E competência para entrevistas?

 

Deve haver uma explicação para o facto de Miguel Sousa Tavares fazer entrevistas a políticos, apesar dos excelentes jornalistas e pivôs que asseguram os jornais da TVI. Desconheço qual seja. Mas o facto é que não resulta. Na semana passada, na entrevista a António Costa, o Miguel optou por um tom agressivo de confronto pessoal completamente deslocado, mais parecendo um juiz a censurar um qualquer meliante em sala de audiências. No final, pensei que o que esta espécie de jornalistas está a pedir são políticos do tipo Bolsonaro, Trump ou André Ventura, ou seja, basófias, aldrabões, malcriados e fala-baratos, para se porem em sentido e deixarem a arrogância. Está visto que, com seriedade, condescendência e boas maneiras, não se vai lá, não se dignifica nenhuma função de soberania ao responder a entrevistas destas, porque o que prevalece no fim é o tom acusatório. E se havia esclarecimentos, informações úteis e planos a obter do entrevistado, que por acaso era o primeiro-ministro!

 

Nem de propósito, ontem seguiu-se o Ventura (parece que é o primeiro da série de candidatos à Presidência da República a entrevistar). Miguel, subitamente o cordeirinho (por comparação), nervoso até, por vezes, não só não se tinha preparado devidamente para a tarefa, já que nem o lindo programa do Chega! se dignou trazer para a mesa, como deixou que o basófias-mor debitasse as maiores mentiras e o maior palavreado superficial praticamente sem qualquer objecção, mero questionamento ou aprofundamento. Achar que é boa ideia, para confrontar o entrevistado com o seu racismo e sobretudo o dos seus adeptos, perguntar-lhe se tinha amigos pretos é de um ridículo sem medida, um presente oferecido de bandeja. Teria sido melhor questioná-lo sobre os amigos brancos, não acham?

O tema dos ciganos foi uma mera oportunidade para o dito cujo explanar toda a sua demagogia, apenas se tendo ouvido muito de passagem, lá pelo meio da algaraviada do Ventura, o Miguel a dizer que os esquemas dos ciganos são igualmente os esquemas de muitos não ciganos. Mas mal se ouviu. E será que a população prisional é maioritariamente cigana em percentagem de membros desta etnia na população em geral, como disse o Ventura? O tema do aborto, por exemplo, foi deixado cair mal fora mencionado. A questão dos propósitos ditos “antissistema” do partido ficaram-se pelo Parlamento e pela redução do número de deputados. É isso o “antissistema” do Ventura?? O entrevistador ficou satisfeito com essa redução ao mínimo risível do antissistema? O “antissistema” devia ser uma coisa em grande! E o que está o Ventura a dizer quando diz que “os políticos nos andam a roubar há 40 anos”? Saberá o Miguel qual era a profissão do Ventura?

E os partidos no quadro europeu e internacional com que o Ventura se identifica? Foi discutida essa problemática? Claro que não. E a semelhança do discurso deste homem com o do Trump, por exemplo? Que teria ele, o Ventura, a dizer? Podia ou não o Miguel ter preparado um vídeo com declarações e proclamações do Trump exactamente iguais às do Ventura (ver última parte da entrevista)? Claro que podia, porque era evidente que ele viria com a conversa de que não tem medo de dizer tudo o que lhe vem à cabeça, insultos incluídos, “cara a cara”, como “o povo”, ou seja, os comentadores de café, num desbocamento totalmente igual ao desbocado americano. Mas não. Por isso, achei o entrevistador muito censurável.

 

Com o Ventura, meus caros, um caderninho com questões muito precisas para ele responder, nenhum afastamento desse guião e vídeos para o confrontar com as próprias tergiversações e contradições e fica o ambiente mais limpo no final. De nada. Da minha parte, é tudo.

10 thoughts on “E competência para entrevistas?”

  1. ventura levado ao colo por um parvópreconceituoso que se identifica com ele nas bocas & costumes.
    a tvi , uma vez mais, não desiludiu na propaganda aos fachos e “movimentos pela verdade”.

  2. na população prisional feminina ? é maioritária , pois
    e na masculina ?

    “No total dos estabelecimentos prisionais, a etnia cigana não corresponde a mais do que 5% da população total. No entanto, este valor está francamente acima da representatividade que esta etnia tem em território nacional”

    ( bem , só falta saber ao certo , qual a percentagem de população desta etnia em Portugal , já que parece ser de mau gosto esse tipo de perguntas nos censos assim como a “proibição” de um retrato real da população parece ser pertinente porque a população pode ter banhas e celulite)

    https://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/17004/1/Relat%C3%B3rio%20Criminalidade%20Etnicidade%20e%20Desigualdades.pdf

  3. O MST é o tal que no no final do debate entre Sócrates e Passos considerou que este “arrasara” o outro quando entre muitas mentiras logicamente descaradas, acerca de como arranjava o dinheiro para evitar a austeridade, respondeu que “basta cortar nas gorduras” e ainda sobrava dinheiro.
    Pois agora o mesmo MST papou a ‘galga’ do Ventura que bastava cortar nos deputados, ciganos e outros malandros como políticos corruptos para haver dinheiro para tudo e de sobra; afinal, debitar a lição do mestre aldrabão.
    Acerca dos “exemplos”, depois do Ventura lhe responder “que exemplos há para todos os casos, gostos e feitios” deixou mais tarde que o mesmo Ventura lhe arremessasse com rajadas de exemplos de casos pluma e residuais sem lhe dar resposta.
    E foi, precisamente, neste período que deixou o Ventura fazer um autentico comício de vendedor de sua banha de cobra política.
    Uma tristeza, deixou que o mentiroso vendesse todas as mentiras que propala diariamente e constam no seu programa de governo anti-democrático e anti-social sem ser capaz de desmontar validamente a falsa argumentação do tratante.

  4. Devemos ter visto “entrevistas” diferentes. Eu vi as feitas aos dois, António Costa e André Ventura.

    MST foi brando com o 1.º Ministro, com perguntas feitas com conhecimento deste, talvez com excepção da última. Mas reconheço a dificuldade em governar na situação actual e por tal António Costa até merece um desconto.

    Com o Ventura, o MST tentou agredi-lo. Não conseguiu e levou tareia. Ventura explanou como quis. Essa dos amigos pretos foi o clímax, que ódio na voz do jornalista! MST não entrevistou o Ventura, comportou-se como se ele fosse um adversário político e estivessem num debate. Mau serviço para o jornalismo.

    MST tem pertencido ao “establishment”. André Ventura não. Não são farinha do mesmo saco.

  5. Já que falamos da TVI, acabei de ver e ouvir noticias da dita estação( canal 7, 19 horas) sobre o COVID e fazendo uma ronda por diversos hospitais… Começaram pelo CHUA no Algarve ( Portimão) onde a presidente explicou serenamente a situação, que ainda estavam a 80% da fase I , etc etc etc . Até aqui tudo bem., senão quando a putativa jornalista ( ou estagiária?) ao fazer o resumo da entrevista enfatiza as dificuldades assinaladas pela entrevistada e adianta …” numa altura em que o Algarve regista 1200 casos de COVID 19 nas ultimas 24 horas..” Nem quis acreditar. Voltei com o noticiário para trás para confirmar. Não tinha ouvido mal ! Não foram citadas fontes !
    Chiça, isto é terrorismo !

  6. se o entrevistador os tivesse no sítio, como nos quer fazer crer, tinha corrido o ventura à chapada & pontapé quando o gajo disse umas mentiras e insinuou outras sobre o paulo pedroso. muito grave o que foi dito pelo facho ventura e engolido a seco pela vedeta do entrevistanso tvi.

  7. O entrevistador demitiu-se da sua função e deu toda a guita ao aldrabão!
    Permitiu ataques pessoais, sem o obrigar a retratar-se da pobre “cultura” via
    you tube e, uma licenciatura que, só pode ter sido feita à martelada, em Direi-
    to onde pouco ou nada aprendeu … dado o comportamento rasca do candida-
    to a P.R. merece ter nas urnas uma resposta adequada!
    Mais um momento para esquecer oferecido pela TVI, espera-se que os novos
    accionistas coloquem ordem na casa pois, está pior do que o esgoto a céu aberto!!!

  8. “quem são os seus amigos brancos?” era pergunta que o sousa tavares deverias ter feito e em resposta à pergunta “Se você tivesse uma filha e ela casasse com um cigano, o que é que pensaria?” o ventura deveria ter respondido “você é que deve saber, a minha filha não casou com o filho do salgado”.

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