Não me digam que também têm medo de pedir explicações ao alemão

Confesso que não sei se penso que as palavras do deputado do PS Pedro Nuno Santos sobre a utilização da “bomba atómica” contra os credores alemães são, de facto, exageradas e inaceitavelmente radicais. Depois de ouvir as proferidas pelo presidente do «Bundesbank» e também membro do Conselho do BCE, apelidando os países em dificuldades na Zona Euro de “alcoólicos” a quem aliviar o garrote é o equivalente a acreditar no pedido de um último trago de um ébrio incorrigível, a ideia de não pagar e de dizer aquilo e muito mais ganhou bastante pertinência.
Esteve bem a RTP ao alinhar as duas notícias em sequência, no Telejornal, embora, na altura em que discursou, Pedro Nuno desconhecesse as declarações de Weidmann. Que aliás permitiram olhar a “ousadia” do deputado com outros olhos.

Acho mesmo inadmissível que nenhuma autoridade portuguesa, e já agora de outros países do sul, exija um pedido de desculpas a Jens Weidmann, o ariano.

Neste jogo não vale tudo e sabemos perfeitamente que a hipótese de não pagamento ou de renegociação da dívida por parte de alguns países, ou mesmo a hipótese de abandono da moeda única, causa extrema apreensão, para não dizer pânico, aos países ricos do euro e aos seus banqueiros. Cada um joga com os trunfos que tem, ou não? Na realidade, a guerra foi-nos declarada na última cimeira e a ocupação está totalmente em curso.

Mas, ainda que sob ocupação ou por causa dela, não devemos ter medo de pôr tudo com clareza em cima da mesa, inclusivamente da mesa do Conselho Europeu. Os próprios irlandeses, pela voz do primeiro-ministro, já mostraram não considerar tabu a ideia de abandonar o euro por via de um referendo ao novo pacto de estabilidade, versão de Dezembro 2011.

Encontramo-nos neste momento, seguindo obedientemente a receita alemã, sem qualquer perspectiva de futuro, por mais défices que corrijamos e austeridade que imponhamos. Solidariedade, com declarações como as de Weidmann, não é vocábulo compatível com epítetos como “alcoólicos”. E solidariedade não é caridade. A criação do euro nos moldes em que foi feita foi um erro. De todos. Os desequilíbrios enormes entre as economias dos países já existiam e a moeda única não os apagou: disfarçou-os por uns tempos.

Assim sendo, parece-me que, esquecendo o tom irado e agressivo do deputado do PS, alguém tem de defender os interesses do país, começando por defini-los e equacioná-los face à conjuntura que se vive. O governo de Passos pensa que os interesses da economia portuguesa são exactamente os mesmos da alemã. Poderiam até ser, noutro tipo de Europa com outro tipo de gente, mas acontece que não são, e as palavras do presidente do Banco Central alemão são inaceitáveis.

33 thoughts on “Não me digam que também têm medo de pedir explicações ao alemão”

  1. Pois é Penélope, bem esgalhado. A tentação imperial é sempre muito forte pelo esteio identitário que alberga, o império como lugar da reunião dos homens era assim que Orósio de Braga enunciava no sec. VI, e em 799 dC um poeta anónimo chamou a Carlos Magno rex pater europae, em 800 foi coroado imperador, e atenção Aix-la-Chapelle é hoje Aachen, e a filha de um pastor luterano criada na RDA deve querer ser mater.

    Atenção que o papa é alemão e isso também não será por acaso.

    É como dizia alguém um dia, creio que o Anonimo, isto agora é os alemões!

  2. Solicitar um pedido de desculpas ou pedir explicações a alguém é que são actos de submissão.

    Cá para mim, nem o alemão nunca cá deve ter vindo beber um copo nem o português nunca deve ter tido necessidade de pedir um crédito para nada.

    Se ambos tivessem estado calados tínhamos ganho todos.

  3. prontes, os direitolos já arranjaram uma justificação para o fiasco moedas. finalmente caíram na real, mas não sabem como arrepiar caminho.

  4. não precisavas de usar o símbolo do meu signo, pá, já não há a elegância do bom entendedor… É tudo javardices do caralho.

  5. “Se você tem dívida, não se preocupe, porque as preocupações não pagam as dívidas. Nesse caso, o melhor é deixar que o credor se preocupe por você…” (Barão de Itararé)

  6. Rui Pereira, ministro do infausto Governo de Sócrates, veio esta semana desabafar que «já ninguém consegue ouvir sem uma ponta de indignação os representantes da troika».
    E isso «não só por uma questão de orgulho e soberania nacional, mas também porque os conselhos que recebemos da troika são suspeitos por natureza». Aqui chegados, convém recordar duas ou três coisas a Rui Pereira. Primeiro, que neste seu papel de pobre e mal agradecido parece esquecer que ele próprio já não estaria a receber o seu ordenado ou pensão de funcionário público sem a ajuda financeira que os ‘suspeitos por natureza’ se dispuseram a dar a Portugal. Segundo, que, a menos que estejamos todos enganados, Rui Pereira foi co-responsável do Governo que, à beira do abismo, chamou a troika em desespero de causa para acudir ao país. Terceiro, que foi esse mesmo Governo o promotor da irresponsabilidade despesista e do endividamento galopante que colocaram Portugal na bancarrota, hipotecando a sua soberania financeira e a sua dignidade internacional.

    Não satisfeito com esta sua lamentável demonstração de falta de responsabilidade cívica e de ingratidão pública, Rui Pereira ainda se dá ao luxo de brincar com coisas sérias e lançar umas piadolas: «É de temer que um dia destes a troika se renda incondicionalmente ao malthusianismo e apresente um plano de diminuição, talvez em um terço, da população portuguesa». Muito engraçadinho mas de um chocante mau gosto (não resistindo a referências a Hitler e à ‘solução final’) vindo de quem acabou de pedir de mão estendida a ajuda que agora, com ela já no bolso, procura achincalhar e menosprezar em tom sobranceiramente trocista.

    Da Madeira chegou outro irónico aliado de Rui Pereira. Com a corda da gigantesca dívida madeirense na garganta, Alberto João Jardim veio esbracejar que «a Madeira não tem nada a ver com a troika» e lamentar que em Lisboa «se tenha estendido o tapete vermelho a funcionários estrangeiros para dar ordens ao nosso país». Jardim e Rui Pereira são uns pândegos. O problema é serem uns pândegos irresponsáveis que só nos envergonham.

    jal@sol.pt José António Lima

  7. IT’S THE RALENTIKRIG, STUPID!

    Entre a Blitzkrieg do Adolfo e a Ralentikrieg da valquíria 2-em-1 (redonda por fora, quadrada por dentro), o Grão-Tinhoso que escolha, pois o resultado será o mesmo: desastre económico, catástrofe social, miséria e desgraça para milhões! É certo que desta vez não temos na outra ponta do “eixo” um Duce canastrão, mas ganhámos, a reeditar a História como farsa, um bitoque gingão, híbrido apalhaçado de Pétain e Mussolini, ainda que nenhum destes, tanto quanto se sabe, usasse sapatos altos como o totó bamboleante.
    O marido da Bruni acumula, contente e abanando o rabinho, a alma de cipaio do primeiro e a vocação de palhaço do segundo, exibindo com orgulho o chip de caniche encartado que a teutónica dona lhe espetou na pele! E aí vai ele, cauda em frenética agitação, rosnando e ladrando furiosamente à vizinhança, esforçadamente besuntando de mijinhas o cantinho do quintal que ela lhe distribuiu!
    À valquíria quadrada caberá a heróica tarefa de reinar sobre os escombros que o seu iluminado bestunto inevitavelmente produzirá, entre os quais errarão milhões de desgraçados, diligentemente sangrados pelos abutres do costume!
    Caros confrades e amigos! Reich de mil anos não teremos, mas a Europa desfeita em cacos, rachada de alto a baixo, dar-nos-á a “Racha” do século! Resta-nos a fraca consolação de a quadrada e o gingão terem já lugares reservados, pela História, na mesma “honrosa” prateleira onde apodrecem os seus execráveis precursores!

    ACHTUNG! DAS IST DER RALENTIKRIEG, STUMPFSINNIG!

    Sorte marafada! Ou, em americano: Puta de sorte a nossa!

  8. O comentário anterior foi inicialmente “injectado” noutro blogue, com comentários moderados, mas aparentemente não cumpria as regras do “livro de estilo”. Atendendo ao tipo de intervenção pública e relativa visibilidade do co-proprietário do blogue em questão, compreendo perfeitamente e aceito, pelo que acabei por despejá-lo aqui, onde as regras são bem mais elásticas e os estilos tantos como pentelhos na mioleira do Catroga!

  9. Pois é, ó último comentador (das 2h.42): Come-se e cala-se, pois claro. Votaste no Passos, sem dúvida.
    Como eu disse, não vale tudo neste jogo. O pedido de ajuda teve a ver com a subida incomportável das “yields” dos títulos da dívida soberana, com a quebra de receitas devido à crise e com a impossibilidade de aplicar um plano de austeridade eficaz mas com um prazo razoável, dado o governo ser minoritário e o PSD estar desesperado para chegar ao poder. Perante a total subserviência do actual governo, seja o que for que os alemães digam, e perante as perspectivas de empobrecimento acentuado dos portugueses nas próximas décadas com a receita imposta – que já vai muito para além do acordado com a Troika, começa a haver milhões de pessoas que divergem de ti.

  10. O texto de José António Lima está cheio de lugares comuns falsos, que , de tão utilizados parecem hoje verdades universais.
    1º mito: “…neste seu papel de pobre e mal agradecido …”. Esta expressão deve envergonhar qualquer pessoa com um mínimo de dignidade. Ninguêm empresta dinheiro a ninguém por piedade ou misericórdia. Os investidores fazem aplicações, avaliando o binómio risco/rentabilidade. Os mercados movem-se por interesses próprios, não por caridade. Têm fundos por aplicar e procuram a nível planetário os produtos de melhor rentabilidade com menor risco.Tudo o resto é conversa de encanar a perna à rã.
    2º mito: “…parece esquecer que ele próprio já não estaria a receber o seu ordenado ou pensão de funcionário público sem a ajuda financeira …”. Outra tonteria. A chamada ajuda financeira destina-se essencialmente a substituir dívida que entretanto vai vencendo. Em boa verdade, se o país deixasse de pagar a sua dívida, as receitas do orçamento eram quase suficientes para pagar os tais ordenados e pensões.
    3º mito: “…promotor da irresponsabilidade despesista e do endividamento galopante que colocaram Portugal na bancarrota, hipotecando a sua soberania financeira e a sua dignidade internacional…” Já enjoa esta lengalenga do despesismo e tal. Aqui é escusado fazer qualquer tentativa para convencer esta gente que o chamado despesismo foi uma política encorajada por quase todos os organismos internacionais e países como os EUA para tentar contrariar a falta de investimento privado. Não há maior cego que aquele que não quer ver.

  11. Pelo Alemão dizer asneiras e ser idiota, não desculpa a idiotice do sr deputado. Então se nós não pagarmos quem é que fica a tremer?? quem fica com medo?? Se calhar somos nós que ficamos sem dinheiro para pagar ordenados e pensões. Nós não podemos dizer que não pagamos, porque na verdade o que está a acontecer é estarmos a receber e se dissermos que não pagamos eles cortam nos o financiamento e depois o que dirá o sr deputado? O dr Santos gosta muito de mandar postas de pescada no parlamento, mas na verdade estaria muito melhor na lota a fazer leilões do que a defender os interesses dos Portugueses no parlamento. Estas declarações mostram bem o espírito que assola estes senhores, não temos dinheiro para mandar cantar um cego e ainda temos a lata de dizer que os outros é que ficam com medo….. foi nesta onda de idiotice que conseguimos atingir a situação no qual no encontramos, devemos a todo o mundo e ainda temos a mania que somos grandes.

  12. Jose: As condições que nos são impostas pela Troika para o empréstimo, que já não são, em si, nada meigas (nomeadamente os juros), sofreram um agravamento pela mão deste governo (e também graças às avultadas trafulhices descobertas na Madeira) e outro mais recente pela mão do Conselho Europeu, dominado pelas ideias, e os interesses, dos alemães (e, por arrasto, dos franceses). Apenas seriam toleráveis se a União Europeia, exigindo embora rigor nas contas, solidarizasse as suas políticas monetárias. Não é o que está a acontecer. Muito pelo contrário, e as declarações do presidente do Bundesbank só permitem entrever o que se opinará nos bastidores das mais altas instâncias alemãs sobre os países do sul. Não é bonito, nem deve ser admitido, quando proferido em público.

    O protesto do deputado aqui, penso eu, tem mais a ver com as condições que nos estão a ser impostas e com os meios ao nosso alcance para as alterar em nosso favor.

  13. oh zé! o que é que não compreendeste daquilo que disseste? dizes não temos dinheiro e de seguida bora lá dizer que pagamos para ver o bundabank nos dá mais. claro que sim, é só pedir ao be a 1% e traficar a 8%, afinal aqueles ases todos do rating servem para isso, já inundaram o mercado com audis, tridentes & afins, agora alugam dinheiro para lhes pagarmos as dívidas e com os juros pagam a própria recessão que ajudaram a criar. foi preciso um gajo dizer, em castelo de paiva, numa festa de natal, não pagamos para ficarem todos histéricos com a realidade.

  14. Dasssssssssssss que já ná paciência para os Rui Perereiras, ouviram um dia umas cenas, depois, por acharem bem reptem-as ad nausueam! Mas quer parecer-me que nem sequer sabem muito bem do que falam!

  15. A metáfora dos alcoólicos é mesmo muito interessante, porque há também os taberneiros sem escrupúlos que enganam e lucram com os alcoólicos e, por isso, fazem tudo para que a dependência se mantenha.
    Quanto a Pedro Nuno Santos, só me restam duas palavras (e desde já peço desculpa por vou ter que ser grosseira): é burro! Quando se desempenham certos cargos, de responsabilidade e visibilidade mediática, temos que perceber que há coisas que não se dizem, mesmo que se pensem, e quando se podem dizer, têm que ser ditas da forma certa. Caso contrário perdem conteúdo. Ele não se descredibilizou só a ele (isso eu daria de barato), mas descredibilizou todos os que tentaram vir em seu socorro (Zorrinho, em especial), e os que fizeram silêncio, quando o deviam condenar veementemente (com Seguro à cabeça). Mas, pior que tudo, descredibilizou a ideia e o PS.

  16. Mafalda Carvalho: Pode ser que tenha razão. Pense, contudo, na possibilidade de tal desabafo traduzir uma grande frustração com a actual liderança do partido – indefinida, insegura, medrosa, ausente, artificial, pactuante umas vezes, disparatadamente agressiva outras e sobretudo com uma posição ingerível (face às acusações constantes dos PSD/CDS) em relação à liderança anterior.

    Estes trauliteiros que estão no governo já ultrapassaram há muito o acordado com a Troika. A necessidade de pagar a dívida escondida do Alberto João, o qual protegeram muito para além do admissível, tem-os levado a mentiras atrás de mentiras. A nível europeu, a situação tem evoluído totalmente em nosso desfavor e com contornos humilhantes, coisa que parece “confortá-los” perfeitamente. E o que faz Seguro? Ocupa-se em fazer uma oposição elegante. Se esta for a primeira de mais algumas explosões, não me admiro.

  17. Ó Penélope, não se pode ver assim as coisas! A inacreditável baboseira do senhor deputado é um balázio, uma autêntica “bazucada”, sem conta nem medida nas costas do seu Partido, não do seu Secretário-geral! Não pode…

    A partir de agora, o PS fica ainda mais desacreditado e o seu grupo para lamentar descredibilizado!

    Para representar estes números do palhaço pobre bem bastam o PCP e o BE…

    Portugal cada vez me mete mais vergonha, de alto a baixo.

  18. Marco Alberto Alves: Não me parece que o partido fique mais desacreditado; o seu crédito, com esta liderança, já não é por aí além. E toda a gente percebeu que o deputado falava por si. No limite, quem ficaria desacreditado seria o deputado que assim falou, mas tenho muitas dúvidas quanto a isso, excepção feita para o tipo de linguagem, que não é aconselhável em público.
    O grupo parlamentar também não tem nem coesão nem assertividade que o valha. E se tem coerência é nas constantes meias-tintas. Tudo isto porquê? Porque a liderança é fraca e insegura.

    Por isso, como disse, não me admiro que esta seja a primeira de mais algumas explosões. De uma forma desajeitada, Pedro Nuno Santos teve o mérito de lançar uma pedrada no charco. O certo é que há cada vez mais vozes a falarem nas hipóteses de renegociação da dívida e até de saída do euro e, “surprise”, não são vozes do PS (Vítor Bento, por exemplo, ou o afamado J. Manuel Fernandes). O medo não leva o PS a lado nenhum. Um dia destes é o próprio governo que avança para outro tipo de opções e o PS fica a ver navios, cheio de medo da Troika.

  19. (ninguém viu os talibãs? Pareço o Umberto da Massa Folhada no meio dos Pé-chatos a perguntar pelo Humpapa, tinha trocado o email…)

  20. Cara Penélope, uma coisa é a credibilidade do PS, que é muito importante para o País, levou anos a construír e não se pode pôr em causa por dá cá aquela palha; outra será a credibilidade desta liderança e de alguns dos atuais deputados, que já todos conhecemos de ginjeira, infelizmente.

    Agora, os membros mais destacados do atual PS, onde me parece se devem naturalmente incluír os senhores vice-presidentes do grupo parlamentar (infelizmente, tudo com minúscula…), não podem começar a disparatar à toa e a sangue quente numa altura como a que o País vive! Eu já decidi que nunca hei-de votar no Tó-Zé Seguro, seja contra quem for (lamento, mas parece-me um mero passos coelho em versão mariconsa…), mas estou ainda longe de ter decidido nunca mais confiar no PS…

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