Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Fraldas e avanços civilizacionais

Acabo de confirmar quão difícil é desfazer o progresso e regressar a formas mais simples de fazer as coisas. Para tal, bastou-me deparar com o meu filho em casa da avó, cheio de cocó e sem uma fralda à mão. Depois de tentar remediar o problema com uma fralda de pano e uns sacos do Continente, sem alfinetes de dama nem jeito para estas engenharias, rendi-me à evidência: é-me impossível sobreviver — ou sequer manter o meu filho seco — sem fraldas descartáveis.
Que miséria. Não tarda nada, ainda descubro que já não consigo divertir-me sem ter um computador por perto…

Pirofania (1)

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Como esquecer?
Anos depois, aquele minuto veio a receber a trivial honra de marcar um escaninho singular na memória de quase todos. Sempre o mesmo ponto de interrogação: “onde estavas tu quando viste pela primeira vez?” A pergunta com raiva a preencher o local onde antes poderia ter sobrevivido um résto de curiosidade educada. Sim; como esquecer?
Facto: o Incêndio original eclodiu perto de uma pequena cidade da Ligúria, Pietrabruna. Depois, claro que fomos assolados por memórias dúbias, revelações contrafeitas, juramentos de maravilhas sem prova. Mas soubemos logo, sabemo-lo agora: as imagens de Pietrabruna tinham algo de único, uma espécie de vigor sem limites. E como não sentir a presença oculta entre as linhas de varrimento, o suave fantasma que assustava e fazia tremeluzir de esforço o fósforo cansado de milhões de ecrãs? Demasiado sinal para tão pouco ruído.
Assim foi o testemunho desfocado dos primeiros segundos de espanto sem remissão. Da queda de um desconhecido tão frio e inesperado sobre todos nós.
Sim; todos vimos vezes sem conta o fragmento de reportagem da RAI, quando o helicóptero com a câmara se eleva sobre os novelos amarelos de fumo que parecem também arder por dentro. Quando o jornalista se queda engasgado por tremendos segundos. Ali, na encosta onde as labaredas avançavam pelas encostas de pinhal como uma linha fronteiriça a marcar domínios de um monarca belicoso; como poderia surgir do lume algo que não mais destruição e desperdício?
Então, nasceu face aos olhos do mundo a clara mensagem que não podia estar ali. O Primeiro Vocábulo. A linha das chamas a moldar-se à caligrafia precisa de uma só palavra, tremenda de centenas de metros de fogo incontrolável. Parada, enorme, impossível, brilhando alegre contra o pano de fundo de uma noite sem Lua, contra todas as leis em que delimitámos a Natureza.
“Rimpianto”.
Rimpianto.
Arrependimento.
A palavra italiana que o fogo então soletrou nos olhos do mundo. E que até hoje permanece tatuada na sua memória. Como poderíamos alguma vez esquecer?

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As últimas palavras

A leitura de um post do Zé Mário sobre as últimas palavras de Pessoa («I know not what tomorrow will bring»), trouxe-me à memória uma história engraçada (considerem esta última palavra um eufemismo – na verdade, eu acho a história absolutamente hilariante). Isto foi há cerca de sete ou oito anos, estava eu num café a pastar a toura, quando, de repente, ouço no televisor do estabelecimento que a Madre Teresa Calcutá tinha morrido. Logo de seguida, entra uma reportagem em que um jornalista francês com um péssimo Inglês faz a seguinte pergunta a uma das irmãs da Congregação que, supostamente, acompanhou os últimos momentos de vida da Madre Teresa:

– Which were her last words?

Já dizia Shakespeare que «the tongues of dying men enforce attention like deep harmony» e, como é óbvio, a minha atenção ficou redobrada: que últimas palavras terá dito a Madre Teresa? Estava curiosíssimo.

– Sister, please, which were her last words?
– What?

A irmã era bastante idosa e tinha dificuldade em ouvir a pergunta. Como com certeza saberão, existe uma paranóia sublime em relação às últimas palavras de pessoas famosas. As minhas favoritas, por exemplo, são as de Massimo Taparelli Azeglio («Ó, Luisa, tu chegas sempre quando estou de saída»), Beethoven («Aplaudem, amigos, que a comédia chegou ao fim») e de Sócrates («Crito, eu devo um galo a Asclepius – vê se pagas a dívida por mim»). Por isso, estava «mortinho» por saber

– Her last words. Which were her last words?
– What?

Estava difícil, caramba. Com medo de perder o momento em que a senhora percebesse finalmente a pergunta, levantei-me da mesa e aproximei-me do televisor mesmo a tempo de ouvir pela última vez:

– Which were the last words of Madre Teresa?
– Oh, I understood now. You mean the last thing she said before she died?
– Exactly.

Ponho-me em bicos de pé, o coração nas mãos, e ouço (juro) a bendita senhora dizer…

– Her last words were: «I can’t breathe».

Momento cultural cavaquista

A propósito do papel fulcral que Cavaco vai jogar na cultura lusa, segundo os seus apaniguados, há que prestar homenagem à primeira obra a beneficiar de tão augusta inspiração. Falo, claro está, do belo, inspirado, sublime, lindo hino de campanha de Cavaco. Ouçam-no aqui; baixinho, para não incomodarem os vizinhos.
Pois é. Custa a crer, de tão mau. Mas do que é que estavam à espera? Chopin, não? A coisa arranca com uns delírios confusos sobre o “Futuro”, que é “sempre agora” e que nos leva a “saltar o muro” (esta rima forçada tem um certo ar de incentivo à emigração não tem?). Depois, chega o refrão. Aliás, chega e nunca mais se vai embora:
“Fazer Portugal maior
É romper a bruma
Abrir o dia
É rasgar o medo
É fazer melhor”
Pena é que o poeta não tenha feito uma forcinha para arranjar rimas para “Cavaco”. De “caco” em diante, a musa teria por certo muito com que se entreter…

Concurso Gargalhadas de Betão

Eu, a namorada e o gato Negri estamos a promover um concurso para os leitores do Aspirina B.
O objectivo é saber quem é o colunista mais hilariante da imprensa portuguesa.
Seguindo o exemplo dos Globos de Ouro, dos Óscares, da Farinha Amparo e de outros eventos de grande nível, o “Gargalhadas de Betão” é um concurso transparente, em que se vota em nomes que o júri nacional (eu, o gato e a namorada) previamente pensou. Aos outros elementos do Blog será permitido – a democracia assim o exige – que acrescentem sucintamente as razões da nossa escolha. Já aqui derramo (linda palavra) a lista dos meus eleitos : João Carlos Espada, pela insistência; José António Saraiva, pelas memórias; João César das Neves, por respirar; e Pedro Strech, pelo artigo no Público (“A marcha dos Pinguins”). Não resisto em transcrever uma longa passagem deste belo exemplar de prosa (não é possível reabilitar os electrochoques???):
“Como pinguins, amamos.
Incondicionalmente percorremos a vida, caminhamos o frio a gelar-nos o coração, os ossos, a vida suspensa, sem rumo
Quando o branco quer dizer solidão, ora felizes na descoberta do outro
Quando chega o momento de saber que és tu, sim, não pode haver engano:
Por ti fiz todas a distância de dias e de noites persistentemente, por ti cheguei quase ao desespero (NR: nós também se esta coisa continua), até que, por fim te encontrei. E, depois como pinguins dançamos, do corpo solta-se um calor que é só nosso, rompem abraços
E, de repente, tudo é alegria, certeza, festa que desejamos não acabe nunca até que a alma se prenda
Definitivamente pela marca inesquecível de um no outro.
Como é possível tanto amor depois de um extremo cansaço (NR: Doping?).
E como pinguins, perguntamo-nos ainda: Sim, afinal o que seria de nós
se um não tivesse realmente o outro?
E como resposta tarde, de novo espera o tempo de esse amor florir e com ele a vontade de escrever:” (E O TEXTO CONTINUA SEMPRE ASSIM DURANTE MAIS 66 LINHAS).

Linhas cruzadas

A Aspirina B é quase gémea de uma invenção do Zé Mário. Esta coincidência no tempo foi completamente fortuita, mas não deixou de produzir alguns intrigantes efeitos secundários. Começaram estes quando eu afinava o nosso template; volta meia volta, dava com o endereço morel.weblog.com.pt na minha barra de endereços. Lembrei-me da obra de Bioy Casares, estranhei a invasão inopinada, mas não dei mais importância ao caso. Só quando soube que tal blogue de inspirado nome era obra do ZM é que reparei na bizarria do acontecido.
Agora, a assombração persiste. Alguns posts recusam-se teimosamente a aceitar comentários, emitindo os seus queixumes em nome de um tal Apache/2.0.53 (Fedora) Server at morel.weblog.com.pt Port 80.
Anda por aqui um mecanismo oculto a operar ínfimas maravilhas. A novela que cedeu o nome ao blogue do Zé Mário falava-nos também da aparente sobreposição de dois mundos, de dois tempos. Será que a Aspirina é um mero fantasma electrónico, um glitch de HTML, da Invenção? Ou será que este blogue faz mesmo jus ao seu nome e não passa de uma excelente e bem urdida ilusão?
Estou confuso. Mas, afinal, o que seria de esperar quando um gajo se mete com borgesianos?
Agora, já pedi ajuda ao Paulo Querido, o vero Morel da nossa ilha blogosférica. Esta avaria pode ter o seu quê de inquietante e poético, mas é também muito irritante.

Emmimmesmado

Chove. E sempre que chove oiço sempre as pessoas a dizerem sempre as mesmas coisas de sempre. Oiço ou ouço? Não interessa, porque elas não gostam da chuva. Ficam com uma cara triste e dizem “chove”, mas como quem diz “chove…”, não como quem diz “chove.”, muito menos como quem diz “chove!”. Porque trovoada não gostam elas da chuva? Qual foi o aguaceiro que lhes fez mal? Será que ninguém lhes explicou que os corações desenhados nos vidros embaciados por dedos enamorados vêm dos céus nublados? Uma vez fiz estas perguntas a uma dessas pessoas. Com o cuidado de falar tão baixinho que ela não me pudesse ouvir. Ela mesmo assim ainda disse “não ouço”. E eu disse ainda assim mesmo “não oiço”. Ela estava com uma cara triste. Triste como um daqueles dias de Sol em que não chove nem água. Ficámos sem nos conseguir ouvir. Apeteceu-me chover.

Cavaco, a grande esperança da nossa cultura

Paulo Tunhas, no Pulo do Lobo (nome bem apropriado à candidatura de Cavaco) expõe com candura o seu fraco apego à verdade e a sua elegância como argumentador. Pega numa frase de Francisco Louçã — “O que faz falta em Portugal é abrir a cultura, destruir a ideia de que a criação da mediocridade populista é a cultura de que o povo precisa e de que o povo gosta” — e apresenta de seguida uma sua “tradução”, tão peculiar quanto antagónica do original. Ele lê nessa passagem uma insuportável ofensa ao “gosto das pessoas que Louçã apelida de ‘medíocres’ (e apelida-as mesmo assim, dado o seu preconceito de classe)”.
Como é claro a qualquer pessoa que saiba juntar umas palavritas, Louçã atacou sim a ideia de que o povo só gosta de coisas medíocres, não o gosto de ninguém e muito menos “pessoas”. Tunhas tenta, muito simplesmente, inverter o sentido das suas palavras! O alucinado cavaquista ainda consegue ler no desiderato de “abrir a cultura” um sinistro objectivo: ter uma “pintinha de direito de interferir no gosto das pessoas”. Tudo “opiniões obscenas” do “ensandecido bloquista”, claro está.
Tresler é uma bonita e menosprezada arte; e encontra em Pedro Lomba um fã entusiasmado que não se conteve em juntar logo o primeiro comentário laudatório a este disparate: “excelente”.
Excelente, há que reconhecer, é a ideia central do post: Cavaco Silva é “quem melhor está colocado” para ajudar a promover um reencontro dos portugueses com a cultura. Leram bem. O homem que nem jornais lê vai ser o messias da nossa vida cultural. Isto porque, ao contrário de Alegre e de Soares, “está livre”.
Lá isso aparenta ser verdade; a fazer fé nas entrevistas do homem, ele está 100% livre de qualquer resquício de coisas vagamente aparentadas com cultura humanista. Aliás, já teve ocasião para demonstrar o seu apreço por tais assuntos, quando primeiro-ministro: entregou-os às capazes meninges de Santana Lopes.

A desordem dos livros

A grande mudança de casa está no seu final. A arrumação dos livros é sempre uma surpresa: “nem me lembrava que tinha esta merda”. Muitas vezes tropeço em textos que me transportam para outros tempos e geografias. Por momentos, volto a folhear autores que me dão jeito para poder responder ao dia a dia. É o caso do “Futebol, ao Sol e Sombra” de Eduardo Galeano. Chego a um capítulo chamado: “Da Mutilação à Plenitude”, reza o seguinte: “ Em 1921, a Copa América ia ser disputada em Buenos Aires. O Presidente do Brasil, Epitácio Pessoa, redigiu um decreto de brancura: ordenou que não se enviasse nenhum jogador de pele morena, por razões de prestígio pátrio. Das três partidas que jogou a selecção perdeu duas.
Nesse campeonato sul-americano Friedenreich não jogou. Naquela época era impossível ser negro no futebol brasileiro, e ser mulato era difícil: Friedenreich entrava no campo sempre tarde, porque no vestiário demorava meia hora a esticar o cabelo, e o único mulato do Fluminense, Carlos Alberto, branqueava a cara com pó de arroz”.

O homem da cavilha

Nuno Simas (Glória Fácil) relata uma pequena história retirada da Visão, ilustrativa do 25 de Novembro: «O apelo à revolta das massas de Duran Clemente foi “cortado”, em pleno directo, cerca das 20 horas, e a emissão passou para as mãos dos “moderados”, no Porto, em directo do Monte da Virgem. Antes de a emissão passar para o Danny Kaye, eis o que aconteceu, na versão de Duran :
“Começaram a fazer-me sinais atrás das câmaras. Não percebi. Já tinha dito antes «eu posso ser cortado a qualquer momento porque a antena está no poder dos Comandos». Mas havia ainda um elemento da RTP, ligado ao PCP, que tinha a cavilha no bolso e andava a fugir aos comandos. De uma cabina, telefonou a um dos meus alferes que estava na televisão e disse-lhe: «Diga ao capitão para se despachar, que não consigo aguentar a cavilha no bolso». E como esse alferes não estava a assistir ao que eu dizia, pôs-se a gesticular atrás das câmaras. O meu primeiro pensamento foi que estava qualquer coisa a arder [risos]. Fiquei desconcentrado. Só tinha uma saída: dizer às pessoas que estavam a fazer-me sinais. Perguntei ao [pivot do Telejornal] António Santos se havia problema – como quem diz: «Há fogo?» E, tau, entra o Porto com um filme do Danny Kaye.”»
O homem da Cavilha é meu conhecido, chama-se Viriato Jordão e é dirigente do Sindicato dos Trabalhadores das Telecomunicações. Durante o dia do 25 de Novembro de 1975 andou nos emissores de Monsanto, acompanhado por oficiais dos comandos, a tentar encontrar para prender o comunista Viriato Jordão (ele próprio), conseguiu manter a representação por algumas horas, até que foi detido por outros comandos, que desta vez estavam munidos de uma foto que o denunciava. Mas mesmo a sua captura não foi pacífica: um oficial dos comandos estava indignado pelos seus camaradas estarem, “por engano”, a prender um homem que durante toda a tarde os tinha estado a ajudar.

Macacos que falam

“A jornada 13 da Série A italiana ficou marcada por um episódio racista ocorrido no jogo Messina / Inter de Milão. Aos 66 minutos, o costa-marfinense Marc Zoro, do Messina, fartou-se de insultos racistas vindo dos adeptos do Inter, agarrou na bola e, com as lágrimas no rosto, preparou-se para sair do relvado. Valeram Adriano e Martins, jogadores do Inter, que convenceram Zoro a ficar em campo. No final do jogo, a direcção do Inter pediu desculpas ao atleta pelo comportamento dos seus adeptos.” (do Blog Terceiro Anel).
O que se passou no jogo entre o Messina e o Inter fez-me buscar um pequeno texto sobre o racismo no jogo da bola escrito pelo argentino e homem do futebol Jorge Valdano:
“Aos fanáticos pode-se tirar a suástica. Mas não a voz.
Como o fascismo é pobre em palavras, no último fim de semana os adeptos limitaram-se a gritar “uuuuuuuuuu” a cada vez que um jogador negro pegava na bola. A claque da Roma vaiava em “uuuuuuu” os atletas negros do Perugia, enquanto a do Perugia respondia com um “uuuuuuuu” destinado aos jogadores negros da Roma. E o mesmo era feita pelos adeptos (sempre em “uuuuuu”) da Lazio em relação aos negros do Parma…
Esse “uuuuuuuu” é grito tribal utilizado para agredir e insultar. É um monólogo incivilizado. E, como sabemos, a palavra “monólogo” significa um macaco (“mono”) que fala”.

Texto extraído do livro “Apuntes del Balón”, Esfera de los Libros, Madrid/2001

Autópsia Ideológica

O Público anuncia na sua capa novas revelações sobre o assassínio de Catarina Eufémia (provisoriamente para o jornal do Belmiro a camponesa de Baleizão ainda não foi “alegadamente” morta). Socorrendo-se de um dos médicos legistas que fez a autópsia, o jornal revela que ela não estava grávida. Apoiando-se no mesmo clínico, o diário lança dúvidas sobre a sua filiação no Partido Comunista Português: “Henrique Pinheiro (o médico legista) acredita ainda que Catarina não seria militante comunista”. Uma certeza tão absoluta do dito clínico deve-se certamente ao facto de não lhe ter encontrado nenhum cartão do PCP no estômago. A ciência médica anda tão avançada, há cem anos a esta parte, que provavelmente conseguirão garantir-nos, daqui a poucos anos, que o Sr. José Manuel Fernandes nunca foi maoista.