Cómicos de um não regime

Este texto do deputado comunista António Filipe, publicado no blogue Manifesto 74, tem piada. Trata da designação da organização política dos países como regimes ou não.

Começa assim:

No léxico comunicacional dominante, o “regime” é um exclusivo dos países que quem manda nos media decidiu hostilizar.
A Coreia do Norte tem regime, mas a Coreia do Sul não tem. Na América Latina há um regime e meio. Cuba tem sempre um regime. A Venezuela tem dias: quando se trata de atacar a legitimidade do Governo de Nicolas Maduro, há o regime de Nicolas Maduro. Quando se trata de celebrar acordos comerciais com a Venezuela, já não há regime. No resto das Américas, ainda não há regimes, mas há países que, pelas orientações progressistas que prosseguem, ainda se arriscam a ter regime.[…]

E continua assim.

Depois do riso, tenho duas observações:

1. Nada do que possa estar ali dito obsta a que tais “regimes” sejam efetivamente antidemocráticos e mesmo desastrosos, milhares de vezes mais desastrosos do que o “regime capitalista” que, na ótica do deputado, é o único que beneficia de um tratamento de favor ao não ser considerado pelos Média um regime. Mas calma, os comunistas colmatam de bom grado essa lacuna, pois fazem questão de no-lo lembrar a todo o momento, sendo mesmo essa insistência nos capitalistas malvados que justifica a comparação do discurso comunista com uma “cassette”. Quanto aos oligarcas russos, esses heróis que, no entender de António Filipe, fazem frente e frustram os “oligarcas de outras paragens”, convém lembrar-lhe que vão malhar com os costados na prisão quando ousam desafiar os interesses de Putin (vá lá, deixem-me dizer do regime de Putin) e só à custa de muitas pressões e anos perdidos em cárceres, são libertados e acolhidos por países, ó António Filipe, sem regime!
E a Coreia do Norte? Decerto para resistir às ameaças capitalistas, veem-se obrigados a viver numa monarquia de facto, com pena de morte para traidores. Pouco cómicos estes sistemas, para não dizer regimes.

2. Mas há também um equívoco neste texto humorístico. Na verdade, há vários exemplos de “regimes” que não se livram desse nome apesar de não serem aceitáveis para os comunistas:

a) o antigo regime
b) o regime húngaro
d) o regime socrático (na perspetiva do Correio da Manhã, mas não só).
Este último substituído, com o empenho dos comunistas, por um muito melhor.

Como se vê, há imprensa que vê regimes em muitos mais lados. No entanto, para os dias que correm, alguns são mesmo bizarros e, passe a redundância, anacrónicos, ó camarada.

3 thoughts on “Cómicos de um não regime”

  1. Não adimira mesmo nada que ao camarada Filipe a palavra regime cause bastante azia (peso na consciência, talvez até) coisa nada de estranhar num partido de arregimentados como aquele aao qual pertence.
    Mas isto tem cura: desarregimente-se.

  2. o filipe, quando se reformar entra no quadro do pessoal onde estão carvalho da silva,e carlos carvalhas,que desapareceu de circulação,depois de defender que o pec 4 não devia ter sido chumbado na assembleia,por partidos que hoje tambem criticam a presença da troika.que os pariu

  3. Obrigadinho pela referência a um artigo brilhante de António Filipe!
    Os comentários a esse artigo brilhante é que säo muito foscos…

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