Franceses, atinem!

O que acontece quando as alternativas democráticas à esquerda e à direita desaparecem? Olhando para a França, a resposta parece-me clara: os extremos políticos ganham força. Tem sido por essa razão, aliás, que, em Portugal, se tem evitado a todo o custo a constituição de governos “centrão”, ou seja, com PS e PSD coligados.

Nunca Mélanchon, um esquerdista, cuja opinião em relação a Putin* é ambivalente, esteve tão perto de passar à segunda volta e nunca Marine le Pen, uma populista de extrema-direita, amiga e devedora de Putin*, conseguiu tantos votos na segunda volta das presidenciais.

(*Mas o que vem aqui fazer o Putin, perguntarão de imediato alguns; senhores, o homem e a sua máfia têm tentáculos em todo o lado hoje em dia e, sobretudo desde o caso Trump, passaram a ser um importante dado a ter em conta em qualquer eleição no Ocidente)

 

Emmanuel Macron soube tirar proveito, em 2017, do descrédito dos dois grandes partidos tradicionais, o Republicano, por culpa de Sarkozy e outros, como Fillon, e depois o Partido Socialista, de François Hollande, um político medíocre. Ambos estes partidos se afundaram quase completamente desde então, obtendo um número risível de votos. Como se percebe, a responsabilidade directa deste descalabro não é de Macron, a quem muitos acusam de forma simplista de “eucalipto”, como se um eucalipto se plantasse a si próprio. Mas é um facto que Macron governa naquela espécie de centro pragmático supra-partidário que pouco se preocupa com classificações de centro-direita, centro apenas ou ainda ultra-liberalismo, o que nada ajuda ao reerguer dos dois antigos maiores partidos. E, objectivamente, os resultados da governação Macron não são maus: a França cresce a bom ritmo, apesar da pandemia e das agitações e intenções dos coletes amarelos, o desemprego está muito baixo e até a subida recente do custo de vida, cuja responsabilidade a oposição lhe atribui, é exclusivamente devida a factores externos e comuns a quase todo o mundo, como a crise energética ou os problemas na China, além de, previsivelmente, a guerra. Lembremos que os franceses se atrevem a protestar contra o fim da idade da reforma aos 60 anos. Vivem num país de luxo, portanto. O descontentamento de que se fala (excepto com a imigração muçulmana) ultrapassa muito a nossa compreensão.

 

Mas enfim, e continuando, não sei se será possível reconstituir os dois partidos tradicionais alternantes em França até Emmanuel Macron terminar o mandato, em 2027, ou se haverá na calha algum sucessor do mesmo tipo capaz de cativar os franceses, ou ainda se, na conjuntura actual, partidos como os Republicanos e os Socialistas têm sequer cabimento, mesmo que tivessem líderes competentes e carismáticos. Penso que ninguém sabe. Sabemos, e isso foi uma descoberta assustadora desde Trump, que a Rússia apoia e financia todo e qualquer partido que, no Ocidente, possa provocar o caos, enfraquecer as democracias e destruir a União Europeia, e que dispõe de “hackers” muito activos que invadem as redes sociais de lixo influente. E sabemos que, enquanto o complexado Putin e muitos dos seus generais forem vivos, essa ingerência continuará.

A França tem, pois, cinco anos para se informar e pensar no que quer, e os partidos democráticos têm exactamente o mesmo tempo para combater a onda gigante de populismo e descredibilização que surge do Leste. Pode ser que não seja assim tão difícil. Talvez a guerra na Ucrânia seja bastante decisiva.

7 thoughts on “Franceses, atinem!”

  1. “O descontentamento de que se fala (excepto com a imigração muçulmana) ultrapassa muito a nossa compreensão.”

    uishhh, neste blog já se arrisca tudo
    mas culpa claro é da russia.

  2. o que ultrapassa , em muito , a nossa compreensão , é que nos mudem periodicamente , aos do privado ( que os políticos e lacaios funcionários públicos são intocáveis) as regras relativas à reforma , sempre de forma a prejudicar-nos , e toda a gente se cale. isso , sim , é de espantar , que falem de 70 anos para a aposentação e não desatem à paulada.

  3. e , já agora , quem destruiu a “democracia” e leva as pessoas a optar perdido por cem , perdido por mil , são precisamente os zezitos dos partidos , a bandalheira dos tachos , o people perceber que há uns novos ricos que produziram nerón e que desviaram / desperdiçaram milhões . esta teoria da constipação do bode expiatório putin é esconder a cabeça na areia até a ditadura volta pela mão e comportamento dos “representantes” do povo.
    se a democracia representativa funcionasse e a governação trouxesse o que promete , estabilidade para podermos programar o futuro e desfrutar da vida sem strees de crises provocadas pelos donos das marionetes , bem podia o putin financiar mundos e fundos que nada mudaria.
    as pessoas não são burros de carga.

  4. ” uishhh, neste blog já se arrisca tudo
    mas culpa claro é da russia. ”

    yah… nunca tinha visto tanto direitola junto a defender os russos, deve ser azia de 30 de janeiro ou será que o banco da gazprom empresta 7 milhões ventrulhas para comprar a sede do cds ao patriarcado?

    nas próximas o avô jeropinga recomenda o voto no xunga.

  5. “O descontentamento de que se fala (excepto com a imigração muçulmana) ultrapassa muito a nossa compreensão.”

    Por acaso também não percebo bem esta frase. Saiu-te mal, ou estas mesmo a dizer que comungas, tu também, do descontentamento manifestado por alguns franceses “com a imigração muçulmana” (seja la o que isso fôr). Um esclarecimento parece importante, para ficarmos a saber se te rendeste às baboseiras do Chega e à defesa dos Portugueses/Franceses/Europeus de bem vs os gatunos do costume…

    Boas

  6. saiu mal? nada disso. saiu muito bem e é precisamente a posição que informa e enferma a maioria dos argumentos anti pcp que por aqui pululam: a vergonha pelo racismo intrinseco que este conflito deixa escacarado

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