Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Um pequeno presente para os nossos comentadores mais pertinazes


Volto a escrevê-lo: os nossos Riapas podem ser execráveis, mas, de uma maneira retorcida, também merecem alguma admiração. Até neste dia de Natal continuam, sem esmorecer, a acumular os seus pequenos montes de dejectos em forma de comentários. Como todas as criaturas, até os sociopatas, merecem um presente, aqui fica um post só para vocês, rapazes. Vá, esmerem-se. Chamem o José Tim e encham isto das melhores baboseiras que a vossa imaginação conseguir invocar. Ficará aqui uma pequena reserva natural do comentário merdoso. Não apagarei um só. Prometo.

PS: ao fim de umas poucas horas, os piores receios confirmam-se. Abri a porta à bicharada e vieram logo os exemplares mais contagiosos e peçonhentos. Visitante de saúde frágil ou bom gosto apurado: abstém-te de carregar no link dos comentários!”

O Natal anda um bocado diferente…

…pelo menos na SIC. Ontem à noite, por volta das 23:20, milhares de miúdos aguardavam a terceira parte do “Shrek”. E eis que surge um gigantesco intervalo publicitário que incluiu pelo menos dez reclames a um serviço qualquer de mensagens eróticas. Entre moças com óbvios intentos sáficos e mamocas tapadas com estrelinhas, havia de tudo, para a alegria natalícia da criançada. Estava capaz de jurar que os olhos do meu petiz até se esbugalharam.

A nossa árvore de Natal

Esta é uma representação gráfica do trãnsito de informação na Internet. Será um cérebro ou um pinheiro carregado de luz? E está a ver aquele pontinho branco, ali em cima, a piscar? É você, enquanto lê estas palavras: mais uma sinapse neste estranho mundo novo. Obrigado pela paciência. E tenha um grande Natal, claro está.

Uma pequena história pouco natalícia (2)

Ilustração de Jorge Mateus, conto de Javier Ortega

O Anjo da Guarda

No dia do seu 65º aniversário, a Sr.ª F. acordou com uma alarmante dor no lado esquerdo do peito. Lembrou-se logo do enfarte do miocárdio que fulminara o seu marido. Com esta recordação a dor piorou bastante.

A Sr.ª F. gastou os dias seguintes – e bastante dinheiro – consultando todos os cardiologistas da cidade. Farta de ouvir sempre o mesmo diagnóstico, envolvendo gases e outros processos digestivos pouco dignos, a Sr.ª F. desistiu da Medicina. Sabia a verdade: a Ciência já nada podia fazer por ela. Apenas por piedade não lho confessavam.
Mergulhou na angústia mais profunda. Porquê ela? Porquê já, quando ainda lhe faltavam tantos anos para atingir a esperança média de vida?
Sempre fora uma cristã piedosa, uma católica assídua. A sua fé era infatigável. Em que falhara?
Só ao ouvir as sábias palavras do seu confessor começou a aceitar o seu destino. Os desígnios de Deus são mesmo insondáveis. Se Ele a chamasse mais cedo que o previsto, por certo teria Planos Especiais para ela. Sem dúvida, uma vida isenta de pecados e norteada pelos princípios da Igreja seria recompensada com uma rápida ascensão ao Reino dos Céus. Os pratos da Divina Balança reconheceriam o peso da sua virtude.

A paz não durou muito. Cedo a Sr.ª F. recordou pequenas mentiras, pequenas traições, pequenas faltas. Tudo junto, não seria igual a um grande pecado?
Alarme. E se os Planos Especiais do Altíssimo lhe reservavam o Inferno como destino da sua última viagem?
Imaginou-se no meio das chamas da danação eterna. Não gostou mesmo nada da ideia; sempre se dera mal com o calor. E não tinha especial vontade de voltar a ver o seu marido.
Foi num destes dias de desespero que a Sr.ª F. viu pela primeira vez o seu Anjo da Guarda.

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Quadros para a Quadra (2)


“A Natividade de Cristo”, ícone russo da escola de Novgorod, sec. XV. A ânsia de tudo contar e de todos os símbolos ilustrar, numa fome de doutrina e de santidade que ultrapassava mesmo as fronteiras da Bíblia. Os ícones russos deste período nunca esqueciam a figura do velho pastor, o escriba Anás; personagem de um famoso apócrifo, o proto-evangelho de Tiago (XV-XVI). Ele acusou José de ter surripiado a virgem Maria ao Templo de Deus, acusação de que este só se livrou após ter passado o teste da “água da prova do Senhor”. A Ablução de Jesus, um episódio ausente de qualquer escritura, era outra presença frequente nos ícones bizantinos e russos. Entretanto, no Ocidente, temas como a apresentação de Maria no Templo também mereciam a dignidade das imagens sagradas, mesmo se estrangeiros ao cânone bíblico.

Uma pequena história pouco natalícia (1)

Ilustração de Jorge Mateus, conto de Javier Ortega

Do Outro Lado

– Diga-me, Mestre, acha que o consegue encontrar?
– Minha senhora; já lhe disse que ele é que me vai encontrar. Mas só falará se assim o quiser. Não tenho qualquer poder sobre ele.
– Mas já aqui estamos há meia hora.
– Diga-me; a sua amiga que me recomendou disse-lhe que isto era automático? Comunicar com o Além demora tempo e requer concentração. Se não mantiver o silêncio, vamos demorar ainda mais umas quantas meias horas.
– Queira desculpar, Mestre, mas tenho tantas saudades do meu pai.
– …
– …
– Filha, és mesmo tu?
– Papá!?
– Estás com mau aspecto. Estou farto de te dizer que esses cremes só servem para gastar dinheiro. Água e sabão azul… não precisas de mais nada.
– Mas, diga-me: como é que está, como é a vida… como é que são as coisas aí?
– Água e sabão azul. É o que eu sempre disse.
– Sim. Água e sabão azul. Eu lembro-me. Mas temos tantas coisas para falar… eu não o devia ter posto no lar. Mas era tão difícil tomar conta de si, papá!
– Papá?? Deve estar a fazer confusão. Os meus filhos são pequenos. E são todos louros. Vivemos numa casa linda, no meio das montanhas…

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Natal hipnagógico

Há uns dias, fui assistir à festa de Natal do meu filho mais minúsculo. Lá o vi a tentar agarrar o microfone enquanto se dedicava a outras tropelias pelo palco fora, totalmente alheado da “coreografia” dos restantes meninos. Logo depois, antes que eu conseguisse encetar a fuga, começou a projecção de uma reportagem caseira sobre as aulas de Inglês dos petizes. Câmara imóvel e desfocada, minutos intermináveis do mesmo plano de criancinhas a produzir sons estranhos. Naquela modorra tonta que anuncia a queda no sono, comecei a ver na projecção uma das cenas sinistras de maus tratos a crianças, sempre gravadas com câmara oculta, com que os telejornais nos estragam as noites. Quando entrou em campo uma das educadoras, dei um salto na cadeira, convencido que ali vinha um qualquer acto de crueldade extrema. Despertei sob o olhar inquisitivo da mãe da cadeira ao lado. E suspirei de alívio: a crueldade era mesmo só exercida sobre os pais sujeitos à estopada.

Quadros para a Quadra (1)

“A Natividade” (pormenor), Giotto, 1304-1306. Neste fresco da Capella degli Scrovegni, em Pádua, surpreendemos Giotto a apontar mais uma vez o caminho para a Renascença. E surpreendemos a usura dos dias em plena voracidade: a Virgem desfaz-se numa névoa azul, parecendo prender-se a este mundo apenas graças à intensa teia de olhares que ali tudo suspende.

Farmacopeia

O saite do Instituto de Meteorologia é feio, mas útil. Nele se desmonta o cepticismo popular relativo às previsões meteorológicas; bizarra crendice que persiste por causa da complexidade e instabilidade dos sistemas climáticos. Porém, quando o cidadão larga com um sorriso agasalhado a decisiva sentença – “eles nunca acertam!” – algo de ancestral arregaçou as mangas: é uma pequena vingança da racionalidade mágica, acossada pela racionalidade científica.

Na secção de mapas por satélite é possível visualizar animações variadas, sendo a minha preferida a da visão sobre o Atlântico. O filme constrói-se com imagens de infravermelhos, uma por hora. Ali assisto aos movimentos das massas de ar, acompanho os seus rodopios, faço apostas quanto à sua direcção, comovo-me com o desaparecimento das frentes frias, antecipo a chegada de gloriosas formações de cumulunimbus. E quando as nuvens aparecem na barra do Tejo, tenho ganas de as ir receber e oferecer-lhes um poiso para descansarem.

O fantasma do meu Natal Passado

Há um ano, caí na asneira de tentar descrever como são os “Natais que cantam” aqui da malta de esquerda, decididamente entregue à construção do Socialismo sob os auspícios do único partido com um candidato presidencial chamado Jerónimo. Além da ira da minha namorada, a coisa conseguiu atrair pelo menos um comentário que a levava a sério. De tal, nem a nossa comentadora Margarida se lembraria; aliás, não é tarde nem cedo para lhe dedicar esta reedição do meu pequeno panfleto natalício:

Desde que vivo com uma militante comunista, tudo mudou na minha vida. Em nossa casa, respira-se ideologia, come-se dialéctica, bebe-se dedicação à Causa. Mas não é por isso que deixamos de ter Natal. Apenas recusamos a celebração consumista e burguesa que só serve para encher o bolso ao explorador Belmiro. Sim: o nosso Natal é ideologicamente puro e decididamente Socialista!
Começando pelo presépio. Rodeado por um carpinteiro de ar humilde (símbolo, é bom de ver, das heróicas virtudes do Proletariado) e por uma robusta e azougada camponesa (representando a gloriosa Revolução que todos adivinhamos para breve) está o menino camarada Jesus, de punho direito bem erguido (a bem da verdade, tinha um dedo esticado até ao dia em que caiu da prateleira). Ao lado, lá estão dois animais de ar estúpido: as bestas do capitalismo e do imperialismo. À porta da caverna de musgo artificial, três homens sábios a camelo. Os bonecos são um bocadito mal-acabadões, mas as suas fisionomias dignas e corajosas não enganam: trata-se dos camaradas Engels, Marx e Lenine (este com um belo bronzeado). Só ainda não percebi uma coisa: que prendas trarão eles? Ouro, incenso e mirra não será por certo; para que quereria um recém-nascido essa tralha burguesa?

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