Quatro Brexits e um funeral (ou dois)

 

No site da BBC, podemos ler um artigo com um título bem engraçado sobre o mais recente estado da discussão parlamentar do processo de divórcio RU-UE: “Four Brexits and a Divorce“. Inspirando-se no título de um famoso e divertido filme inglês e nas hesitações do seu protagonista, alude, obviamente, à série de propostas ontem postas à votação na Câmara dos Comuns e ao possível desfecho de todo este imbróglio. No entanto, cá para mim, o “funeral” do título original do filme teria toda a razão de se manter. Se não, vejamos. Falecimentos podem ser alguns. A começar, o do próprio Brexit (sempre e ainda uma hipótese). Depois, devido ao enorme esforço que lhe tem custado esta prolongada paródia, Theresa May ainda se esvai um dia destes. Espero que não. Para já, perdeu a voz, mas parece resistir. Outro que pode ter a vida em risco é o “speaker“, que começa a ficar congestionado demais e a não caber na gola. Ainda cai redondo nos Comuns. Outra coisa que pode falecer é o partido conservador, que vai cavando divisões profundas entre os seus membros e com o eleitorado enquanto se diverte, ou o partido trabalhista, cujos grandes princípios e líder poderão acabar enterrados nesta situação tão século XXI pela sua superficialidade (passe a incongruência). Poderá também finar-se a boa reputação do Parlamento britânico. Para muitos europeus, que imaginavam outra coisa que não a balbúrdia, a falta de lugares sentados e as entradas e saídas do “Lobby” para as votações, já se finou e de que maneira. A reputação dos políticos britânicos, a começar por Cameron, está também literalmente, e há muito, pela hora da morte. Finar-se poderá também a própria Grã-Bretanha, se a Irlanda do Norte decidir que prefere a paz à Rainha. Enfim, é muito falecimento em perspectiva para se poder vislumbrar alguma Fénix que dali renasça. Este divórcio nem sequer tem um grande amor em vista.

11 thoughts on “Quatro Brexits e um funeral (ou dois)”

  1. Em mim Inglaterra nunca teve grande reputação. É o país dos desordeiros que vêem para o Algarve em magotes fazer barulho e beber cerveja até altas horas da noite. Lembro-me de ter visitado Cambridge no Natal de 1990 (foi a última de somente três vezes que estive no país) e de ter ficado deprimido com o aspeto sujo da cidade, toda cheia de bicicletas velhas e semi-desmanchadas abandonadas por todo o lado, e repugnado com a má qualidade das casas, feitas de madeira que rangia e pessimamente isoladas contra o frio.

    Agora ainda mais enojado estou com esse povo, que quer comer o bolo e continuar com ele, que quer à viva força fazer um acordo mas só aceita um acordo que seja segundo os seus ditames, e que não sai da UE nem sai de cima dela.

    Quero que vão para a que os pariu, e o mais depressa possível.

  2. É a armadilha do nacionalismo, cria uma sensação de euforia e excecionalidade mas depois quando o hype se vai…patético.

  3. Caríssima Penélope, estarás tu a tentar atingir os mínimos na modalidade de cambalhota às três tabelas para as próximas Olimpíadas? É possível que a memória me esteja a pregar partidas, mas tenho ideia de que a posição que aqui tomaste aquando do referendo sobre o brexit foi de compreensão e simpatia pela motivação britânica e de responsabilização dos gatos-gordos de Bruxelas e Estrasburgo pelo infortunado acontecimento (não é ironia), o que contrasta chocantemente com a raivinha deslocada que quase não te permite, agora, passar um dia sem rosnar à Britânia.

    Digo infortunado acontecimento sem ironia porque é quase certo que, no aspecto puramente económico, o brexit se traduzirá em prejuízos para britânicos e restantes europeus, mas, se racionalidade económica fosse o único factor a determinar o devir histórico, a reger a vontade de povos e nações, provavelmente hoje não passaríamos de mais uma Catalunha, a nossa língua oficial seria o castelhano e o português seria uma excentricidade que usaríamos na cozinha e pouco mais.

    Aliás, se calhar nem aí chegaríamos. Estaríamos todos — lusitanos, gauleses, germânicos, galeses e restantes gambozinos — felizes, contentes e integradíssimos no glorioso Império Romano, gozando de belíssimos serviços públicos, com uma rede viária de fazer inveja aos planetas por descobrir na Via Láctea, galáxia de Andrómeda e arredores, e degustando uma saudável gastronomia mediterrânica que nos converteria a todos em Afrodites e Adónis perfeitos, inveja de deuses.

  4. Joaquim Camacho: Cheira-me que deliras desde a primeira linha. Mas, já que aqui estás, gostaria que contestasses esta afirmação: a União Europeia não é um retrocesso do ponto de vista histórico, olhe-se para ela do prisma que se olhar.
    Atenção que não vale dizeres que não é esta a União que devia ser, blá, blá.

  5. Uma breve nota melódica, grande parte dos ídolos Pop ingleses são/foram filhos de imigrantes; Cat Stevens, George Michael, Freddie Mercury. E é dificil não ver a tragedia pessoal de cada um deles como uma luta ligada à construção de identidade, seja de genero seja de valores dentro do sistema britânico.
    Se estendermos a cena alien ao British Museum verificamos que o magnifico museu ficaria quase vazio sem as peças provenientes de saques abroad, e nem só os mármores do Pártenon.
    Quanto da grandeza percebida pelos britânicos é grandeza alheia será uma lição que irão perceber daqui para a frente.

  6. Penélope em 24-6-2016/09.52 (referendo sobre o brexit fora na véspera, 23-6-2016):

    《Britânicos atiram UE ao lago》
    《Com razão? Não sabemos. A UE não é exactamente a CMTV. (…) Mas lá que esta era uma pedrada necessária no charco, era. E se os tempos que aí vêm forem piores para nós, e tudo indica que sim (…), “we will always have Britain”.》

    Penélope em 29-6-2016/22.11:

    《A intromissão abusiva deste protagonista alemão [Wolfgang Schäuble afirmando que Portugal ia pedir novo programa de assistência], sem qualquer mandato nem salvo-conduto para tal, no destino de outros países prejudicando-os é uma das muitas razões para o descontentamento e o mal-estar com a actual União Europeia e um poderoso contributo para a sua dinamitização.》

    São afirmações tuas, no pós-brexit imediato, não tens como apagá-las. Claro que já nessa época parecias meio confusa, uma no cravo, outra na ferradura, como se pode ver nos posts que produziste em 25-6-2016/12.08 e 28-6-2016/21.02. Os primeiros ensaios para os mínimos de cambalhota às três tabelas nas Olimpíadas começavam a desenhar-se, habemus (habíamus) atleta!, exultavam os olheiros de serviço.

    Assim, quando decretas que “atenção que não vale dizeres que não é esta a União que deve ser, blá, blá”, eu respondo: “Atenção que não vale redigires e promulgares um decreto que tu própria entendes não ter obrigação de cumprir.” Porque sendo embora verdade que todos os cabrões são iguais, em verdade te digo também que o cabrão do Joaquim Camacho não é menos igual do que os outros.

    Não passa de wishful thinking a tua profissão de fé de que “a União Europeia não é um retrocesso do ponto de vista histórico, olhe-se para ela do prisma que se olhar”. Era bom que assim fosse, mas não é. Por culpa da caricatura de IV Reich da Angelina, da neorrepública de Vichy do Manu Morcon, dos burocratas chihuahuas armados em rotweilers que lhes flatulenciam os recados e dos enxames de sipaios que nos bantustões a que estamos confinados se atropelam para lhes lamber o cu.

    Não gosto de me repetir, mas nem sempre há como o evitar. Assim, cá vai: Oremos.

  7. Joaquim Camacho: Acontece na história. O que parecia uma hipotética “pedrada no charco” virou uma fanfarronice sem jeito que a muitos embasbacou. Pobres britânicos. Lá se foi a reputação da mais antiga democracia parlamentar. Mas tenho pena que não fiquem. Isto é contraditório? Não.
    Quanto aos protagonistas do processo europeu, quando são maus, e o Schäuble era execrável, têm que ser corridos. Mas daí até ao fim do projecto europeu de livre circulação, convergência, harmonização, partilha, colaboração e intercâmbio vai uma grande distância. Não me parece que o regresso aos nacionalismos e o fim do “bloco”, que são do interesse e empenho do urso ali ao lado, seja uma alternativa melhor. Estou a provocar-te, porque sei que achas que a Rússia nada mais faz do que pequenas brincadeiras informáticas.

  8. Não me interpretes mal, Penélope, nunca me viste nem verás criticar o “projecto europeu de livre circulação, convergência, harmonização, partilha, colaboração e intercâmbio” e outras benfeitorias que tínhamos por garantidas. Mas o voto de rejeição britânico não é nem foi defeito britânico, mas sim dos eurocratas ressabiados e sem alma que vêem fugir uma parte do quintal que tinham como seu e onde achavam que podiam mijar e cagar à vontade, sem sequer recolher as poias num saquinho de plástico, como é obrigatório para os canídeos. Os britânicos fartaram-se do cheiro e eu compreendo-os bem, sabendo embora (eu, tu e eles) que a vida lhes seria mais fácil, nomeadamente no plano económico, se continuassem a limpar o cocó dos gatos-gordos de Bruxelas e Estrasburgo (híbridos de gatos e cães, coisa nunca vista!) e a aguentar o cheiro nos entretantos.

    Erras, porém, quando classificas a pedrada no charco de fanfarronice. A confusão que por ali vai tem responsáveis nos governos britânicos, actual e anterior, mas os principais estão na eurocracia, que faz tudo e mais um par de botas para humilhar não só o Governo mas os milhões que, pelo voto livre, lhes esfregaram nas fuças a vontade de os ver pelas costas. A única coisa que lhes importa é transformar o brexit num exemplo a evitar, um papão para dissuadir outros que eventualmente se fartem das suas (essas sim) fanfarronadas. São eles que estão a dar cabo do projecto europeu, serão eles os principais responsáveis pela sua derrocada. Porque, e digo-com pena, a derrocada final é inevitável, não vejo como travá-la.

    Esta UE que arrota postas de pescada sobre a inviolabilidade das fronteiras para condenar o regresso da Crimeia à Rússia, por exemplo, chamando-lhe invasão, ocupação e anexação, é a mesma UE que apadrinha e incentiva activamente o desmembramento de outro país, a Jugoslávia, com fronteiras reconhecidas que os merceeiros lançaram às urtigas, e que depois encoraja e reconhece a continuação do desmembramento, assistindo carinhosamente no parto de um pseudopaís mafioso a que chamam Kosovo, roubado à Sérvia. Quando vejo os mesmos gatos-gordos, de novo agarradinhos às fronteiras, tremendo de indignação neofranquista com a vontade de independência dos catalães, tenho uma enorme dificuldade em conter o vómito. Mas logo em seguida mandam mais uma vez às urtigas a inviolabilidade das fronteiras, tentado impor aos britânicos uma cláusula no brexit que significaria a desanexação, de facto, de uma parte do seu território, a Irlanda do Norte, e, logicamente, a sua futura integração na República da Irlanda, por enquanto bem-comportadamente integrada no clube. E olha que eu até acho que é esse o destino lógico da Irlanda do Norte, a integração na república do Sul. Mas não assim, com truques sujos de burocratas sem alma nem vergonha, vigaristas ressabiados com a mão cobardemente atrás do arbusto. Esta UE não é uma “união”, não passa de “uma coisa a modos que assim”, vá-se lá saber o quê, com a coerência política e a estabilidade de um iô-iô.

    “Pobres britânicos. Lá se foi a reputação da mais antiga democracia parlamentar”, dizes, mas, mais uma vez, enganas-te redondamente. O que vejo é essa democracia parlamentar a funcionar e a levar ao desespero a canzoada de Bruxelas e Estrasburgo. Não sou bruxo, desconheço o resultado final, mas, dado que os prejuízos para britânicos e restantes europeus são inevitáveis, se no final assistirmos a algumas apoplexias entre a canzoada já não se perdeu tudo.

    Quanto ao urso ali ao lado, é lamentável que não consigas entender que não passa de papão, mais um, que serve apenas para dar cobertura a agendas várias. Como é que a Lockheed Martin, a Boeing, a Raytheon, a Grumman e outras agremiações de escuteiros conseguiriam os contratos bilionários com que enchem a mula, se não existisse tal papão? Que horror! Até me arrepio todo quando penso que em vez de bombardeiros, mísseis e bombas humanitárias, esses bons rapazes poderiam ter de optar por fabricar tractores, aspiradores e frigoríficos. O que é que o urso, o maior país do mundo em extensão, com apenas 143 milhões de habitantes (face aos 330 milhões de estado-unidenses e mais de 300 milhões de europeus) e enormes riquezas ainda por explorar, vai fazer-nos, ou poderá querer fazer-nos, pobres europeus desprotegidos, tadinhos que nós somos? Tens por adquirido que o urso quer o “fim do bloco”, porque é esse o mantra que te martelam na moleirinha há um porradão de tempo. E não te ocorre que o fim do bloco significa uma crise económica de resultados imprevisíveis, com uma retracção inevitável, menos comércio, fábricas a fechar, menos necessidade de energia. E tu acreditas que o urso, que tem na venda de energia um dos principais pilares económicos, pretende forçar esse cenário e luta activamente (e subversivamente, vade retro!) para o concretizar!

    A lógica não é uma batata, e não vale dizeres que “a realidade é uma cena que a mim não me assiste”. Por exemplo, estou absolutamente convencido de que o parapente foi inventado nos anos 70 do século passado. Mas há milhões que acreditam numa realidade alternativa, em que a invenção teria a assinatura de uma garina que em 1917 treinava rapadas a umas oliveiras raquíticas ali para os lados de Vila Nova de Ourém, envergando uma saia até aos pés para se proteger do frio que tal exercício lhe provocava nos tornozelos. Aproveito ainda para te informar que é cientificamente incorrecta a crença popular de que quando as galinhas têm dentes saem os pintos carecas.

    Quanto ao Schauble, uma correcção: o sacana não foi corrido, foi promovido.

  9. Porra, ja estou cansado de demagogia anti-europeia barata. A Europa “burocratica” construiu-se à revelia dos povos ? Foda-se, não votaram até hoje, sistematicamente, regularmente, constantemente, em favor de partidos favoraveis à construção europeia ? Isto não conta ? So contam três referendos, de pura oposição destrutiva, sem que seja possivel dar-lhes um significado politico claro, ou pelo menos um sentido construtivo. Pura irresponsabilidade, pura infantilidade, pura imbecilidade. E muitos comentarios neste blogue são a demonstração acabada do que digo.

    Querem, dizem, uma Europa mais democratica… Pois é o que esta previsto, o que sempre esteve previsto ! Mas agora que seria necessario pugnar por ela, contra forças de direita que não precisam da democracia para nada, tentam convencer-nos que a forma mais facil e eficaz de conseguir obter o resultado almejado, consiste em dar pontapés no que foi construido e limpar o terreno, saindo da União Europeia (mas ficando um bocadinho dentro à mesma).

    Não me lixem. Querem uma Europa mais democratica ? Onde estão as propostas concretas ? Como é que acham que vão chegar la ? Continuando a cantar loas às nações valente e imortais, quando a realidade economica é que elas ja não correspodem à escala onde se tomam as decisões verdadeiramente importantes ? O que mostra o panorama pos-Brexit é, apenas, a gigantesca fantochada que são os euroscépticos. Não sabem o que querem, não sabem onde vão. Não têm programa. Berram por “uma nova Singapura à porta da Europa”, mas dizem querer “proteger os operarios e pequenos empregados do RU”. Isto não é de perfeitos idiotas ? Claro que é ! Ha que chamar os bois pelos nomes.

    Ja chega. Meninos, o pior acontece se não estivermos um bocado alertas. Vejam os EUA. Vejam o Brasil. Gostam de democracia ? Esta na altura de começar a lutar por ela, contra os reles demagogos que teimam em querer brincar com o fogo.

    Boas

  10. Addenda : é que o parlapié anti-europa é tão estupido, com os pseudo argumentos de respeito da soberania (os tratados não são expressão da soberania ?), que até mete pena. Queixam-se dos “burocratas”. São eles que aprovam os regulamentos ? São eles que ratificam os tratados ? E alias, que tratados, ao certo, um em cada três argumentos dirigem-se contra a CEDH, que nem sequer começou por ser um instrumento comunitario e que os britânicos aprovaram antes de entrar para a CEE ! Mas ja agora, porque não pretendem abolir a carta das nações unidas ? Não se trata também duma limitação “buricratica” da soberania aljubarroto-nativo-nacional ?

    Que tristeza. A democracia também foi feita para tais alarvices. Tudo deve poder exprimir-se. OK. Mas que cansa, cansa. Porra.

    Boas

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