Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Pneumáticos

The biggest paradox about the Church is that she is at the same time essentially traditional and essentially revolutionary. But that is not as much of a paradox as it seems, because Christian tradition, unlike all others, is a living and perpetual revolution.

Thomas Merton, New Seeds of Contemplation

A tradição mística do cristianismo é desconhecida de quase todos, crentes e descrentes. Os crentes passam bem sem ela, por ser trilho demasiado exigente e até perigoso. Os descrentes ficam sem compreender o espírito do Espírito, apenas julgando as aparências. Para complicar, o entendimento mediático da mística está contaminado pelo mercado da “espiritualidade”, onde entra qualquer trafulha ou manipulador de vigésima categoria. Para complicar? Para simplificar, que a mística sempre pediu silêncio e segredo. Para melhor se descobrir.

Uma das notas imprescindíveis no acesso à mística cristã diz respeito à sua importância política. Começa nas raízes judaicas, como tudo o que é cristão, onde o papel do profeta interfere directamente no rumo político da nação. E ainda antes, na primeva busca de um território para morrer. Mais tarde, já em regime católico, os místicos são vistos como ameaças à ortodoxia da doutrina (e por muitas, e excelentes, razões). Dar a César o que é de César não significa que César esgote a dimensão política, pode até ser precisamente ao contrário. Hoje, num Ocidente que se vai despedindo dos crucifixos, a experiência mística cristã continua igual a si mesma (ou seja, genesíaca) e cria bolsas onde se pode respirar a Tradição.

Qual tradição? A da liberdade. Qual liberdade? A da disciplina. Qual disciplina? A da obediência. Qual obediência? A da vocação. Qual vocação? A da virtude. Qual virtude?… Alto! Ou melhor, sursum corda.

Não precisamos de ser cristãos para sermos cristãos. Basta sermos rebeldes.

Pirofania (2)

Estas especulações nem tiveram tempo para medrar ou estiolar; naquele Verão de brasa logo a anomalia se repetiu. Uma vez. Outra. E mais. Muitas mais. Roménia, Austrália, Califórnia, Espanha, Grécia. Em quase todos os incêndios florestais de grandes dimensões acabava por se revelar o fogo de mais uma Palavra. Sem nunca fugir à companhia do silêncio: apenas o crepitar das chamas, os rotores dos helicópteros, as interjeições pueris das equipas de filmagem. Nada de bandas sonoras grandiloquentes, recheadas de Bach ou Messiaen. Tudo aquilo dava ideia de ser banal demais, pouco espaventoso. Mas não é assim que começam todos os grandes cataclismos, sem trombetas nem pirotecnia?
Sinais de alarme começaram a tocar em todos os locais importantes. Os media receberam discretas e tão insistentes recomendações para não dar demasiada atenção àquela óbvia impostura. Mas como evitar a inutilidade do dique quando as águas já passam por cima dele? Era tarde demais.
Já sem grande fé na Ciência, a atenção do público logo tratou de procurar respostas em locais onde elas sempre abundavam. E os profissionais da religião não se esquivaram. As principais denominações aceitaram de imediato a índole sobrenatural dos Incêndios. Os cristãos tiraram o pó às suas escrituras que tudo prevêem e explicam em rodriguinhos de mistério e sossego. “Operava grandes sinais, de maneira que fazia até descer fogo do céu à terra, à vista dos homens”; assim nos anunciava o livro do Apocalipse a chegada do Anti-Cristo. Os muçulmanos, sempre de sobreaviso contra os habitantes das chamas, concordaram pela primeira vez com os teólogos infiéis, clamando as palavras do Profeta: “guardem-se do fogo que foi preparado para os incréus.”
Os judeus discordavam do carácter demoníaco do fenómeno. O episódio de Moisés com a sarça ardente predispusera-os a topar D—s nos locais mais inesperados. Eles estavam já a coleccionar com sofreguidão cada Palavra, compondo o rascunho dos novos Mandamentos para um novo Milénio.

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Aviso à navegação

Sou um dos excluídos do progresso. No ermo medieval onde vivo, não há banda larga para ninguém. Vai daí, estou condenado às lentas agruras do dial-up.
Agora, acabo de aderir à Tele2, que me vai custar menos de metade da minha anterior ligação, através do Clix. Resultado? Estabilidade total. Fim das aterragens acidentais em páginas de publicidade a produtos do Clix, quando procurava coisas bem distintas. Ainda por cima, isto agora parece bastante mais rápido.
Às vezes, o barato sai… mesmo barato

José António Saraiva, o Idiota

Antes de mais, uma explicação: se chamo “Idiota” ao venerando director do “Expresso” faço-o com a dignidade inelutável da maiúscula inicial. Denoto assim a intenção de o delarar não néscio mas sim produtor de uma grande Ideia. De uma Ideia quase genial. E olhem que se trata de um visionário que há uns meses proclamou como imperativo nacional a construção de uma nova capital. Assim sendo, o nível de comparação para novas Ideias era já muito elevado; mesmo assim, Saraiva conseguiu superar todas as expectativas.
E qual é a Ideia desta semana? Simples: que todos os candidatos presidenciais resumam as suas candidaturas a uma só. “Perante a fundada suspeita de que Cavaco pode resolver as coisas logo em Janeiro, por que não concentrar na primeira volta os votos da esquerda num só candidato?” E esperem, que a coisa ainda melhora: “As sondagens funcionariam, assim, como uma espécie de primárias”.
Nem o facto de tal peregrina proposta esbarrar de frente com o que as próprias sondagens parecem garantir incomoda o bravo arquitecto. Com efeito, até uma sondagem encomendada e publicada pelo seu jornal tratou de o desmentir antecipadamente: a multiplicação de candidatos à esquerda serve para “agarrar” votantes que de outra forma deslizariam para a abstenção, e quantos mais oponentes de esquerda Cavaco tem, menor é a percentagem dos votos que ele angaria. Nada disso convence o nosso profeta: “isso é verdade para um. Mas se desistirem todos a favor de um (…) o fenómeno será inverso”. Aqui, a prosa submerge numa terminologia quase esotérica, com menção a um misterioso “revigoramento”, a um “poderoso tónico” e mesmo à antevisão sonhadora de comícios unificados, com “outro impacto e outra alegria”. Estou mesmo a imaginar, quase a ver, a alegria esfuziante de Mário Soares num comício de Alegre; ou os alegres pinotes de Louçã a vitoriar Soares.
Três candidatos a desistir em favor do quarto porque as sondagens (supostamente), e o arquitecto (declaradamente), assim o recomendam. É de iluminado. E fiquem sabendo que “a ideia é tão simples que, se os candidatos de esquerda a rejeitarem, é porque não são sinceros quando dizem que o seu grande objectivo é derrotar Cavaco Silva”. Com efeito, a Ideia é mesmo simples, fruto de um intelecto simples. Tão simples que é quase simplório.

45 minutes

De há uns tempos para cá, a SIC Notícias tem amputado, sem qualquer tipo de justificação, um dos melhores programas da sua grelha informativa: o mítico 60 Minutes. Não sei a que se deve o corte, mas o certo é que em vez de quatro excelentes reportagens, agora oferecem-nos apenas três excelentes reportagens. E o programa que conta os minutos fica, como dizer, assim para o coxo.
Se o problema é da SIC ou da CBS, a estação que produz estes conteúdos nos Estados Unidos da América, é-me indiferente. Num caso como no outro, parece-me que o Mário Crespo, tão propenso aos auto-elogios por apresentar aquela pérola, deve-nos uma explicaçãozinha.

Receituário

Para esfregar na cara das vadias que querem ficar em casa a empobrecer os próprios filhos que alegam amar, as mulas.

Para enfiar pela goela abaixo dessa cambada de professores que só se sabe queixar e que vão para a escola como quem vai para um local onde se ensina alguma coisa, os bandidos.

Para chapar no focinho dos solteirões invertebrados ou invertidos, que pensam que são divertidos ou inveterados, os sacanas.

Para mandar aos cornos dos palhaços que continuam zangados, mesmo que tenham toda a razão, e na maior parte dos casos até têm pois vivem rodeados de palhaços, os palhaços.

Fraldas e avanços civilizacionais

Acabo de confirmar quão difícil é desfazer o progresso e regressar a formas mais simples de fazer as coisas. Para tal, bastou-me deparar com o meu filho em casa da avó, cheio de cocó e sem uma fralda à mão. Depois de tentar remediar o problema com uma fralda de pano e uns sacos do Continente, sem alfinetes de dama nem jeito para estas engenharias, rendi-me à evidência: é-me impossível sobreviver — ou sequer manter o meu filho seco — sem fraldas descartáveis.
Que miséria. Não tarda nada, ainda descubro que já não consigo divertir-me sem ter um computador por perto…

Pirofania (1)

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Como esquecer?
Anos depois, aquele minuto veio a receber a trivial honra de marcar um escaninho singular na memória de quase todos. Sempre o mesmo ponto de interrogação: “onde estavas tu quando viste pela primeira vez?” A pergunta com raiva a preencher o local onde antes poderia ter sobrevivido um résto de curiosidade educada. Sim; como esquecer?
Facto: o Incêndio original eclodiu perto de uma pequena cidade da Ligúria, Pietrabruna. Depois, claro que fomos assolados por memórias dúbias, revelações contrafeitas, juramentos de maravilhas sem prova. Mas soubemos logo, sabemo-lo agora: as imagens de Pietrabruna tinham algo de único, uma espécie de vigor sem limites. E como não sentir a presença oculta entre as linhas de varrimento, o suave fantasma que assustava e fazia tremeluzir de esforço o fósforo cansado de milhões de ecrãs? Demasiado sinal para tão pouco ruído.
Assim foi o testemunho desfocado dos primeiros segundos de espanto sem remissão. Da queda de um desconhecido tão frio e inesperado sobre todos nós.
Sim; todos vimos vezes sem conta o fragmento de reportagem da RAI, quando o helicóptero com a câmara se eleva sobre os novelos amarelos de fumo que parecem também arder por dentro. Quando o jornalista se queda engasgado por tremendos segundos. Ali, na encosta onde as labaredas avançavam pelas encostas de pinhal como uma linha fronteiriça a marcar domínios de um monarca belicoso; como poderia surgir do lume algo que não mais destruição e desperdício?
Então, nasceu face aos olhos do mundo a clara mensagem que não podia estar ali. O Primeiro Vocábulo. A linha das chamas a moldar-se à caligrafia precisa de uma só palavra, tremenda de centenas de metros de fogo incontrolável. Parada, enorme, impossível, brilhando alegre contra o pano de fundo de uma noite sem Lua, contra todas as leis em que delimitámos a Natureza.
“Rimpianto”.
Rimpianto.
Arrependimento.
A palavra italiana que o fogo então soletrou nos olhos do mundo. E que até hoje permanece tatuada na sua memória. Como poderíamos alguma vez esquecer?

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As últimas palavras

A leitura de um post do Zé Mário sobre as últimas palavras de Pessoa («I know not what tomorrow will bring»), trouxe-me à memória uma história engraçada (considerem esta última palavra um eufemismo – na verdade, eu acho a história absolutamente hilariante). Isto foi há cerca de sete ou oito anos, estava eu num café a pastar a toura, quando, de repente, ouço no televisor do estabelecimento que a Madre Teresa Calcutá tinha morrido. Logo de seguida, entra uma reportagem em que um jornalista francês com um péssimo Inglês faz a seguinte pergunta a uma das irmãs da Congregação que, supostamente, acompanhou os últimos momentos de vida da Madre Teresa:

– Which were her last words?

Já dizia Shakespeare que «the tongues of dying men enforce attention like deep harmony» e, como é óbvio, a minha atenção ficou redobrada: que últimas palavras terá dito a Madre Teresa? Estava curiosíssimo.

– Sister, please, which were her last words?
– What?

A irmã era bastante idosa e tinha dificuldade em ouvir a pergunta. Como com certeza saberão, existe uma paranóia sublime em relação às últimas palavras de pessoas famosas. As minhas favoritas, por exemplo, são as de Massimo Taparelli Azeglio («Ó, Luisa, tu chegas sempre quando estou de saída»), Beethoven («Aplaudem, amigos, que a comédia chegou ao fim») e de Sócrates («Crito, eu devo um galo a Asclepius – vê se pagas a dívida por mim»). Por isso, estava «mortinho» por saber

– Her last words. Which were her last words?
– What?

Estava difícil, caramba. Com medo de perder o momento em que a senhora percebesse finalmente a pergunta, levantei-me da mesa e aproximei-me do televisor mesmo a tempo de ouvir pela última vez:

– Which were the last words of Madre Teresa?
– Oh, I understood now. You mean the last thing she said before she died?
– Exactly.

Ponho-me em bicos de pé, o coração nas mãos, e ouço (juro) a bendita senhora dizer…

– Her last words were: «I can’t breathe».

Momento cultural cavaquista

A propósito do papel fulcral que Cavaco vai jogar na cultura lusa, segundo os seus apaniguados, há que prestar homenagem à primeira obra a beneficiar de tão augusta inspiração. Falo, claro está, do belo, inspirado, sublime, lindo hino de campanha de Cavaco. Ouçam-no aqui; baixinho, para não incomodarem os vizinhos.
Pois é. Custa a crer, de tão mau. Mas do que é que estavam à espera? Chopin, não? A coisa arranca com uns delírios confusos sobre o “Futuro”, que é “sempre agora” e que nos leva a “saltar o muro” (esta rima forçada tem um certo ar de incentivo à emigração não tem?). Depois, chega o refrão. Aliás, chega e nunca mais se vai embora:
“Fazer Portugal maior
É romper a bruma
Abrir o dia
É rasgar o medo
É fazer melhor”
Pena é que o poeta não tenha feito uma forcinha para arranjar rimas para “Cavaco”. De “caco” em diante, a musa teria por certo muito com que se entreter…

Concurso Gargalhadas de Betão

Eu, a namorada e o gato Negri estamos a promover um concurso para os leitores do Aspirina B.
O objectivo é saber quem é o colunista mais hilariante da imprensa portuguesa.
Seguindo o exemplo dos Globos de Ouro, dos Óscares, da Farinha Amparo e de outros eventos de grande nível, o “Gargalhadas de Betão” é um concurso transparente, em que se vota em nomes que o júri nacional (eu, o gato e a namorada) previamente pensou. Aos outros elementos do Blog será permitido – a democracia assim o exige – que acrescentem sucintamente as razões da nossa escolha. Já aqui derramo (linda palavra) a lista dos meus eleitos : João Carlos Espada, pela insistência; José António Saraiva, pelas memórias; João César das Neves, por respirar; e Pedro Strech, pelo artigo no Público (“A marcha dos Pinguins”). Não resisto em transcrever uma longa passagem deste belo exemplar de prosa (não é possível reabilitar os electrochoques???):
“Como pinguins, amamos.
Incondicionalmente percorremos a vida, caminhamos o frio a gelar-nos o coração, os ossos, a vida suspensa, sem rumo
Quando o branco quer dizer solidão, ora felizes na descoberta do outro
Quando chega o momento de saber que és tu, sim, não pode haver engano:
Por ti fiz todas a distância de dias e de noites persistentemente, por ti cheguei quase ao desespero (NR: nós também se esta coisa continua), até que, por fim te encontrei. E, depois como pinguins dançamos, do corpo solta-se um calor que é só nosso, rompem abraços
E, de repente, tudo é alegria, certeza, festa que desejamos não acabe nunca até que a alma se prenda
Definitivamente pela marca inesquecível de um no outro.
Como é possível tanto amor depois de um extremo cansaço (NR: Doping?).
E como pinguins, perguntamo-nos ainda: Sim, afinal o que seria de nós
se um não tivesse realmente o outro?
E como resposta tarde, de novo espera o tempo de esse amor florir e com ele a vontade de escrever:” (E O TEXTO CONTINUA SEMPRE ASSIM DURANTE MAIS 66 LINHAS).