1º apoiante da candidatura do Daniel à liderança do BE

Louçã pode estar mesmo de saída daquela zona onde bate o foco do projector principal, embora jamais lhe passe pela megalomania abandonar o palco, e isso deixa o Bloco com um sarilho só comparável ao que afligiu o PCP quando teve de escolher o sucessor de Cunhal. Claro, na Soeiro Pereira Gomes tudo se passa com a previsibilidade de uma debulhadora soviética ortodoxamente oleada, pelo que nenhum sinal de angústia transpareceu para fora das paredes de vidro muitíssimo fosco. Não se adivinha tamanha mecanização no BE, um albergue espanhol colado com a abundante e gosmosa saliva do Anacleto.

É aqui que eu entro, propondo-me ajudar as boas gentes da esquerda pura e verdadeira – geniais mentoras e estrategas da reeleição de Cavaco e fiéis aliadas para a conquista do poder da mais decadente direita dos últimos 30 anos – a encontrar a solução para o imbróglio. E essa tem uma e só uma marca: Daniel Oliveira. São várias as qualidades que fazem desta vedeta da política-espectáculo a escolha óbvia para suceder a Louçã, do traquejo numa lábia de vendedor de atoalhados até à têmpera nervosa que lhe dá o tão mediático pathos, passando pelo crédito de honestidade intelectual que a sua actividade de publicista ainda não corroeu. Seria uma mudança de sumo na continuidade do pacote, ideal para um amontoado de fragmentos ideológicos que depende do marketing televisivo para sustentar a identidade.

Andava há muito a cozinhar esta intuição quando, semanas atrás, tropecei na prova final do acerto no raciocínio. Trata-se de um momento epifânico, que, como outros onde a transcendência se materializa em sinal, pede um olhar de iniciado, um espírito profético, para ser reconhecido – razão pela qual passou completamente invisível aos olhos do vulgo. Olhai e vede:

Para a correcta exegese deste fundamental diálogo temos de começar pela caracterização do interlocutor. Luís Pedro Nunes é o orgulhoso bufão do grupo de palestrantes que se reúne ao sábado na SIC Notícias e alguém que, aposto tudo o que tenho num dos bolsos, será uma excelente companhia para ir mamar copos e ficar a falar de cona e futebol até às 4 da matina. Concomitantemente, este amigo acumula com ser um socrático da pior espécie, aquele tipo de socrático que não consegue deixar de imaginar que Sócrates lhe está a dar atenção. Sim, no que diga respeito à política portuguesa, este Nunes é um bronco. E podemos pegar por essa penosa característica da sua figura pública e desvelarmos a lógica geral subjacente: em política, os broncos são broncos precisamente porque não conseguem e não aceitam, e não aceitam porque não conseguem, discutir política. Limitam-se a repetir as fórmulas que blindam a sua recusa e os barricam num sectarismo animalesco.

Esta reacção das vítimas da bronquite asnática, que pudemos testemunhar em crescendo a partir de 2008 e ao ponto de invadir todos os meios de comunicação social de forma avassaladora até às legislativas de 2011, foi instigada pela estratégia de assassinato de carácter que PSD e Belém desenvolveram com todas as forças que tinham à disposição, incluindo as subterrâneas na Justiça e imprensa. Os seus quatro pilares eram os seguintes:

– Sócrates é alguém que mente compulsivamente.
– Sócrates é alguém que ao longo da sua vida estudantil, profissional e política foi sempre cometendo fraudes e crimes.
– Sócrates é um tirano capaz das mais complexas, sofisticadas e diabólicas manipulações para se manter no Governo.
– Sócrates é um louco, incapaz de lidar com os problemas óbvios tamanho o seu afastamento da realidade.

Este tipo de ataque, porque convoca o pensamento mágico e radica em instâncias cognitivas ancestrais de resposta a ameaças, permite a coexistência de pares contraditórios sem perda de eficácia coerciva. Assim, foi e continua a ser fácil tropeçarmos numa luminária a declarar que Sócrates seria capaz das mais frias e inteligentes operações de aquisição de poder político e mediático e, segundos depois, ouvi-la dizer que Sócrates era o mais inepto dos políticos que se pode imaginar, razão pela qual arrastou o País na sua demência. Para estes infelizes, não há qualquer conflito no duplo diagnóstico, não lhes causando o mais leve comichão a impossibilidade racional de um mesmo indivíduo, e ao mesmo tempo, tudo fazer para manter e para perder o poder. É uma narrativa típica dos contos infantis, onde as leis da causalidade se suspendem para deixar entrar os seres de fantasia com os seus poderes fantásticos. Mas este é o mesmíssimo substrato mental que permitiu impor os corolários últimos da estratégia da actual direita portuguesa:

– Os problemas da economia e finanças de Portugal eram exclusivamente de causa e responsabilidade nacional até à vitória do PSD, passando automaticamente a ser um problema de dinâmica e resolução internacional a partir daí.
– Teria sido possível evitar os problemas que atingiram Portugal a partir de 2008, nada se dizendo dos boicotes que a oposição fez a qualquer solução que incluísse o PS e a sua legitimidade eleitoral.
– Sócrates é o único culpado pela situação de emergência financeira em 2011, apagando por completo existência do PEC IV e o apoio que recolheu de todos os parceiros e instituições europeias que apelaram à sua aprovação e censuraram abertamente o seu chumbo.
– O PS é o único responsável pela assinatura do Memorando, escondendo-se que a necessidade desse empréstimo de emergência foi provocada pela oposição e que o PSD também negociou os termos da 1ª versão do Memorando, tendo mais tarde no Governo continuado a alterá-lo já por sua exclusiva iniciativa e condução.

Voltemos ao maluquinho do Nunes. Ei-lo pela enésima vez, um ano depois do mafarrico ter levantado voo daqui para fora, a dizer que Sócrates era um alucinado que recusava a única solução possível para Portugal em princípios de 2011 por causa da bancarrota. Este é um duplo argumento que tem sido martelado por tudo o que é dirigente e bicho-careta ao serviço da agenda do Governo, porque é a consumação da tese da culpa: há um único culpado para os nossos males, há um único pecado e, portanto, há uma única salvação, um único salvador. Esta retórica para borregos deu a vitória a Passos e continua a dar-lhe o estado comatoso em que a política nacional e o pulso social se encontram – muito, igualmente, por contributo voluntário e entusiasmado de Seguro, alguém que por palavras e silêncios, actos e omissões, foi sempre validando os ataques a Sócrates, ainda antes de ter chegado a secretário-geral do PS e continuando até hoje. Assistir à passividade de Seguro, quando não à cumplicidade, perante as canalhices soezes de que a governação anterior continua a ser alvo é um dos mais degradantes espectáculos cívicos que os socialistas têm dado nas últimas décadas. O milhão e meio de portugueses que votaram PS em 2011, depois de terem sido capazes de resistir a todas as campanhas de assassinato de carácter e golpadas judicial-jornalisticas, têm de estar completamente à nora com uma liderança do PS que tem vergonha do próprio partido. Suprema, e trágica, ironia: também o actual PS alinha na demolição da política a troco ninguém sabe do quê.

Já chega de dar atenção às desgraças. Falemos do Daniel Oliveira e deste minuto e quarenta segundos do nosso contentamento. Nele testemunhamos a raridade – a ousadia – de se afirmar que a vinda da Troika foi… imagine-se, pasme-se… uma escolha política! O próprio Nunes ficou banzado perante a convicção em modo de saída do armário que lhe apareceu à frente. O Daniel encheu-se de coragem e galhardia para conseguir verbalizar uma básica banalidade – como explicar tamanha dificuldade e aparato afectivo que o vídeo regista? Explica-se por continuarmos agarrados a Sócrates, claro, alguém que este mesmo Daniel também carimbou amiúde como mentiroso, alegremente engrossando o coro de pulhas e ranhosos. A esquerda pura e verdadeira, a elite do PCP e do BE, gozou o prato a assistir ao aviltamento das principais instituições da República, do Parlamento aos tribunais, passando pela Presidência, na caça a Sócrates; e em quase todos os casos até se juntou à horda a pedir sangue. Por isso, surgir alguém no red light district a sugerir que Sócrates, se calhar, vai na volta, até que nem era igual aos reaças do imperialismo americano é o equivalente a um teólogo defender no Vaticano que, se calhar, vai na volta, Jesus até deu umas cambalhotas com a Maria Madalena.

O pedido de ajuda, de auxílio, não era uma inevitabilidade a ter de ocorrer naquele tempo e daquela forma, podendo-se discutir se devia ter sido nessa data, ou mais cedo, ou mais tarde. Ou seja, e agora continuamos nós onde o Daniel parou, o que aconteceu nos idos de Março de 2011 em Portugal foi um processo político que só se explica politicamente, não foi o resultado de uma mera contabilidade de merceeiro onde apenas bastaria fazer contas de somar e de subtrair nem foi a consequência de um funesto destino inscrito nos abismos do tempo. Logo, explicar esse período implica olhar para todos os agentes políticos e circunstâncias externas que o influenciaram até ao seu desfecho último. Portanto, chega agora aqui ó Daniel, quem reconhece que o Governo de Sócrates estava à procura de uma solução política, então tem de admitir que essa solução foi impedida pela vontade política do Presidente da República e da oposição. As ilações que desta constatação se podem e devem tirar são tremendas, e por isso mesmo a direita e a esquerda, cada uma pelas suas razões e a seu modo, fingem que não estiveram na origem dos acontecimentos coevos que nos fizeram, eles sim, chegar até à perda da soberania.

Que diria o Daniel publicamente, se fosse coerente com o pressuposto servido ao Nunes, desta tão luminosa afirmação de Louçã? Que conclusões retiraria a respeito das responsabilidade do BE desde as eleições de 2009? Que futuro alternativo proporia em vez desta cegueira?:

Rejeitar o PEC IV é o princípio da saída da crise.

Do grande pensador da esquerda grande

Não sabemos. Mais: não fazemos a menor ideia. Os puros da esquerda pura têm sérias dificuldades em produzirem discursos que fujam ao sectarismo, por isso são os aliados perfeitos da actual direita. Porém, a política é a política é a política. Hoje, há dois mil e quinhentos anos e daqui por meia eternidade. A ausência de uma crítica política aos Governos de Sócrates perverte o espaço público, porque está ao serviço dos maniqueísmos e dos assassinatos de carácter. Acima e antes de tudo, quem se furta a reflectir sobre as causas da actual situação de crise e penúria pretende erradicar a racionalidade e a participação cívica, substituindo-as pela demagogia e pelo populismo. Da minha parte, acredito que o Daniel Oliveira tem a decência suficiente para arriscar salvar esta esquerda imbecil de si própria.

11 thoughts on “1º apoiante da candidatura do Daniel à liderança do BE”

  1. Caro Valupi,
    no fundo, sempre acreditei que eras crente, daí estares predisposto a acreditar no Daniel, não o da Bíblia, mas neste, o Oliveira, que como o outro Oliveira tinha uma série de certezas que nos fizeram estar agora no cu da Europa.

  2. Daniel é pago por Balsemão (Expresso e SIC), Nunes é pago por Balsemão e Belmiro (SIC e Público). Nem um nem outro tem opinião sobre porra nenhuma, têm só a mão estendida aos taicunes da manipulação social. Ao menos o Louçã é pago cegamente por todos nós.

  3. Em minha opinião, esse Daniel na cova dos leões da política activa era uma chatice porque nos privava de um dos pouquíssimos comentadores mediáticos que me parecem guiados exclusivamente pela honestidade intelectual. E no poder, provavelmente, faria o mesmíssimo tipo de asneiras que todos fizeram, fazem e continuarão a fazer, advienne que pourra

  4. Todo este arrozado nada tem a ver com o BE, como qualquer português com dois dedos, de testa já percebeu.

    O Valupi quer sim escrever sobre o que se passa lá para os lados do Rato , entre o sucessor do Grande Lider, o jovenzinho pouco Seguro, e o Maquiavel de segunda da Camara de Lisboa.

  5. Caro Valupi,
    Para continuar a ouvir pulhices e ranhozices, não pelo calvino anacleto mas pelo luterano oliveira, então era melhor ouvir-mos uma osmose de ambos na santinha amaralo, para assistirmos ao gozo de vermos uma cara de santinha metamorfosear-se em cara de bruxa, pensamento de bruxa e actos de bruxa.

  6. Preciso de ler novamente este post de val,que subscrevo em grande parte.Uma discordancia para já, é que Daniel Oliveira e Louça são muito diferentes.Oliveira ainda há dias declarou que é um social democrata.Foi contra a moção de censura do bloco.Termino por agora, pois vou ao posto do ainda do SNS.Quanto a um tal augusto, peço-lhe que não vale a pena, tentatativas de assassinato politico. Antonio Costa está-se borrifando para os seus vomitos carregados de odio.

  7. ” Assistir à passividade de Seguro, quando não à cumplicidade, perante as canalhices soezes de que a governação anterior continua a ser alvo é um dos mais degradantes espectáculos cívicos que os socialistas têm dado nas últimas décadas.”

    Por isso e para mim, um dos que,, entre esse milhão e quinhentos mil ,tem um mesquinho espírito vingativo, nunca mais chega a hora de não votar em Seguro. Devia haver eleições todos os meses que era para eu Não Votar no sacana.

  8. Os teus bolos estão cada vez melhores, Valupi. Se tivesse tendência para engordar, estava bem fodido.

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