«era doce viver»

A Parada foi o centro mundano de Cascais. No tempo de El-Rei D. Luís havia apenas em cada ano dois bailes na cidadela – um a 28 de Setembro, anos de D. Carlos, outro a 16 de Outubro, anos da Rainha D. Maria Pia. A Rainha D. Maria Pia ia, às vezes, à Parada, jogar o crocket ou atirar ao alvo. As grandes damas, com vestidos compridos, mangas compridas, chapéus seguros por véus de gaze, jogavam o tennis na Parada. Os seus courts de tennis tinham e têm fama e ainda hoje se realizam ali os nossos campeonatos internacionais de tennis, em festas que são um dos últimos e mais fechados redutos do mundanismo lisboeta.

Os duques de Palmela, os marqueses de Ficalho, de Alvito, de Belas, de Castelo Melhor, de Borba, os condes de Galveias, Vila Real, Castro Guimarães, Melo, Sabugal, Redondo, Atalaia, Lapa, Vimioso, Lumiares, Balsemão, Azambuja, Guarda, os viscondes de Lançada, Luz, Ovar, Atouguia, Asseca, Mossâmedes, Silva Carvalho, Abrançalha, os barões de Sabroso, Regaleira, D. Sofia de Almeida, D. Eugénia de Avilez, D. Eugénia de Almeida e Vasconcelos, D. Fernanda Atalaia, D. Maria Antónia Ferreira Pinto, enfim, tôda a nobreza freqüentava a «Parada», dava às suas festas, às suas reüniões, um brilho e uma elegância de grande quilate e que para sempre desapareceram da vida portuguesa.

A «Parada», clube aristocrático, conserva as mais brilhantes tradições de Cascais. A casa é modesta – muito mais modesta que o Casino do Estoril. Mas a simples evocação da «Parada» de Cascais levanta perante nós a imagem dum mundo muito menos modesto que o do Casino do Estoril.

Perto da «Parada» fica o novo rink de patinagem de Cascais, considerado o melhor do país. Obra camarária, oferecida ao turista como “atracção”. Fica também a vélha praça de toiros, mandada fazer pelo conde de Fontalva há cêrca de cem anos, praça onde toirearam fidalgos – e que é hoje uma lavandaria.

Em 16-10-1898 a Rainha D. Amélia patrocinou, numa outra praça e que também já não existe, uma das célebres toiradas de Cascais, com fins beneficentes, organizada pelo Real Clube Tauromáquico. Correram-se dez toiros oferecidos pela Casa Lafões. Foi director da corrida o visconde de Asseca. Os cavaleiros eram D. António Siqueira Freire (São Martinho), e o visconde da Varzea. Como bandarilheiros, capinhas, forcados, só rapazes da aristocracia. Os preços dos lugares deixam-nos agora assombrados. Camarotes a 20 mil réis, sombra a 15 tostões, sol a cruzado, e com bilhete de combóio para Lisboa, ida e volta, seis tostões!

Todos êstes regalos passaram. As toiradas da fidalguia e os preços contados a tostão. Coisas de que só restam memórias… Memórias…

No tempo de Rei D. Carlos houve lindas festas na residência real. A Rainha D. Amélia recebia uma vez por semana, recepção a que acorria tôda a sociedade em veraneio.

Um «cotillon» realizado na cidadela, no princípio dêste século, e dirigido por D. Maria Sabugosa, filha dos marqueses de Sabugosa, e pelo conde de Óbidos, marcou, pela elegância, uma época de Cascais.

[…]

No Parque Palmela havia também festas de grande elegância, animadas, vivas, que enchiam de entusiasmo a mocidade aristocrata do princípio dêste século – a mocidade daqueles que têm hoje cabelos raros e brancos.

Em Outubro de 1901 a duquesa D. Luísa presidiu a uma quermesse realizada no seu parque. As quermesses estavam então na moda, e as senhoras emplumadas, vestidas de sêdas farfalhantes, sentiam delicias ao vender os bilhetinhos bem enrolados, onde se ocultavam, entre bilhetes «brancos», o número feliz que dava direito a uma jarra, a uma biscoiteira, a uma caixa de luvas…

Nessa festa do Parque Palmela, que rendeu cêrca de cinco contos (dos antigos contos) para fins de caridade, houve uma tômbola rica, com bilhetes a dez tostões. e em que só eram sorteados objectos em prata – salvas, serviços de chá, faqueiros, etc. […]

Deu-se também em 12-10-1905 uma grande festa em Santa Marta, no recinto do tiro aos pombos, cuja entrada era a 5 tostões por cabeça. El-Rei D. Carlos mostrou nela a sua destreza de caçador.

A novidade dessa festa consistia na venda de chá, café, chocolates e bebidas, em «petites tables», servidas pelas condessas de Sabugosa, Alcáçovas, Almedina, D. Teresa Calheiros (Guarda), D. Francisca de Noronha (Paraty), D. Guardalupe de Castro e a marquesa de Guell e Bourbon.

Festa, muitas festas… Cascais conheceu uma aura elegante durante quarenta anos, teve, durante quarenta anos, um esplendor de praia da Côrte…

Cascais não esquece a figura amável de El-Rei D. Carlos. O seu vulto ainda vive na memória dos vélhos moradores da vila.

Viam-no muito, a pé ou a cavalo, correndo as ruas da vila tão à vontade como um simples fidalgo, e convivendo familiarmente com o mundo dos pescadores. Conhecia-lhes os nomes, preguntava-lhes pelos filhos, era dadivoso para as suas necessidades.

Os pescadores adoravam-no. Era o seu deus particular, aquêle Rei amável e conhecedor das coisas do mar. Queriam-lhe bem pela sua bonomia, pela sua generosidade, pelo seu franco sorriso português. Nos hábitos, no carácter, nos gostos, nos modos, êsse Rei loiro e de olhos azues era um verdadeiro português. Os de Cascais sabiam-no – e por isso amavam-no mais.

El-Rei gostava do mar, tanto como os pescadores. À noite, às vezes, ia para a pesca, num barco rude, tal como os outros iam. Corria os riscos dos outros. Geralmente ia com êle, na pesca do candeio, um carteiro que tinha a alcunha de «o Carofé». Ora D. Carlos, por mais que fizesse por isso, não era um exímio pescador de candeio… Então o Carofé zangava-se e censurava-o abertamente.

Contam muitas histórias de El-Rei D. Carlos – e com que saüdade! – os vélhos pescadores de Cascais.

[…]

Cascais vai perdurar na tradição portuguesa pela sua aura de praia da Côrte.

Recordam-se ainda as suas glórias mundanas. As visitas do Presidente Loubet, dos Reis de Inglaterra e de Espanha, do Imperador da Alemanha, do Rei de Sião – que reconheceu nos portuguesíssimos doces de fios de ovos um doce siamês, do que se conclui que ou a receita nos foi ensinada pelos antigos siameses ou por êles aprendida com os cozinheiros dos nossos navegadores.

Para cada visita dessas, Cascais desfazia-se em festejos, aristocráticos e populares. Vistosas iluminações, fogos de artifício de grande efeito, luxo, entusiasmo, animação, bailes, vida elegante, vida de Côrte…

Recordam-se ainda, em Cascais, os torneios de tennis, os bailes da «Parada». As festas, os saraus, os jantares, os piqueniques, nos palacetes aristocráticos. Os passeios de landau, de vitória, de charrette, de breack, à praia da Adraga, ao Guincho, às quintas das redondezas. Os grupos de cavaleiros, de amazonas, impecáveis, elegantes, montando cavalos de raça e percorrendo as estradas de Cascais nesse tempo em que o automóvel era uma espécie de mito.

Recorda-se, ao recordar Cascais, uma época de distinção, de boas maneiras, de encantamento, que tinha ali o seu centro mundano. Uma época em que a aristocracia se recreava recebendo em casa os seus amigos e não aceitava ainda a promiscüidade dos Casinos e Clubes. Uma época que teve, entre nós, o seu fulgor máximo nas temporadas de Cascais; uma época que morre prêsa à evocação de Cascais.

Cascais fica sendo, na vida portuguesa, como que um nome simbólico – o tempo de Cascais, a gente de Cascais… Um símbolo nostálgico da nossa última época em que «era doce viver»…

[…]


MEMÓRIAS DA LINHA DE CASCAIS, Branca de Gonta Colaço e Maria Archer, 1943, Edição Fac-similada 1999, pp. 353-370

12 thoughts on “«era doce viver»”

  1. … pois é, Val… entretanto, se a paciência o permitir, sugiro uma espreitadela lá a casa a um post intitulado “Contra o Quê? – ou da irresponsável cidadania em Portugal” :(
    Grande abraço.

  2. Eu gosto muito do rei D.Carlos. Foi uma estupidez o seu assassinato. Bastava terem matado apenas a monarquia e o desgoverno. Talvez porque adivinhassem que o desgoverno ia continuar ou voltar, receavam que o povo pensasse: mal por mal, volte e viva o rei. E, pelo que se lê na narrativa postada, até era mais simpático que os académicos PR que lhe sucederam.

  3. Se em lugar de ter-mos um Presidente da República tivéssemos um Rei de certeza que tínhamos mais vantagens. Com isto não quero dizer que sou a favor da Monarquia, só o sou, no que diz respeito à Presidência da República. As vantagens eram muitas, poupava-se mais e não havia uma guerra entre o Rei e o Governo, ambos tinham a ganhar, assim como o País.
    Enquanto isto estamos sempre dependentes da maneira como acorda o Presidente, um dia de cu para o ar e descasca no Governo, o outro, de barriga e quem padece é a oposição. Ademais, sabíamos que com o Rei era para todo o sempre e que era educado para desempenhar essas funções.
    Assim havia uma maior simpatia quer da parte da Casa Real, como da maioria da população, – como é relatado sobre a população de Cascais. Sabia-se o que era gasto com a Casa Real era para todo o sempre, não havia reformas nem duplas reformas, não havia eleições de cinco em cinco anos o que se gastava com estas dava para manter a Casa Real durante esse tempo. O Príncipe e os Duques caso os houvesse estudavam no Colégio Militar e dali faziam a carreira militar e o problema deles estava garantido, era a mais ou a menos um oficial.
    Vamos continuar à espera que apareça um messias para Presidente da República porque se tivermos em sorte um igual a este a nossa signa está traçada. É pedir a Deus que nos dê sorte.

  4. E a D. Amélia amandou-se à água lá dos penhascos da cidadela para ir salvar um homem que estava amorrer afogado e salvou! Fica Amélia, a Querida, para sempre, porque eu gosto muito dela. Tenho pena que mudem o museu dos Coches de sítio, ouvi dizer que foi ela que escolheu ali onde está, no antigo picadeiro do palácio.

    Mas eu não sou monárquico, e gostei do Jorge Sampaio, tirando aquela coisa das touradas mas paciência.

  5. Era doce viver… para alguns.
    Ó Manuel Pacheco, a sua visão idílica da monarquia não é alicerçada em factos. Leia menos a Hola! e a Nova Gente e mais a História de Portugal e verá.
    Em época de duplo centenário da Guerra Peninsular sugiro-lhe que procure saber o que era o Exército Real Português antes de Beresford, quem o comandava, como eram distribuídos os cargos de oficiais, onde e como se arrebanhavam as tropas, quanto é que estas recebiam e quando.
    É uma pena os factos atrapalharem as teorias.

  6. Pois, o BERESFORD esse besta que tomou conta disto enquanto quis, esse sim era cá um governante do caneco…sorte a dele, ter querido ir ao Brasil, não entrou cá mais.

  7. É simples, Manuel Pacheco, leia mais. Apontei-lhe o Exército Real Português devido à anedota que escreveu sobre a carreira “militar” do Príncipe e os Duques (os de Copas, talvez), e deixei de lado o resto do seu anedotário monárquico porque você é-me simpático e não quero feri-lo desnecessariamente. Leia.

  8. Porra, pá,essa besta vestiu, calçou, armou, alimentou e, sobretudo, pagou o pré a tempo e horas a uns famélicos a que por cá pomposamente chamavam Exército. E acabou com uns “oficiais” de trazer por casa, inaptos, incultos, ignorantes, nomeados segundo o nascimento, com a patente apropriada ao grau de nobreza, e iniciou a revolução de promover pelo mérito. Foi pena esta revolução ter aguentado tão pouco tempo que não deixou tradição em Portugal.

  9. Zeca, pá, depois de te ler fiquei a sonhar como teria sido a bandeira inglesa no castelo de S. Jorge. Se calhar combinava melhor com os comilões da época, olha que és capaz de ter razão, e então os ingleses sempre foram uns aliados e peras.

    Ainda bem que eles «andem» lá pelos Algarves, aquilo é tudo deles, um destes dias temos um presidente da camara algarvio, olha sabes, podemos pensar na Bonnie Tyler e no gajo da «Virgin», tás a ber a coisa? aquela gaita bem investigada, ainda traz à baila a Jolie e a madonna. És capaz de ter razão.

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