«Na cabeça de Sócrates»

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Saia de casa. Já. Compre o Público de hoje. Leia «Na cabeça de Sócrates», de Ricardo Dias Felner. Não perca um dos textos mais fascinantes – e perturbantes – do jornalismo português dos últimos tempos.

O primeiro-ministro português é, da cabeça aos pés, uma laboriosa e enervante mistura de «frontalidade» e «dissimulação»? Não me diga que não tinha reparado.

26 thoughts on “«Na cabeça de Sócrates»”

  1. Bem, o artigo encontra-se disponível no site do jornal. O FV poderia perfeitamente posta-lo sem pruridos de consciência. Quanto ao «retrato». De tão mimoso para com Sócrates, das duas uma – só poderia mesmo ser publicado no Natal, ou…no Carnaval.

  2. Tem vossemecê razão. Aqui vai.

    Na cabeça de Sócrates

    20.02.2007, Ricardo Dias Felner

    Há um consenso alargado sobre algumas das características de José Sócrates, eleito faz hoje dois anos. Como reage o primeiro-ministro a uma crítica? Como se prepara para uma reunião de trabalho? Como ensaia um debate televisivo? Como recruta os colaboradores? Resposta num perfil político de um homem que não acredita no acaso

    Se um dia se cruzar com José Sócrates, é bom que saiba o seguinte: o primeiro-ministro só o ouvirá com atenção, durante mais de cinco minutos, se tiver algo para lhe dizer que ele não saiba e queira muito saber. Considerandos filosóficos, políticos, históricos, contextualizações financeiras, geoestratégicas interessam-lhe pouco; por duas razões, essencialmente: José Sócrates julga conhecer mais do que ninguém sobre tudo e, frequentemente, conhece mesmo.
    No caso de as suas teses colidirem com as dele, ou se disser algo que lhe desagrada, a reacção pode ainda ser brusca. “Isso é um disparate”, é o tipo de frase que José Sócrates usa frequentemente para cortar a palavra ao seu interlocutor. Nestas circunstâncias, a sua expressão de desagrado ou enfado é violenta, por vezes arrogante: como se o que acabasse de dizer fosse uma enormidade, uma estupidez. Na sequência do diálogo, para rematar a questão, o primeiro-ministro pode também discorrer longamente sobre o assunto, apresentando factos, com a segurança de quem diz uma verdade indiscutível. Atenção: ele pode discorrer longamente sobre o assunto – só ele.
    Outro conselho importante é usar piadas com parcimónia. Ou não usar, de todo: sobretudo se não for alguém do seu círculo de amigos, sobretudo se se tratar de uma conversa de trabalho. Mesmo socialistas populares pela sua bonomia, mesmo a esquerda pândega, já foram censurados pelo líder devido a notas de humor fora de tempo. Alberto Arons de Carvalho, que foi seu secretário de Estado no Governo de António Guterres, atesta isso mesmo. “Ele é transmontano, pode ser frio. Não gosta de brincar com coisas sérias e faz ver isso às pessoas”, diz o deputado socialista.
    Agora, imagine que tem uma reunião, um encontro, um debate, com José Sócrates. Primeiro conselho: não presuma que, por ser primeiro-ministro – por ser político -, o secretário-geral do PS apenas tem umas luzes sobre os assuntos mais técnicos. Toda a gente confirma que se prepara sempre muito bem para qualquer encontro ou intervenção, seja em privado, seja num evento público, mediático. É verdade que não se trata de um estudioso natural, voraz, do tipo intelectual ou cientista. Mas dirige o seu conhecimento para o que interessa: é rigoroso, pragmático e tem boa memória.

    Empenhado e pragmático

    Exemplo desta preocupação foi o facto de ter frequentado um curso de Engenharia Sanitária, antes de assumir a pasta do Ambiente. Ou de, mais tarde, no período lectivo de 2003/2004, quando iniciou o trajecto para primeiro-ministro, se ter aplicado num mestrado em Gestão, no ISCTE.
    Aqui, em particular, mostrou-se um aluno empenhado. “Era muito assíduo e interventivo. Não falhava os relatórios semanais. Teve das notas mais altas”, salienta o professor António Robalo, docente da cadeira de Fundamentos da Gestão, e de uma outra disciplina, opcional, escolhida por José Sócrates: Gestão Comparada Internacional.
    O seu lado pragmático, a necessidade de se preparar para a tarefa maior da sua carreira política, foi evidente durante o mestrado. Sócrates fez trabalhos sobre alguns temas mais filosóficos, culturais, políticos – como a apresentação de O Choque das Civilizações, de Samuel P. Huntington -, mas debruçou-se também sobre assuntos incontornáveis da acção governativa: analisou um artigo do prestigiado académico canadiano Henry Mintzberg – que questionava a maior eficácia da gestão privada, em todos os casos, sobre a gestão pública -, interveio quando se falou de produtividade, aproximou-se do conceito Simplex e mostrou-se conhecedor, quando se tratou a função pública. “Recordo-me de ele dizer que as coisas não podiam ser repensadas a todo o momento. Que se deviam aproveitar as coisas boas de governos anteriores”, refere António Robalo.
    Não sendo, portanto, nem o embrulho sem substância anunciado por alguns dos seus detractores – nomeadamente do PS mais académico e intelectual -, nem o portento de cultura geral que ele próprio terá pretendido mostrar numa célebre entrevista ao Expresso, em que fez várias citações de autores consagrados, o primeiro-ministro é, sobretudo, alguém difícil de ser apanhado na curva: alguém que vai aprendendo na medida das necessidades, procurando estar informado a cada momento sobre o que lhe interessa para o ofício, alguém que exige o máximo de economia e de eficácia no processo de conhecimento.

    Ideal são memorandos

    Quando pede relatórios aos seus serviços, por exemplo, o primeiro-ministro gosta que lhe sejam facultados documentos em forma de memorando, apenas com os pontos fundamentais. Numa segunda fase, pode então requerer uma conversa com um especialista, seja ele um responsável do Governo ou outra pessoa com autoridade na matéria. Um alto quadro da administração pública, que privou com ele de perto, na legislatura de 1995, recorda que começava sempre as reuniões por lhe fazer algumas perguntas, procurando “avaliar a consistência da informação”. Não era um exercício fácil para quem estava do outro lado. “Queria que explicássemos tudo de forma sintética, não admitia que andássemos com muitos rodeios, nem contradições”, sublinha. E acrescenta: “Ele é exigente. Impacienta-se, quando não há respostas. Era preciso estar à altura, acompanhar a pedalada.”
    A esta característica o primeiro-ministro acrescenta organização e disciplina. Numa reunião de trabalho, Sócrates usa normalmente um pequeno caderno com o formato de uma carteira de cheques, onde consta a ordem dos trabalhos e pequenas questões que pretendia esclarecer. À medida que avança nos temas, vai assinalando com um visto cada um dos tópicos. Por outro lado, durante a conversa, pode ainda tirar pequenas notas e ir dando orientações. Terminada a fase de análise, de estudo, o ritmo não abranda. “A partir do momento em que se sente documentado, traça objectivos, sempre que possível estabelecendo prazos.” Normalmente, não se trata de meras datas indicativas. O seu prestígio, o prestígio do Governo, a sua credibilidade, joga-se muito na concretização atempada das medidas que anuncia. E se é verdade que José Sócrates gosta de anunciar, também é certo que gosta de “fazer” o que promete. A este propósito costuma, aliás, citar uma frase célebre de Eduard Bernstein (1932), socialista reformista germânico, crítico do marxismo, teórico da social-democracia de que Sócrates gosta. “O reino da política é o reino do compromisso.”
    A máxima, garantem alguns que convivem com ele, não é apenas retórica. E, por vezes, obriga a trabalhos redobrados por parte dos seus subordinados. Quem não acompanha o andamento fica para trás. Quem acompanha é elogiado e promovido.

    Competência e lealdade

    Que o diga Dulce Álvaro Pássaro. Sentada no seu moderno gabinete, num oitavo andar das Torres de Lisboa, sede do Instituto Regulador de Águas e Resíduos, IRAR, lembra os agitados anos de meados da década de 90. Nessa altura, a sua carreira deu uma volta. José Sócrates deu uma volta à sua carreira. Era, como é hoje, uma “pequena mulher”, para usar a sua própria expressão: uma mulher simples, discreta, sem pretensões políticas, preocupada em ajudar a sua mãe octogenária e em acompanhar os filhos. Mas tinha uma outra característica, reconhecida pela gente do meio, que agradava particularmente ao recém-nomeado secretário de Estado adjunto do Ambiente: uma competência humilde e um conhecimento invulgar numa matéria vital para a estratégia que Sócrates delineara ao assumir o cargo ­- resíduos sólidos urbanos, ou seja lixo, ou seja, lixeiras.
    À época, corria o ano de 1995, o país tinha 300 lixeiras. A OCDE ciclicamente lembrava isso aos responsáveis políticos: uma vergonha, inscrita em relatórios e manchetes de jornal, um problema que ninguém parecia com força para combater. “Sabíamos que era preciso muito dinheiro, muita vontade política. Não estávamos a ver que esta área pudesse ter uma mudança tão rápida”, explica a engenheira química, técnica do Ministério do Ambiente, habituada desde 1977 à lentidão dos procedimentos da administração pública. A determinação de Sócrates, contudo, surpreendeu-a. “Ele chegou e pegou logo naquilo. Teve acesso a alguns relatórios e formou logo um plano.”
    A partir daqui até 2002, Dulce Álvaro Pássaro e José Sócrates não mais se perderam de vista. Ela, que entretanto subira à vice-presidência do Instituto de Resíduos, acompanhou-o em várias reuniões com autarcas por todo o país, destinadas a convencer os municípios da necessidade, inadiável, de criar aterros sanitários. “Devido à sua dedicação, à forma convincente como falava, as coisas começaram a avançar”, atesta a actual vogal do conselho directivo do IRAR, lembrando que os fundos de coesão da União Europeia, então afectos ao Ambiente, ajudaram à empreitada.
    O profissionalismo de Dulce Álvaro Pássaro seria devidamente levado em conta. Depois de sair da Secretaria de Estado, entre 1997 e 1999, período em que está ao lado de António Guterres, em São Bento, como ministro adjunto do primeiro-ministro, Sócrates assume a liderança do Ministério do Ambiente e faz uma proposta inesperada à engenheira. “Quando me convidou para presidente do Instituto de Resíduos, foi um momento alto da minha vida. Sabia que várias pessoas queriam o meu lugar. Senti-me apreciada pelo meu trabalho, pelo meu empenho, pelo meu perfil essencialmente técnico”, conta. Na conversa prévia que teve com José Sócrates, não lhe foi imposto nenhum nome para as segundas linhas. O secretário de Estado não quis sequer indicar alguém da sua confiança política para a vice-presidência, como era habitual nestas circunstâncias. A única coisa que pediu a Dulce Álvaro Pássaro foi: “Máxima confiança, máxima responsabilidade. Quero pessoas competentes e leais.”

    O “factor PS”

    Competência e lealdade, duas condições essenciais para valer a confiança de José Sócrates. Mas que só são uma mais-valia, se estiverem associadas. O primeiro-ministro dificilmente nomeia alguém apenas por ser qualificado: se a pessoa der sinais de que fala de mais, ou que pode contrariar a disciplina e a hierarquia impostas pelo Governo ou pelo partido, é um candidato proscrito. E, simultaneamente, também não basta ser fiel para lhe conquistar uma fatia do poder. Por uma razão simples: a fidelidade não implica, por si, bons resultados; e, como já se disse, José Sócrates é um homem de resultados, que construiu a sua imagem nesta ideia, um pouco por oposição a António Guterres.
    Como faz notar um deputado do PS, dois dos políticos mais próximos do primeiro-ministro, do seu grupo de amigos pessoais – Edite Estrela e Armando Vara -, “surpreendentemente”, não foram incluídos no Governo. Freitas do Amaral, por outro lado, mereceu a sua confiança no Ministério dos Negócios Estrangeiros, desfazendo algumas solidariedades partidárias.
    Francisco Ferreira, presidente da Quercus, sublinha a este propósito que Sócrates sempre teve “a habilidade de contratar no campo do adversário”. Quando ainda era secretário de Estado, foi buscar Nunes Correia, ex-chefe de gabinete da social-democrata Teresa Patrício Gouveia, para o programa Polis. E o seu gabinete governativo era composto por engenheiros e juristas reputados, alguns sem qualquer relação anterior com Sócrates. O próprio Francisco Ferreira chegou a fazer parte do grupo criado para conceber o Plano dos Resíduos Sólidos Urbanos.
    Neste sentido, o “factor PS” só conta na medida em que se é capaz para a tarefa e se garante fidelidade ao líder. Basta lembrar que alguns históricos do PS, reconhecidos pelo seu valor, pelo seu percurso político ou partidário, sucumbiram às mãos do secretário-geral do partido. São os casos de João Cravinho, Helena Roseta, Manuel Alegre, Manuel Maria Carrilho ou de José Medeiros Ferreira. Todos críticos de José Sócrates.
    Medeiros Ferreira, nomeadamente, acusou-o a dada altura de ser um produto da televisão e de ter tiques autoritários. Falhas que continua a apontar, mas que combina com outras virtudes: “É aplicado e tem gosto pela acção política.” “Tem o mérito de se preparar e de aproveitar bem as circunstâncias.” “Sinto-o mais no espírito de um primeiro-ministro, está num bom momento de forma.”
    Quanto ao processo que afastaria o antigo deputado açoriano da lista de deputados, nas últimas legislativas, tem dúvidas se se tratou, de facto, de um castigo por excessos de linguagem. “Dá-me a impressão que sim. Mas não tenho a certeza absoluta. Quando me disse que não seria incluído nas listas, convidou-me para o Conselho de Estado”, lembra. E aduz de imediato:”Esse convite, contudo, nunca foi formalizado. E ainda ninguém do PS me explicou porquê.” Evitando rótulos, Medeiros Ferreira sintetiza assim o perfil do primeiro-ministro: “Parece-me que ele tem uma mistura de frontalidade e de dissimulação, que é uma boa mistura em termos políticos.”
    Admitindo-se que a despromoção de Medeiros Ferreira terá resultado, em parte, de pertencer à ala esquerda do PS, parece claro que o seu pecado fatal foi a ousadia da dissidência, a veleidade de criticar o líder publicamente. E isto porque outros socialistas, que nunca foram “socráticos”, mas que não afrontaram o secretário-geral, acabaram mesmo por ser promovidos.
    Veja-se, por exemplo, Vieira da Silva. Antigo homem forte de Ferro Rodrigues, conotado com a ala mais à esquerda do PS, o ministro do Trabalho e da Solidariedade Social é hoje uma pedra essencial na estratégia política do primeiro-ministro – integrando o grupo restrito de ministros que participa nas reuniões de coordenação do Executivo, todas as segundas-feiras. Vieira da Silva não apoiou José Sócrates na candidatura a secretário-geral do PS, mas a sua competência técnica e política, bem como a discrição que manteve nas guerras entre socialistas acabaram por ser premiadas.

    Gerir a carreira política

    Aparecendo com muitos inimigos nas eleições internas que o conduziram à liderança do PS, devido à sua truculência e obstinação, José Sócrates transformou-se num homem praticamente incontestado dentro do partido, como demonstrou o último congresso de Santarém. Para essa entronização pesou, naturalmente, ter-se consolidado como um primeiro-ministro popular e poderoso. Mas é também preciso valorizar a sua astúcia política, a forma arguta, meticulosamente agendada, como geriu a sua carreira.
    Helena Freitas, da Liga para a Protecção da Natureza (LPN), é uma das pessoas que conhece de perto esta faceta. Ela sabe, por exemplo, desde há vários anos, que o fim de Guterres foi o início de Sócrates. Essa revelação sucedeu em 2002, num pequeno-almoço com o então ministro do Ambiente, quando o Governo socialista se preparava para deixar o poder. “Ele acompanhou-nos a todos à porta, mas eu estava mais próxima e brinquei com ele dizendo-lhe que o meu mandato terminava no prazo esperado, mas o dele era uma surpresa. Ao que ele respondeu que esta era uma etapa e que nos haveríamos de voltar a encontrar. Nesse momento senti que ele estava consciente de que um novo ciclo político se iniciava para ele.”

    Choque com Santana

    Sucede que Helena Freitas sabia ainda mais: sabia quem poderia disputar com Sócrates o cargo de primeiro-ministro, no futuro. A fonte foi a mesma. Numa outra conversa de gabinete, dois anos antes, José Sócrates confirmou-lhe que iria dar provimento à queixa que a LPN, juntamente com outras associações ambientalistas, havia apresentado contra a construção de um campo de golfe na Figueira da Foz, um projecto em que o então presidente da autarquia, Pedro Santana Lopes, depositava grande esperança. A posição do ministro do Ambiente foi acompanhada de um comentário revelador: “Tem consciência que estou a chumbar um projecto de um futuro primeiro-ministro de Portugal?” Helena Freitas diz ter ficado “muito surpreendida” pela convicção das suas palavras. “Percebi que eram adversários muito conscientes de que se iriam cruzar.”
    Não houve, portanto, para a ecologista, qualquer surpresa quando viu, três anos depois, Sócrates ao lado de Santana, na RTP, todas as semanas, aos domingos, num frente-a-frente premonitório. Quem estava mais atento percebeu que a estação pública dava montra aos dois principais líderes de uma nova geração que acabaria por tomar São Bento. E que ambos os participantes assumiam com orgulho esse papel.
    José Sócrates, em particular, levou muito a sério o seu desempenho. Como ainda hoje leva. José Sócrates conhece por dentro como funcionam as redacções dos jornais e o mundo em que os jornalistas se movem: sabe quanto ganham, sabe as tensões entre repórteres e directores, sabe os restaurantes e bares que frequentam, conhece os seus constrangimentos, as suas fragilidades, os seus timings. E é sagaz e meticuloso, sobretudo, na gestão do seu tempo televisivo.
    Alberto Arons de Carvalho conta que, na altura em que defrontou Santana Lopes na RTP, ensaiava de véspera a sua performance juntamente com o seu homem de confiança de sempre: Pedro Silva Pereira. Pedro Silva Pereira pertencera à TVI, antes de embarcar com ele no Governo, em 1995, e continua a ser hoje o seu braço-direito. Emídio Rangel acrescenta que à preocupação com a imagem – “sempre impecável” – o primeiro-ministro acrescentava muito estudo. “Levava os trunfos bem marcados, munia-se de documentação, invocava informação factual”, recorda o então director de programas do canal, que não tem qualquer pudor em indicar o vencedor da contenda dominical. “Santana Lopes tinha grande capacidade de galvanização. Mas era preciso adicionar trabalho, preparação, conhecimento, sobretudo porque do outro lado estava Sócrates. Santana defrontou o adversário mais difícil em televisão que lhe podia calhar”, conclui.

    Fácil diabolizar

    Tendo em conta o que se escreveu até aqui, pode-se facilmente diabolizar José Sócrates: um homem egocêntrico, que se gosta de ouvir mas que gosta pouco de ouvir os outros; um homem calculista, estratego sofisticado, que utiliza armas perigosas para se evidenciar e silenciar a oposição; um político autoritário, que não admite contestação, ardiloso na relação com a imprensa. Mas este seria um perfil demasiado simplista. Mesmo alguns dos seus detractores admitem que o seu pulso firme, a sua intransigência, o modo aguerrido e arrogante como defende as suas posições – os seus defeitos – decorrem também de uma obsessão executiva, em benefício do país. Os seus indefectíveis, por sua vez, vão ainda mais longe: nessa sua cruzada, José Sócrates soma ganhos políticos, mas queima a sua imagem pessoal, como cidadão.
    Helena Freitas, ecologista com quem o primeiro-ministro teve em tempos uma relação tumultuosa, indica alguns dos sentimentos contraditórios na relação com José Sócrates. “Ele gere mal as suas emoções. É pouco tolerante. Mas votei nele para primeiro-ministro e já tinha votado nele há uns anos atrás, por causa da ideia que ele deixa sentir de que tem um desígnio. Ele realmente acredita que pode transformar o país”, diz. Francisco Ferreira, presidente da Quercus, corrobora. “Quando assume uma ideia, por muito que se procure mostrar que ela está errada, ele já não quer ouvir mais nada sobre o assunto. Mas nota-se que tem uma necessidade de levar as coisas para a frente.” “Tem meia dúzia de objectivos e não se desvia um milímetro. Ele quer deixar uma marca”, sintetiza, por sua vez, um assessor de imprensa do Governo.
    No ar fica, em último caso, a questão de se saber o que move o primeiro-ministro: se a vaidade pessoal, se o brio, se simplesmente a vontade abnegada de mudar Portugal. A resposta está só na cabeça dele.

  3. O que o move, não sabemos. Mas sabemos que foi a maioria dos portugueses que o promoveu… e ele, pelos vistos, acredita nisso e disso faz uso.

  4. “se a vaidade pessoal, se o brio, se simplesmente a vontade abnegada de mudar Portugal”, provavelmente de tudo um pouco, antes de chegar àquela fase do “só sei que nada sei”. E a responsabilidade é da mãe que lhe escolheu o nome e portanto encomendou-lhe ‘cicuta malhada’.

    Ele foi inteligente em ter aberto a parada com a limitação dos cargos políticos a dois mandatos.

    E é corajoso a afrontar tanto lobby.

    Agora não sei se à conta do meta-argumento do PEC não está em curso um dissimulado downsizing da população. A mortalidade rodoviária já voltou a aumentar. As estatísticas dos suicídios parece que dispararam, mas isso é só por ouvir dizer, não conheço os dados.

  5. «O que o move, não sabemos. Mas sabemos que foi a maioria dos portugueses que o promoveu»

    Sininho,
    O número de inscritos na votação de 20.02.2005 era de: 8.944.508, o número de votos no PS, foi:
    2.588.312, menos que 29%, portanto … chamar maioria a isso é um bocadinho forçado.

  6. Pedro Oliveira,

    Há alguma reserva mental nessa sua numerologia.

    A democracia assenta na vontade de metade dos VOTANTES e mais um.

    Quando se diz «a maioria dos portugueses», quer-se dizer isso. Não seja bizantino.

  7. Vota quem pode e quem se rala com o assunto. Se dos votantes sai uma maioria ela será sempre “grande”: quem cala consente…

  8. Um artigo excelente. Considero esse homem o melhor primeiro ministro do pós revolução. O Cavaco não foi mau, mas teve a ajuda de verdadeiras fortunas e medidas injectadas pelo FSE/UE e protegia demasiado os lobbies.

  9. (Luís, prometo que vou ser comedido… É ao contrário do que pensas: eu sou um nabo em latim – só que ando a cheirar, ando a passear num Séneca que tem latim de um lado e italiano do outro, e num Spinoza que tem latim e inglês, e de vez em quando faço uma mijinha)

  10. Py
    Também foi assim que eu latinei! Mas, para isso, não chega ter faro é preciso ter curiosidade. O Luís está a precisar de arrebitar a sua curiosidade!

    Esta lê-se de caras ou à cabeça… pois é de Sócrates!

  11. Tu esperta Sininho! Hoje vou cirandar que está solzinho…Olha, dados os factos ressuscitados, cheira-me que o novo nick dela é uma contracção, consciente ou não, não sei, de zizanie. Bate certo com o basqueiro, não?

  12. Caro Fernando Venâncio,

    Se me denomina bizantino como sinónimo de subtil e fútil, dir-lhe-ei que não há subtileza nem futilidade no meu comentário, apenas a crueza dos números.
    Considero todos os portugueses iguais em direitos e deveres, aliás julgo que deveríamos reflectir sobre a razão que leva pessoas lúcidas, válidas e que participam civicamente nas comunidades onde estão inseridos a afastarem-se das mesas de voto.
    Recordo a propósito que na noite do referendo o primeiro-ministro não teve uma única palavra para a imensa maioria que não votou.

  13. Caro Pedro Oliveira,

    Há-de concordar comigo nisto: que vinca a abstenção aquele que se conta entre os «vencidos» da consulta popular.

    Concordará, também, penso, em que essa é, por isso mesmo, uma interpretação tendenciosa (não me ocorre palavra mais exacta e mais simpática) dos factos.

    Ou não será que você, se o Não tivesse vencido, nem se lembraria de exprimir-se, agora, nesses termos?

  14. Pedro Oliveira

    Os teus números são sempre interessantes. Mostram que, aqui no nosso Portugalzinho, já não estamos na fase quente do pós 25 de Abril em que as pessoas se sentiram directamente implicadas na política, em que todas as mulheres puderam (finalmente!) votar…
    Os políticos que prometem e não fazem, é conversa de qualquer café português que se preze. Até porque é sempre mais fácil criticar do que fazer.
    Mas com toda a certeza tens uma melhor solução para o país que não seja só a de apresentares o teu voto de censura e abstencionista.
    Eu gosto de votar, mesmo que vote numa minoria.

  15. Caro Fernando,

    Nesta matéria a minha opinião era coincidente com a do PCP, legislar sem recurso a referendo.
    Eis o que escrevi (no meu «blog») em 2006.01.21:
    «Chegou a altura de falar sobre o referendo.
    Importa recordar como chegámos aqui.
    Em 1998 o PPD/PSD era liderado por um senhor que faz comentários, o PS e o país eram (des)governados por um «milagreiro».
    Desta «união de facto» nasceu uma criança chamada referendo.
    Desta paternidade não resultou grande coisa a começar pela pergunta (assunto já tratado).
    Os tópicos seguintes são um resumo daquilo que penso sobre o assunto e que já escrevi aqui e em comentários noutros «blogs»:
    1. Sou pelo sim à abstenção.
    2. Esta matéria não deve ser alvo de referendo.
    3. A pergunta está mal formulada.
    4. A campanha do PS é hipócrita [como é possível este partido falar no SIM responsável, se a responsabilidade é deles que não tiveram tomates para passar para a lei aquilo em que acreditam (em que quase todos os partidos com representatividade parlamentar acreditam)].
    5. A Igreja tem legitimidade para exprimir a sua (dela) opinião [os mesmos que agora querem impedir a Igreja de se manifestar, são os mesmos que acharam legítimo o direito à indignação no caso das caricaturas].
    6. Não há paciência para os argumentos do Não.
    7. Não há paciência para os argumentos do Sim.
    8. As mulheres não fazem os filhos sozinhas, logo a decisão não deveria ser, apenas, delas e a condenação, também não.
    9. Todas as opiniões que li/ouvi [tanto dos defensores do sim como dos defensores do não] vão no sentido que a mulher não deverá/não deveria ser condenada a três anos de prisão pelo facto de interromper voluntariamente a gravidez nas primeiras dez semanas. Então vamos votar o quê?
    10. O referendo não resolve nenhum problema. Cria vários. Dinheiro desbaratado a discutir o acessório. O que fazer na segunda-feira seguinte?
    Como não tenciono dar mais para este peditório, deixo um apelo aos nossos deputados e deputadas:
    – Legislem rapidamente sobre este assunto e deixem-se de demopsicologia.»
    Como vê nem todas as pessoas se abstiveram com um encolher de ombros tipo: não quero saber disto para nada.

    Sininho,

    Vá ver quem votava nas eleições durante a monarquia constitucional e quem passou a votar após esse advento de liberdade e cidadania que foi a implantação da república.

  16. pedro oliveira, essas pessoas podem ir lá e votar em branco. assim, essa abstenção (em que se abstêm de responder á pergunta referendada) talvez seja já maioria.

  17. Pedro Oliveira,

    Devo entender que a sua proposta de solução é uma nova monarquia constitucional?
    Estou interessada em saber mais.

  18. Pedro Oliveira: O Pesadelo do Não, a vergonha de possuir leis burgessas de tal índole, acabou ! Basta de ser grunho mesmo que envernizado em versões multicolores tipo Nuno Lobo Antunes, intelectuais à “cú” da Europa.

  19. Voto em Branco é de considerar como manifestação significativa de vontade do povo. Abstenção é “estar-se nas tintas”, quando não é por motivos de força maior. Tenha juízo!
    A maioria da percentagem de população que se ralou com o assunto (pois que muitos estão mesmo é a lixar-se para o caso) ganhou!

  20. Ó Pedrinho Oliveira, e que tal ir preocupar-se com a proibição do Tabaco que provoca a morte de milhões de inocentes (já pessoas) em todo o mundo, muito mais que os abortos? Então não é pela vida? Uma grande tanga é o que vocês são!

  21. Caro anónimo,

    Escrevi acima:
    «Nesta matéria a minha opinião era coincidente com a do PCP, legislar sem recurso a referendo.»

    Porventura o PCP foi a favor do não?
    Quanto ao ser pela vida, já pensou que a vida contem a morte?
    Todos os pais são em última análise assassinos, pois ao darem a vida dão, também, a morte?
    É mais fácil acusar que discutir.
    É mais fácil ser-se anónimo que pensar e assinar.
    É mais fácil pertencer a uma cáfila que ser um camelo solitário…

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