancha moral indelével na sua biografia? Se quisermos compreender o fenómeno, nada melhor do que olhar para os seus algozes.

Luís Rosa, um caça-socráticos que ganha o pão num blogue de luxo chamado Observador, assinou a peça intitulada Fact Check. Armando Vara foi mesmo condenado sem provas?. A coisa pretende ser a pedra final na conversa do bandido. O Sr. Rosa enfiou a sua aquilina inteligência e paradigmática isenção nos milhares de páginas do “Caso Face Oculta” e emergiu vitorioso para declarar que Vara foi condenado porque… Vara foi condenado. Ter servido a tautologia na sua crueza teria sido perigosamente indigesto para os seus leitores, patrões e amigos de almoçaradas e copofonia. Pelo que se esforçou na confecção de um molho que tentasse disfarçar o estado intragável da sua conclusão para quem ainda não tenha perdido o respeito por si próprio. É esse mesmíssimo exercício que nos pode agora servir para entender o que se passou no Tribunal Judicial de Aveiro, sem precisarmos de mais nada para além do que apresentou como matéria probatória.

Foi então assim, explica ao povo o Sr. Rosa:

– Para condenar Vara, os juízes em Aveiro não precisaram de saber que ele recebeu alguma coisa do sucateiro, e ainda menos se de facto conseguiu alguma coisa para o sucateiro. De facto, nada conseguiram encontrar que provasse uma coisa ou a outra objectiva e tangivelmente. Para os juízes bastava a prova telepática: sentirem que Vara pensou nisso.

– Para chegarem a um acórdão destinado a conseguir o que nunca antes tinha sido conseguido em Portugal, prender alguém por um crime de tráfico de influência, os juízes agarraram-se a uma conversa telefónica onde se usa a expressão “25 quilómetros” e a um testemunho de Ana Paula Vitorino, o qual alega que Mário Lino usou a expressão “empresa amiga do PS”; testemunho esse desmentido pelo próprio Mário Lino, o qual declarou que nunca Vara o pressionou ou influenciou para obter favores para o Manuel Godinho.

Não há mais nada. Mas ficam duas perguntas de arrebimbomalho:

– Como é que é possível meter na prisão alguém apenas porque existe uma escuta de uma conversa onde se usa a expressão “25 quilómetros” sem qualquer contexto ou referência associáveis a um crime de tráfico de influência?

– Em que outra parte do Mundo teria sido possível mandar para a prisão durante 5 anos, a pena máxima nesse crime, Armando Vara e nem sequer ter levado a tribunal Mário Lino, o tal que serviu para “provar” o próprio crime dado ser apresentado como instrumento do condenado e ao qual se atribui uma frase cuja veracidade questionável e interpretação subjectiva valeu mais para o tribunal do que a realidade? Afinal, o ministro foi corrompido e não merece castigo ou não foi corrompido e, portanto, não houve crime algum? É que a interpretação da lei que se usou para condenar Vara tem exacta aplicação no que se alega ter sido o comportamento de Lino.

O Sr. Rosa, ciente do poder e riscos da evidência até para um fanático como ele, repete que a lei em causa admite condenações apenas por ouvir dizer e tendo como matéria condenável a suposta intencionalidade do acusado. E que se aos juízes lhes apeteceu dar mais valor à sua imaginação do que à palavra das testemunhas e aos factos, então está tudo bem. É uma jurisprudência lá dele e dos seus observadores patrões. Podemos dormir descansados pois o perigosíssimo Vara vai deixar de andar por aí à solta a traficar influências a soldo dos sucateiros, suspira de alívio. Acontece que a decisão de excluir Mário Lino do julgamento é um livro aberto sobre a inaudita politização de uma parte do Ministério Público e de um tribunal. Pensemos: teria sido possível condenar Vara sem condenar Mário Lino, calhando serem os dois acusados? Mas, nesse caso, que pena dar a um e a outro? E quais as consequências de se prender Mário Lino num caso sem provas como este? Tal teria sido um escândalo para o próprio Tribunal Judicial de Aveiro, para além de diluir o castigo sobre Vara, o segundo alvo principal numa operação que conseguiu espiar ilegalmente um primeiro-ministro em funções e ambicionava meter Sócrates como arguido num processo judicial e perverter as eleições legislativas de 2009 a favor do PSD. Ao se afastar Lino do cenário, os juízes ficaram com carta branca para exercerem a deturpação maior que conseguissem para destruir o direito de Vara a ter um julgamento justo. E assim fizeram, não se contentando com uma pena inferior, ainda menos com uma pena suspensa. Aplicaram-lhe a pena máxima para uma prisão efectiva. Não há nada na História do Direito e da Justiça portuguesa que sirva de fundamento à lógica da sentença lavrada pelo colectivo de juízes. Necessariamente, outro tipo de lógica terá de ser procurado se se quiser dar sentido ao acontecimento. Altura de passarmos para outro carrasco de Vara, o mano Costa.

Num texto cujo título é à prova de estúpidos – O outro caso Sócrates – Ricardo Costa repete a imagem de Vara como cúmplice do plano de Sócrates para “usar a banca” ao serviço das suas diabólicas ambições políticas. Provas disso? O mano Costa não gasta sequer um espaço em branco entre caracteres com esse aspecto da deontologia que supostamente lhe guia a decência e o profissionalismo. Basta que ele o tenha ouvido dizer, ou sonhado, para o poder repetir no seu jornal ou no seu canal televisivo (ele manda nos dois, é o grande xerife do império Balsemão). Esta tese da dupla de super-criminosos suporta a eficácia do seu texto. Um texto que existe para celebrar a captura e desmembramento de Sócrates, aqui antecipado na condenação e prisão de Vara. E ele não podia ter sido mais claro: os juízes alinharam as suas decisões com os desejos dos procuradores, e os procuradores não estavam interessados na justiça e nos direitos do cidadão Armando Vara posto que havia um prémio muito mais alto em jogo – “deixar uma mensagem clara a toda a sociedade“. E que mensagem será essa? Que não se pode dizer “25 quilómetros” ao telefone? Que os ministros podem ser corruptos, o problema está só do lado de quem trabalhe num banco? Que este mesmo Ministério Público, ao ter livrado Passos Coelho dos seus voos na Tecnoforma, igualmente atesta que ele jamais pensou em ajudar ou ser ajudado pelo seu amigo Relvas num cambalacho onde o tráfico de influências ocorria às escâncaras? Que mensagem se dá urbi et orbi quando se faz um julgamento de excepção, sustentado em provas não só indirectas como pífias, para conseguir punir violenta e exemplarmente uma pessoa que se odeia por razões estritamente políticas? O mano Costa deixa implícito o que realmente gostaria de ter escrito, mas a vedeta que contratou para fazer da SIC um esgoto a céu aberto conseguiu verbalizar essa mensagem com cristalina facilidade.

Nestes quatro minutos de merda (literalmente) – Manuela Moura Guedes: “Armando Vara é uma personagem sinistra” – a senhora acusa Vara de ser o culpado pela recapitalização da CGD em “quatro mil milhões” e pelo “abismo em que caiu o BCP”, embora desta vez se tenha contido e evitado revelar as relações de Vara com o Rei de Espanha, assim exibindo admirável sobriedade. E não poderia ter sido mais feliz, verdade seja dita, na exposição do que sente em relação a Vara: “Eu digo que os cinco anos são poucos. Se Armando Vara respondesse perante tudo de mal que fez a Portugal e aos portugueses teria, de certeza, pena máxima.

Os ingénuos pensarão que num bloco noticioso da SIC, com estatuto editorial, foi defendido que Vara seja condenado a 25 anos de prisão pelo que se fantasia que ele terá feito não se sabe quando nem como. Vara equiparado a um assassino, o nexo a que os ingénuos conseguem chegar na interpretação do que lhes aparece no ecrã. Os ingénuos acabam por ter sorte, conseguem adormecer sem a imagem de um espectáculo televisivo, produzido pelo Grupo Impresa e dirigido pelo mano Costa, onde vimos uma estrela da estação usar a cifra “pena máxima” para bolçar o seu desejo de fuzilar, enforcar ou decapitar um certo ser humano que odeia politicamente. Eis a mensagem que os algozes repetem extasiados enquanto correm à volta da cidade com a cabeça de Vara enfiada num espeto.

21 thoughts on “A cabeça de Vara”

  1. diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és.

    e, sim, o vara é um escroque. até os compagnon de route encorna, perguntem lá ao rineta antónio josé morais, o prof. que faz exames ao domingo e que criou a filha que o cócó lhe fez na mulher. ainda que o facada seja o pior dos três .

  2. Se fosse dos amigalhaços da justiça do psd ou do cds já se tinha deixado de falar dele devido a ter sido extraviado o processo, já ter caducado algum prazo ou porque sim…

  3. Sr Valupi.

    Por norma não comento posts, mas abro uma excepção: Até o “ceguinho” Sampaio percebeu que Vara era um trafulha. Um fulano que se diz doutor ( curso tirado na farinha amparo) e que f….u milhares de pessoas no BCP (eu sou uma delas) pode morrer hoje e juro que caso tal aconteça abro uma garrafa de bom Champanhe para comemorar – Vara não vale nada e num pais decente nunca mais veria a luz do dia sem ser “aos quadradinhos” – Se o Sr Valupi tivesse sido “f……o” como eu fui pelo alegado dr Vara veria as coisas de forma muito diferente

  4. Perderia tempo e dinheiro – Pelos vistos o Sr Valupi (o qual me trata por tu como se me conhecesse de algum lado) não percebeu a afirmação “num pais decente”, pela parte que me toca não responderei a qualquer outro comentário do Sr Valupi, o qual vive num mundo não povoado por Varas…

  5. O Vara deve ter feito filhas também nas mulheres dos Procuradores e Juízes de Aveiro.
    Não há nada pior que a dor de corno.
    A pena de 5 anos só tem essa explicação racional, já que não há outra.

    Mas o Vara sairá da prisão. Os cornos das cabeças encornadas é que não !

  6. Deixo um comentário final; A má educação e arrogância do sr Valupi ficam bem expressas na resposta em que o Sr Valupi me acusa de ser alcoólico . Nunca mais frequentarei este blog e na verdade não perderei nada, é apenas mais um blog ao serviço do poder instalado

  7. O Miguel Sousa Tavares fê-lo, mais do que uma vez, ainda que manifestando reservas em relação ao visado. A última vez foi no Jornal da Noite da SIC, na presença do próprio Vara, que entrevistou. Mais uma vez verbalizou as ditas reservas, mas educada e frontalmente. Fez na segunda-feira uma semana (ou no máximo duas, não tenho a certeza). E ao menos deu voz ao homem, deixou-o falar livremente, sem interrupções, e criticou de novo o comportamento da justiça neste caso.

    P.S. – Odespois envio-te o meu NIB, para transferires os dez eiritos. Em alternativa, podes usá-los para umas bejecas, hoje pago eu.

  8. Perdão, enganei-me. Não foi no Jornal da Noite, da SIC, mas sim no Jornal das 8, da TVI. Não há correcção a fazer quanto às (presumíveis) datas.

  9. para o pedro das cunhas

    1 – ” Até o “ceguinho” Sampaio percebeu que Vara era um trafulha. Um fulano que se diz doutor ( curso tirado na farinha amparo) e que f….u milhares de pessoas no BCP (eu sou uma delas…”

    ainda bem que avisas. eu pensava que o jardim gonçalves tinha sido o engenheiro da trafulhice bcp e quando o vara lá chegou aquilo já estava de pantanas. não consta que o jardim tenha ido parar à pildra e sabe-se que ainda recebe uma pensão mensal equivalente a 288 salários minimos, fora despesas.

    https://www.sabado.pt/ultima-hora/detalhe/jardim-goncalves-tem-pensao-de-23-milhoes

    já agora que percebes tanto de bancos e trafulhas bancários, pergunto-te qual o banco que nunca recorreu a esquemas para endireitar as contas dos negócios que dão para o torto e qual o papel dos angariadores de negócios.

    2 – “Pelos vistos o Sr Valupi (o qual me trata por tu como se me conhecesse de algum lado) não percebeu a afirmação “num pais decente”

    gand’argumento e ainda mais abrangente afirmação. dá aí um exemplo, umzinho que seja, de país decente onde não haja varas de angariadores de negócios e gestores de aldrabices.

    3 – “Nunca mais frequentarei este blog e na verdade não perderei nada, é apenas mais um blog ao serviço do poder instalado”

    pelos vistos tu estás ao serviço do poder desinstalado.

  10. Não sei se Armado Vara é culpado ou não, o que sei é que muitos figurões políticos do PSD e CDS cometeram crimes gravíssimos, que ficaram provados, andam soltos e a pavonearem-se pelas tv´s. Depois vejo o que se passa no Brasil, de perseguição política e regabofe absoluto no poder judiciário e constitucional, com um Sergio Moro a imitar o Carlos Alexandre (o Moro já conseguiu chegar a ministro, mas o Alexandre felizmente nem conseguiu chegar às secretas) e concluo que o mesmo guião sujo neoliberal que está em curso aqui foi já implementado no Brasil. Só que lá foi tudo muito mais fácil, apesar de agora aquilo ser uma verdadeira republica das bananas. Oram vejam aqui: brasil247.com
    Mas, em Portugal continuam a tentar e ainda a conseguir destruir umas quantas vidas das pessoas que, de alguma forma, os afrontam. Quem conseguirá ainda por ordem nesta caixa de Pandora?Por isso, no caso Vara é pena a comunicação social não investigar honestamente e o poder judicial ser tão parcial e selectivo… Agradeço a Valupi mais este óptimo texto sobre o caso.

  11. Mar,

    Acho que é mais o saloio que imita o Moro. Que até vem a Portugal dar palestras. Até a Morgado caiu no conto do vigário.

  12. Vara pode ter cometido inúmeros crimes e ser um grande trafulha. Se o que existe de relevante para o condenar é o que está no apanhado de Luis Rosa o processo é uma grande anedota. Para se compreender melhor a sua lisura será necessário escrutinar a autoria, a data e a justificação para autorizar escutas telefónicas a Vara e a Sócrates. O que está na peça, tal como no processo Sócrates, dá ideia que escutas são feitas à procura de materiais que possam encaixar plausibilidade a um romance com desfecho pré-estabelecido. Num país decente, a justiça é feita de provas concretas e boa fé, não com processos de intenções e arbitrariedade.

  13. Excelente, “ele há cada cona”. Brilhante, mesmo, essa do poder desinstalado.

    Lucas,
    uma grande anedocta foi no que se tornou a merdiática justissa brutogueza, isso sim!

  14. P: realmente o saloio bem que gostaria de chegar aos pés do Moro…mas nem sequer a uma homenagenzinha nos States tem direito…Falei que o saloio imitou o Moro por que creio que o ensaio para a viragem neoliberal em Portugal começou muito antes do que o golpe de Estado do Brasil. A direita usa estratégias de manipulação, engano e vale tudo desde que Ferro Rodrigues foi afastado de ser PM. Por ter sido falsamente metido no caso Casa Pia e depois novamente voltaram a fazer profundas calúnias e intrigas com Socrates para o afastarem também. Agora António Costa que se cuide e esteja bem alerta por que esta direita sem escrúpulos continua a tentar todas as estratégias sujas e desonestas para lhe tirar o poder, já que democraticamente nas urnas não consegue. A mais fresquinha tentativa de manipulação é a palhaçada dos coletes amarelos em Portugal. Apesar do estado de descalabro em que a direita deixou o país, António Costa tem feito imenso para reequilibrar a vida dos portugueses. Existe ainda muito para fazer? Existe, mas, o caminho faz-se caminhando…

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