Cá dentro é que está o pote

Penso que já não falta muito (e é esse o meu desejo) para que a maior parte dos países europeus olhe com olhos de ver o que se está a passar com esta crise do euro. As soluções para os países em dificuldades não avançam e a receita é somar austeridade à austeridade por uma razão muito simples: a Alemanha está a ganhar e a beneficiar muitíssimo com o arrastar da situação. As yields pedidas pelos investidores pela compra da sua dívida são tão baixas que, ontem, eram inferiores a zero. O desemprego baixou para percentagens irrelevantes. As maiores empresas registam lucros superiores a 70% desde há um ano. Suprimido calculistamente o salário mínimo há três anos, os vizinhos romenos, por exemplo, são contratados ao preço da chuva (400 € mensais + almoço) e ainda acham que fazem bom negócio. Desempregados e técnicos qualificados de países como Portugal oferecem-se para trabalhar por bom preço. As exportações de maquinaria, tecnologia e automóveis para os países emergentes (mercados tão grandes ou maiores do que o europeu) compensam a quebra nas exportações dentro do mercado único. Na verdade, tudo corre bem, para já, à Alemanha, o que não lhe dá qualquer incentivo a mudar de rumo. Concentrando todo o dinheiro, cabe-lhe ditar as regras. Em seu benefício também, nem Sarkozy ainda percebeu o engodo para que foi atraído, embora se tenha voluntariado para o isco. Merkel sabe desde o início, ou não conhecesse a história recente do seu país, que não lhe convém aparecer sozinha a liderar o processo.
Hoje, já Mario Monti vem dizer que não pode ser apenas aquele duo a liderar e a decidir o futuro da Europa, excluindo países como o seu, uma economia forte, sob pena de se abrirem as hostilidades a nível externo, instigadas pelas que inevitavelmente se abrirão a nível interno (até um tecnocrata, desde que inteligente, não demora muito a sentir as necessidades e a força silenciosa dos governados). Outros países da zona euro com a corda na garganta, como a Espanha ou a Irlanda não podem por muito mais tempo limitar-se a cumprir as ordens de Berlim, para sua grande glória, enquanto as suas populações fogem, definham ou se violentam.

Por cá, qual o estado de espírito deste governo? Olhando para além do ar grave, encenado, com que se apresentam, tudo na boa: com maioria confortável, as pessoas, os 9,5 milhões de portugueses que não são as suas “elites”, não existem. Assim, Gaspar faz umas contas para ver se batem certo com o que a Troika quer e erra essas mesmas contas na primeira curva, mas não é grave porque a comunicação social é amiga e ele fala com voz competente, Paulo Macedo corta no SNS, sem plano verdadeiramente definido para o tornar eficiente, ou sequer para o manter, Crato corta no ensino, mas mais no público para satisfazer compromissos eleitorais e não lhe interessa muito que se ensine a quem não tem condições para aprender, tomam-se umas medidas ad hoc aqui e ali, mas, no fundo, com a Troika a ditar a orientação geral, os rapazes, com Passos e Relvas à cabeça, estão radiantes por irem finalmente entregar, com boa cobertura, o poder às empresas e estas aos amigos, que os recompensarão principescamente quando chegar a hora da partida. O “big” pote estava claramente guardado para depois do primeiro semestre.

Crise europeia? Merkel e Sarkozy? Conjugação de estratégias entre periféricos? Governar um país? O que é que isso verdadeiramente interessa? O que é um país, ao fim e ao cabo?

8 thoughts on “Cá dentro é que está o pote”

  1. Cara Penélope,
    interessante análise que está à frente dos olhos de qualquer um que tenha no mínimo dois dedos de inteligência sem necessidade de cursos elaborados na estranja.
    Para além do seu posicionamento geográfico, a Alemanha goza também do privilégio de poder partir a louça toda dos vizinhos e ainda receber ajudas financeiras por fazê-lo.
    Mario Monti, que não é tão burro como muitos dos asnos que andam por aí, alguns até com assento em lugares chave, já lá chegou em meia dúzia de semanas, e não me venham agora dizer que o faz porque está de calças na mão.
    O negócio dos submarinos talvez devesse ter alertado a opinião pública europeia de como é que se fazem negócios milionários, agora que os escândalos da Lockheed vão caindo no esquecimento.
    De recordar também o imperialismo alemão, que causou duas guerras mundiais, utilizou a Espanha como campo de treino militar no período da guerra civil, e no fim ainda foi premiada com 1.500 milhões de dólares para se reconstruir como se tivesse sido um menino bem comportado, no entanto ainda não pagou os estragos que causou a outros, nomeadamente à Grécia.
    Pelo vistos o que não conseguiram conquistar pelas armas estão a fazê-lo com a economia, nomeadamente com o euro.
    Só quem não conhece bem a alemanha ou os alemães é que pode alimentar esperanças de que eles vão abdicar dos seus lucros a favor dos que exploram diariamente.
    O nosso triste governo, sobre a europa, nada sabe, nada prevê e até parece ter raiva a quem fala do assunto, pois acha que basta andar de bibe limpo, fazer vénias e ser pontual lhe granjeará um lugar à mesa.
    Só se for debaixo da mesma, junto com os animais de estimação que guardam o quintal.

  2. Só o Reino Unido enfrentou a Alemanha de Merkel. Os outros todos fizeram de caniches obedientes e ainda abanaram o rabo, reconhecidos…Deixaram-se enrabar com uma pinta do caraças. Se tivessem batido o pé, a Alemanha tremia toda, porque a sua economia está enterrada na dos países membros da União Europeia. Assim, por falta de lideres com visão, a Alemanha vence em toda a linha, com desemprego residual e financiamento da economia quase de borla, enquanto Espanha, França e Itália estão a ser esmagados com juros altos, para não falar da indecencia dos juros cobrados à Grecia, à Irlanda e a Portugal.

  3. As notícias que tenho da Alemanha é de que há grandes e médias empresas a fechar, sem financiamento bancário nem estatal, por quebra grave de mercado – o europeu, o esmifrado, claro. O desemprego de alemães (mais bem pagos) disparou de tal modo que originou cortes nos subsídios de desemprego. Não terão já passado à fase seguinte, Penélope?

  4. Uma maçada de facto nunca mais ninguém aparecer para nos pagar as contas…

    Pegando no início do post, proponho uma perspectiva diferente, quiçá mais realista: A Alemanha pagar yields negativas significa que em vez de pagar para lhe emprestarem dinheiro, cobra para guardar dinheiro. Porque dinheiro há muito e ainda há quem queira imprimir mais. Só que o mundo anda arriscado, então quem não quer correr riscos e tem Euros guarda-os onde não há perigo.
    E porque não há risco na Alemanha na opinião de quem tem os euros?
    Talvez porque não tenham gasto mais do que conseguiam pagar.
    Talvez porque tenham sabido gerir o país deles sem desvarios.
    Talvez porque tomem decisões económicas a 10 e 20 anos de distância independentemente de qual partido está no governo.
    Talvez porque não brinquem com coisas sérias.

    Sobre o resto, são 17 países soberanos que usam a mesma moeda. A porta está aberta para quem quiser saír e o único que “quer” nunca fez parte. Todos têm 1 voto no Eurogrupo. Culpar o vizinho por dever mais do que é saudável ou do que consegue pagar e com isso transformar o seu país num sítio pouco fiável para investir, só serve para atirar areia para os olhos.

    Cumps,
    Buiça

  5. Buiça, estás chateado por ninguém aparecer para te pagar as contas? Olha, paga-as tu. Eu só devo 300 euros do cartão de crédito e vou pagar quando me mandarem a conta. Não queiras é que eu vá pagar as dívidas que não fiz, vai apresentar a conta ao BPN, PPP e tutti quanti…

  6. Edie: Sim, claro que muitas empresas alemãs também estão a sofrer as consequências da austeridade generalizada, por isso a taxa de crescimento do país é muito baixa neste momento. Mas a economia alemã, com mais ou menos ajustamentos, vai andando e, pelos vistos, recomenda-se, ou não fosse o país considerado um porto seguro para os investidores. Sinal de que a situação não é preocupante é a insistência de Merkel na austeridade em seu redor.

    Buiça: 6000 M€ da Madeira e 5000 M€ do BPN a juntar ao erro na configuração da zona euro, com desequilíbrios enormes à partida, à crise internacional que levou à especulação sobre as economias mais débeis da zona euro sem que existissem mecanismos de proteção, tudo acrescido de orientações míopes e falta de solidariedade entre países com a mesma moeda e de uma oposição que dizia desejar a sujeição do país a uma Troika e tudo fez para isso, e aqui estamos. Dívidas todos os países têm e terão. Pagá-las-íamos calmamente se os juros cobrados não fossem os que nos pedem. Pelo caminho, o país ainda se desenvolvia, vê lá.

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